RESENHAS BOOK REVIEWS

 

Liliane Peixoto Amparo

Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

 

 

Santos DN, Killinger CL, organizadoras. Aprender fazendo: a interdisciplinaridade na formação em saúde coletiva. Salvador: EDUFBA; 2011.

A saúde coletiva é um campo de estudo e ação multidisciplinar. A constante e emergente globalização mundial sugere mudanças no universo acadêmico com as integrações disciplinares e curriculares, da forma de pensar e atuar de seus alunos e professores. Com quinze anos de criação, o Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Salvador (ISC-UFBA) apresenta no livro uma proposta de trabalho interdisciplinar, indica como aprender uma nova atuação em saúde coletiva através do compartilhamento de saberes fundamentais que envolvem o objeto saúde. Organizado por Darci Neves, professora da UFBA e com experiência na área de saúde coletiva, com ênfase em fatores psicossociais, desenvolvimento cognitivo e saúde mental, e por Cristina Killinger, professora de Antropologia Social da Universidade de Barcelona, que atua na área de antropologia da saúde com ênfase em saúde ambiental, doenças infecciosas, saneamento e pluralismo médico, o livro reúne contribuições dos discentes de mestrado e doutorado do ISC. Assim, esta obra se faz de grande valia tanto para atores do campo em questão quanto para todos os envolvidos em trabalhos, ainda multidisciplinares, de diferentes áreas. O modelo interdisciplinar apresentado também leva à reflexão da necessidade de mudanças na estrutura curricular e gestão das universidades.

A universidade brasileira deve formar indivíduos capazes de transitar, simultaneamente, em diferentes áreas científicas. O multiculturalismo, ao possibilitar uma produção de conhecimento global, flexível e com maior compromisso social, torna as instituições universitárias mais integradas ao perfil contemporâneo do ensino superior. Almeida Filho1 sustenta a implantação de uma cultura científica no meio acadêmico que englobe os elementos culturais como ética e linguagens, a criação da cultura por meio da ciência e finda na socialização científica e sua divulgação. Esta sugestão se justifica quando se retrata o cenário atual da universidade brasileira: a precocidade da escolha profissional, a elitização dos processos seletivos, currículos mono-disciplinares e uma lacuna entre a graduação e a pós-graduação. Esse perfil faz com que o investimento e divulgação científicos fiquem cada dia mais direcionados para áreas e públicos específicos, num modelo autoritário e burocrático.

Este autor ainda defende a implantação de um novo modelo acadêmico, a Universidade Nova. A proposta é de que o aluno novato tenha uma formação universitária geral e interdisciplinar, como pré-requisito para prosseguir com seus estudos e só após esta maturação ele seguiria para uma formação específica. O modelo visa um currículo mais abrangente e com garantia de mobilidade intra e interdisciplinar, integrando a graduação à pós-graduação. O modelo Universidade Nova corrobora com o renomado geógrafo Milton Santos2 em sua proposta "Por uma Geografia Nova", quando exalta a importância da compreensão espaço-tempo como produtor de uma cosmologia aberta, de um universalismo empírico e a consequente valorização da epistemo-diversidade. A integração de modelos, formas de pensar e agir propicia a construção de novos modos de produção e de se perceber a complexidade do mundo. Para que este modelo seja implantado, a grande questão que se coloca é a superação de antigos paradigmas presentes nas universidades, sua tradição cartorial e suas seus resquícios dogmáticos desde a reforma universitária do regime militar.

A Geografia Nova pode ser vista como um importante pilar da Universidade Nova. A teoria de Milton Santos sustenta que a proposta universitária possibilite maior articulação dos saberes, um novo olhar espaço-temporal, uma hiperconectividade de ideias e teorias, trocas científicas a nível multi-inter-transdisciplinares e meios alternativos de formação de seus alunos. Boaventura Santos3 reforça esta sustentação com seu conceito de "ecologia dos saberes", capaz de construir modos de produção mais abrangentes e integradores com a demanda do meio. Apesar das novas propostas para a reformulação das universidades brasileiras seguirem a lentos passos, o processo de globalização indica que se está na direção correta e diante de um sistema de múltiplas culturas, o que possibilitará a transformação acadêmica requerida. O referido autor questiona que o principal desafio será manter a qualidade e a excelência do ensino e da instituição.

A primeira parte do livro desenha o campo da saúde coletiva com sua historicidade e reflexo desta em seus sujeitos. Para compreender a evolução das práticas em saúde coletiva, apresentou-se a construção cultural da área em questão, destacando o cenário histórico e político. A partir do Século XIX, durante a Revolução Industrial, passando pelo Século XX com sua proposta pré-saúde coletiva, a Medicina Social e ações comunitárias de baixo custo e relevante impacto social, chegando ao Século XXI, que se caracteriza pela evolução desse campo de atuação num cenário globalizado e com forte apelo por práticas transdisciplinares, multiprofissionais, interinstituicionais e transetoriais. Dessa forma, o sujeito-ator da saúde coletiva deve apresentar esse mesmo perfil em seu lócus acadêmico.

Almeida Filho4 trabalha com o conceito de "sujeitos-anfíbios", que seriam aqueles aptos a transitar em diferentes campos científicos. Esta movimentação é construída em um processo de treinamento, socialização e enculturação, além do ambiente institucional se manter comprometido com o movimento diante das práticas cotidianas dos sujeitos. Este autor também reflete que outro fator essencial e desafiante para o campo científico da saúde coletiva é fazer com que se estabeleçam meios diretos de interação com comunidade em geral, não apenas intervindo diante dela, mas transformando-a ao compartilhar os novos conhecimentos. O modelo adotado pelo ISC em sua proposta interdisciplinar apresentada no livro mostra diferenças e intercâmbios de práticas e teorias entre as três áreas de concentração do Programa (Epidemiologia, Ciências Sociais e Planejamento e Gestão), o que facilita o diálogo de seus alunos e otimiza a formação destes.

O relato de experiência da proposta interdisciplinar do ISC é apresentado na segunda parte do livro. A viagem à Canudos proporcionou aos alunos a troca de saberes e enriquecimento cultural durante o processo de articulação e elaboração do conhecimento interdisciplinar. Cada grupo de trabalho organizou suas informações sobre o campo pesquisado, apresentando-as em um seminário interno, o que permitiu a consolidação da prática. O contato dos alunos com diferentes abordagens no campo da saúde coletiva, dentro de grupos de estudos heterogêneos, mostrou-lhes que cada disciplina tem um período de intervenção - resultados - conclusões diferenciados e o respeito a esse período é fundamental para a estabilidade do núcleo do programa, bem como para proporcionar o diálogo científico e profissional objetivado pelo mesmo.

As perspectivas e os desafios para a interdisciplinaridade na saúde coletiva é a parte final do livro. A grande conquista do grupo foi a solidificação da troca teórica e prática proposta e, para esta consolidação, é de suma importância a comunicação periódica dos achados para facilitar a troca e o envolvimento científico entre o meio acadêmico.

Os autores e organizadores do livro demonstraram que é possível trabalhar academicamente sob uma ótica interdisciplinar. Com o avanço da globalização e a necessidade de intercâmbios teóricos e práticos, o campo da saúde coletiva e, principalmente, seus sujeitos, foram os maiores beneficiados por esta nova e desafiadora metodologia.

O objetivo do livro supera o de apenas relatar uma prática interdisciplinar na saúde coletiva, ele ensina, faz refletir e convida à repetição dessa rica experiência. Ancorados na proposta do modelo Universidade Nova, os autores levaram para o ISC uma nova atuação teórico-prática que possibilitou o trânsito de saberes nas três áreas de concentração do instituto. O mesmo modelo pode (e deve) ser ampliado em outros centros acadêmicos para, assim, gerar um sujeito pesquisador capaz de não apenas intervir em áreas científicas distintas de sua origem, mas, principalmente, ser capaz de divulgar seus feitos para a comunidade em geral. O ISC consolidou seus alunos como sujeitos-anfíbios e mostrou que a efetivação da Universidade Nova pode seguir pelo caminho dos micro-núcleos (laboratórios e institutos de pesquisa) para os macros, as grades curriculares desde a graduação. Assim, a leitura do livro se faz importante para todos os profissionais envolvidos na esfera acadêmica e que se inquietam com a atual estrutura universitária, bem como para aqueles que ainda estão em formação e almejam a prática interdisciplinar em sua trajetória.

 

Referências

1. Almeida Filho N. Universidade Nova: textos críticos e esperançosos. Brasília, Salvador: Editora UnB, EDUFBA, 2007.         

2. Santos M. Por uma Geografia Nova. São Paulo: Hucitec; 2002.         

3. Santos B. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da Experiência. São Paulo: Cortez; 2002.         

4. Almeida Filho N. Nós, pós-kuhnianos esclarecidos: Epistemologia, pragmatismo e realismo científico. Cadernos de CRH 1993; 6(18):138-156.         

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