RESENHAS BOOK REVIEWS

 

Silva AL, Shimizu HE. Estomias intestinais: da origem à readaptação. São Paulo, Rio de Janeiro: Difusão Editora, Editora Senac Rio; 2012.

 

Prince Vangeris Silva Fernandes de Lima

Faculdade de Enfermagem, Universidade de Brasília

 

 

A experiência profissional acumulada por mais de dezoito anos em atendimento aos estomizados, contribuiu para que a enfermeira estomaterapeuta Ana Lúcia da Silva, doutoranda em Ciências Médicas da Universidade de Brasília (UnB), pudesse abordar aspectos relevantes da atenção ao ser humano estomizado. O livro Estomias Intestinais: Da origem á readaptação, escrito em parceria com Helena Eri Shimizu, doutora em Enfermagem pela Universidade de São Paulo (USP), tem por objetivo geral, segundo as autoras, estabelecer um espaço dialógico com as pessoas estomizadas, família e profissionais de Saúde.

A obra em resenha é dividida em três partes e trata do impacto de uma estomia, definitiva ou temporária, na vida das pessoas que se encontram na condição de indivíduo estomizado. A primeira parte do livro relaciona-se aos processos de adaptação e ajustamento á condição crônica de pessoa com estomia definitiva. A segunda diz respeito aos recursos legais, institucionais e humanos disponíveis para esses indivíduos. A última parte, por sua vez, contempla os depoimentos de dez pessoas com estomias definitivas há mais de um ano; tais indivíduos foram entrevistados pelas autoras e denominados de 'colaboradores'.

A introdução discorre sobre o significado da palavra estoma/estomia, que, segundo Santos1, é uma abertura confeccionada cirurgicamente no organismo da pessoa e recebe o nome conforme sua localização anatômica. As autoras focaram nas estomias intestinais; colostomia e ileostomia. Além do supramencionado, na introdução foi sucintamente explicitada algumas das dificuldades experimentadas e/ou vivenciadas pelas pessoas estomizadas, desde os estágios emocionais descritos em 1987 por Kubler Ross2 (negação, ira, barganha, depressão e aceitação) até a problemática do despreparo dos profissionais de saúde no cuidado biopsicossocial da pessoa com estomia definitiva.

Parte I: Enfrentando as mudanças

Na primeira parte do livro destacam-se as fases vivenciadas pela pessoa acometida por câncer colorretal que resultou em estomia. Os sinais e os sintomas mais comuns, segundo os colaboradores, são fezes ressecadas, melena e dor. Os colaboradores também mencionam a questão do longo período de tempo entre o surgimento dos primeiros sinais e sintomas e a confirmação do diagnóstico. Isso se justifica no fato de que as neoplasias tendem a serem consideradas condições clínicas de pessoas idosas. Alguns indivíduos não procuram ajuda médica pelo receio de se tratar de uma doença grave, por acreditarem que estavam com hemorróidas ou por julgarem ser portadores de condições de menos relevância clínica.

No tocante às adaptações realizadas em detrimento da estomia, as autoras discorrem sobre a alimentação, o vestuário e a sexualidade, uma vez que, segundo percepções dos colaboradores, essas três categorias de abordagem se mostram mais prevalentes e requerem um intenso movimento de mudança.

A vida social do ser humano estomizado é precária. Segundo relato dos entrevistados, a pessoa estomizada que se isola socialmente pode fazê-lo por diversos motivos, dentre eles: vergonha de que as pessoas saibam do problema, incômodo causado com a eliminação de gases, falta de informação e preconceito da sociedade, imagem corporal alterada, rejeição (inclusive familiar) e, ainda, pelo sentimento de insegurança em relação ao equipamento coletor.

Sobre as redes de apoio, é dispensado destaque para a importância, na manutenção da qualidade de vida, da espiritualidade e religião, o apoio, o carinho e a proteção da família, bem como a associação de estomizados. O último item supramencionado surge como um espaço de partilha de sentimentos, potencialidades, angústias, dentre outras percepções e sensações compreendidas pelos pares de estomizados.

Parte II: Profissionais que fazem a história

Nesse segundo momento, discorre-se sobre os profissionais de saúde que dispensam cuidados específicos ao segmento social em questão. Cita-se sucintamente o papel do profissional médico. Foi foco de menção a atuação da enfermagem, com detalhada descrição, do ponto de vista longitudinal, do surgimento da estomaterapia enquanto área do conhecimento que compete especificamente ao profissional enfermeiro. Ainda no tocante ao papel da enfermagem no cuidado da pessoa estomizada, explicitou-se suas etapas operacionais, as orientações para o autocuidado e o manejo do equipamento coletor.

Além das habilidades técnicas, científicas e de relacionamento interpessoal, compete também aos profissionais de saúde envolvidos o estímulo ao uso das redes de apoio pelas pessoas estomizadas.

O capítulo sobre políticas públicas atentou para o fato de que passados mais de vinte anos da criação do Sistema Único de Saúde, um desafio que ainda permanece é o de criar políticas que atendam ás especificidades de cada grupo social, inclusive o das pessoas estomizadas. Abordou-se a criação, em 1974, da Internacional Ostomy Association3, com explicitação da Declaração Internacional dos Direitos dos Ostomizados. As portarias nº 1464 e 4005, da Secretaria de Atenção á Saúde/Ministério da Saúde também foram focos de discussão.

Parte III: Histórias de vida

A última parte do livro é composta por dez depoimentos de colaboradores; em cada depoimento lê-se o tom vital (uma espécie de resumo do discurso) e o relato do colaborador na íntegra. Em suma, prevaleceram nos depoimentos: a necessidade de apoio teórico, uma vez que a literatura nacional que discorre sobre a temática é escassa, principalmente no tocante às crianças e idosos estomizados; necessidade de apoio político, ou seja, ações que garantam aos estomizados maior visibilidade social; a importância das redes de apoio; o despreparo dos profissionais de saúde; o processo de ajustamento à condição crônica de pessoa estomizada e o estigma social.

Em detrimento do exposto na obra literária, crê-se que o objetivo das autoras é algo factível e, além disso, a obra caracteriza-se como um instrumento de compreensão das variáveis biopsicossociais, bem como as de cunho espiritual, contempladas no cuidado em saúde da pessoa com estomia. Ou seja, é uma possibilidade para o profissional que dispensa atendimentos específicos em saúde ao grupo em questão de empoderar-se dessa gama de conhecimentos e compreender que os mesmos são essenciais na prática profissional.

Algo que se percebe com os depoimentos dos colaboradores, é o fato de que a reinserção social é algo que nem sempre se dá em níveis satisfatórios. Os indivíduos estomizados demoram a conscientizar-se acerca da nova realidade e se frustram na tentativa de dar seguimento com suas vidas da mesma maneira que o realizavam antes do procedimento cirúrgico. Compete ao profissional de saúde e família sensibilizar o cliente para a reinserção social, numa dinâmica onde certamente a vida social não será como antes e a readaptação é algo nitidamente necessário. Nesse sentido, as autoras contribuem categoricamente nessa discussão pelo compartilhamento de experiências profissionais, pela exposição dos referenciais teóricos disponíveis na literatura nacional e internacional e pelos relatos de indivíduos com estomias definitivas.

 

Referências

1. Santos VLCG. Cuidando do estomizado: análise da trajetória no ensino, pesquisa e extensão. [tese livre docência]. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2006.         

2. Kubler-Ross E. Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes; 1987.         

3. International Ostomy Association (IOA). Declaração Internacional dos Direitos dos Ostomizados. [página na Internet]. [acessado 2013 mar 14]. Disponível em: http://www.abraso.org.br/declaracao_ioa.htm         

4. Brasil. Ministério da Saúde (MS). Portaria nº 146/SAS/MS, de 14 de outubro de 1993: Estabelece as diretrizes gerais para a concessão de próteses e órteses através da Assistência Ambulatorial. Diário Oficial da União 1993; 19 out.         

5. Brasil. Ministério da Saúde (MS). Portaria nº 400/SAS/MS, de 16 de novembro de 2009: Aprova as diretrizes nacionais para a Atenção á Saúde das Pessoas Ostomizadas e Políticas de Saúde das Pessoas Ostomizadas. Diário Oficial da União 2009; 18 nov.         

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