RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Maria de Fátima Junqueira Marinho

Instituto Fernandes Figueira, Fiocruz

 

 

 

Barbirato F, Dias G. A mente do seu filho: como estimular as crianças e identificar os distúrbios psicológicos na infância. Rio de Janeiro: Agir; 2009. 213 p.

O desenvolvimento infantil tem se tornado, cada vez mais, uma questão relevante tanto para profissionais que lidam diretamente com crianças, quanto para pais preocupados em fornecer aos seus filhos uma educação consistente e um crescimento saudável em termos físicos e psicológicos. Em um mundo onde as informações circulam de forma livre e muito rápida, somos todos assolados por diversas teorias acerca de como cuidar das crianças, o que fazer para estimulá-las, quais aspectos relacionados a um atraso cognitivo. No entanto, tais informações chegam muitas vezes desorganizadas, fragmentadas, favorecendo compreensões errôneas e pouco articuladas com a complexidade relacionada ao desenvolvimento infantil, particularmente no que diz respeito ao desenvolvimento da mente. Tal fragmentação acaba por abrir caminho para rotulações e diagnósticos apressados, prejudicando mais do que contribuindo para um bom entendimento do universo da criança.

O livro de Fabio Barbirato e Gabriela Dias surge nesse contexto, visando fornecer informações de cunho científico, numa linguagem acessível. Como os próprios autores afirmam, o objetivo é mostrar como educar filhos com boa saúde mental. O grande mérito do livro está em conseguir resumir em poucas páginas, de forma clara e articulada, diversos aspectos relacionados ao desenvolvimento que vai de zero aos seis anos de idade.

Ao abordar questões como a neuroplasticidade e a consequente relevância dos primeiros anos de vida da criança para o desenvolvimento cognitivo, os autores vão tocando em aspectos como a importância da participação dos pais na rotina diária de seus filhos e o estabelecimento de limites; o acolhimento, carinho e proteção da criança, assim como o incentivo à autonomia e independência; o que faz parte do desenvolvimento dentro dos padrões esperados e o que merece a avaliação de um especialista; como lidar com comportamentos como birra e agressividade com firmeza mas sem cercear a criança. Também apresentam os marcos do desenvolvimento que devem ser observados desde o nascimento do bebê, oferecendo quadros com as aquisições esperadas em cada etapa de vida do pré-escolar. Em um segundo momento, tratam dos transtornos psiquiátricos da infância, buscando descrevê-los e diferenciá-los.

Em se tratando do desenvolvimento infantil, é preciso estar atento ao fato de que a enorme complexidade envolvida na singularidade de cada criança não tem como ser abrangida em apenas um livro. Embora os próprios autores demonstrem essa preocupação, sinalizando por diversas vezes que cada criança possui suas peculiaridades e que não existe um "manual de instruções", certos aspectos merecem ser destacados.

A construção de subjetividade implica uma gama extremamente variada de fatores, de modo que cada sujeito é único. Dicas de como criar os filhos são muito bem-vindas; no entanto, torna-se necessário lembrar que pais ansiosos por um caminho previamente traçado podem tropeçar na idéia de que cada dica significa um modelo fechado a ser seguido. Estimular as crianças desde a mais tenra idade sem dúvida é fundamental para um desenvolvimento cognitivo saudável, mas é preciso sempre respeitar as individualidades, evitando a idéia de se formar "super-heróis", prontos para enfrentar sem titubeios a competitividade do mundo atual. Essa abordagem está fadada ao insucesso, podendo vir a causar sofrimento psíquico não só para as crianças como para toda a família. Como os autores afirmam, é imprescindível a busca por um equilíbrio. Se a criança não nasce com um manual, os pais também não recebem um quando do nascimento de seus filhos. E será nesse encontro peculiar e único que a criança se desenvolverá.

Para dar conta de tantas informações, o livro é dividido em duas partes. Na primeira, é abordado o desenvolvimento infantil de zero a seis anos de idade. Na segunda parte, é discutida a saúde mental da criança, a partir de transtornos psiquiátricos da infância. Ainda na Introdução, os autores apresentam a noção de neuroplasticidade, isto é, a capacidade de as células nervosas serem influenciadas pelo ambiente, o que significa que o estímulo ambiental é capaz de modificar comportamentos. Uma criança que apresenta uma determinada dificuldade hoje pode ser auxiliada através de estímulos adequados e, desse modo, superar a questão. Assim, se coloca o fato de que o desenvolvimento cognitivo pode ser estimulado desde muito cedo.

No primeiro capítulo, os autores se debruçam sobre o desenvolvimento da criança até os dois anos de idade. Além de apontarem as aquisições que o bebê vai tendo ao longo desses anos e, aproximadamente, em que faixa de idade, destacam o grande potencial de aprendizagem existente nos três primeiros anos de vida. Também sinalizam a relevância da necessidade que o bebê tem de uma comunicação afetiva tanto no que concerne a sua aprendizagem quanto no modo como irá se relacionar com o mundo, isto é, de forma mais ou menos confiante e segura. À medida que vão falando das etapas vividas pelo bebê, sinalizam a importância de os pais brincarem com os seus filhos para estimulá-los, mas sempre adequados à idade, sem queimar etapas desrespeitando os limites da criança. Nessa fase, os pais são os principais modelos identificatórios para a criança. No Capítulo 2, são discutidos aspectos tais como memória e aprendizagem, exploração do meio ambiente e o estabelecimento de limites, tão fundamental para o desenvolvimento das crianças, assim como o afeto e a atenção. Saber dizer "não" e sustentar essa posição é fundamental para a criança, assim como elogiá-la. Já o Capítulo 3 trata de certos comportamentos comuns durante a infância que não indicam necessariamente transtorno emocional, desde que transitórios. São eles: alguns hábitos como não largar alguns objetos, puxar os cabelos ou roer unhas; agressividade; birra; dificuldade em lidar com as inevitáveis frustrações; estranhamento; medo e passividade; problemas de linguagem.

O Capítulo 4 aborda a criança dos três aos seis anos, apontando para a fantasia e a imaginação características dessa fase, assim como a curiosidade e a progressiva apreensão de habilidades sociais. O quinto e último capítulo da primeira parte se volta para o desenvolvimento da linguagem e possíveis problemas de comunicação, reforçando a necessidade de se estar atento para que uma intervenção profissional possa ser feita quando necessária e no momento mais adequado. Para isso, por vezes a família precisa atravessar uma resistência em identificar e aceitar uma dificuldade em seu filho.

A segunda parte do livro se dedica a um tema delicado, mas de extrema atualidade: os transtornos psiquiátricos da infância. Como boa parte dos transtornos dessa ordem tem seu início na infância e adolescência, os autores ressaltam a importância de prevenção e tratamento precoce. Ao longo dos capítulos, os autores discorrem sobre os transtornos de humor (depressão e bipolar), de ansiedade (de separação, generalizada, fobias), transtorno do déficit de atenção e hiperatividade e comportamentos autistas. Além de procurarem apresentar algumas características próprias de cada um dos transtornos, os autores apontam para a importância de se fazer um diagnóstico diferencial cuidadoso. Para tal alertam para a necessidade de se buscar um especialista, de modo a não incorrer no erro de se "rotular" a criança previamente, sem lhe prestar o devido auxílio. Mas em todas as situações destacam a relevância do comprometimento dos pais com a educação de seus filhos. Por fim, no último capítulo, são oferecidas algumas orientações aos pais e educadores para lidarem com comportamentos tidos como difíceis e indesejáveis.

Talvez uma das principais mensagens do livro esteja na Conclusão, quando os autores afirmam: "Cabe aos pais ajudar os filhos sem fazer cobranças exageradas, deixando-os ser crianças e não querendo transformá-los em adultos em miniaturas." Frente às demandas de um mundo competitivo, que muitas vezes enfoca mais o fim do que o processo, torna-se fundamental encarar o desenvolvimento infantil como um processo complexo, que requer estímulos pertinentes a cada etapa, mas sempre com carinho, delicadeza mas também firmeza, para não impor às crianças demandas às quais não se encontram preparadas para atender.

A leitura desse livro certamente é de grande contribuição para a área da saúde e trará informações relevantes para pais, educadores e outros profissionais preocupados com a infância.

ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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