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Caracterização de idosos diabéticos atendidos na atenção secundária

 

Characterization of elderly diabetics receiving secondary care

 

 

Darlene Mara dos Santos TavaresI; Fernanda Resende RodriguesII; Cíntia Goulart Conrado SilvaIII; Sybelle de Souza Castro MiranziIV

IDepartamento de Enfermagem em Educação e Saúde Comunitária, Centro de Graduação em Enfermagem/ Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Av. Afrânio Azevedo 2063, Bairro Olinda. 38055-470 Uberaba MG. darlenetavares@netsite.com.br
IIPrograma de Saúde da Família do município de Frutal
IIIFundação Civil da Casa de Misericórdia de Franca
IVDepartamento de Medicina Social, Universidade Federal do Triângulo Mineiro

 

 


RESUMO

Caracterizou-se os idosos diabéticos segundo as variáveis sociodemográficas e econômicas e descreveu-se as condições de saúde, capacidade funcional e utilização dos serviços de saúde, relacionando-as com o tempo de diagnóstico de diabetes, almejando-se contribuir para o planejamento das intervenções de saúde dessa área. A amostra populacional foi obtida através do atendimento de diabéticos nos três serviços de endocrinologia de Uberaba (MG), no período de um ano. Entrevistaram-se 113 idosos diabéticos, no domicílio. Para análise, utilizou-se distribuição de freqüência simples, medidas descritivas e as associações foram estudadas através do teste c² (p < 0,05). São do sexo feminino 72,6% dos sujeitos; com idade média de 69 anos (± 4,6). O maior percentual do tempo de diagnóstico (51,3%) está na faixa de 10 –| 20 anos. Todos apresentam outro problema de saúde além do diabetes. Os maiores percentuais para dependência, identificados através da capacidade funcional, foram: cortar unhas dos pés (23,9%) e usar transporte (18,6%). O tempo de diagnóstico não se constituiu em agravante para a dependência do idoso. Contudo, a dependência no envelhecimento está presente e se constitui em desafio para os profissionais de saúde.

Palavras-chave: Diabetes mellitus, Idoso, Saúde do idoso, Condições de saúde, Prevenção e controle


ABSTRACT

The purpose of this survey is to characterize elderly diabetics by social, demographic and economic variables, describing their health status, functional capacity and use of healthcare services, related to the time when diabetes was diagnosed, in order to contribute to future healthcare planning actions in this area. The population sample was obtained through the diabetes services at three endocrinology units in Uberaba, Minas Gerais State in the course of a year, interviewing 113 elderly diabetics at home. The simple frequency distribution was used for the analysis, together with descriptive measurements. Associations were studied through c² (p< 0.05) test; 72.6% of the respondents were women with average age of 69 years (± 4.6). The longest times since diagnosis (51.3%) are between ten and twenty years. All the respondents presented other health problems in addition to diabetes. The main aspects of dependence identified through functional capacity were: trimming toenails (23.9%) and use of transportation (18.6%). The time since diagnosis was not an aggravating factor for dependence among these elderly diabetics. However, dependency during the aging process is present, offering a challenge to healthcare practitioners.

Key words: Diabetes mellitus, Elderly, Health of senior citizens, Health conditions, Prevention and control


 

 

Introdução

O diabetes mellitus é considerado um crescente problema de saúde pública, independente do grau de desenvolvimento do país. Este fato se deve ao aumento exponencial de sua prevalência, em especial o do tipo 2, atingindo níveis epidêmicos em vários países1.

Com o aumento da expectativa de vida da população, verifica-se maior prevalência do diabetes mellitus entre os idosos2. Estudos realizados no Brasil evidenciaram que entre os sujeitos de 30 a 39 anos de idade a prevalência da referida doença é de 1,7%, aumentando nas outras faixas até atingir 17,3% entre aqueles com 60 a 69 anos de idade3,4.

A intervenção na atenção à saúde do idoso portador de diabetes deve objetivar manter os níveis glicêmicos normais, visando evitar as lesões micro e macrovasculares, bem como controlar os fatores de risco cardiovasculares, rastrear e tratar as síndromes geriátricas comuns2. Ademais, deve procurar mantê-los na sua capacidade máxima, de forma a resguardar sua independência física e mental, nos âmbitos da comunidade e de suas famílias5. Deve-se, ainda, enfatizar ações educativas e estimular a participação ativa do idoso em seu processo de autocuidado. Para alcançar tais objetivos, os profissionais envolvidos nesta assistência devem conhecer o processo de envelhecimento, identificar as necessidades básicas alteradas e a capacidade funcional para a realização das atividades da vida diária6.

Portanto, caracterizar os idosos diabéticos, conhecer as suas condições de saúde, a capacidade funcional e a utilização dos serviços de saúde, relacionando-os com o tempo de diagnóstico contribuirá para o desenvolvimento do planejamento em saúde direcionado a esta população.

Este estudo teve os objetivos de caracterizar os idosos diabéticos, atendidos em três serviços de endocrinologia no município de Uberaba, segundo as variáveis sociodemográficas e econômicas e descrever as condições de saúde, capacidade funcional e utilização dos serviços de saúde, autoreferidos pelos idosos diabéticos, relacionando-os com o tempo de diagnóstico de diabetes.

 

Metodologia

Trata-se de um estudo observacional do tipo inquérito transversal. A amostra populacional foi constituída, inicialmente, por 151 sujeitos, obtidos através do número de consultas para diabetes, realizadas em todos os três serviços públicos de saúde do município de Uberaba (MG), os quais contam com o profissional de endocrinologia, no período de janeiro a dezembro de 2002.

Os critérios de inclusão para a constituição da amostra foram: ter diabetes mellitus com diagnóstico médico confirmado há mais de cinco anos; idade entre 60 e 80 anos; ser atendido em um dos três serviços públicos de saúde; morar no município de Uberaba e aceitar participar da pesquisa.

Foram realizadas visitas domiciliares a todos os idosos que realizaram consultas para diabetes no ano de 2002 em um dos três serviços públicos, com o objetivo de aplicação do questionário, obtendo-se 113 entrevistas. Os motivos para a não realização das demais foram: 18 sujeitos mudaram-se; 09 não foram encontrados em seus domicílios, os quais receberam novas visitas até um total de três; 06 faleceram, 04 recusaram e 01 estava impossibilitado de responder devido a problema de saúde.

Na visita domiciliar, foi realizada avaliação cognitiva, utilizando-se o mini exame do estado mental (MEEM)7 com os idosos, antes da entrevista, objetivando verificar as suas condições em responder as questões propostas.

Os entrevistasdores eram acadêmicos do VI período de enfermagem, que receberam treinamento prévio para a realização do teste cognitivo e da entrevista no domicílio, que foi efetuada durante os meses de abril a julho de 2003.

Para coleta dos dados, utilizou-se de instrumento estruturado, baseado no questionário Older Americans Resources and Services (OARS), elaborado pela Duke University 8 e adaptado à realidade brasileira por Ramos9. Este instrumento possibilita uma avaliação multidimensional do estado funcional do idoso, bem como a identificação das dimensões que comprometem a capacidade funcional. Neste estudo, utilizou-se partes deste questionário, que são adequadas aos objetivos propostos.

As variáveis de análise foram agrupadas por categoria: características sociodemográficas e econômicas: sexo; idade; tempo de diagnóstico; estado conjugal; número de filhos vivos; anos de estudo; renda individual e familiar; procedência de recursos financeiros; atividade profissional atual; razão de aposentadoria; autopercepção da situação econômica, situação econômica e com quem o idoso compartilha moradia; condições de saúde: autopercepção da saúde, visão e audição; número de dentes; apoio para locomoção; uso regular de medicamentos; problemas para obter medicamentos, gastos com medicamentos e problemas de saúde; tempo de diagnóstico; capacidade funcional: atividades básicas e instrumentais da vida diária e uso de serviços de saúde: tipo de serviço de saúde que procura; atendimento e internação nos últimos doze meses; satisfação com a internação, realização de exames e problemas no atendimento.

A análise descritiva das variáveis qualitativas foi realizada através da distribuição de freqüência. As variáveis quantitativas foram submetidas à média, desvio padrão, mediana, valores máximos e mínimos, de acordo com a distribuição de normalidade ou não. Possíveis associações, entre as variáveis, foram estudadas a partir do teste c²; considerou-se significativo quando p < 0,05. Para descrever as condições de saúde, capacidade funcional e utilização dos serviços de saúde, autoreferidos pelos idosos diabéticos, relacionando-os com o tempo de diagnóstico de diabetes, foram utilizadas as seguintes faixas: 5 anos de diagnóstico, 5–|10 anos, 10–|20 anos e 20 anos e mais.

Esta pesquisa atende a Resolução do CNS 196/96 e foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal do Triângulo Mineiro.

 

Resultados

Os resultados são apresentados segundo categorias de análise das variáveis.

Características sociodemográficas e econômicas

Verificou-se que 72,6% dos sujeitos entrevistados são do sexo feminino. O tempo de diagnóstico apresentou maior percentual (51,3%) para a faixa de 10–|20 anos, em ambos os sexos. A média de idade foi ligeiramente maior entre os homens (69,5; ± 4,5) do que entre as mulheres (68,9; ± 4,4).

Para o estado conjugal, obteve-se que 50,5% são casados/moram com companheiro. Destaca-se que apenas para os sujeitos com tempo de diagnóstico de 5–|10 anos obteve-se maior percentual para viúvos (62,5%). A maioria refere ter filhos (93,8%), sendo o número médio de 4,6 (±3,1) filhos vivos.

Verificou-se que 19,5% dos sujeitos entrevistados eram analfabetos e 39,8% tinham até três anos de estudo.

A aposentadoria (56,6%) e pensão (22,1%) constituem as principais fontes de recursos financeiros. A renda individual, categorizada em salário mínimo (à época R$ 200,00), identificou maior percentual (49,6%) de sujeitos recebendo um salário mínimo e 14,2% sem rendimento próprio. Em relação à renda familiar, 22,2% possuem renda de dois salários mínimos e 40,0% referem desconhecer esse valor.

A atividade profissional desenvolvida, atualmente, com maior percentual é a do lar (56,6%). Ressalta-se que 30,1% não exercem atividade, com maior concentração para aqueles sujeitos com 20 anos e mais de tempo de diagnóstico. Verificou-se que 59,3% se aposentaram motivados: pela idade (25,7%), por problemas de saúde (16,8%) e a mesma porcentagem por tempo de serviço. Destaca-se que os sujeitos com tempo de diagnóstico de 10–|20 anos (27,6%) e de 5–|10 anos (12,5%) apresentaram os maiores percentuais de aposentadoria por problemas de saúde.

A autopercepção da situação econômica foi considerada pela maioria como regular (43,4%). Ressalta-se que dentre os sujeitos com tempo de diagnóstico de 5–|10 anos a maioria a considerou boa (41,7%).

Dos sujeitos entrevistados 79,6% compartilham a sua moradia. (Tabela 1)

Condições de saúde

Com relação a autopercepção de saúde, 41,6% consideraram-na regular. Entre os que a consideraram péssima/má (19,5%), a maioria possui tempo de diagnóstico de 5–|10 anos (20,8%) e 20 anos e mais (28%) (Tabela 2).

Referiram ser cegos 6,2% dos sujeitos entrevistados. A autopercepção da audição foi considerada pela maioria (77%) como excelente/boa e ninguém referiu surdez. Contudo, os percentuais para autopercepção da audição ruim são iguais para os sujeitos com tempo de diagnóstico entre 5–|10 anos e 10–|20 anos (20,8%), aumentando entre aqueles com 20 anos e mais (36,0%).

Os edêntulos representam 62,8%, estando o maior percentual entre os sujeitos com tempo de diagnóstico de 5 anos (83,3%).

Dentre os sujeitos entrevistados, 8% necessitam de apoio para locomoção, como: bengala/muleta (5,3%), cadeira de rodas (1,8%) e andador (0,9%). Os maiores percentuais referentes ao uso de bengala/muleta estão entre os sujeitos com tempo de diagnóstico de 5 anos (8,3%) e 20 anos e mais (8,0%). Para o uso de cadeira de rodas, verificou-se um aumento porcentual conforme aumentou o tempo de diagnóstico. A necessidade de andador encontra-se apenas para os sujeitos com tempo de diagnóstico de 20 anos e mais (4%).

O uso regular de medicamentos foi referido pela grande maioria (98,2%), sendo o custo elevado o problema mais citado para adquirir os remédios (70%). O gasto com remédio no último mês foi superior a 10% do salário mínimo para 83,2% dos entrevistados. O maior percentual foi obtido entre os sujeitos com 20 anos e mais de diagnóstico (92%) (Tabela 2).

Verificou-se que todos os sujeitos apresentam outro problema de saúde, além do diabetes. Destacam-se, a seguir, os cinco problemas de saúde que apresentaram maior percentual. A hipertensão arterial foi a mais prevalente (17,6%), entre os sujeitos com tempo de diagnóstico entre 5–|10 anos (20,2%) e 10–|20 anos (19,2%). Os problemas de visão foram referidos por 10,4% dos sujeitos entrevistados. Os problemas de coluna (9%) apresentaram aumento percentual conforme aumentou o tempo de diagnóstico. Já quanto aos problemas cardíacos (7,8%), houve uma diminuição do percentual conforme aumentou o tempo de diagnóstico. Verificou-se para catarata (7%) maior prevalência entre os sujeitos com tempo de diagnóstico de 20 anos e mais (9,8%) e 5 anos (8,6%). Não houve associação entre as variáveis "tempo de diagnóstico" e a "presença de outro problema de saúde", além do diabetes (Tabela 3).

Capacidade funcional

Para todas as atividades da vida diária (AVD), foi obtido percentual de dependência, ou seja, os sujeitos não conseguem realizar a AVD, necessitanto da ajuda de terceiros. Entretanto, neste estudo, o nível de dependência não se mostrou relacionado ao tempo de diagnóstico. Apresentar-se-ão seis AVD que demonstraram maior percentual de dependência entre os sujeitos entrevistados. A dependência para cortar as unhas dos pés (23,9%) foi a mais prevalente entre os sujeitos com 5 anos de tempo de diagnóstico (33,3%). Para usar transportes, 18,5% referiram ser dependentes, estando o maior percentual entre os sujeitos com 20 anos e mais de tempo de diagnóstico. A dependência para fazer compras diversas (15%) foi considerada maior entre os sujeitos com 5 anos de tempo de diagnóstico. Para subir e descer escada, 10,6% são dependentes, dos quais os maiores percentuais estão entre os sujeitos com 5 anos de tempo de diagnóstico. A dependência para administrar finanças e dificuldade para sair de casa foi relatada por 9,7% dos sujeitos entrevistados, apresentando maiores percentuais entre aqueles com tempo de diagnóstico de 5 anos (Tabela 4).

Uso do serviço de saúde

Quando necessitam de atendimento à saúde, 90,3% dos entrevistados recorrem ao Sistema Único de Saúde (SUS). Destaca-se que os sujeitos com tempo de diagnótico de 5–|10 anos (79,2%) são os que menos procuram os serviços do SUS. Nos últimos doze meses, 80,5% dos sujeitos procuraram os serviços de saúde. Aqueles com tempo de diagnóstico de 10–|20 anos foram os que mais procuraram (86,2%), enquanto os com 20 anos e mais procuraram em menor proporção (68%).

No período de estudo, 30,3% estiveram internados, com maiores percentuais para os sujeitos com 10–|20 anos (36,2%) e 5–|10 anos (25%). Apresetaram insatisfação com a internação 10,3% e 8,3%, respectivamente, dos referidos grupos. No período de um ano, 95,6% dos entrevistados realizaram exames. Destaca-se que 100% dos sujeitos com tempo de diagnóstico de 5 anos e 20 anos e mais realizaram exames.

Referiram ter problemas no atendimento do serviço de saúde 41,6%; dentre eles, o maior percentual foi para o grande tempo de espera (41,6%), especialmente para aqueles com tempo de diagnóstico de 5 anos (50%) e 20 anos e mais (52%) (Tabela 5).

 

Discussão

A prevalência do diabetes, no Brasil, apresenta percentuais iguais (7,6%), para ambos os sexos10. Contudo, estudos desenvolvidos em instituições de saúde, com idosos portadores de diabetes, têm apresentado maior predominância do sexo feminino11,12,13, semelhante aos resultados obtidos neste estudo. Este fato pode estar relacionado a tendência das mulheres se cuidarem mais e estarem mais presentes nos serviços de saúde, favorecendo o diagnóstico da doença14.

Apesar de maiores percentuais terem sido obtidos para sujeitos morando com esposa/companheiro, há um grande percentual (38,9%) de viúvos. O estado conjugal é considerado pela OMS15 como um fator decisivo para o asilamento, pois interfere em toda a dinâmica familiar. Destaca-se também que os idosos que moram sozinhos (13,3%) podem apresentar decrescimento na qualidade de vida, agravamento da morbidade e risco de mortalidade16.

É necessário pontuar também que morar com familiares, por si só, não representa melhoria na qualidade de vida do idoso; seria mister aprofundar no tipo de relações que são estabelecidas entre os membros familiares; disponibilidade do suporte familiar, caso necessário e o respeito à sua individualidade. Ás vezes, o cuidado oferecido por um dos membros da família pode ocorrer de forma inadequada em razão de seu despreparo, de sua indisponibilidade ou de sobrecarga17. Cabe aos profissionais de saúde investigar melhor tal situação, identificar o cuidador e instrumentalizá-lo para oferecer suporte ao idoso, minimizando muitas complicações.

Os dados obtidos para escolaridade mostram que a maioria é considerada analfabeta funcional18, pois possuem até três anos de estudo. Durante o desenvolvimento da atenção à saúde ao idoso, é necessário avaliar as estratégias que estão sendo utilizadas para verificar o quanto está sendo eficaz a comunicação. Estudo realizado por Souza et al.19 verificou tendência para o aumento da prevalência do diabetes em sujeitos com baixo grau de escolaridade.

A baixa renda é um fator que poderá comprometer as condições de saúde dos idosos portadores de diabetes. Verificou-se que 98,2% fazem uso regular de medicamentos. Desta forma, a adesão ao tratamento medicamentoso e dietético pode ficar comprometida, principalmente quando a maioria (83,2%) gasta mais de 10% do seu recurso financeiro com a compra de remédios. Esta situação é ainda pior para aqueles que não possuem rendimentos (14,2%), ficando à mercê de políticas públicas, para distribuição de medicamentos e dos familiares. Em geral, os estudos realizados com idosos corroboram os dados obtidos nesta investigação, na qual a principal fonte de renda é aposentadoria e pensão20.

A experiência tem mostrado que a autopercepção da saúde positiva possibilita maior envolvimento, dos sujeitos, no tratamento e controle da doença. Os percentuais obtidos para autopercepção da saúde ótima/boa (38,9%) estão abaixo dos obtidos por Veras21 no Rio de Janeiro (44%) e por Ramos et al.9 em São Paulo (70%). Ressaltamos que os estudos citados foram desenvolvidos com idosos; contudo, não necessariamente com idosos diabéticos. O maior percentual para autoperceção ruim/péssima está entre os sujeitos que possuem 20 anos e mais de tempo de diagnóstico (28%), podendo estar relacionada à complexa rede que compõe a atenção à saúde (serviço de saúde, mudança de estilo de vida, aspectos econômicos, presença de polimorbidades, dependência, entre outros) e o processo de envelhecimento.

Quanto ao relato da cegueira, não se pode, necessariamente, associá-la ao diabetes. Entretanto, dentre as complicações crônicas desta doença, destaca-se a oftalmopatia diabética, que pode afetar várias partes do olho, a saber, cristalino, vítreo e retina, evoluindo desde o obscurecimento temporário da visão até à cegueira. Sabe-se que o estrito controle do diabetes mellitus pode minimizar o desenvolvimento da retinopatia22.

Verificou-se que poucos sujeitos (1,8%) necessitam de cadeira de rodas para sua locomoção, estando seu uso centrado naqueles com maior tempo de diagnóstico. Contudo, há de se considerar a perda de independência para a realização de determinadas AVD.

O percentual de edêntulos, obtido nesta investigação (62,8%), está abaixo do encontrado em estudo realizado em São Paulo, com a população na faixa etária de 50 a 59 anos (75%), no qual se verificou a relação dessa situação com a renda mensal familiar23. As doenças bucais apresentam sua magnitude e intensidade diferenciada de acordo com a inserção social anterior ou atual do idoso. A perda dos elementos dentais reduz o tônus da musculatura facial, levando à deformação da face, fala, deglutição e mastigação, afetando, assim, o processo digestivo23.

A maior ocorrência dos problemas de saúde referidos estava entre os sujeitos com tempo de diagnóstico de 5–|10 anos e 20 anos e mais. A hipertensão arterial foi a doença mais observada neste estudo, corroborando outros realizados com idosos24,25 e idosos diabéticos13. A hipertensão arterial e o diabetes mellitus constituem os principais fatores de risco para as doenças cardiovasculares, principal causa de óbito no Brasil. Desta forma, é mister implementar ações de saúde visando o diagnóstico precoce e os fatores de risco nos diversos serviços de saúde26.

O maior percentual de dependência foi obtido para cortar unhas dos pés (23,9%), considerada atividade básica da vida diária, ou seja, aquelas tarefas próprias do autocuidado. Este dado corrobora estudos realizados anteriormente com idosos diabéticos11,13. Outra atividade básica da vida diária que ficou em quarto maior percentual para dependência foi subir e descer escada (10,6%). As outras AVD (uso de transporte; fazer compras diversas; administrar finanças e dificuldade para sair de casa) compõem as atividades instrumentais da vida, que são "indicativas da capacidade de levar uma vida independente na comunidade"16. Quando um membro familiar desencadeia o processo de dependência, ocorrem alterações na dinâmica familiar. O cuidado deverá ser provido por alguém que obedeça, geralmente, a quatro situações: parentesco, gênero (predomina a mulher), maior proximidade física e afetiva. Na maioria das vezes, o cuidador é um idoso independente. Desta forma, observa-se uma sobrecarga em vários aspectos, como emocionais, físicos, financeiros e déficit de conhecimento. Tal fato poderá contribuir para piora da condição de saúde do idoso e estabelecer novas dependências. Os serviços de saúde deverão se organizar para dar o suporte necessário ao cuidador, de forma a contribuir para a melhoria das condições de saúde desta população16.

Verificou-se que a maioria dos sujeitos entrevistados (90,3%) necessita dos serviços públicos de saúde para receberem atendimento à saúde; ressalva-se porém que este estudo foi realizado em serviços públicos de saúde, o que pode acarretar em viés para o resultado encontrado. Existem diferenças no acesso aos serviços de saúde, onde sujeitos menos favorecidos economicamente tendem a adoecer mais; contudo, possuem menor chance de serem atendidos nos serviços de saúde, quando comparados àqueles com melhores condições financeiras27. Isto se constitui em outro fator que pode gerar a dependência e, conseqüentemente, sobrecarga para a família. Por outro lado, a pouca iniciativa, dos sujeitos entrevistados, em procurar os serviços de saúde para controle e acompanhamento das doenças pode também favorecer o estabelecimento da dependência. Destaca-se que os sujeitos entrevistados com tempo de diagnóstico de 20 anos e mais foram os que menos procuraram os serviços de saúde no último ano.

O principal problema encontrado no atendimento pelo serviço de saúde (grande tempo de espera) sugere que os sujeitos procuram diferentes instituições de saúde a fim de conseguir resolutividade para sua doença. As instituições de saúde, através de seus profissionais, devem rediscutir o sistema de referência e contra-referência para que possam ter mecanismos capazes de sanar tal deficiência.

 

Considerações finais

Neste estudo, o nível de dependência não se mostrou relacionado ao tempo de diagnóstico do diabetes. Entretanto, observou a dependência para a realização de todas as AVD. Os sujeitos estudados apresentam, em geral, baixa renda e escolaridade, dependem dos serviços públicos para receberem atenção à saúde, a maioria utiliza medicamentos e possui pelo menos mais de uma doença, além do diabetes.

O aumento do contingente de idosos e a maior vulnerabilidade desta população em apresentar doenças crônicas impõem a necessidade de rediscutir a atenção à saúde, visando implementar ações promocionais e, sobretudo, a orientação de idosos e seus cuidadores, na perspectiva da manutenção da autonomia e independência, assim como reforçar o conteúdo de geriatria e gerontologia nas instituições de ensino. Caldas16 refere que "as políticas públicas do Brasil reconhecem oficialmente a contribuição dos cuidadores informais, dos voluntários e do setor privado para complementar a assistência pública". Relata ainda que a discussão sobre a responsabilidade do tratamento do idoso dependente precisa ser aprofundada; afinal, o que cabe a família e o que cabe ao Estado?

 

Colaboradores

DM dos Santos Tavares participou da elaboração do projeto de pesquisa, supervisão e orientação do desenvolvimetno da pesquisa. FR Rodrigues e CG Conrado Silva foram responsáveis pela coleta de dados. SSC Miranzi participou da análise dos dados e redação final do texto.

 

Agradecimentos

Esta pesquisa recebeu bolsa de iniciação científica financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e foi apresentada na XI Jornada de Iniciação Científica da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro (FMTM) e no 11º Congresso Panamericano de Profissionales de Enfermeria e 54º Congresso Brasileiro de Enfermagem.

 

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Artigo apresentado em 09/12/2005
Aprovado em 15/12/2006
Versão final apresentada em 15/02/2007

ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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