DEBATEDORES DISCUSSANTS

 

A visibilidade da criança ao longo da história

 

The visibility of the child throughout history

 

 

Antonio de Azevedo Barros Filho

Departamento de Pediatria, Universidade Estadual de Campinas. abarros@fcm.unicamp.br

 

 

A visibilidade das crianças no mundo adulto, ou melhor, a falta de visibilidade dela não é atual e a história tem nos mostrado esta realidade. Os recém-nascidos no mundo romano só eram recebidos por decisão do chefe de família. Caso não fossem aceitos (ou seja, tolerados), eram enjeitados e abandonados ou diante da casa ou em algum lugar público. Se tivessem sorte, alguém os recolheria ou eram deixados a morte1.

Impressionado com o número de bebês encontrados no rio Tibre, o papa Inocêncio III criou o Hospital de Santa Maria in Saxia (1201-1204) com o objetivo de acolher as crianças abandonadas e prover-lhes cuidados2.

Ao chegarem ao Brasil, os portugueses ficaram impressionados com a higiene dos indígenas e principalmente com o cuidado que dispensavam às crianças. Além de serem amamentados pelas mães, as crianças eram transportadas em tecidos pendurados no pescoço (tipóia). Esse era um comportamento abandonado pelos portugueses que transferiam a amamentação para amas e com frequência abandonavam as crianças. Prática muito comum era se usarem crianças e adolescentes como grumetes ou pagens3,4. Com estas condições extremamente precárias, o destino dessas crianças era bem tenebroso.

Essas são algumas situações pinçadas para ilustrar como a criança era vista através da história. A prática do infanticídio foi sempre comum entre diferentes culturas (embora houvesse exceções), assim como o uso de crianças em alianças comerciais ou políticas, por meio de compromissos de casamento entre famílias, logo após o nascimento e às vezes até antes das crianças nascerem.

A criança é o pai do adulto, como propõem Moreira e Goldani? Ou um adulto em miniatura? Na verdade, na cultura ocidental, a criança era pensada como um adulto imperfeito5.

A partir do Renascimento e mais acentuadamente com o advento do Iluminismo, foi-se desenvolvendo uma visão da criança e se discutindo meios de criá-las visando a sua conservação. Com Erasmo (De Pueris), John Locke (Pensamientos sobre la Educacion) e Jean-Jacques Rousseau (Emilio), começou-se a discutir a importância da atenção à criança para que ela se desenvolvesse de maneira mais saudável e com formação mais sólida. Com o advento da revolução industrial, mudou o papel da família e passou-se a valorizar a mulher como enfermeira, como cuidadora e como amante, e a criança como responsabilidade do pai. No início do século XIX, surgiram os primeiros hospitais para tratar crianças. Aos poucos, a pediatria começou a se desenvolver, e se iniciam investigações sobre a fisiologia da criança.

Os resultados estão aí. Várias doenças que acometiam as crianças desapareceram ou estão sob controle. A mortalidade infantil caiu drasticamente ou vem caindo em praticamente todas as partes do mundo. A prevalência de desnutrição caiu e hoje já existem mais pessoas sobrepesadas do que desnutridas. No entanto, parece que, ao se controlar um problema, outros aparecem. Estamos enfrentando uma epidemia de obesidade e as doenças infecciosas comuns estão sendo substituídas pelas alérgicas.

Embora hoje protegida por lei, significa que a criança esteja sendo adequadamente valorizada ou entendida? O que se vê atualmente é que as pessoas não têm paciência com as crianças. Hoje, as crianças e os adolescentes são considerados hiperativos, ansiosos, deprimidos, com distúrbios de comportamento, com dificuldades escolares e, para isto, são excessivamente medicalizados. Não seriam estas, na verdade, reações saudáveis a um mundo definido exclusivamente no interesse do adulto? Justifica-se quantidade de medicamentos correspondentes a cada "problema" que estão sendo prescritos para eles ?

Com a atividade de atendimento a crianças e adolescentes com obesidade, tenho comentado com colegas que o crescimento deste problema entre eles é uma manifestação clínica de uma forma de abandono.

Em um mundo regido pelo adulto (e não estou aqui sugerindo que seja regido pelas crianças, mas que o adulto as considere em suas especificidades), este se coloca em primeiro lugar, com os mais diferentes argumentos e cuidando da criança no tempo (pouco) disponível ou pagando alguém para cuidar dela (o que alguns vêm chamando de terceirização do cuidado à infância6).

Assim não se ensina a criança a comer. É mais fácil colocá-la para receber a alimentação em mamadeira e deixada presa em um chiqueirinho em frente à televisão. Estabelece-se, assim, uma situação de sedentarismo, hiperalimentação e excesso de informação, com frequência inapropriada. Vêem-se hoje crianças com sete ou oito anos de idade que ainda chupam chupeta, tomam mamadeira e se alimentam com comidas que derretem na boca. Isso traz outros problemas: alterações da arcada dentária, constipação intestinal, obesidade e carência de micronutrientes.

Negligenciada dessa forma, não deve causar surpresa uma adolescência com envolvimento com drogas e alcoolismo e inclusive violência.

A criança pode ser o pai do adulto nas perspectivas da biologia humana, do desenvolvimento em suas diferentes facetas, mas não tem sido nas perspectivas histórica e social. Isso se reflete nas decisões políticas sociais e até de políticas científicas. Reflete inclusive na valorização dos profissionais que se encarregam delas como os professores do ensino fundamental ou pediatras, por exemplo. Apesar das mudanças que ocorreram na sociedade nos últimos 150 anos, a criança ainda é vista de forma marginal. Quais serão as consequências? Teremos que pagar para ver. Ou não.

 

Referências

1. Veyne P. O Império Romano. In: Áries P, Duby G, organizadores. História da Vida Privada. I Do Império Romano ao ano mil. São Paulo: Schwarcz Ltda.; 1990. p. 23.         

2. Marcilio ML. A roda dos expostos e a criança abandonada na História do Brasil. 1726-1950. In: Freitas MC, organizador. História Social da Infância no Brasil. São Paulo: Cortez; 1997. p. 51-76.         

3. Rocha JM. Introdução à história da puericultura e pediatria no Brasil. Rio de Janeiro: Edições Nestlé; 1947.         

4. Ramos FP. A história trágico-marítima nas embarcações portuguesas do século XVI. In: Priore MD, organizador. História das crianças no Brasil. São Paulo: Contexto; 2000. p. 19-54.         

5. Heywood C. A History of Childhood. Cambridge: Polity Press; 2001. p. 2.         

6. Martins FJ. A criança terceirizada. Campinas: Papirus; 2008.         

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