DEBATEDORES DISCUSSANTS

 

Ruídos entre determinismo e liberdade

 

Clashes bewtwen determinism and freedom

 

 

Luís Alfredo Vidal de Carvalho

Universidade Federal do Rio de Janeiro. meucorreioeletronico@gmail.com

 

 

Conforme a ciência avança, novas teorias e modelos mais nos capacitam a entender os fenômenos da Natureza, fornecendo-nos a impressão sedutora de que estamos mais próximos do controle sobre o nosso mundo físico, incluindo a nós próprios. Estes modelos e teorias alteram nosso livre-arbítrio à medida que, com eles, é possível simular o resultado futuro de nossas ações do presente e decidir, a priori, qual destas atitudes nos leva a que objetivo. Cabe-nos questionar se haveria um limite para o crescimento deste conhecimento científico capaz de guiar nossas decisões, tornando-nos cada vez mais deterministas e fazendo de nosso livre-arbítrio apenas um desvio deste conhecimento.

Para Kant, este limite é de fato bem determinado através de um corte epistemológico pautado na física, química e biologia de seu tempo. Neste corte, apenas os objetos sem vida poderiam ser cientificamente modelados e, conseqüentemente, previsíveis em suas relações causais. A vida, com sua capacidade de reprodução, adaptação e intenção não seriam modeláveis segundo algum conhecimento ou teoria científica da física ou da química. De fato, esta dicotomia foi superada, quando, a partir do final do século 19, a físico-química da vida foi grandemente desvendada e os fenômenos básicos da biologia reduzidos a relações de causa-e-efeito previsíveis em laboratórios.

Ao longo da evolução do conhecimento biológico, tornou-se cada vez mais clara a inexistência de um corte epistemológico entre as ciências do vivo e as do não-vivo. Este corte foi substituído por uma faixa cinza na qual o vivo e o não-vivo transitam livremente na dimensão fundamental da complexidade estrutural e funcional. É razoável supor que esta mesma faixa cinzenta representa um contínuo entre o livre-arbítrio e o determinismo, sendo o livre-arbítrio o resultado da ignorância científica que não permitiria previsões das conseqüências das ações, enquanto que o determinismo seria o conhecimento absoluto capaz de prever todos os resultados das ações.

Henri Atlan propõe que esqueçamos o livre-arbítrio cotidiano e pensemos em um determinismo decorrente de um conhecimento científico absoluto capaz de determinar a priori as causas necessárias a uma autoprodução total daquilo que existe na Natureza. Diante desta hipótese de trabalho, a liberdade seria o deixar-se guiar apenas por sua própria lei predeterminada, fazer as escolhas sabidamente corretas como conseqüência do conhecimento total da Natureza e evitar os desvios da lei representados pelo aparente "livre-arbítrio". Atlan pede emprestado aqui os conceitos da deidade de Spinoza, com sua liberdade inerente ao conhecimento absoluto de todas as relações causais. Remete-nos à robustez, estabilidade e inexorabilidade dos processos de evolução do Universo, guiados por um deus que sabe absolutamente.

A liberdade humana seria equivalente ao aprendizado lento em direção ao conhecimento total, contando sempre com os desvios impostos pelo erro inerente a qualquer aprendizado e que reduzem sua freqüência à medida que o ser humano aprende a lei regente do Universo. Neste olhar, a "liberdade afetiva" de Kant é apenas uma perturbação da "liberdade epistêmica" de Spinoza e Atlan, que é a liberdade de seguir o caminho aprioristicamente determinado pelo conhecimento total.

Cabe aqui uma provocação que envolve a dinâmica dos processos auto-organizados, pressupostos por Atlan como os processos da Natureza. Nenhum processo de auto-organização digno de nota alcança seus objetivos de forma monótona. Faz-se necessária a presença de perturbações aleatórias, denominadas por Atlan e outros de "ruído", para que os processos auto-organizados não se estacionem em estados intermediários chamados de "sub-ótimos" ou "extremos locais". É o ruído que retira o processo auto-organizado dos estados intermediários não-ótimos, perturbando sua acomodação a estes estados e o lançando em estados a partir dos quais a evolução em direção ao ótimo global seja possível. A "erraticidade" de um pouco intenso mas necessário ruído aleatório é fundamental para que o processo auto-organizado constantemente possa libertar-se dos cômodos estados intermediários de equilíbrio na trajetória entre a desordem e a ordem, entre a fumaça e o cristal.

Sendo assim, a "liberdade afetiva" de Kant é um mal necessário ao alcance da "liberdade epistêmica" de Spinoza e Atlan. O livre-arbítrio kantiano é o ruído, pequeno diante do todo, porém necessário, que adiciona entropia aos processos auto-organizados da Natureza, permitindo que estes se libertem da comodidade dos estados sub-ótimos encontrados em seus caminhos em direção ao ótimo global, representado aqui pelo livre-arbítrio epistêmico de Atlan. Em outras palavras, a "liberdade epistêmica" de Atlan só será alcançada pelo conhecimento adquirido na "erraticidade" da "liberdade afetiva" de Kant. Ou ainda, finalizando, a "escada de jacob" da liberdade epistêmica de Atlan, que nos leva em direção aos céus, é composta dos degraus da liberdade afetiva de Kant.

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