Trench B, Rosa TEC. Nós e o Outro: envelhecimento, reflexões, práticas e pesquisa. Organizado por. São Paulo: Instituto de Saúde; 2011. (Temas em Saúde Coletiva, 13)

Ana Elisa Bastos Figueiredo Sobre o autor
2011

O livro ora apresentado ao leitor é uma coletânea, composta de Prefácio no qual Maria Cecília de Souza Minayo aborda a questão do Envelhecimento demográfico e o lugar do idoso no ciclo da vida brasileira, em que aspectos sociodemográficos e culturais são colocados à mostra; de Apresentação em que as organizadoras discorrem sobre os temas abordados enfatizando que

quando as fronteiras entre idades sofrem transformações ou diluições [...] também geram novas formas de comportamentos identitários

. É sobre essas fronteiras e formas de comportamentos que esta coletânea vai tratar, distribuída em quinze artigos, produzidos a partir de pesquisas realizadas pelos autores.

Nos artigos Envelhecimento e interdisciplinaridade, de Guiomar Silva Lopes e Sentidos e espaços da velhice na legislação brasileira, de Adriano da Silva Rozendo, são postos em relevância: as teorias sobre o envelhecimento principalmente a vertente determinista, a teoria do acúmulo dos erros estocástico e as teorias relacionadas ao envelhecimento como um fenômeno de natureza multicausal; a multiplicidade e a singularidade do envelhecimento categorias importantes para a compreensão do envelhecer; a geriatria e a gerontologia como saberes que buscam respostas aos problemas oriundos das transformações físicas e mentais decorrentes do processo de envelhecimento; a interdisciplinaridade enquanto conjugação de saberes diversos que vão orientar os estudos sobre o envelhecimento; a Constituição Federal de 1988 e sua compreensão sobre a velhice e o idoso e as Políticas dirigidas ao idoso como a Política Nacional do Idoso e o Estatuto do Idoso.

Nos artigos Envelhecimento na perspectiva feminista, de Wilza Vieira Villela et al. os protagonistas são Simone Beauvoir e seu ensaio La vejez, escrito em 1970, Germaine Greer e seu Mulher, Maturidade e Mudança, em que a autora utiliza a inspiração psicanalítica sobre a castração real e simbólica como pano de fundo, e as questões levantadas pela mulheres do Coletivo Boston no livro publicado em 1987 Envelhecer Juntas sobre a homo e a heterossexualidade, a masturbação, a prevenção do HIV, os amores e paixões despertados e acalentados pelos idosos, desmistificando a ideia de que existe uma relação direta e inexorável entre envelhecimento, deficiência, restrição e perda.

Em Sexualidade e envelhecimento, Margarida Barreto et al., o ponto nevrálgico gira em torno da anatomia do desejo e as barreiras culturais para a sua realização, a identidade social e sexual de homens e mulheres e os mitos que envolvem o envelhecimento, no qual os autores apontam uma compreensão do fenômeno fazendo uma interlocução entre a psicanálise e a antropologia.

Em O fim do sangue, Belkis Trench e Rafael Tadashi Miyashiro, por meio de um estudo etnográfico com mulheres índias guaranis buscam compreender como elas experienciam o seu envelhecimento e mostram como as reduções simbólicas relacionadas à menopausa - fim do sangue - dão sentido às práticas sociais e às relações de gênero.

Em Corpo e Sexualidade nas experiências de envelhecimento de homens gays, de Júlio Assis Simões, o foco é a homossexualidade masculina dos idosos traduzida em corpo, sexualidade e relacionamentos reproduzidas nas falas colhidas em entrevistas em profundidade - histórias contadas - realizadas e analisadas pelo autor que sinaliza para um olhar cuidadoso sobre o fato de que os gays velhos são obrigados a pagar para ter uma companhia e prazer erótico, colocando-os em uma posição de vulnerabilidade crescente.

Em Envelhecer em outro corpo, Luís Pereira Justo, estimula o debate sobre a transexualidade vivida por idosos, apresentada na história de Paulina, uma idosa de 73 anos, nascida numa cidade do interior do Brasil que nunca desistiu e não desiste de uma cirurgia que lhe permita viver plenamente sua sexualidade desejada.

Envelhecendo na cidade, Monique Borba Cerqueira et al. apresentam um estudo etnográfico exploratório realizado em 2010 sobre o envelhecimento, em que os pesquisadores percorreram bairros, ruas, viadutos e avenidas tradicionais da cidade de São Paulo como a Av. Paulista, Rua 25 de Março, Praça da Sé, Viaduto do Chá, Praça da República, Largo do Arouche, entre outros buscando compreender o cotidiano dos idosos que transitam pelo centro da cidade de São Paulo. A observação sistemática e conversas informais com esses idosos foram as técnicas utilizadas pelos autores para coleta de dados, considerando as dimensões de trabalho e lazer. Desse modo, foi possível aos autores observarem que o trabalho é um importante marcador para a afirmação da identidade desses idosos.

Em Envelhecimento em situação de rua, Anderson da Silva Rosa et al. tratam de questões relacionadas à cidade como espaço social onde as contradições se manifestam de forma mais clara. A história de vida foi a técnica utilizada pelo autor para a compreensão do significado do envelhecimento para os idosos sem teto. O enfoque recai sobre a velhice da mulher em situação de rua e a idosa Maria Rosa é a protagonista. As marcas de seu sofrimento, por viver na rua e da rua, narradas por ela, conduz o leitor à reflexão sobre esse fenômeno específico e impõem atitudes políticas e éticas para que a morte social não se antecipe à morte biológica.

Envelhecer nos quilombos, Anna Volochko aborda temas relacionados à história dos quilombos no Brasil, os primórdios do racismo, a trajetória do movimento negro, os quilombos existentes e reconhecidos no Estado de São Paulo, as condições de vida dos quilombolas, emoldurados pelo relato de três visitas domiciliares, permeadas por entrevistas realizadas pela autora.

Pelas lentes da memória, Alessandra Alexandre Freixo, munindo-se das narrativas e de imagens locais que produziu ao longo do estudo, inclusive da residência de seus participantes, procurou compreender as vivências cotidianas e as representações do passado dos velhos agricultores do sertão do estado da Bahia. Nesse contexto é dado destaque à fotografia, ou à arte de fotografar enquanto técnica importante e complementar na pesquisa.

Envelhecendo na América Latina, Mariola Bernal et al. nos apresentam as intercessões entre migração, saúde e envelhecimento, as motivações dos movimentos migratórios, como é envelhecer para esses migrantes e a interlocução entre os processos saúde, doença e atenção em que o ponto essencial são as narrativas e histórias de migrantes andaluzes.

Reflexões sobre o envelhecimento, Yara Nogueira Monteiro et al. constroem, a partir de histórias lembradas e relatadas por pacientes idosos ex-portadores de hanseníase que passaram pelo isolamento compulsório, um panorama do processo saúde/doença e suas implicações. Foram também utilizadas para a coleta de informações a observação participante e a consulta a prontuários clínicos. A estigmatização aparece de forma contundente na expressão "o nós e o eles". A urgência de construção de uma nova identidade por esses pacientes após o diagnóstico mostra a desestruturação interna e a do núcleo familiar e seu esforço em reunir fragmentos no sentido de uma reestruturação e os vários mecanismos utilizados por esses idosos como o ocultamento da doença.

Em Aids, envelhecimento, vulnerabilidades, Renato Barboza inicia seu artigo contextualizando a Aids entre idosos no Brasil traçando um perfil epidemiológico desse fenômeno. Em sequência aponta como está se configurando a produção do conhecimento referido ao campo da saúde pública, mostrando a produção de resumos de trabalhos sobre o tema no período de 2007 a 2010 apresentados nos congresso da Abrasco (Associação Brasileira de Pós-graduação em Saúde Coletiva); a produção de resumos de trabalhos segundo as microrregiões do Brasil; e a proporção de resumos de trabalhos apresentados no VIII Congresso Brasileiro de Prevenção das DST/Aids no ano de 2010. Ao final do seu texto o autor faz algumas recomendações no sentido de ampliar, qualificar e aprofundar a produção de conhecimentos existentes sobre o tema.

No último artigo desta coletânea Envelhecimento, tempo e desejo na hipermodernidade Abílio Costa-Rosa et al. tratam de questões relacionadas à velhice e desamparo, em que sentimentos de compaixão, resignação e solidariedade constituem o pano de fundo nas relações sociais do idoso e à vida como arte de viver, trazendo à tona o modo capitalista de produção que sustenta o que o autor chama de hipermodernidade e o tempo tendo como intercessor o desejo. Os temas apresentados vêm preencher lacunas importantes na literatura científica relativas ao envelhecimento. Os artigos apresentados trazem contribuições importantes e enriquecedoras, principalmente pelo fato de que a voz a ser ouvida e considerada é a dos idosos por meio de suas narrativas.

Finalizando, acreditamos que o que os autores mostram em seus textos é que a vida na sociedade atual, alterando os processos tradicionais de produção e reprodução da identidade, neste caso dos idosos, confronta estes com sua própria historicidade e, portanto, com a necessidade de reconhecer em si a presença ausente de outros sujeitos e negociar com eles suas demandas e valores1Aleixo MAAR, Figueiredo AEB. Envelhecimento, Identidade e Memória. Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal 2005; 99(4):26-35..

Referências

  • Aleixo MAAR, Figueiredo AEB. Envelhecimento, Identidade e Memória. Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal 2005; 99(4):26-35.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Ago 2014
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