A medicina no Brasil imperial: clima, parasitas e patologia tropical. Edler FC. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2013. 298 p.

Claudio Bertolli Filho
Edler, FC. A MEDICINA NO BRASIL IMPERIAL: CLIMA, PARASITAS E PATOLOGIA TROPICAL. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2013. 298. 978-85-7541-215-2

Os estudos sociais da ciência, mais especificamente da história social da medicina, no referente ao século XIX, ainda é pouco privilegiado pelos pesquisadores brasileiros, que em bloco tendem a privilegiar as análises sobre o período republicano. Desse vício historiográfico decorre a consagração de uma série de pressupostos errôneos, como aquele que vislumbra o Oitocentos como um século que, no campo dos debates e das práticas médicas, apenas dedicou-se à reprodução do que era proposto na Europa. Em consequência, avalia-se que, no contexto brasileiro, o século XIX seria, sobretudo, o território da tradição e da medicina pré-científica, ao qual é contraposto o momento seguinte, emblematizado pela modernidade científica representada pela vida e pelos feitos de Oswaldo Cruz e seus discípulos diretos.

Opondo-se a essa perspectiva caricatural, incorporada inclusive por pesquisas recentes, Flavio Edler premia o leitor com uma obra em muitos pontos original e instigante, tendo como ponto de análise a superação da doutrina que tinha como fundamento a determinação climática das doenças pela geografia médica dos trópicos e, conjuntamente, a constituição do campo da helmintologia médica. Para focar as novidades científicas, o autor baseia-se menos nos supostos de ruptura pura e simples e bem mais nas noções de conflito, negociação e disputa intraprofissional pelos postos de destaque na hierarquia médica imperial. Tal postura, ancorada em vasta bibliografia, permite que o texto apresente a fluência do processo de elaboração de novas propostas médicas a partir de 1860, evitando com isso o comodismo dos pesquisadores que apologizam a existência de uma “revolução” na qual o “novo” substituiu o “velho” científico sem crises, tensões e disputas.

Valendo-se de um enfoque epistêmico, o autor explica o advento e o aceite pela comunidade científica de um novo paradigma explicativo das helmintíases, deslocando o olhar da macro-história, que observa as ciências como reprodutora das grandes estruturas da sociedade, para a micro-história, que coloca em destaque as instituições científicas e seus atores privilegiados.

Primeiramente, Edler destaca o florescimento da geografia médica, sobretudo na França, onde os Archives de Médecine Navale tornaram-se o principal canal de pronunciamento da nova proposta médica, escudada nos interesses colonialistas, abordando temas como a capacidade de o europeu aclimatar-se nas regiões tropicais. Nesse curso, a geografia médica e a estatística fomentaram uma nova concepção de meio ambiente e contribuíram para a constituição da medicina tropical que, em uma de suas pontas, travou os primeiros embates com visões mais tradicionais que, fomentadas desde Hipócrates, usavam o meio climato-telúrico como explicação de uma vasta variedade de patologias.

Na sequência, o autor se volta mais detidamente para a formulação da helmintologia médica, vale dizer, para as observações que indicavam a ação dos vermes no organismo humano como causadoras de múltiplas enfermidades. O movimento que se prolongou por décadas e que favoreceu o surgimento da helmintologia como especialidade ganhou impulso com a disseminação do uso do laboratório e do microscópio, o que permitiu não só a identificação e classificação dos parasitas como também a definição de uma nomenclatura patológica clara e, em resultado, um conjunto de técnicas de diagnósticos, terapêuticas e prognósticos que conferiu um novo status a quem dominasse os novos conhecimentos. A disposição de novos critérios de validação da pesquisa científica permitiu colocar de vez por terra a hipótese da geração espontânea dos vermes, assim como propiciou a organização de um grupo de especialistas que reclamava para si a autoridade intelectual para decidir sobre as questões propostas pelos vermes, inclusive no plano do ensino médico.

Deslocadas para o cenário nacional, as discussões forjadas na Europa ganharam uma dimensão peculiar. A Academia Imperial de Medicina, responsável não só por sacramentar a doutrina médica que a comunidade hipocrática deveria praticar, mas também por estabelecer a hierarquia institucional de seus membros, conferia legitimidade aos ensinamentos metereopatológicos. O posicionamento oficial da Academia, sobretudo na voz de um de seus principais membros, o barão João Vicente Torres Homem, indicava que o clima tropical, aliado à alimentação e à precariedade de observância das regras de higiene, eram os elementos causadores da hipoemia, uma anemia que poderia levar à óbito, e os vermes encontrados no duodeno do paciente eram desprezados como agentes explicadores da enfermidade.

Apesar do poder institucional da Academia, posturas destoantes chegaram a público, colocando por terra o suposto que a medicina nacional configurava-se como um bloco monolítico no transcorrer do século XIX. Otto Henry Wucherer, após graduar-se em medicina na Universidade de Tubingen (Alemanha) e residir na Inglaterra e em Portugal, passou a clinicar na Bahia, onde, com o apoio da literatura internacional e de um grupo de médicos locais, desenvolveu pesquisas que o levaram a pontificar que tanto a ancislostomose (conhecida como hipoemia) quanto afilariose de Bancroft eram patologias verminóticas, insurgindo-se contra os ensinamentos defendidos por Torres Homem.

Para ampliar seu poder de diálogo, Wucherer e seus seguidores responsabilizaram-se inclusive pela publicação de um periódico, a Gazeta Médica da Bahia, abrindo com tal atitude um canal próprio e não escudado pela Academia Imperial de Medicina para expor seus achados. O embate intelectual entre o grupo baiano e a Academia estava declarado, mas não sob a forma heroica que ele geralmente é apresentado na maior parte da bibliografia nacional e internacional sobre o assunto.

Nesse tópico, Edler opõe-se à falácia sobre a existência de uma Escola Tropicalista Baiana, que teria como “heróis fundadores”, além de Wucherer, os médicos Silva Lima e John Paterson. Para o autor, não é possível falar na existência de uma “escola”, mas sim em um grupo de pesquisadores que dialogavam com seus pares internacionais, incorporando as novas propostas científicas e encontrando eco com a publicação de seus achados em revistas internacionais. Além disso, Edler também rejeita a ideia de ter havido um confronto declarado entre os médicos da Bahia e a Academia Imperial de Medicina, isso porque vários membros da Academia acataram as conclusões de Wucherer e seus colaboradores e, quando a proposta baiana baseadas na parasitologia foi levada à discussão na instituição carioca, a questão foi considerada inconclusiva pelos acadêmicos.

A validação das pesquisas do grupo liderado por Wucherer foi pouco a pouco sendo concedida pelos cientistas internacionais, ficando claro que os médicos brasileiros destoantes do posicionamento da Academia participavam vigorosamente da rede internacional de discussões sobre os vermes, contribuindo e não apenas reproduzindo as ideias que levaram a helmintologia a se tornar um campo científico. Mesmo assim, Torres Homem, até o final de sua vida, dedicou-se à defesa da ação do clima na produção das enfermidades, pois, se abrisse mão de seu ideário, estaria colocando em risco o próprio poder da Academia, que passara a dirigir, e as posições hierárquicas dos profissionais que a Academia defendia.

No final, a admissão dos pressupostos da helmintologia médica configurou-se como um dos episódios que definiu a incorporação da medicina tropical como um novo paradigma de estudo das doenças humanas. Tal fato resultou em um reposicionamento da hierarquia médica nacional, que passou a privilegiar os especialistas que tinham seu saber forjado nos laboratórios e na medicina experimental. Tal fato também repercutiu no ensino médico, com a incorporação de novas disciplinas que colocavam por terra a dominância da anatomoclínica como elemento fundamental da produção de novos saberes.

A erudição que alimenta o texto de Flavio Edler resultou neste livro, que se revela uma contribuição singular aos estudos sociais da medicina brasileira. Se seu foco foi a helmintologia médica, o modelo de análise incorporado em seu estudo aflora como um claro indício de que os estudos históricos da medicina e da saúde apresentam-se renovados e comprometidos em preencher lacunas de temas ainda não suficientemente explorados e, mais do que isso, capacitados para desvendar alguns pressupostos falaciosos que ainda nutrem boa parte da historiografia médica nacional.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Fev 2014
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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