DEBATEDORES DISCUSSANTS

 

Ensaios clínicos no Brasil para doenças cardíacas utilizando células-tronco

 

Clinical trials using stem cells to treat heart diseases in Brazil

 

 

Isolmar Schettert

Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular, InCor, USP; CordVida, banco de células-tronco do cordão umbilical. schettert@incor.usp.br

 

 

O impacto epidemiológico das doenças cardiovasculares é impressionante, sendo a principal causa de morte mundial desde meados da última década até as projeções para 2030. Assim, o investimento em linhas de pesquisa e ensaios clínicos com células- tronco é considerado estratégico por entidades públicas e privadas de diversos países.

Os estudos clínicos utilizando células-tronco da medula óssea em cardiologia começaram no Brasil em 2002, usando como premissa para sua realização dados laboratoriais obtidos com modelos animais que demonstravam a melhora funcional e isquêmica de áreas do coração quando as células-tronco eram utilizadas em animais com infarto agudo do miocárdio1,2. Os pontos fundamentais destes ensaios clínicos foram: avaliar a segurança do uso de células-tronco em pacientes com cardiopatias; utilizar procedimentos GMP (good manufacturing pratice) ideais para uso clínico; possuir aprovação da CONEP (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa), órgão federal responsável pelos estudos com seres humanos. As instituições responsáveis pelos primeiros estudos em território nacional investigaram a aplicação de células-tronco em cardiopatia dilatada com insuficiência cardíaca, coronariopatia crônica e cardiopatia chagásica.

Em janeiro de 2004, os Ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia iniciaram o Estudo Multicêntrico Randomizado de Terapia Celular em Cardiopatias - EMRTCC - com os seguintes centros e as respectivas doenças: Instituto Nacional de Cardiologia de Laranjeiras (RJ), miocardiopatia dilatada; Instituto do Coração - Incor (SP), doença isquêmica crônica do coração; Universidade Federal do Rio de Janeiro (RJ), infarto agudo do miocárdio; FioCruz (BA), cardiopatia chagásica5. O objetivo deste ensaio clínico é avaliar através de um estudo randomizado e duplo-cego um grupo de trezentos pacientes para cada uma destas doenças com relação à melhora na função cardíaca e à área isquêmica. Este estudo está em andamento e sua previsão de término é 2008 6. É importante notar que todos os centros envolvidos já demonstraram expertise na área de terapia celular em cardiologia com vários trabalhos publicados7,8,9.

Outros ensaios clínicos de fase III estão em andamento em diversas partes do mundo e estudos clínicos com pacientes infartados foram publicados recentemente sugerindo que a terapia celular com células-tronco obtidas da medula óssea diminui o número de eventos adversos; porém, seu benefício ao longo prazo ainda é questionável10,11,12,13,14.

Apesar de diversos tratamentos bem-sucedidos não possuírem o conhecimento preciso do seu mecanismo de ação exato quando foram inicialmente utilizados (exemplo do uso da aspirina), uma causa de apreensão na comunidade científica e médica é a incerteza do modo de ação das células-tronco na recuperação de áreas cardíacas. Uma conseqüência disto é um confronto nos anais científicos e na mídia em geral entre grupos relatando o sucesso ou os possíveis efeitos colaterais da terapia celular em cardiologia15.

Os ensaios clínicos serão fundamentais para consolidar alguns dos argumentos que sugerem ser a terapia celular uma realidade para pacientes com doenças cardíacas. Estes argumentos baseiam-se em:

- A intenção funcional a ser obtida é essencialmente mecânica e dependente diretamente de duas variáveis: capacidade contrátil sincrônica e capacidade perfusional vascular (o cérebro e o fígado, em contraste, desempenham funções de outra complexidade e necessitam de outras análises em qualquer proposta de terapia celular)16;

- As áreas de remodelação tecidual e angiogênese utilizam modelos cardiovasculares e já implementaram diversos conhecimentos nesta área2,3;

- A área da cardiologia foi uma das pioneiras em usar as terapias celulares como possibilidade terapêutica na insuficiência cardíaca com o uso de células musculares lisas e mioblastos17;

- Os modelos de experimentação animal podem fornecer informações essenciais na aplicabilidade da terapia celular em cardiologia18;

- Tecnologias de acesso cardíaco através de cirurgias ou por cateterismo;

- Tecnologia imagenológica que permite a obtenção de dados anatômicos e funcionais clínicos com alta precisão;

- A prevalência das doenças cardiovasculares;

- A capacidade de realização em vários centros de cardiologia no mundo de estudos epidemiológicos com evidente poder estatístico.

Por outro lado, alguns riscos devem ser considerados ao realizarmos os ensaios clínicos com células-tronco em cardiologia:

- Lesão miocárdica e formação aneurismática a curto ou longo prazo pela liberação de metaloproteases e fenômenos intrínsecos à remodelação tecidual. Em modelos animais onde houve a injeção de leucócitos e liberação de proteases, houve a formação aneurismática e ruptura miocárdica18;

- O uso de células em áreas de lesão cardíaca ou vascular cardíaco pode potencialmente implicar no risco de alterações neoplásicas locais. O risco de transformação neoplásica no local da terapia celular encontra substrato em riscos potenciais relacionados à própria alteração da arquitetural local, à imunossupressão e à manipulação das células-tronco19.

- Instabilidade de lesão aterosclerótica, aumentando o risco coronariano. A incorporação de células-tronco, progenitoras endoteliais e monócitos, além do risco de lesão local pela liberação de proteases já foram descritas principalmente ao se utilizar fatores estimuladores e pela introdução via cateter de grande quantidade de células20,21,22.

- Foco arritmogênico distinto com arritmias cardíacas. Estas alterações já estão descritas para os implantes de mioblastos, porém, alguns modelos animais utilizando células- tronco apresentaram alterações no ritmo cardíaco após sua implantação23,24.

Somente os estudos clínicos em andamento poderão fornecer respostas para identificar quem vai beneficiar-se ou não do uso de células-tronco.

No Brasil, os grupos envolvidos com os ensaios clínicos em cardiologia seguem normas rigorosas estabelecidas por entidades federais e possuem seus registros internacionais, podendo sofrer auditorias de organismos estrangeiros e, principalmente, demonstrar seus resultados de maneira inequívoca6. Um dos principais benefícios, porém, está na formação técnica em terapia celular com implicações tecnológicas desta área no Brasil. Os centros responsáveis do EMRTCC contam com diversos centros colaboradores que devem adaptar-se para a realização dos ensaios clínicos propostos e, em contrapartida, irão se beneficiar ao obter a tecnologia da obtenção, manipulação e uso das células-tronco para a cardiologia.

A realização dos ensaios clínicos para terapia celular com células-tronco em cardiologia está em acordo com a velocidade com que são obtidos os resultados dos experimentos realizados na área de pesquisa básica, o que nos permite supor um possível ciclo virtuoso onde as descobertas da bancada de experimentos podem ser rapidamente testadas e aplicadas à prática clínica.

 

Referências

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