ARTIGO ARTICLE

 

Medicamentos, comunicação e cultura

 

Drugs, communication, and culture

 

 

Marilene Cabral do Nascimento

Mestrado em Saúde da Família, Universidade Estácio de Sá, Unesa. Rua do Riachuelo 27, Lapa, 20230-010, Rio de Janeiro RJ. mnascimento@sky.com.br

 

 


RESUMO

Medicamentos de base química assinalaram uma revolução nas atividades de saúde pública e no exercício da medicina, alcançando lugar hegemônico na terapêutica contemporânea. A análise de 237 reportagens veiculadas nas décadas de 1980 e 1990, em jornais e revistas de larga circulação, sobre alguns dos medicamentos mais consumidos no país, demonstrou que, simbolicamente, estão ultrapassando as fronteiras de um recurso terapêutico. São consumidos cada vez mais com o objetivo de moldar o corpo ou o comportamento a padrões estéticos e de conduta rigidamente estabelecidos na cultura. O discurso que favorece o consumo se caracterizou pela associação de informações científicas a símbolos de poder, beleza, juventude e força, sustentados em e ao mesmo tempo reforçando valores dominantes na cultura atual, tais como o individualismo, a competição acirrada e o consumismo. A abordagem de riscos prevaleceu em 55% das reportagens analisadas, em discurso acentuando a autonomia e a responsabilização do indivíduo no consumo de medicamentos e seus riscos. O conjunto das reportagens apontou uma tendência ao descolamento entre consumo e cultura médica, apoiado na automedicação, e ao deslocamento do medicamento do campo de cura e saúde para o de controle e risco, sinalizando sua re-significação na terapêutica e na cultura.

Palavras-chave: Medicamentos, Terapêutica, Riscos, Comunicação, Cultura


ABSTRACT

Chemical drugs signed a revolution in public health activities and in medicine practice, reached hegemony in the contemporary therapeutic and, symbolically, went beyond the boundary of a therapeutic instrument. Presently, they are consumed with the purpose of shaping the body or the behavior to esthetic and conduct rigid patterns settled in the contemporary culture. The analysis of 237 articles from mass circulation newspaper and magazines, concerning some of the more merchandised pharmaceutics industry drugs in Brazil, revealed a distantness tendency between drugs consumption and medical culture. In these articles, the discourse which favors the drugs consumption was characterized for the association of scientific information's with power, beauty, youth and strength symbols, sustained on and in the same time re-forcing dominants values in culture, as individualism, competition and consumption. Drugs risks were emphasized in 55% of the articles, in a discourse accenting individual autonomy and responsibly in the drugs consumption and its risks. The ask to dominant esthetic and conduct patterns plus the increase risks divulgation tends to dislocate drugs from the field of cure and health to the control and risks, signalizing its re-signification in the therapeutic and culture.

Key words: Drugs, Therapeutic, Risks, Communication, Culture


 

 

Saúde em pílulas

A descoberta do antibiótico, no início do século 20, é um marco inicial no desenvolvimento da farmacologia atual. Nela, a química ocupa um papel central e os medicamentos são concebidos em laboratórios para ter uma ação direta contra doenças específicas em populações.

O êxito inconteste obtido com o emprego de medicamentos no tratamento de doenças infecciosas, que encabeçavam as taxas de mortalidade na população, encontra-se na base da construção da hegemonia farmacológica na terapêutica contemporânea (Almeida, 1996; Sayd, 1998).

Após a II Guerra Mundial, a indústria farmacêutica conheceu um período de grande expansão. Integrada aos novos mecanismos de produção e mercado que se consolidavam sob a direção dos Estados Unidos, tornou-se um dos segmentos mais lucrativos da produção industrial contemporânea.

O incremento do consumo refletiu as sucessivas vitórias de antibióticos cada vez mais poderosos na corrida contra bactérias resistentes, a crescente diversificação nos produtos da indústria, mas também o desenvolvimento econômico e a formação de sistemas de previdência social. Há que se considerar ainda a pressão de fabricantes, cujos interesses passaram a influenciar autoridades de Estado na área da saúde, médicos, usuários e pesquisadores, influenciando a demanda por medicamentos e, até certo ponto, produzindo-a (Lexchin, 1995; Barros, 1995; Chetley, 1990).

Estudos sobre os efeitos nocivos da mercadização no campo da saúde e dos medicamentos, e sobre a iatrogenia médica e farmacológica, emergiram particularmente a partir de 1970 (Dupuy & Karsenty, 1974; Illich, 1975; Foucault, 1977; Clavreul, 1978). Com eles se formulou a crítica à medicalização social, como tendência a considerar as dificuldades da vida problemas médicos ou instância de dominação política e controle dos cidadãos.

Na atualidade, o reconhecimento da contribuição dos laboratórios farmacêuticos no controle de doenças convive com inúmeros aspectos que colocam em questão a credibilidade no setor de medicamentos: multiplicação de similares, que não contribuem para a melhoria dos recursos terapêuticos disponíveis; propaganda intensiva e omissa ou enganosa; apresentação científica inadequada de efeitos indesejados e contra-indicações; aumentos abusivos nos preços; fraudes; proliferação excessiva no número de farmácias; ausência de farmacêutico de plantão nestes estabelecimentos; comercialização de medicamentos de uso restrito; convencimento do consumidor no balcão da farmácia – a chamada "empurroterapia", entre outros exemplos (Nascimento, 2003).

A estrutura quase monopólica da indústria farmacêutica, com grande concentração e caráter internacional, tem se constituído um entrave ao cumprimento das leis que regulamentam a propaganda e a comercialização de medicamentos, especialmente em países pobres e em desenvolvimento.

O uso indevido de medicamentos e a proliferação de reações adversas são desdobramentos perversos deste quadro. A automedicação e a prescrição indevida assumem índices alarmantes. Segundo Bermudez (2000), citando estimativas da OMS, até 75% das prescrições de antibióticos, por exemplo, são inadequadas, e apenas metade das pessoas que toma este e outros medicamentos o faz de modo adequado. Limitações na formação médica e na organização da assistência à saúde também contribuem na configuração deste perfil.

No Brasil, mesmo havendo subnotificação, os medicamentos ocupam a primeira posição entre os agentes que mais causam intoxicações (Bortoletto & Bochner, 1999). A ocorrência de reações adversas a medicamentos atinge cerca de 30% dos pacientes hospitalizados, sendo que até 21% dos casos de morte hospitalar podem estar relacionados a elas (Oliveira, 1998).

Estudo publicado no Journal of Americam Medical Association (Lazarou et al.,1998) estimou que, no ano de 1994, a incidência de sérias reações adversas a medicamentos atingiu mais de 2 milhões de pacientes hospitalizados nos EUA, resultando em mais de 100 mil mortes. Tais números colocaram estas reações entre a quarta e a quinta maiores causas de morte naquele país. No Canadá, estudo publicado em Ann Pharmacother (Einarson, 1993) estimou os números de internações hospitalares decorrentes de reações adversas a medicamentos nos países desenvolvidos em aproximadamente 5% sobre o total de admissões.

Na década de 1980, as críticas à terapêutica farmacológica vieram a extrapolar os meios acadêmicos e intelectuais, com denúncias de crescentes efeitos indesejados, entre outros aspectos. Tais críticas alcançaram setores urbanos da população, assumindo a forma de demanda por outras formas de bens e serviços de saúde. Práticas naturistas, medicamentos fitoterápicos, culturas médicas orientais, sobretudo da Índia e da China, com suas visões de saúde ditas holistas ou integrais, emergiram, então, obtendo sua oficialização, tanto no Brasil quanto no exterior (Luz, 1996; 2003).

Os medicamentos farmoquímicos, legitimados pela ciência e identificados ao progresso, passaram a conviver com outras modalidades terapêuticas, como a acupuntura, cujas raízes se encontram na China antiga e tradicional. De maneira similar, o valor das ervas medicinais e da homeopatia foi recuperado e atualizado. Esta coexistência expressa e altera, ao mesmo tempo, as maneiras de se pensar a saúde e as estratégias sociais para mantê-la, recuperá-la ou mesmo ampliá-la.

 

Produção discursiva e construção de sentidos

Reconhecendo a hegemonia da biomedicina e sua terapêutica fundada na química e na farmacologia, que sustentam a ampla medicalização social em curso desde metade do século 20, este estudo tem como objeto os medicamentos elaborados pela grande indústria farmacêutica, e tematiza os contextos simbólicos, socialmente construídos, em que se dá o seu consumo.

O termo biomedicina é adotado segundo Camargo Jr. (1993), ao considerar que esta denominação reflete mais adequadamente a vinculação desta racionalidade (médica) com o conhecimento produzido por disciplinas científicas do campo da Biologia. A categoria racionalidade médica é utilizada de acordo com a definição operacional proposta por Luz (1995).

O objetivo geral do estudo se localiza na dimensão simbólica dos significados e dos sentidos atribuídos aos medicamentos na cultura, e sua justificação como elemento fundamental da terapêutica. O objetivo específico é o de identificar os principais discursos e sentidos que circulam e impregnam o imaginário coletivo, nos grandes centros urbanos, acerca destes produtos.

Para isto, optamos por analisar o discurso sobre medicamentos veiculado através da grande imprensa escrita. Consideramos inegável a importância da imprensa escrita como prática discursiva, não apenas pela circulação de idéias, argumentos, interpretações e posicionamentos, mas, principalmente pela influência que exerce no cotidiano de grande faixa da população. Ao ampliar os discursos disponíveis às pessoas, possibilita-lhes tanto a eleição de novos sentidos quanto a desqualificação de outros, e a construção de versões diversas sobre si mesmas e o mundo a sua volta (Medrado, 1999).

Reunimos 237 reportagens, publicadas em jornais e revistas (figura 1), ao longo das décadas de 1980 (34,2% das reportagens) e 1990 (65,8%). Priorizamos veículos de largo alcance nas camadas urbanas, que tratam de temas variados de interesse geral e dedicam espaços regulares ao tema específico da saúde. As publicações selecionadas para a análise tematizam algumas categorias de medicamentos da grande indústria farmacêutica, dentre as mais consumidas pela população: os analgésicos, os antiinflamatórios e os antipiréticos (contra a dor, a inflamação e a febre), os antibióticos (contra a infecção), as vitaminas e os suplementos alimentares.

 

 

A leitura das reportagens revelou dois blocos temáticos bastante demarcados, um deles enfatizando os benefícios dos medicamentos, e outro destacando os possíveis riscos envolvidos no seu consumo. Seguindo esta organização, os resultados da pesquisa apresentados a seguir trazem os principais argumentos favoráveis, contrários ou resistentes ao consumo dos medicamentos.

O que buscamos nas reportagens foi principalmente identificar as linhas e os contextos argumentativos em que tais informações encontram-se inseridas. O que nos interessou nesses discursos foi sobretudo seu caráter argumentativo, que busca a persuasão. Nesta perspectiva, buscamos identificar a natureza polissêmica das reportagens, que abriga não apenas a regularidade e o consenso, mas a oposição e a contradição. Os diferentes discursos harmonizam ou competem entre si, e criam versões variadas dos mesmos fenômenos sociais.

É importante ressaltar ainda que, embora se trate de uma pesquisa empírica de reportagens da grande imprensa escrita, embasada na análise de artigos e bibliografia especializados, o estudo também traz uma aproximação ética do tema. Afinal, em nossa sociedade, os medicamentos estão diretamente ligados à preservação da vida, ou à decretação da morte das pessoas, neste caso por falta deles ou por seu excesso.

 

Na hora da dor

Reunimos 82 reportagens sobre medicamentos com ações analgésica, antiinflamatória e antipirética. O ácido acetilsalicílico, a dipirona e o paracetamol foram as substâncias mais mencionadas nas reportagens pesquisadas, seja diretamente e/ou através de seus diferentes rótulos comerciais. Cada uma destas substâncias compareceu, respectivamente, em 56,1%, 12,2% e 11% das reportagens. Por esta razão, tais substâncias terão maior destaque nas observações que se seguem.

A ação analgésica foi a mais mencionada, sendo relacionada principalmente às dores de cabeça; seguida da ação antiinflamatória, vinculada principalmente às dores musculares, à artrite e ao reumatismo, e depois a ação antipirética, associada principalmente a gripes e resfriados.

No conjunto das 82 reportagens pesquisadas (figura 2), 34% enfatizaram os benefícios do consumo destes medicamentos, enquanto 55% deram maior destaque aos possíveis riscos envolvidos. Apenas 4% destas reportagens trataram o tema atribuindo ênfase similar aos benefícios e aos riscos. Sete por cento delas não se posicionaram a respeito.

 

 

O incentivo ao consumo

O discurso das reportagens que estimula o consumo destes medicamentos tendeu a indicá-los a males diversos considerados de pouca gravidade, "corriqueiros" ou "passageiros". São males definidos principalmente pela sensação de dor, como sintoma biológico.

Para estes males, pouco definidos, as reportagens não prometeram a cura, mas um alívio rápido do desconforto. A eficácia destes medicamentos estaria centrada na possibilidade de um bem-estar momentâneo, através da eliminação rápida, mesmo que provisória, de sintomas de males tidos como banais. Possíveis efeitos adversos não foram mencionados ou o foram de maneira minimizada.

O crescimento do consumo de remédios mostra que o brasileiro já se acostumou ao conceito de que as dores de cabeça mais leves não têm cura e que o mal passageiro pode ser contornado com o uso de algum analgésico. "Nada há de mal em tomar um analgésico para uma dor de cabeça eventual", recomenda o médico C. L., do Centro Integrado da Dor. "Mas isso não é aconselhável quando a dor se torna crônica" (Isto É, 6.11.85).

De cada 100 pessoas que por qualquer motivo sentem dores, num determinado momento, 99 padecem de uma indisposição passageira ou de uma irritação dos nervos provocada por alguma doença possível de ser debelada por meio de medicação convencional. Para eles, comprimidos de aspirina e remédios eficientes são o que basta (Veja, 20.10.82, p. 76).

Assim como os males a que se destinam, os medicamentos são igualmente apresentados de maneira pouco definida, como algo banal, "rotineiro", "remedinho popular".

A Novalgina faz parte do histórico familiar das pessoas, de tão usada rotineiramente para tudo, define o imunologista F. S. Os outros analgésicos e também os antiinflamatórios podem ser indicados igualmente para um sem-número de complicações (Jornal do Brasil, 4.3.91).

O que é o que é: que os americanos preferem em pastilhas para chupar, os ingleses no formato efervescente e os italianos na versão solúvel? É a aspirina (...) o remedinho mais popular do mundo completou 100 anos (Isto É, 20.8.97, p. 14).

A pouca definição dos medicamentos e dos males aos quais são indicados, com a promessa de resultados rápidos, foi explorada freqüentemente através de concepções mágicas ou miraculosas, como sugerem os títulos de reportagens abaixo relacionados:

"Velha aspirina é droga mágica para o futuro" (Jornal do Brasil, 12.9.88, 1ª p.)

"Droga milagrosa" (Jornal do Brasil, 5.12.88, seção Cartas).

"Santo remédio. A força da aspirina" (Isto É Senhor, 8.1.92, p. 37).

 

O alerta aos riscos

A ênfase aos riscos compareceu em 55% das reportagens analisadas, relacionados a cada ação (analgésica, antiinflamatória e antipirética) e a cada substância medicamentosa.

As reportagens informaram que o acúmulo de substâncias analgésicas no organismo pode aumentar a dor com o passar do tempo. No começo, o analgésico inibe o processo de dor, mas com o uso freqüente aumenta a sensibilidade da pessoa para esta sensação. A dor eventual pode se transformar em crônica: trata-se do efeito inverso ou rebote.

Mais de 80% das pessoas que sentem dores de cabeça apelam diretamente para medicamentos analgésicos, antes de tentarem outros métodos paliativos. (...) o uso indiscriminado dos remédios para dores de cabeça pode surtir um efeito inverso. Ou seja, em vez de curar, acaba intensificando as dores (Jornal do Brasil, 24.12.89, 1º Caderno, p. 14).

O uso de analgésicos por conta própria e em grandes quantidades pode tornar uma dor eventual na temida dor de cabeça crônica diária. "Mais do que dois comprimidos por semana já são preocupantes..." (Jornal do Brasil, 20.4.97, p. 20).

Com relação à ação antipirética, as reportagens analisadas alertaram que o combate à febre baixa a moderada, através de medicamentos, pode contribuir para a evolução da doença, ao invés de controlá-la ou curá-la. As febres moderadas ajudam o organismo a mobilizar suas defesas naturais, provocam a formação de anticorpos, colaboram para conter uma infecção e diminuir do tempo da doença.

Informaram que a decisão de utilizar um antipirético deve levar em consideração, além da temperatura que o termômetro revela, o histórico da pessoa, seu estado de disposição geral e a presença de outros sintomas. Em situações de febre alta, contínua ou muito freqüente, o melhor mesmo é procurar os cuidados de um médico.

Um estudo com voluntários – que foram infectados com vírus da gripe – revelou que o grupo que combateu a febre com aspirina ficou mais vulnerável à doença, assim como a transmitiu mais, do que o grupo tratado com placebo (Jornal do Brasil, 23.1.83).

O primeiro impulso dos pais, quando o filho tem febre é recorrer a um antitérmico (...) Alguns pesquisadores acreditam, porém, que dar remédios para baixar a febre, especialmente quando a febre é fraca, é pior do que esperar que ela desça por si só. Os médicos que participaram da pesquisa recomendam que os pais devem evitar o recurso ao tylenol, a menos que as crianças estejam com dor e muito desconforto (Jornal do Brasil, 2.10.89).

Com referência à ação antiinflamatória, os riscos foram mencionados segundo substâncias específicas ou grupos de substâncias (antiinflamatórios hormonais e não hormonais). De uma maneira geral, problemas no sistema digestivo, como azia, dor, gastrite, úlcera e sangramento, foram os mais mencionados.

O ácido acetilsalicílico apresenta ação analgésica e antipirética, além de ser um potente antiinflamatório. Segundo as reportagens, o uso abusivo de ácido acetilsalicílico e as úlceras decorrentes do consumo deste medicamento levam a um número elevado de internações e mortes:

O Governo britânico decidiu controlar a venda de aspirina e paracetamol em toda a Grã-Bretanha. (...) A overdose de aspirina mata por ano 60 pessoas, e cinco mil são internadas com sintomas de intoxicação no mesmo período (O Globo, 28.8.97).

A aspirina e outros analgésicos semelhantes causam por ano quase tantas mortes quanto a Aids nos Estados Unidos. Segundo estudo publicado hoje na revista americana New England Journal of Medicine, as úlceras provocadas pelo uso excessivo desses medicamentos são responsáveis por 16.500 mortes por ano somente nos EUA. O vírus HIV causou 16.685 óbitos no país em 1987 (O Globo, 17.6.99, p. 34).

A dipirona também combina as três ações mencionadas. Em vários países do mundo a comercialização desta substância é proibida ou restrita, sob a alegação de que seus benefícios não superam os riscos associados ao seu uso. Está entre as drogas que apresentam os maiores índices de alergia a medicamentos caracterizada por reações de urticária na pele. Entretanto, o efeito mais temido da dipirona, segundo as reportagens analisadas, é a chamada agranulocitose – redução no número de glóbulos brancos no sangue – cujo desdobramento pode ser fatal.

Também as dipironas, proibidas em diversos países, são aqui vendidas em qualquer farmácia, sob a forma de Novalgina, Commel, Bezerol ou Dorflex, sem que se tome conhecimento de que se trata de uma droga perigosa, que já causou inúmeros casos de anemia e agranulocitose fatal (Jornal do Brasil, 25.9.79).

A maior pesquisa sobre riscos hematológicos da dipirona e outros analgésicos – conhecida como Estudo de Boston – afirma que fatores como subnutrição e atendimento médico inadequado podem tornar mais comuns as conseqüências fatais da agranulocitose, doença (...) provocada pelo uso dos analgésicos (Jornal do Brasil, 8.12.90).

O paracetamol, também denominado acetaminophen ou acetaminofeno, tem principalmente ação analgésica e antipirética. Segundo as reportagens analisadas, os riscos de intoxicação, relacionados à dosagem, são os mais freqüentes entre seus consumidores. O uso desta substância de maneira regular e por período de tempo prolongado pode desencadear crises renais crônicas e moléstias no fígado. É elevado o número de internações hospitalares e mortes decorrentes do excesso do seu consumo. As crianças e as pessoas que consomem bebida alcoólica são as mais expostas a estes riscos.

Um estudo publicado no Journal of Pediatrics mostra que doses excessivas de medicamentos contra dor e febre podem trazer sérios prejuízos ao fígado das crianças e até levar à morte. O risco está no acetaminophen, princípio ativo de vários analgésicos e antitérmicos (Revista Manchete, 21.1.98).

Um grupo de pesquisadores americanos descobriu que o uso regular e prolongado de uma substância conhecida como acetaminofeno, presente em vários analgésicos, aumenta o risco de doenças renais. O acetaminofeno é o principal composto do Tylenol, um dos analgésicos mais populares e consumidos no Estados Unidos (Jornal do Brasil, 11.5.89).

 

O remédio para os antibióticos

Reunimos 83 reportagens sobre antibióticos. Verificamos que a maioria fez referência aos antibióticos de uma maneira geral, sem distinguir substâncias ativas ou marcas comerciais.

Oitenta e dois por cento destas reportagens enfatizaram os riscos do consumo de antibióticos, enquanto apenas 8% delas destacaram os seus benefícios (figura 3). O percentual de reportagens que dedicou ênfase similar a riscos e benefícios foi igual a 2%. O item "outros" na figura se refere a reportagens em que foram mencionadas fraudes, aspectos relacionados à regulamentação ou ao mercado destes medicamentos.

 

 

Observamos um grau elevado de consenso nestas reportagens quanto à percepção do consumo indiscriminado e abusivo de antibióticos e sua relação com a resistência bacteriana e a infecção hospitalar.

 

O incentivo ao consumo

As reportagens que enfatizaram os benefícios do consumo de antibióticos noticiaram o lançamento de novos medicamentos ou novas combinações de antibióticos para um fim específico.

O cerco a agentes bacterianos está agora praticamente fechado. A ciprofloxacina, uma substância produzida sinteticamente e que ataca por completo o centro vital das bactérias causadoras de infecções, é a nova arma dos antibióticos. No Brasil, ela começará a ser comercializada ainda este mês (Isto É Senhor, 12.7.89, p. 59).

Mistura de três antibióticos já cura linfomas de estômago (Jornal do Brasil, 12.5.94).

Destacamos a referência à ausência de efeitos colaterais, freqüente nas reportagens que anunciaram novos produtos. Ao lado deste argumento, a menção à expectativa de controle da resistência bacteriana.

Um novo antibiótico capaz de atuar contra inúmeras bactérias, que não provoca efeitos colaterais e que pode diminuir as visitas de pacientes a hospitais acaba de chegar ao Brasil (Jornal do Brasil, 24.4.90. seção Saúde).

A descoberta de dois tipos de antibióticos (...) revela um contínuo esforço dos cientistas, preocupados em dar um passo à frente dos micróbios que se tornam cada vez mais resistentes ao tratamento (Jornal do Brasil, 8.8.87).

 

O alerta aos riscos

Segundo as reportagens estudadas, entre os riscos mais comuns, estão aqueles decorrentes da ação tóxica dos antibióticos no organismo, e estão relacionados às doses de administração do medicamento. As reações tóxicas mais freqüentes consistem em irritação no trato gastrintestinal. Outra classe de riscos são as reações alérgicas, atribuídas à idiossincrasia ou à sensibilização do enfermo ao antibiótico. Os sintomas alérgicos mais comuns são febre, sensibilidade à luz, rinite e manifestações cutâneas como coceira, vermelhidão da pele e urticária.

Porém, a resistência bacteriana foi o risco mais mencionado, sendo associado ao uso indevido destes medicamentos.

Abuso de antibióticos no Brasil reforça bactérias (Jornal do Brasil, 14.3.87, p. 7).

Uso abusivo de antibiótico cria a superbactéria (Jornal do Brasil, 4.10.92, Saúde e Medicina, p. 4).

O uso indevido de antibióticos foi descrito como uso excessivo ou reduzido ou ainda inadequado à enfermidade tratada.

O uso excessivo de antibiótico é o principal, porque expõe as bactérias aos medicamentos desnecessariamente, facilitando a seleção natural (Jornal da Tarde, 28.9.97).

Muitos pacientes param de tomar a medicação muito cedo, assim que os sintomas desaparecem. A doença ainda não está curada e o antibiótico só eliminou as bactérias mais "fraquinhas", deixando uma linhagem de bactérias "fortes" se reproduzirem (Jornal do Tarde, 28.9.97).

A maioria destas infecções respiratórias é provocada por vírus, que não são mortos por antibióticos. (...) Ficamos surpresos ao constatar que um a cada cinco antibióticos é receitado nesses casos, quando eles nem sequer ajudam (Jornal do Brasil, 18.9.97).

O uso excessivo foi também associado ao emprego de antibióticos na criação de animais para consumo humano.

O relatório da Organização Mundial de Saúde informa que (...) mais da metade da produção total de antibióticos é ministrada em animais. Com os bichos, o processo de seleção das cepas é o mesmo do ser humano (Isto É, 5.6.96, p. 40).

A automedicação, facilitada pela chamada empurroterapia praticada nas farmácias, somada à prescrição médica indevida foram as causas mais mencionadas para explicar o uso indiscriminado de antibióticos.

Apesar de embalados em caixinhas de rótulo vermelho, 80% dos antibióticos vendidos no país são consumidos por pacientes que não passaram por um consultório médico. É a automedicação ou a "empurroterapia"... (Veja, 21.9.94, p. 102).

... muitos médicos estão receitando antibióticos de última geração, mais poderosos, para combater doenças simples como o resfriado e infecções de pele. Como resultado, os micróbios acabam ficando resistentes e as pessoas mais vulneráveis a infecções (O Globo, 5.2.95, p. 46).

A prescrição indevida, por sua vez, foi vinculada a diversos fatores: à má prática, à qualidade da formação médica, às políticas de saúde, à grande variedade de antibióticos existentes no mercado e ainda à pressão exercida por laboratórios farmacêuticos.

Também a infecção hospitalar foi apontada como um risco importante associado ao uso de antibióticos.

... o mau uso de antibióticos leva alguns micróbios que nem eram muito importantes ou agressivos a se tornarem temidos agentes de infecções hospitalares (...) a profilaxia com antibióticos (quando um paciente de grande cirurgia toma esse tipo de medicamento antes, durante e depois da intervenção) é outra prática que, usada em excesso, agrava o problema da resistência bacteriana (Jornal do Brasil, 4.10.92, p. 4).

Ao lado do uso excessivo e indevido de antibióticos, a infecção hospitalar foi associada a outros fatores, como a assepsia e a infra-estrutura hospitalar e do setor de saúde, além das condições sociais em que vive a população.

Além do abuso dos antibióticos, há ainda a falta de estrutura e condições de assepsia da maioria dos hospitais – muitos deles não possuem sequer laboratórios, e a desnutrição de grande parte dos pacientes (Veja, 23.6.82).

Para finalizar as citações de reportagens neste tema, reproduzimos parte da carta de um leitor expressando sua perplexidade diante do tema.

Li perplexo no noticiário deste jornal que o uso de antibióticos por crianças está aumentando vertiginosamente. Se as mães soubessem o mal que estão fazendo a seus filhos estimulando este procedimento morreriam de vergonha. Na verdade, estão intoxicando as crianças e diminuindo-lhes a resistência a novas infecções. (...) Na verdade, o Brasil precisa de um remédio chamado cultura, para deixar de ser um país colonizado, quintal dos americanos, que aqui desovam suas drogas indiscriminadamente, porque não há lei nem fiscalização (O Globo, 22.1.96, Carta do Leitor).

Quanto às explicações encontradas nas reportagens sobre o uso indevido de antibióticos, a responsabilização de consumidores (pela automedicação ou não cumprimento da prescrição) e de médicos (pela má prescrição e/ou pouca assepsia) compareceu em 42 delas. Precária infra-estrutura hospitalar e políticas de saúde inadequadas foram mencionadas em 24 reportagens, principalmente naquelas em que foi abordado o risco de infecção hospitalar. A presença de antibióticos em ração animal compareceu como explicação em sete reportagens. A atribuição de responsabilidade à indústria e/ou ao mercado de medicamentos foi mencionada em duas reportagens (figura 4).

 

 

Sublinhamos que a responsabilização de consumidores e médicos na figura 4 está referida à prática de indivíduos. As reportagens em que esta prática foi associada a políticas públicas foram computadas no item dois (infra-estrutura hospitalar e políticas de saúde).

O que queremos destacar é a tendência a focalizar no indivíduo a responsabilização pelos riscos. Seja o indivíduo consumidor, seja o indivíduo que tem no campo da saúde sua prática profissional.

 

Vitaminas e suplementos alimentares: fontes portáteis de saúde?

Reunimos 72 reportagens sobre vitaminas e suplementos alimentares. Considerando as substâncias tematizadas, verificamos que 72% destas reportagens destacaram as vitaminas; 17%, os minerais; 5%, vitaminas e minerais, e 6% enfatizaram outras substâncias (aminoácidos, isotônicos, proteínicos etc.). No total de reportagens pesquisadas, 53% trouxeram a palavra vitamina no título.

Trinta e oito por cento do conjunto de reportagens enfatizaram os benefícios do consumo de vitaminas e suplementos produzidos pela indústria farmacêutica, enquanto 28% deram maior destaque aos possíveis riscos envolvidos. Apenas 8% delas trataram o tema atribuindo ênfase similar aos benefícios e aos riscos da utilização destes produtos. O item "outros" da figura 5 reúne reportagens que não se posicionaram claramente sobre estes aspectos ou abordaram outras substâncias.

 

 

O incentivo ao consumo

Os argumentos visando justificar e estimular o consumo de complementos alimentares industrializados transitaram entre alguns temas centrais, envolvendo um ou mais alvos a serem alcançados: correção de deficiência nutricional, prevenção e/ou cura de doenças, retardo do envelhecimento e maior longevidade, aumento da disposição física e da beleza corporal, compensação de hábitos de vida pouco saudáveis.

Quando a ênfase do argumento focalizou a deficiência nutricional, afirmou-se que a escassez de vitaminas não se reduz a limitações no acesso aos alimentos. Desinformação e maus hábitos também podem provocar a deficiência: o estresse do dia a dia, refeições inadequadas e apressadas, poluição, consumo de cigarros e bebidas alcoólicas e o uso regular de medicamentos podem afetar o equilíbrio vitamínico no organismo.

Na pesquisa o médico diz que o uso regular de medicamentos pode afetar o equilíbrio vitamínico ... Também o consumo regular de álcool diminui a absorção e utilização de vitaminas ... (O Globo, 17.4.94, reportagem de título "Vitaminas exigem cuidados").

Ao lado disto, as reportagens informaram que os alimentos perdem parte significativa do seu poder nutritivo com o uso de agrotóxicos, de processos químicos na industrialização, de fervura e congelamento.

Temos segurança para recomendar a suplementação alimentar com vitaminas ... Não basta ingerir alimentos que contenham essas vitaminas. Eles perdem o poder nutritivo com a industrialização, a fervura e o congelamento. Ainda estão sujeitos aos agrotóxicos (Isto É, 10.4.96, p. 103).

Foi freqüente a recomendação de complementos alimentares a grupos considerados mais expostos ao problema da deficiência: gestantes e lactantes, crianças, adolescentes, praticantes de esportes, mulheres que tomam pílulas anticoncepcionais, pessoas submetidas ao estresse ou a dietas ou ainda ao uso prolongado de medicação, fumantes, consumidores habituais de álcool e idosos. Há alguém que não se enquadre nesta classificação?

Quando o argumento enfatizou a cura e a prevenção de doenças, a vitamina C foi a mais mencionada, recomendada principalmente para ajudar o organismo a combater infecções e atenuar sintomas de estresse e fadiga. O uso de vitaminas também foi indicado para a prevenção de cardiopatias e outras doenças crônico-degenerativas.

Vitamina C. É a rainha das vitaminas. Ajuda o organismo a combater infecções. Há indícios de que atenua os sintomas do resfriado comum. Pode aumentar a elasticidade dos vasos periféricos (Veja, 19.2.86, p. 53).

Megadoses de vitaminas são necessárias? Sim. (...) A implicação dos radicais livres está comprovada não apenas no processo de envelhecimento, mas também nas doenças degenerativas como câncer, aterosclerose e doenças cardiovasculares. Se os radicais livres produzem doenças pela oxidação, podemos preveni-las por substâncias antioxidantes (Isto É, 10.4.96, p. 103).

Adiar o envelhecimento e alcançar maior longevidade foi outro apelo freqüente nos argumentos favoráveis ao consumo de complementos alimentares industrializados, realçando-se benefícios para a memória, a pele e a sexualidade.

De acordo com o estudo, um homem que consome diariamente 300 mg de vitamina C, na forma natural e em suplementos, pode viver até seis anos a mais do que um indivíduo que ingere menos de 50 mg por dia (Veja, 20.5.92, p. 53).

A geriatria preventiva promete a seus clientes adiar o maior tempo possível os sintomas atribuídos à senilidade, como a perda da capacidade de memorização, o endurecimento das articulações e a inapetência sexual (...) aconselha o médico paulista W. F., um cardiologista que vestiu a camisa de geriatra e receita (...) além de vitaminas e enzimas (Veja, 17.7.91, p. 55).

As promessas de juventude e longevidade se apresentaram muitas vezes de forma integrada, em discurso onde a saúde é associada à juventude e à beleza.

A atriz N. P. também não concebe começar o dia sem a ajuda de vitaminas (...) ela está convencida de que para manter a forma e adiar a flacidez nada melhor do que uma cápsula de (...) "Esses suplementos são bons para o corpo, para as unhas e os cabelos", acredita (Veja, 19.2.86, p. 55).

Outro fator de motivação para o consumo compareceu com freqüência nas reportagens analisadas: o estímulo para se compensar ou pelo menos minimizar possíveis conseqüências indesejadas de práticas e hábitos de vida reconhecidos na cultura como danosos à saúde.

A fumaça de um cigarro, por exemplo, destrói 25 mg de vitamina C e o organismo precisa de uma reserva de 60 mg. Não parece lógico que se tome 2 gr por dia? Pode ser, mas melhor mesmo é parar de fumar (Manchete, 29.11.97, p. 60).

Suplementos multivitamínicos são (...) coquetéis que misturam sais minerais e vitaminas (...) Os médicos continuam receitando-os para pessoas de vida agitada que não se alimentam direito, pois podem suprir eventuais carências e não oferecem riscos de intoxicação (Veja, 28.2.96, p. 76).

O discurso incentivador do consumo defendeu que, para o organismo, não haveria diferença entre as formas de como as vitaminas são produzidas: as sintéticas são idênticas na estrutura química às encontradas nos alimentos. Suas aplicações médicas com objetivos preventivos são muito importantes e apenas quantidades exageradas e por períodos muito longos podem provocar efeitos colaterais.

De acordo com um trabalho publicado pela Produtos Roche ... os complementos vitamínicos em forma de drágeas e comprimidos não têm valor calórico. As vitaminas sintéticas são idênticas na estrutura química às encontradas nos alimentos. Para o organismo não faz diferença como foram produzidas (O Globo, 17.4.94, reportagem de título "Vitaminas exigem cuidados").

Bem aplicados, vitaminas e sais minerais não apresentam praticamente nenhum efeito colateral (...) O que se sabe ao certo é que não existe nenhum caso de paciente que tenha sido internado por intoxicação de vitaminas. Ninguém tenta se suicidar ingerindo cápsulas de vitaminas (Isto É, maio 98, p. 70, reportagem de título "Vitaminas. Mania Nacional").

Este discurso, entretanto, não se utilizou apenas de argumentos técnicos, apoiados em evidências, teorias ou hipóteses da ciência. Misturou a isto o apelo a símbolos e imagens associados a força, poder, juventude, beleza e sucesso. A menção a personagens famosos, quase sempre ligados ao esporte ou às artes, foi um recurso permanente na simbolização destes conteúdos.

Garcia, 43 anos, trata nove entre dez artistas da Rede Globo que o procuram com freqüência à base de vitaminas e sais minerais. Boni, Tarcísio, Glória Menezes, Yoná Magalhães e Tônia Carrero saíram de seu elegante consultório sobraçando receitas quilométricas (Veja, 19.2.86, p. 56).

 

O alerta aos riscos

A abordagem dos riscos e efeitos indesejados destes produtos apareceu principalmente em reportagens veiculadas a partir de 1995. Os títulos e subtítulos destas reportagens ilustram a crescente preocupação com possíveis danos associados ao consumo de suplementos alimentares.

Estudo contesta eficácia de vitaminas (O Globo, 14.4.94, p. 19).

Minérios milagreiros. Vendidos como novo elixir da longa vida, os minerais podem ser perigosos para a saúde (Veja, 2.11.94, p. 116).

Prateleira suspeita. Novos estudos lançam dúvidas sobre eficácia das vitaminas e outras cápsulas consumidas por milhões de pessoas (Veja, 31.1.96, p. 74).

Vitaminas em perigo. Novas pesquisas põem em dúvida a eficácia das vitaminas na prevenção de doenças e alertam sobre eventuais riscos à saúde. A milionária indústria dos suplementos alimentares está sob suspeita (Veja, 28.2.96, p. 72).

Overdose de vitaminas. O mercado mundial movimenta bilhões, as pessoas acham que elas são solução para todos os males, mas os médicos alertam: a empolgação com as pílulas coloridas pode acabar em doenças (Manchete, 29.11.97, p. 58).

Vitamina C pode causar câncer (Manchete, 2.5.98).

As reportagens trouxeram argumentos de profissionais de saúde afirmando que uma alimentação balanceada combinada a hábitos de vida saudáveis e exercícios físicos regulares são suficientes para garantir a obtenção das vitaminas essenciais ao organismo e prevenir a deficiência nutricional. Afirmaram que não há evidências científicas suficientes para que se recomende a ingestão de complementos vitamínicos além dos alimentos, com exceção de quando há deficiência comprovada.

Médicos preferem que pacientes obtenham vitaminas em alimentos e não em produtos farmacêuticos (Folha de S. Paulo, 3.5.98, Mais, p. 15).

Ambas as instituições (Associação Cardiológica Americana e Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos) recomendam aos médicos que alertem seus pacientes para o simples fato de que cápsulas de vitaminas não substituem uma dieta rica em vitaminas (Veja, 31.1.96, p. 75).

O foco das pesquisas estaria mudando. A ênfase recente da maioria dos pesquisadores estaria se deslocando da descoberta de possíveis benefícios produzidos pelos suplementos alimentares, para o tipo de risco que acarretam. Estes estudos atribuem efeitos oxidantes e até cancerígenos ao consumo de altas doses de vitaminas.

O caso do betacaroteno, que se transforma em vitamina A no organismo, é intrigante. Sua classificação mudou rapidamente de um saudável complemento alimentar para a de uma droga sob séria suspeita. "O mínimo que se pode dizer sobre o betacaroteno é que, por ter sido tratado como alimento, seus benefícios foram superestimados e seus riscos, subestimados ou simplesmente não investigados" diz a pesquisadora B. (Veja, 31.1.96, p. 74).

Um estudo de cientistas americanos e finlandeses mostrou que as vitaminas não previnem o câncer do pulmão. Ao contrário, podem, em alguns casos, aumentar a freqüência desse tipo de tumor e de derrame cerebral. (...) Elas têm um papel importante no metabolismo, mas não devem ser usadas em quantidades adicionais às já existentes nos alimentos (O Globo, 14.4.94, O Mundo/Ciência Viva, p. 19).

... artigo na revista científica Nature de 9 de abril passado, mostrando que a vitamina C provocou lesão no material genético de linfócitos, células do sistema de defesa do organismo – isto é, as altas doses tiveram efeitos oxidantes em vez de antioxidantes (Folha de S. Paulo, 3.5.98, Mais, p. 14).

Além da suposta capacidade dos suplementos alimentares em prevenir doenças, também foi questionada sua possível ação contra o envelhecimento.

Não há qualquer prova conclusiva sobre a capacidade das vitaminas e demais antioxidantes de parar o processo de envelhecimento, como defendem centenas de especialistas no Brasil e no mundo (...) Isso é mais uma dessas ondas que acabam se cristalizando à custa da desinformação das pessoas (O Globo, 10.7.96).

Entre as teorias que destacaram os riscos e prejuízos associados aos suplementos alimentares, afirmou-se que o consumo de minerais pode ameaçar o equilíbrio bioquímico do organismo.

O primeiro senão é o potencial de intoxicação. (...). O segundo perigo é o desequilíbrio que o consumo excessivo de minerais pode provocar. Isso acontece porque alguns minerais competem pelos mesmos receptores no organismo. Assim, se uma pessoa ingerir muito cálcio, pode provocar uma deficiência de magnésio O mesmo acontece com outros pares, como fósforo-ferro, zinco-cobre, sódio-potássio (Veja, 2.11.94, p. 117).

O crescimento do consumo de complementos alimentares industrializados foi associado ao empenho dos fabricantes em vender seus produtos. Haveria uma insuficiência de critérios científicos fundamentados, combinada a uma agressiva campanha de marketing e publicidade.

Vitaminas e minerais. Uma pitada de ciência, alguma propaganda e doses maciças na esperança de vencer o tempo (Veja, 2.11.94, p. 116).

Como resistir ao rei Pelé, o atleta do século, dizendo candidamente no vídeo depois de executar uma "bicicleta" certeira: "Seja você também um campeão de saúde. Tome Vitasay"? Certamente, o produto (...) não fez de ninguém um campeão a não ser o dono do laboratório (Veja, 19.2.86, p. 56).

As reportagens mencionaram ainda algumas propostas visando reduzir os riscos, entre elas um maior controle do governo sobre a indústria.

Cientistas querem que o governo americano impeça a indústria de suplementos a continuar a fazer alegações sem prova (O Globo, 4.2.96).

Os suplementos deverão vir a ser tratados como medicação e, portanto, vendidos apenas sob a apresentação de receita médica (Diário Catarinense, Revista DC, 19.10.97).

No faturamento global dos grandes laboratórios, as vitaminas e os suplementos alimentares estão entre os produtos mais vendidos, junto dos analgésicos e antibióticos. Há multivitaminas indicadas a cada sexo, concebidas para as crianças (em formato de personagens infantis), para adultos e para idosos.

 

Comunicação e cultura

No conjunto de reportagens analisadas, observamos o recurso à ciência como fonte e instância legitimadora de informações. Os atores desses discursos foram principalmente especialistas e estudiosos vinculados à prática médica, aos laboratórios farmacêuticos ou ainda às instituições políticas e administrativas no campo da saúde.

Entretanto, ao lado de informações extraídas de estudos científicos, encontramos nas reportagens elementos simbólicos, quase sempre voltados a induzir ao consumo de medicamentos. Trata-se principalmente de símbolos de status, poder, sucesso, força, beleza e juventude, através da menção a artistas, atletas e políticos famosos; mas também de símbolos religiosos, em que se vincula o medicamento a uma ação mágica, milagrosa ou santificada.

Caso formassem uma escola de samba seriam imbatíveis na avenida. A comissão de frente teria como líder ninguém menos que o presidente José Sarney em pessoa. Entre os destaques femininos figurariam atrizes lindas e famosas como Yoná Magalhães, Cláudia Raia e Nicole Puzzi. O ponta Renato, do Grêmio de Porto Alegre e da Seleção Brasileira, formaria na mesma ala de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o "Boni", todo-poderoso vice-presidente de operações da Rede Globo. A unir este bloco imaginário está uma paixão comum: o hábito de complementar as refeições com doses diárias de vitaminas e sais minerais em drágeas (Veja, 19.2.86).

Entendemos que a eficácia deste processo de simbolização se encontra, em grande medida, em sua adequação a crenças, valores e anseios vivenciados no imaginário coletivo. E se traduz em sua capacidade de intervir na subjetividade coletiva, dando lugar a procedimentos e modos de vida quase sempre sustentados no consumo de mercadorias. A articulação dinâmica da autoridade moral da ciência a contextos simbólicos socialmente construídos e partilhados, sob o caráter maciço e massivo da grande imprensa escrita e da mídia, imprime ao discurso veiculado características particulares. Além de um produto da cultura atual, adquire também a condição de produtor de crenças, valores, desejos e padrões coletivos de procedimentos.

Ao traduzir concepções específicas de saúde, enfermidade e cura, em articulação a valores fortemente estabelecidos na cultura, o discurso veiculado contribui ainda para reforçar e ampliar tais concepções e valores. Ilustra isto a ênfase a soluções heteronômicas, instantâneas, de concepção biológica, associadas ao individualismo e ao consumismo.

Vale também ressaltar que, ao combinar ciência, misticismo, símbolos, metáforas e alegorias, parte das reportagens veiculou publicidade comercial travestida de jornalismo. Nestes casos, elementos da ciência foram utilizados como mais uma estratégia de persuasão, em que a lógica de mercado esteve claramente sobreposta à lógica da terapêutica e da saúde.

Quanto às motivações para o consumo de medicamentos, destacamos um argumento freqüente no discurso analisado: a adequação a valores estéticos e de conduta considerados ideais na sociedade contemporânea. Desta forma, as pessoas são estimuladas a buscar, em fórmulas farmacológicas, solução para emagrecer ou engordar, obter massa muscular, driblar sinais de envelhecimento, aumentar a auto-estima ou encontrar mais estímulo para o trabalho, o lazer e o prazer. O que sugere uma tendência ao comando do próprio metabolismo, visando controlar e moldar o corpo, sentimentos, emoções, desejos e personalidade a formas e objetivos fortemente estabelecidos na cultura atual (Luz, 2003).

Desta maneira, além de ser apresentado como uma resposta imediata a condições que requerem ações individuais e sociais de fundo para sua resolução (Fefer, 1999), o medicamento é valorizado como instrumento de adequação a padrões culturais impositivos.

Outro fator de motivação para o consumo bastante presente nas reportagens foi a promessa de compensar ou, pelo menos minimizar possíveis conseqüências indesejadas de práticas e hábitos de vida reconhecidos na cultura como danosos à saúde. Entendemos que a veiculação desta lógica de compensação, sem o correspondente alerta sobre os riscos associados ao uso dos medicamentos indicados, representa não apenas um contínuo processo de deseducação da população, mas também uma agressão à saúde pública.

Noções de prevenção e promoção em saúde, estilo de vida, risco e responsabilização individual pela saúde estiveram combinadas no discurso em favor do consumo de medicamentos, como uma forma de cuidado autônomo do corpo e da saúde. O que dá lugar a uma radicalização no processo de "medicamentalização" social, como tendência a se considerar as dificuldades da vida problemas solucionáveis pelo consumo de medicamentos, agora sob o signo da autonomia e do cuidado do corpo.

Deve ser ressaltado, neste contexto, o descolamento entre consumo de medicamentos e cultura médica, sustentado na automedicação, com responsabilização do indivíduo pela saúde e seus riscos. Através da divulgação de dados que estimulam o consumo autônomo, alerta-se os leitores-consumidores dos riscos do medicamento e das maneiras de evitá-los, responsabilizando-os por efeitos indesejados através do argumento do uso indevido. A discussão sobre políticas de saúde, mercado de medicamentos ou pressupostos da medicina e da terapêutica medicamentosa ocuparam um espaço reduzido no discurso analisado.

Chamou-nos a atenção ainda a parcialidade do argumento, como uma característica preponderante do discurso veiculado. Em apenas 5% das reportagens analisadas observamos peso similar a informações retratando os benefícios do consumo e os riscos dele decorrentes, limitando-se assim a possibilidade do leitor se defrontar com os diferentes aspectos presentes no medicamento.

Finalizando, destacamos a predominância na abordagem dos riscos em 55% das reportagens analisadas, contrastando com a ênfase aos benefícios do consumo de medicamentos em 27% delas. Em 13% das reportagens, o discurso se referiu a ações de órgãos de fiscalização e controle, como a Vigilância Sanitária.

A ênfase aos riscos na imprensa escrita pode ser expressão do papel decisivo do processo de autonomia e individualização na sociedade pós-industrial, e seu projeto de socialização de riscos (antes objeto de peritos da sociedade industrial), em que o consumidor tende a ampliar sua parcela de responsabilidade com base nas informações a que tem acesso.

Tal fato reforça a questão já mencionada da parcialidade da informação veiculada. Espera-se que os indivíduos dominem situações arriscadas, sem serem capazes, em razão da complexidade envolvida e dos limites nas informações que lhes são acessíveis, de tomar as decisões necessárias em uma base fundamentada e responsável, ou seja, considerando as possíveis conseqüências.

De maneira complexa, o grave problema de saúde pública colocado pelo consumo indiscriminado de medicamentos é, ao mesmo tempo, sustentado e denunciado pela imprensa escrita. Sendo enfrentado pela via da autonomia e da responsabilização do indivíduo, mas também através de denúncias e esclarecimentos comprometidos com uma ética de responsabilidade com o social.

Por fim, embora sem esgotar as possibilidades de leitura, o destaque aos riscos de medicamentos nas páginas da imprensa escrita evoca ainda uma crescente dissonância entre medicamentos e saúde no imaginário coletivo. Constitui o medicamento como objeto de desconfiança no poder de cura da medicina hegemônica, em seu projeto terapêutico e em seu aparato tecnológico.

Os significados e sentidos atribuídos aos medicamentos no imaginário coletivo se relacionam com o discurso teórico oficial, podendo fornecer-lhe sustentação e eficácia ou motivar a transformação de seus pressupostos e da prática que lhe é associada.

A indicação de substâncias farmacológicas como instrumento de adequação a padrões dominantes de estética e de conduta, conjugada à crescente divulgação dos riscos decorrentes de seu consumo, tende a distanciar o medicamento das noções de cura e de saúde, deslocando-o para o campo de intervenção, controle e risco.

 

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Artigo apresentado em 15/03/2005
Aprovado em 25/04/2005
Versão final apresentada em 25/04/2005

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