Sociologia da obesidade

Sociology of Obesity

Daniel Coelho de Oliveira Sobre o autor
Poulain, JP. Sociologia da obesidade. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2013.

A obesidade pode ser analisada a partir da perspectiva das ciências sociais? Poulain assume o convite mais ou menos explícito dos especialistas médicos da obesidade, os quais, de um modo geral, a designam como um problema da “sociedade”. Nesse cenário, um dos maiores desafios está relacionado ao fato de a abordagem temática conter elevadas “porções” de moralidade. Como apontam Fischle e Masson11. Fischle C, Masson E. Comer: A alimentação de franceses, outros europeus e americanos. São Paulo: Editora SENAC; 2010., o debate sobre alimentação, em determinadas situações, pode ser mais moralizante do que questões ligadas à religião e à sexualidade. Com ousadas pretensões, o livro pretende focalizar as dimensões sociais da obesidade. Entre elas, algumas são mais explícitas, como a diferenciação social da corpulência; enquanto outras são muito menos perceptíveis, como o impacto da nutricionalização ou da medicalização, ou, ainda, os efeitos da estigmatização das pessoas obesas.

Logo no prefácio da edição brasileira, o autor destaca que a obesidade é um complexo fenômeno; trata-se de um problema ao mesmo tempo de saúde pública e de estigmatização. De acordo com Poulain, a obesidade ganhou o primeiro plano do debate midiático e político, desde que a Organização Mundial de Saúde (OMS) passou a considera-la como “epidemia mundial”. O autor tranquiliza o leitor ao destacar que o discurso clássico sobre a obesidade não será negligenciado. A vertente apresenta a obesidade como consequência de uma transformação nos modos de vida, que se supõe ter sido capaz de alterar o balanço energético do homem contemporâneo. O desequilíbrio é apontado como produto da redução do gasto de energia, e, por outro lado, o aumento do consumo de calorias, motivado principalmente pelo barateamento dos alimentos.

Nos capítulos iniciais, Poulain utiliza uma série de informações estatísticas para demonstrar que se, no passado, a obesidade era um problema dos “países ricos”, hoje existe um crescimento exponencial nos de renda baixa ou média, sobretudo nas populações dos perímetros urbanos. A obesidade também é apresentada como uma doença de “transição demográfica”, classificada como “sociopatias”, consequências de um conjunto de transformações de práticas alimentares e do ambiente social da alimentação. Tal abordagem se aproxima do fenômeno que Fischer22. Fischler C. Gastro-nomía y gastro-anomía. Sabiduria del cuerpo y crisis biocultural de la alimentación moderna. Gazeta de Antropología 2010; 26(1):1-19. denominou de “gastro-anomia”.

Ao final da primeira parte do livro, é proposto um debate sobre a relação entre obesidade e posição social; por consequência, o autor aborda a estigmatização provocada pelo sobrepeso nas sociedades modernas. Ela seria capaz de alterar trajetórias sociais intra e intergeracionais; nesse sentido, as representações negativas e estereotipadas poderiam funcionar como as self-fulfilling prophecy, ou seja, trajetórias que se tornariam autorrealizáveis nos diferentes cursos dos sujeitos.

A retórica desenvolvida no livro destaca que a luta contra a obesidade deve ser examinada com atenção. Essa posição se fundamenta na visão de que o fracasso do tratamento contra obesidade pressupõe a necessidade de um deslocamento do plano curativo para o preventivo. O autor argumenta que intelectuais como Michel Focault e Norbert Elias podem ser resgatados. O primeiro, “Para extrair do ativismo antiobesidade o retorno de um dos vários modelos de uma política de controle dos indivíduos”3. Já o segundo poderia ser utilizado para situar novamente, em uma longa perspectiva histórica, o processo de interiorização do locus, controle que hoje em dia torna-se visível em várias esferas.

Ao adotar uma leitura crítica denominada como “sociologia do conhecimento sobre obesidade”, Poulain argumenta que ela seria responsável por tratar da produção do saber científico como produto das interações entre os meios de pesquisa e os diferentes grupos de pressão, sejam eles políticos, econômicos ou de consumidores. Conforme já destacou Latour33. Latour B. Ciência em Ação. São Paulo: Editora UNESP; 2000., o conhecimento científico é uma construção social, isto é, o resultado de uma série de fenômenos de interação que escapam em maior ou menor grau à consciência de seus atores. A abordagem se contrapõe à ideia de uma ciência “pura”, “desencarnada” e totalmente desconectada dos interesses dos indivíduos que a praticam.

Na trilha do fenômeno da obesidade, o autor destaca que a mesma, ainda, não é vista como uma questão de saúde pública, nem como questão social, e tampouco política. Para Poulain, o reconhecimento da obesidade como uma questão de saúde pública passa por duas condições. A primeira seria a institucionalização da temática, com o estabelecimento de sociedade de especialistas, de revistas especializadas, de serviços também especializados nos hospitais. A segunda passaria pela transformação de seu estatuto epistemológico, com o deslocamento de sua definição qualitativa, com sua designação enquanto doença, e, enfim, com a utilização do termo “epidemia”.

A denominação da obesidade como epidemia está relacionada à sua socialização, a qual, desde então, diz respeito à sociedade como um todo. Ela também contribui para que se considerem os modos de vida como determinantes, e se articule o problema da má alimentação. Para Poulain, é necessário observar mais de perto os pontos de controvérsia por trás da obesidade. “A perspectiva que adotaremos buscará identificar e compreender o mundo pelo qual as informações são construídas e difundidas no universo da saúde pública e, em um sentido mais amplo, como elas entram na arena social e política”. Ele pretende, portanto, entender como as controvérsias são mais ou menos deformadas, e de que maneira estão a serviço de determinados interesses. Para realizar um “agendamento político” da obesidade, seria necessário construir números e fórmulas chocantes, para que os atores políticos e midiáticos reagissem mais favoravelmente. Em outras palavras, seria necessário dramatizar o contexto como um todo.

Na segunda parte da obra, o ponto de partida é o processo de medicalização e as controvérsias ligadas ao olhar crítico sobre a obesidade. Ele destaca que é “Por trás do aparente consenso das controvérsias científicas, que a obesidade aparece como uma arena da qual se confrontam conceitos científicos menos contraditórios. Seria o habitual da ciência que evolui graças ao impulso de contradições sucessivas? Ou devemos interpretá-las como o resultado da influência de atores sociais que têm interesses divergentes – indústrias agroalimentares, indústrias farmacêuticas, associações de consumidores, atores políticos, representantes das administrações e os próprios pesquisadores?”3. Importantes questionamentos que podem auxiliar na construção de inúmeras abordagens de pesquisa.

Na visão do autor, é possível estabelecer dois níveis de medicalização da alimentação. O primeiro estaria ligado à inserção da alimentação no quadro do tratamento de patologias. O segundo nível, que poderia ser qualificado de nutricionalização, relaciona-se com a difusão dos conhecimentos; corresponde à propagação de conhecimentos junto ao corpo social, por meio de diversos veículos – a imprensa, a televisão, as campanhas de educação para a saúde, etc. Nesse cenário, a motivação mais consistente da nutricionalização estaria ligada à pressão dos modelos de estética corporal e o imenso desejo de emagrecer que a acompanha em algumas categorias de indivíduos.

Ao final do percurso de Poulain, a obesidade aparece como uma patologia parcialmente determinada pelo social. Ela seria resultante de um processo de transição, consequência de efeitos da lentidão do ajuste entre a oferta de alimentos e as necessidades energéticas que as condições modernas de vida fizeram diminuir rapidamente.

A obra também aponta para os riscos sanitários, sociais e culturais aos quais está sujeita a medicalização da alimentação cotidiana. A grande difusão de informações sobre nutrição na ausência de provas e de argumentação científica a respeito das relações entre o conhecimento e o comportamento faz com que, muito frequentemente, os conhecimentos científicos e as representações morais dos mesmos permeiem o discurso médico sobre a obesidade e a educação nutricional. Por outro lado, os modelos convencionais de estética estariam intensificando os distúrbios do comportamento alimentar. Nesse cenário, a idealização da magreza e a desvalorização das pessoas obesas ou com sobrepeso são as duas faces de um mesmo fenômeno.

Apesar de enfatizar, em vários momentos do texto, que a obesidade se transformou em uma “epidemia global”, Poulain não apresenta dados sobre um conjunto significativo de países. As informações se concentram na realidade francesa e estadunidense. Trata-se, portanto, de uma análise focada em duas realidades específicas; seriam necessários novos esforços de pesquisa em outros países para entender e comparar distintas especificidades sociais e culturais.

Em uma primeira vista, o livro pode ser encarado como uma obra direcionada para cientistas sociais; porém, o debate proposto sobre as controvérsias do diagnóstico da obesidade e o processo de medicalização da mesma amplia o escopo do debate para as ciências médicas. A leitura também é recomendada para os formuladores de políticas públicas que serão cada vez mais acionados na elaboração de estratégias para lidar com o problema cada vez mais coletivo da obesidade.

Referências

  • 1
    Fischle C, Masson E. Comer: A alimentação de franceses, outros europeus e americanos São Paulo: Editora SENAC; 2010.
  • 2
    Fischler C. Gastro-nomía y gastro-anomía. Sabiduria del cuerpo y crisis biocultural de la alimentación moderna. Gazeta de Antropología 2010; 26(1):1-19.
  • 3
    Latour B. Ciência em Ação São Paulo: Editora UNESP; 2000.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Fev 2017
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