ARTIGO ARTICLE

 

Reprodutibilidade e validade relativa do Questionário de Frequência Alimentar do ELSA-Brasil

 

Reproducibility and relative validity of the Food Frequency Questionnaire used in the ELSA-Brasil

 

Reproducibilidad y validez relativa del Cuestionario de Frecuencia Alimentaria del ELSA-Brasil

 

 

Maria del Carmen Bisi MolinaI; Isabela M. BenseñorII; Letícia de Oliveira CardosoIII; Gustavo Velasquez-MelendezIV; Michele DrehmerV; Taísa Sabrina Silva PereiraI; Carolina Perim de FariaI; Cristiane MelereV; Lívia ManatoI; Andrea Lizabeth Costa GomesVI; Maria de Jesus Mendes da FonsecaIII; Rosely SichieriVII

IUniversidade Federal do Espírito Santo, Vitória, Brasil
IIHospital Universitário, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil
IIIFundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil
IVUniversidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil
VUniversidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil
VIUniversidade Federal da Bahia, Salvador, Brasil
VIIUniversidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Avaliou-se a reprodutibilidade e a validade do Questionário de Frequência Alimentar (QFA) utilizado no Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil). Foram aplicados três registros alimentares e um QFA em dois momentos no período de um ano (n = 281). Valores de energia e nutrientes dos registros alimentares foram deatenuados e Log transformados. Para avaliação da reprodutibilidade e validade foi aplicado o teste de correlação intraclasse (CCI) e calculados percentuais de concordância do consumo de nutrientes após categorização por tercis. Na avaliação da reprodutibilidade, coeficientes de CCI variaram de 0,55-0,83 para proteína e vitamina E, respectivamente; na avaliação da validade, variaram de 0,20-0,72 para selênio e cálcio, respectivamente. Concordâncias exata e adjacente entre métodos variaram de 82,9% para vitamina E a 89% para lipídio e cálcio (média = 86%). Foi encontrada uma discordância média de 13,6%. Conclui-se que o QFA ELSA-Brasil apresenta confiabilidade satisfatória para todos nutrientes e validade relativa razoável para energia, macronutrientes, cálcio, potássio e vitaminas E e C.

Dieta; Reprodutibilidade de Testes; Estudos de Validação; Questionários


ABSTRACT

This study evaluated the reproducibility and relative validity of the Food Frequency Questionnaire (FFQ) used in the Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (ELSA-Brasil). Participants (n = 281) completed the FFQ and three food records on two occasions during a 12-month period. Energy and nutrient values from food records were disattenuated and log-transformed. Reproducibility and validity were assessed by the intra-class correlation coefficient (ICC). Agreement between the two methods was evaluated by classification in tertiles. In the evaluation of reproducibility, ICC estimated ranged from 0.55 to 0.83 for protein and vitamin E, respectively. On relative validity, ICC ranged from 0.20 to 0.72 for selenium and calcium, respectively. Exact and adjacent agreement between methods varied from 82.9% for vitamin E to 89% for lipids and calcium (mean 86%). Average disagreement was 13.6%. In conclusion, this FFQ showed satisfactory reliability for all nutrients and reasonable validity, especially for energy, macronutrients, calcium, potassium, and vitamins E and C.

Diet; Reproducibility of Results; Validation Studies; Questionnaires


RESUMEN

Se evaluó la reproducibilidad y la validez del Cuestionario de Frecuencia Alimentaria (QFA), utilizado en el Estudio Longitudinal de Salud de Adultos (ELSA-Brasil). Se aplicaron tres registros alimentarios y un QFA en dos momentos durante el período de un año (n = 281). Valores de energía y nutrientes de los registros alimentarios se realizaron sin atenuación y log transformados. Para la evaluación de la reproducibilidad y validez se aplicó el test de Correlación Intraclase (CCI) y se calcularon los porcentajes de concordancia del consumo de nutrientes tras la categorización por terciles. En la evaluación de la reproducibilidad, coeficientes de CCI variaron de 0,55-0,83 en el caso la proteína y vitamina E, respectivamente; en la evaluación de la validez, variaron de 0,20-0,72 en el selenio y calcio, respectivamente. Concordancias exactas y adyacentes entre métodos variaron de un 82,9% en el caso de la vitamina E a un 89% en el lípido y calcio (media = 86%). Se encontró una discordancia media de un 13,6%. Se concluye que el QFA ELSA-Brasil presenta una confiabilidad satisfactoria para todos los nutrientes y validez relativa razonable en los casos la energía, macronutrientes, calcio, potasio y vitaminas E y C.

Dieta; Reproducibilidad de Resultados; Estudios de Validación; Cuestionarios


 

 

Introdução

Em estudos epidemiológicos de grandes populações, a avaliação da dieta tem sido comumente realizada para a identificação de determinantes da saúde e de desfechos crônicos, embora esta seja uma exposição de difícil mensuração. Por esse motivo, a avaliação da qualidade da medida é de extrema relevância para prover "veracidade" aos resultados encontrados 1. A investigação da dieta, em especial da dieta habitual, torna-se tarefa complexa, pois ela varia dia a dia. Neste sentido, torna-se fundamental obter instrumentos que permitam estimar a dieta usual.

No Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto - ELSA-Brasil, a dieta foi avaliada por meio do Questionário de Frequência Alimentar (QFA), aplicado em seis diferentes centros de investigação 2. Embora o QFA não tenha a mesma acurácia dos métodos de registro alimentar diário, ele permite, razoavelmente, estimar o consumo habitual em um longo período de tempo, com alto custo benefício, possibilitando a avaliação do consumo de nutrientes, alimentos e grupos de alimentos, além da identificação de padrões alimentares de seus participantes.

Ainda que útil em estudos epidemiológicos por sua praticidade e capacidade de informar sobre ingestão habitual, o QFA deve ser adaptado e validado para a população em estudo 3, principalmente quando se trata de estudos longitudinais de longo prazo. Assim sendo, instrumentos de coleta de dados já validados em outros países 4,5,6, bem como os desenvolvidos 7,8, e validados para grupos específicos da população brasileira 9,10 poderiam não ser apropriados para a avaliação da dieta dos participantes do ELSA-Brasil, tendo em vista as suas características sociodemográficas e a necessidade de evitar erros relacionados às restrições impostas por uma lista fixa de alimentos 11.

O objetivo deste estudo foi avaliar a confiabilidade e a validade relativa do QFA usando como padrão de referência o método de registro alimentar aplicado em uma subamostra do ELSA-Brasil.

 

Métodos

População e desenho do estudo

Os participantes deste estudo foram provenientes do ELSA-Brasil, investigação multicêntrica, com propósito de pesquisar longitudinalmente doenças crônicas, em particular, as cardiovasculares e o diabetes, em população adulta na faixa etária de 35-74 anos, de seis capitais em três regiões do Brasil (Sul, Sudeste e Nordeste). Essa coorte foi iniciada em 2008 com 15.105 participantes, servidores públicos de seis instituições de ensino ou pesquisa, dentre os quais servidores dos níveis de apoio, técnico e superior de seis centros de investigação 2. Participantes contatados no período de abril a maio de 2009 pela coorte foram escolhidos aleatoriamente para participarem do presente estudo. A amostra foi constituída por 150 homens e 150 mulheres, distribuídos nas faixas etárias de 35-54 anos e de 55-74 anos, nas três categorias de servidores estudados. Esse número amostral foi baseado em recomendações para estudos similares 11,12.

O QFA foi aplicado duas vezes, no primeiro contato com o participante (QFA1) e ao final deste estudo (QFA2); houve também três registros alimentares, aplicados em três momentos distintos entre os dois QFA. Antes de todos os procedimentos, foi realizado treinamento da equipe responsável pela coleta de dados em cada centro de investigação, utilizando manual próprio. A aplicação do QFA2 foi realizada em todos os centros de investigação no mês de outubro de 2010, seguindo as mesmas técnicas para aplicação do instrumento na linha de base. Os participantes registraram seu consumo alimentar de 24 horas em três momentos, com intervalo de quatro meses entre cada um deles, a fim de captar a sazonalidade da alimentação ao longo do ano: o primeiro em outubro de 2009; o segundo e o terceiro em março e agosto de 2010, respectivamente. Todos os centros de investigação realizaram a coleta de dados no mesmo período. Tendo em vista que se trata de um estudo multicêntrico, o projeto do ELSA-Brasil foi aprovado no Comitê Nacional de Ética em Pesquisa, bem como nos comitês de cada instituição envolvida 2.

Questionário de Frequência Alimentar

O questionário QFA semiquantitativo, contendo 114 itens alimentares, foi aplicado com objetivo de avaliar o consumo habitual dos participantes nos últimos 12 meses. Esse questionário foi construído a partir de um QFA desenvolvido e validado no Brasil na década de 1990, com lista de alimentos baseada em dados de inquéritos populacionais realizados na década de 1980 13. O QFA ELSA-Brasil foi desenvolvido com base em estudo prévio nos seis centros de investigação. Foram aplicados cem recordatórios de 24 horas (R24h) em indivíduos não elegíveis para o estudo, porém com características semelhantes às dos participantes ELSA (mesma faixa etária, sexo e local de trabalho). Entrevistadores treinados aplicaram 50 R24h em indivíduos com nível de escolaridade superior e cinquenta naqueles com Ensino Fundamental. Entre os R24h adequadamente avaliados, metade era relativa a um dia de semana (segunda a sexta-feira) e a outra metade a um dia de final de semana (sábado ou domingo). Para padronizar a aplicação dos R24h, foi elaborado protocolo específico com manual de instruções, tendo sido utilizado, durante sua aplicação, álbum fotográfico de porções de alimentos e utensílios alimentares. Após análise, foram obtidas frequências para itens registrados nos formulários.

A lista preliminar de alimentos do QFA ELSA-Brasil continha, além dos alimentos da versão original, alimentos/preparações e bebidas registradas nos R24h (como arroz, feijão), com frequência de consumo maior que 10%. Posteriormente, foi avaliada a inclusão dos alimentos típicos ou comuns em cada Estado do estudo e, por decisão dos pesquisadores, foram incluídos até dois itens regionais ou marcadores de consumo diferenciado, como comida baiana e acarajé (Bahia), chimarrão e cuca (Rio Grande do Sul), cuscuz paulista e comida japonesa (São Paulo), feijoada (Rio de Janeiro), pão de queijo e feijão tropeiro (Minas Gerais) e moqueca capixaba e banana da terra frita (Espírito Santo).

O QFA ELSA-Brasil está estruturado em três seções: (1) alimentos/preparações, (2) medidas de porções de consumo e (3) frequências de consumo, com oito opções de resposta: "mais de 3 vezes/dia", "2-3 vezes/dia", "1 vez/dia", "5-6 vezes/semana", "2-4 vezes/semana", "1 vez/semana", "1-3 vezes/mês" e "nunca/quase nunca". Os participantes foram questionados por meio da leitura de uma lista de alimentos que consumiram habitualmente nos últimos 12 meses e estimulados a responder quantas vezes o consumo se deu por dia, semana ou mês. Um cartão de respostas com as opções de frequência de consumo era dado ao participante e explicado o seu uso a fim de facilitar sua escolha, sem necessidade de memorização. Esse procedimento foi adotado para a aplicação de várias escalas do questionário do ELSA-Brasil; sua formatação, incluindo tipo e tamanho de letra e papel, foi padronizada em todos os centros de investigação. Um kit de utensílios padronizado foi incorporado no momento da aplicação do QFA, também em todos os centros, para facilitar a identificação das medidas caseiras.

Registro alimentar

O participante foi estimulado a registrar, em detalhes, todos os alimentos e bebidas consumidos no dia determinado, conforme manual de aplicação, elaborado especialmente para este fim. No primeiro contato com o participante, foram fornecidas informações escritas e orais, sendo entregue um álbum no qual constavam fotos de utensílios em tamanho real para estimar o tamanho da porção/volume consumido, bem como os dias da semana e do mês em que deveriam registrar o seu consumo alimentar. Todos os participantes foram agendados para confirmar a data para realização dos registros alimentares e a data em que o registro preenchido seria conferido e recolhido.

A representatividade de todos os dias da semana e final de semana na proporção 5:2 foi garantida por meio de uma ordenação dos registros previamente especificada. Os participantes foram agrupados segundo sexo e receberam um número de 1 a 25 que determinava os dias da semana nos quais seriam realizados os registros alimentares: participantes de número 1, 6, 11, 16 e 21 preencheram os registros relativos às segundas, quartas e sextas-feiras; participantes de número 2, 7, 12, 17 e 22, registravam às terças, quintas e sábados; participantes de número 3, 8, 13, 18 e 23 faziam os registros relativos às quartas, sextas e domingos; os de número 4, 9, 14, 19 e 24, registravam às quintas, sábados e segundas; por fim, participantes de número 5, 10, 15, 20 e 25 preencheram os registros relativos às sextas, domingos e terças-feiras.

Estimativa da composição nutricional

A composição nutricional dos itens alimentares incluídos no QFA e dos relatados nos registros alimentares foi estimada a partir da sua identificação no banco de dados do Nutrition Data System for Research (NDSR), da Universidade de Minnesota 14, na Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TACO) e da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP 15, para um único alimento, a farinha de mandioca. Na TACO, muitos alimentos ainda são apresentados apenas na sua forma crua; em adição, a tabela também não apresenta muitos nutrientes fundamentais para análise em estudos sobre doenças crônicas, como, por exemplo, o ácido fólico.

A escolha da tabela internacional deve-se ao fato de esta possibilitar a análise de maior número de nutrientes e substâncias presentes nos alimentos/preparações, pois a base de dados do NDSR inclui mais de 18 mil alimentos e sete mil produtos industrializados; além disso, é possível escolher ingredientes e formas de preparação como parte do processo de extração de dados dietéticos. Sua atual versão inclui 160 nutrientes e outros componentes alimentares, sendo os novos nutrientes e componentes adicionados em uma base contínua para atender às necessidades emergentes de investigação.

A composição nutricional de preparações regionais foi calculada com base nos componentes individuais de cada preparação, conforme receitas provenientes de publicações técnicas de instituições de ensino e pesquisa. Foram observadas diferenças na composição de nutrientes de algumas preparações entre a tabela adotada e a TACO. Nos casos em que as diferenças mostraram-se muito importantes, principalmente nas receitas, foram feitos ajustes no momento de incluir a quantidade de óleo, gordura, açúcar, tendo como exemplo o feijão.

Para cada 100g de parte comestível dos alimentos e preparações, foram calculados os valores de energia total (kcal), carboidratos (g), proteínas (g), lipídios (g), fibra (mg), cálcio (mg), ferro (mg), potássio (mg), selênio (mcg), zinco (mg), vitamina A (UI), vitamina C (mg) e vitamina E (mg).

Para a quantificação dos nutrientes provenientes do QFA, foi elaborada uma planilha no programa Excel, versão 2010 (Microsoft Corp., Estados Unidos), com base no cálculo: quantidade de porções consumidas por vez X peso/medida da porção X frequência de consumo X composição nutricional da porção do alimento.

Análise dos dados

Em virtude da ocorrência de variabilidade intraindividual no consumo alimentar, os valores obtidos nos registros alimentares foram deatenuados (razão entre as variabilidades intraindividual e a entre os indivíduos), utilizando o programa PC-SIDE (Department of Statistics, Iowa State University, Iowa, Estados Unidos), desenvolvido pelo National Research Council e Iowa State University 16,17. Esse processo resultou em uma estimativa dos valores individuais de energia e nutrientes. Como recomendado, foi realizado o ajuste pela energia usando o método residual a fim de corrigir as estimativas de nutrientes pela ingestão de energia total 18.

Para todos os nutrientes examinados, foi verificada a normalidade, estimadas as médias e desvios-padrão, usando-se testes estatísticos apropriados. Para os que não apresentavam distribuição normal, foi feita a transformação logarítmica ou utilizada estatística não paramétrica. Adicionalmente, foram construídos gráficos de dispersão de Beanplot entre valores centesimais de energia e nutrientes do QFA2 e registros alimentares. Essa proposta representa a combinação de um gráfico de dispersão unidimensional com uma curva de densidade estimada 19. Para as análises de reprodutibilidade e validade do QFA, foram calculados os coeficientes de correlação intraclasse (CCI) entre o QFA1 e o QFA2. Para avaliar o grau de erro de classificação inadequada, a ingestão de energia e nutrientes por todos os participantes foi categorizada em tercis, calculando-se o percentual de concordância exata (mesmo tercil), adjacente (tercis adjacentes) e discordante (tercis opostos). Para avaliar diferenças e vieses de valores de energia e nutrientes calculados entre métodos (QFA2 - registros alimentares), foram construídos gráficos com as diferenças absolutas entre os valores no eixo das ordenadas e a média de ingestão obtida por meio dos três registros alimentares nas abscissas, de acordo com Bland & Altman 20. Todas as análises estatísticas foram realizadas utilizando o programa SPSS, versão 18.0 (SPSS Inc., Chicago, Estados Unidos).

 

Resultados

Da amostra inicial de trezentos participantes, sete não realizaram o terceiro registro e 12 não responderam ao segundo QFA. Essas perdas ocorreram devido a falecimento, viagem no período da aplicação do QFA, internação hospitalar e desistência do participante. Portanto, a amostra final foi composta por 281 participantes, 136 (48,4%) homens e 145 (51,6%) mulheres; 154 (54,8%) na faixa etária de 35-54 anos e 127 (45,2%) entre 55 a 74 anos de idade. Cerca de 40% dos participantes pertencia à categoria funcional de nível técnico, e os percentuais de participantes de cada centro de investigação - Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Universidade Federal de Minas Gerais - variaram de 15,3% a 18,9%, respectivamente.

A Tabela 1 apresenta as médias (brutas e ajustadas para energia) e desvios-padrão das variáveis (energia e nutrientes) obtidas do QFA1 e QFA2. Observa-se alta variabilidade na ingestão de energia e nutrientes nas duas aferições. A média de ingestão de energia e de todos os nutrientes analisados foi menor no QFA2, quando comparada com a do QFA1. Após o ajuste para energia, observaram-se valores médios maiores no QFA2 para carboidrato, fibras, ferro, potássio e zinco. Na mesma tabela, também podem ser observadas as correlações e a concordância entre energia e os nutrientes aferidos no QFA nos dois momentos. Valores de CCI ajustados para energia variaram de 0,55 (proteína) a 0,83 (vitamina E). De forma geral, observa-se que valores de CCI entre os micronutrientes foram mais altos que os valores encontrados entre os macronutrientes. Estes últimos variaram de 0,55 a 0,69, respectivamente proteína e lipídio, indicando concordâncias regulares e razoáveis. No que diz respeito ao percentual de concordância entre métodos, a média da concordância exata para todos os nutrientes foi de 42%, variando entre 37,4% e 47,7% para selênio e cálcio, respectivamente; os mesmos nutrientes apresentaram o maior e menor valor de percentual de discordância.

Na Figura 1, observa-se que há diferença entre os perfis de distribuição energética obtida pelo QFA2 e a ingestão energética diária obtida pelos registros alimentares. No caso do QFA2, a energia apresenta maior média, maior amplitude, maiores valores de outliers, bem como uma concentração de ingestão entre 1.800kcal-4.800kcal. No entanto, a distribuição energética medida pelos registros alimentares possuem maior simetria e maior concentração de indivíduos apresentando ingestão entre os valores de 1.800kcal-3.000kcal. Similarmente, houve maior amplitude nos valores da ingestão de carboidratos estimados pelo QFA2 do que pelos registros alimentares, com a maior concentração de indivíduos apresentando ingestão entre 280g e 500g de carboidratos. A média de ingestão também foi maior quando mensurada pelo QFA2. Observa-se valor mais alto de média de ingestão de proteínas encontrada pelo QFA2 e maior amplitude. O gráfico de Beanplot para os registros alimentares mostra maior simetria da distribuição da ingestão. Os valores de ingestão de lipídios estimados pelo QFA2 e pelos registros alimentares tiveram uma distribuição semelhante no que diz respeito à amplitude, embora a média de ingestão medida pelo QFA2 tenha sido mais alta.

Na Tabela 2, são apresentadas as médias de ingestão de energia e nutrientes tanto dos QFA2, quanto dos registros alimentares, e os CCI entre os dois métodos. Para energia, o CCI foi de 0,51; já para os macronutrientes, foram encontrados valores mais baixos, os quais variaram de 0,38 (proteína) a 0,44 (lipídio). Para os micronutrientes, os valores de CCI variaram de 0,72 (cálcio) a 0,20 (selênio). Quando analisado o percentual de concordância entre o QFA2 e os registros alimentares, foi possível observar valores entre 36,6% e 48% para fibras e cálcio, respectivamente. O percentual médio de discordância entre métodos foi de 13,6%, variando entre 11% (cálcio) a 17,1% (vitamina E).

Na Figura 2, está representado o gráfico de dispersão das diferenças entre os métodos (QFA2 e registros alimentares) para energia e nutrientes selecionados (carboidrato, ferro e zinco). A média da diferença de energia foi de 783kcal (limite superior de concordância - LSC = 3445,8kcal; limite inferior de concordância - LIC = -1879,8kcal). Para carboidratos, essa diferença foi de 85g (LSC = 163,6g; LIC = -6,57g). O ferro apresentou diferença média de ingestão entre os métodos na ordem de 9,35mg, com LSC igual a 14,58mg e LIC igual 4,12mg. Para o zinco, foi observada diferença média de 7,45mg com LSC igual a 13,8mg e LIC igual a 1,33mg.

 

Discussão

Os resultados das análises de validade do questionário estudado mostram que o QFA avaliado neste estudo apresentou desempenho razoável. No que diz respeito à reprodutibilidade do QFA, foram encontrados valores de CCI (0,55-0,83) similares aos observados em outros estudos 21,22; da mesma forma, os valores de concordância encontrados nas análises de validade (0,20-0,72) também se mostraram compatíveis com achados de pesquisas semelhantes 21,22,23,24. Estudos similares apresentam frequentemente valores de coeficiente de correlação entre 0,4 a 0,7, que são considerados como de razoável reprodutibilidade e validade 11.

As médias de ingestão de energia e dos nutrientes avaliados foram maiores no QFA, quando comparadas à média de ingestão dos três registros alimentares, resultados também encontrados por Zanolla et al. 22 e Ribeiro et al. 23. A superestimação dos valores provenientes do QFA, no presente estudo, pode ser atribuída a características inerentes ao próprio instrumento, lista ampla de alimentos e a não exclusão dos valores extremos. A média de energia, excluindo os valores de participantes com ingestão energética acima de 5.000kcal (7,8% da amostra), passou de 2.982 ± 1.456kcal para 2.684 ± 890,1kcal, aproximando-se da média de estudos semelhantes 18,25. Maleskshah et al. 26 encontraram valor de ingestão energética de aproximadamente 2.700kcal apenas para o grupo de participantes do sexo masculino em estudo longitudinal.

A concordância entre os métodos a partir da comparação dos tercis também mostrou bom desempenho do QFA, pois foi encontrada concordância exata variando de 36,6% (fibras) a 44,5% (energia), com média de 42,2%. Quando somadas as concordâncias exata e adjacente, os valores variaram de 82,9%, para vitamina E, a 89%, para lipídio e cálcio, com média de 86,3%. Por outro lado, foi encontrada discordância média de 13,6%. Para a reprodutibilidade, a média da concordância exata encontrada foi de 42%. Para a concordância exata mais adjacente, houve uma variação de 83,6% a 89%, sendo a média da discordância de 13,4%. Tais resultados são semelhantes ou superiores aos encontrados em outros estudos 27,28.

É importante salientar que todos os métodos de referência possuem limitações, sendo importante adequar o melhor método a cada estudo. Para o estudo de validade do QFA ELSA-Brasil, fatores como o período de tempo ao qual o método em estudo se refere (12 meses) e a inexistência de erros correlacionados entre o método de referência e o método em estudo foram considerados para justificar a eleição do método "padrão-ouro".

No delineamento do estudo, vários cuidados foram implementados a fim de garantir a qualidade das informações. A coleta de dados realizou-se no período de um ano, permitindo a avaliação do consumo sazonal de alimentos 29, detalhe importante por se tratar de um estudo multicêntrico com possíveis variações regionais na alimentação entre os seis centros. Sobre o tamanho amostral, foi suficientemente grande e heterogêneo (sexo, idade, categoria funcional) para garantir um bom poder estatístico. Mesmo que o participante tenha recebido orientações para o preenchimento detalhado de seu registro alimentar, no momento do recebimento deste, os pesquisadores realizaram uma revisão do registro de modo a possibilitar a correção de possíveis erros na tentativa de evitar qualquer tipo de incompletude inerente à técnica. Dos trezentos participantes arrolados para este subestudo, 281 (93,7%) participaram de todas as etapas da coleta de dados, representando, assim, boa adesão ao protocolo de pesquisa, embora a duração do estudo fosse relativamente extensa.

Além disso, foram utilizadas técnicas de comparação relativas à reprodutibilidade e validade como o CCI, que permite a avaliação da concordância exata entre as variáveis analisadas, sem pressupor um tipo de relação linear, como seria o caso do uso da correlação de Pearson. Foram calculadas, também, as concordâncias de classificação em tercis que são recomendadas por Serra-Majem et al. 30 para a avaliação da qualidade de estudos de validação de dieta.

 

 

Não obstante serem conhecidas as limitações do uso de um questionário de frequência alimentar, algumas vantagens desse método sobre outros podem ser ressaltadas, tais como: é de simples análise, tem baixo custo, não modifica o consumo ao longo do tempo, provê dados para os alimentos diretamente e pode melhorar a análise de nutrientes com grande variação intraindividual 11. Por outro lado, a perda de detalhes do consumo alimentar é relatada em estudos que utilizaram o QFA 31.

 

Conclusão

Levando-se em consideração os resultados deste estudo, o QFA do ELSA-Brasil poderá ser utilizado com validade relativa razoável na classificação dos participantes segundo níveis de ingestão. É possível identificar muitas possibilidades de análise da dieta e importantes contribuições para o conhecimento da sua relação com as doenças crônicas na população estudada.

Ainda que já exista conhecimento acumulado significativo sobre o tema, quase todos os estudos de coorte que analisaram essas relações foram realizados no hemisfério norte. Portanto, uma das principais contribuições desta análise será a de identificar características particulares de nossa dieta e sua relação com outros fatores específicos da população brasileira e com os desfechos estudados no ELSA Brasil.

 

Colaboradores

M. C. B. Molina contribuiu na concepção do projeto, análise e interpretação dos resultados, redação do artigo e aprovação final da versão a ser submetida. C. P. Faria contribuiu na concepção do artigo, análise e interpretação dos resultados e redação do artigo. M. J. M. Fonseca contribuiu na revisão do manuscrito e na aprovação do manuscrito a ser submetido. A. L. C. Gomes contribuiu na concepção do projeto e na aprovação final da versão a ser publicada. M. Drehmer e C. Melere contribuíram na concepção do projeto, na análise e interpretação dos dados e redação do artigo. L. Manato contribuiu na análise dos dados, interpretação dos resultados e na redação do artigo. T. S. S. Pereira contribuiu na coleta e análise de dados, interpretação dos resultados e redação do artigo. G. Velasquez-Melendez contribuiu na concepção do projeto, interpretação dos resultados, redação do artigo e revisão crítica relevante do conteúdo intelectual. L. O. Cardoso contribuiu com a concepção do projeto, interpretação dos resultados e redação do artigo. I. M. Benseñor contribuiu na concepção do projeto, redação do artigo, revisão crítica relevante do conteúdo intelectual e na aprovação final da versão a ser publicada. R. Sichieri contribuiu na concepção do projeto, interpretação dos resultados, revisão crítica relevante do conteúdo intelectual e na aprovação final da versão a ser publicada.

 

Agradecimentos

Ao Prof. Dr. José Geraldo Mill, pela valiosa contribuição na discussão dos resultados. Ao CNPq, FINEP e DECIT/MS pelo financiamento.

 

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Endereço para correspondência:
M. C. B. Molina
Universidade Federal do Espírito Santo
Av. Marechal Campos 1468
Vitória, ES 29000-000, Brasil
mdmolina@uol.com.br

Recebido em 28/Mar/2012
Versão final reapresentada em 29/Ago/2012
Aprovado em 03/Out/2012

Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: cadernos@ensp.fiocruz.br