EDITORIAL

 

Risco cardiovascular na adolescência

 

 

Katia Vergetti BlochI; Maria Cristina KuschnirII; Moyses SzkloIII

IInstituto de Estudos em Saúde Coletiva, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. kbloch@globo.com
IINúcleo de Estudos da Saúde do Adolescente, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. Instituto Nacional de Cardiologia, Rio de Janeiro, Brasil. cristina.kuschnir@gmail.com
IIIInstituto de Estudos em Saúde Coletiva, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. mszklo@jhsph.edu

 

 

Recentemente, os jornais noticiaram um importante diagnóstico de saúde: "quase metade da população brasileira está acima do peso". A notícia foi baseada nos dados do VIGITEL, pesquisa realizada por telefone, e mostra que entre 2006 e 2011 o percentual de obesos subiu de 11,4% para 15,8%, e aponta ainda que o problema do excesso de peso começa cedo. Entre os 18 e 24 anos, 29,4% dos homens e 25,4% das mulheres já estão acima do peso ideal.

A resistência insulínica e mesmo o diabetes tipo II têm sido relatados em menores de 18 anos. A hipertensão arterial primária torna-se cada vez mais frequente, refletindo o aumento do excesso de peso. Outras consequências da obesidade em adolescentes também são observadas, tais como: distúrbios respiratórios como asma e apneia do sono; acometimento articular, principalmente joelhos e quadril; e até transtornos mentais. Sabemos ainda que a inserção desses jovens no mercado de trabalho é mais difícil.

O Ministério da Saúde tem investido em promoção de hábitos saudáveis visando à prevenção de doenças crônicas e melhoria da qualidade de vida do brasileiro. A redução do consumo de sal e o bem-sucedido programa antitabagista são alguns exemplos dessas iniciativas. Um dos objetivos do Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas não Transmissíveis, lançado em 2011, é parar o aumento da proporção de adultos acima do peso ideal. Uma das estratégias utilizadas é o Programa Academia da Saúde, que visa a aumentar a prática da atividade física da população. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) e o Programa Saúde na Escola (PSE) são iniciativas voltadas especificamente para as populações mais jovens.

O Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde definiu como uma das prioridades da pesquisa em saúde conhecer o perfil de risco cardiovascular e metabólico dos adolescentes brasileiros. Por meio de edital lançado em 2008, em parceria com a FINEP e o CNPq, foi aprovado financiamento para o Estudo de Risco Cardiovascular em Adolescentes (ERICA). Essa pesquisa vem sendo planejada há três anos e o seu estudo piloto está em curso em cinco cidades. O piloto avaliará os protocolos de aplicação dos instrumentos e da logística dessa complexa pesquisa. O objetivo principal do ERICA é estimar a prevalência de obesidade, resistência insulínica, diabetes tipo II, hipertensão arterial, dislipidemia e tabagismo, em uma amostra de 75 mil adolescentes de 12 a 17 anos, que frequenta escolas públicas e privadas de cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes.

Espera-se que os resultados do ERICA possam desenhar o mosaico da distribuição de fatores de risco cardiovascular, e de alguns fatores a eles relacionados, permitindo comparações regionais e o levantamento de hipóteses sobre determinantes do estado de saúde atual dos adolescentes. Embora o conhecimento existente já permita o delineamento de estratégias de prevenção e promoção de saúde, como as que têm sido conduzidas pelo Ministério da Saúde, a obtenção de informações mais detalhadas de curvas de peso, estatura, circunferência da cintura e pressão arterial poderá subsidiar políticas de saúde e servir como referência para futuras pesquisas na área de doenças não transmissíveis.

Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: cadernos@ensp.fiocruz.br