RESENHAS

 

Racionalidades médicas e práticas integrativas em saúde: estudos teóricos e empíricos

 

 

RACIONALIDADES MÉDICAS E PRÁTICAS INTEGRATIVAS EM SAÚDE: ESTUDOS TEÓRICOS E EMPÍRICOS. Luz MT, Barros FB. Rio de Janeiro: Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro/ABRASCO; 2012. 452p. (Coleção Clássicos para Integralidade em Saúde). ISBN: 978-85-89737-71-5

Este livro é fruto de 20 anos de trabalho do grupo liderado por Madel T. Luz, conhecido atualmente como Grupo Racionalidades Médicas e Práticas de Saúde, do Diretório de Grupos de Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Constituído por 16 capítulos de diferentes autores, o livro se divide em duas partes, Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas em Saúde, respectivamente. Organizado por Madel T. Luz e Nelson Filice de Barros, o livro traz importantes reflexões sobre o Campo da Saúde Coletiva e a construção do conhecimento em racionalidades médicas/práticas integrativas em saúde.

A primeira parte referente à racionalidade médicas apresenta conclusões teóricas, além de um estudo empírico que evidencia a contribuição deste conceito para o campo da saúde coletiva. O conceito de racionalidades médicas é construído como um tipo ideal weberiano, o qual descreve/interpreta um conjunto de fenômenos observáveis de acordo com um modelo ideal logicamente definido, que é a posteriori comparado com realidades empíricas particulares específicas para estabelecer se estas se enquadram ao conceito ideal-típico. Isso difere do conceito clássico grego, em que procura-se explicar um fenômeno por uma operação lógica a priori, o que supõe o paradigma da causalidade, no qual busca-se uma lei que representaria o real.

O tipo ideal é, portanto, um constructo lógico que traz como principal benefício a desnaturalização da superioridade do conhecimento científico ocidental, colocando a medicina ocidental contemporânea em igual patamar de análise com os demais sistemas médicos que coexistem no mundo.

Racionalidades médicas é, assim, todo o sistema médico complexo construído sobre seis dimensões: uma morfologia humana, uma dinâmica vital, uma doutrina médica (o que é estar doente ou ter saúde), um sistema diagnóstico, uma cosmologia e um sistema terapêutico.

Essas seis dimensões, ao serem aplicadas à realidade, permitem tecer estudos comparativos entre sistemas médicos de origens culturais diferentes como as medicinas tradicionais chinesa e ayurvédica, a homeopatia e a medicina ocidental contemporânea, situando-as no contexto sócio-histórico contemporâneo, pois os sistemas médicos, principalmente os saberes tradicionais, não existem sem história e têm a capacidade de estarem sempre sendo modificados pelos atores sociais, apresentando continuidade teórico-prática entre passado e presente.

É possível a partir daí traçar paralelismos e convergências entre as racionalidades médicas orientais e a homeopatia, que são sistemas que enxergam o ser humano em sua relação com seus pares e seu meio, buscando a promoção do equilíbrio dinâmico de sua energia vital, que varia de acordo com sentimentos/pensamentos, as relações familiares e sociais e os comportamentos dos indivíduos, estando embasados, por tanto, no chamado paradigma vitalista, que enxerga o corpo como uma totalidade bioenergética.

Em contrapartida a medicina ocidental contemporânea possui como cosmologia a mecânica clássica e sua noção cartesiana de universo e corpo humano como máquinas, em que prevalece a proposição de leis de aplicação geral e ignora-se a multicausalidade em benefício de causas lineares (as patologias seriam causadas por um micro-organismo, um vírus ou um defeito genético na "máquina"). Essa racionalidade assume como foco central a diagnose das doenças (dos defeitos da máquina), tendência crescente com os avanços tecnológicos dos últimos 50 anos, deixando a terapêutica para segundo plano: "trata-se de uma medicina de máquinas para (preservação de) máquinas" (p. 235).

Conclui-se assim que "racionalidades médicas é um operador conceitual que permite analisar ou comparar sistemas médicos complexos em perspectiva teórica, analítico-descritiva, ou empírica, seja globalmente, como um todo, seja dimensão a dimensão" (p. 219). Portanto, essa ferramenta teórica abriu um campo fecundo de conhecimento que permite estudar as relações entre distintos sistemas médicos e suas representações de corpo, saúde, doença e tratamento e a aplicabilidade das práticas integrativas nos serviços públicos de saúde.

A segunda parte deste livro é composta por oito artigos que abordam as práticas integrativas em saúde, sua metodologia, institucionalização, paradigma, base sociológica e discute algumas pesquisas do respectivo tema. Doravante, a metodologia de pesquisa em PIS é levantada a questão de sua validação por meio de estudos clínicos randomizados, já que estes visam a uma homogeneização do tratamento para indivíduos diferentes; as práticas integrativas em saúde, por sua vez, possuem uma abordagem altamente subjetiva que considera outros fatores além do biológico, como o emocional, social e energético, quando se busca validá-las por estudos clínicos randomizados esvazia-se toda a sua lógica de funcionamento e os resultados são oscilantes e discordantes.

Isso demonstra que a pesquisa em práticas integrativas em saúde exige uma pluralidade científica que valide outros modos de saber, como, por exemplo, a pesquisa qualitativa que inclui a experiência subjetiva do indivíduo. Outro contraponto para a validação por meio da realização de estudos clínicos convencionais é de estes necessitarem da separação entre objeto e observador para serem considerados válidos, o fato de se utilizar este instrumento na validação das práticas integrativas em saúde desvirtua a lógica das mesmas, por estas estarem apoiadas em uma fenomenologia profunda, na qual há uma conexão entre observador e objeto em que o observador interfere diretamente no objeto observado. Portanto, os resultados provenientes da aplicação das práticas integrativas em saúde estão diretamente ligados à relação terapeuta/doente.

Uma forma alternativa de validação das racionalidades médicas/práticas integrativas em saúde é por meio do processo sociopolítico, que teve início com a contracultura nas décadas de 1960/1970, e trouxe de volta as medicinas vitalistas como a medicina chinesa e a homeopatia, que propõem um novo modelo de atenção em contraponto ao modelo alopático que é eficiente em manter o paciente alienado de sua própria situação; isto decorre do fato da biomedicina conceber a doença como agente externo, o que gera uma falta de consciência e autorresponsabilidade do indivíduo sobre sua própria saúde, retirando-lhe a oportunidade de autoconhecimento e o poder pessoal de autotransformação que o processo saúde/doença oferece. Diferentemente, a medicina vitalista tem como premissa esse processo como um desequilíbrio da energia vital que pode ser restituída pela tomada de consciência e autotransformação. O movimento político das racionalidades médicas/práticas integrativas em saúde tem crescido nestas últimas décadas devido à falta de confiança na medicina contemporânea, no poder de cura de seus agentes oficiais e insatisfação no relacionamento médico-paciente; contudo devido a este crescimento e institucionalização das racionalidades médicas/práticas integrativas em saúde, sua proposta inicial de mudança de modelo de cuidado está ameaçada devido à incorporação destas práticas ao modelo biomédico hegemônico.

A relação com o corpo também marca a cultura das práticas integrativas em saúde, os autores contam a história do bodybuilding e realizam uma crítica de como tornar um corpo forte com caráter obediente e dócil é o reflexo da articulação do biopoder e da biopolítica. Em contraponto a essa cultura do bodybuilding, os autores apresentam outra pesquisa com práticas corporais terapêuticas aplicadas a pacientes com fibromialgia, demonstrando como estas podem proporcionar elementos que a biomedicina negligencia, como a dimensão dos sentidos e a relação com o corpo e a doença, proporcionando aos participantes novos valores por meio da gestualidade e da consciência corporal, estimulando o autoconhecimento corporal e o reencontro do sujeito consigo.

A pesquisa em racionalidades médicas/práticas integrativas em saúde anuncia o alvorecer de um novo paradigma em saúde, permitindo o aprofundamento do estudo comparativo de distintos sistemas médicos e sua aplicabilidade no sistema público de saúde, contribuindo assim para o desenvolvimento de um novo modelo de assistência que promove a integralidade do cuidado e a pluralidade dos saberes.

 

 

Pedro Mourão Roxo da Motta
Universidade Estadual de Campinas, Campinas, Brasil.
terapeutapedromotta@hotmail.com

Ricardo de Almeida Marchiori
Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo, Brasil.
ric.marchiori@gmail.com

Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: cadernos@ensp.fiocruz.br