À PROCURA DE UM MUNDO MELHOR: APONTAMENTOS SOBRE O CINISMO EM SAÚDE

Paulo Leonardo Ponte Marques Antônio Rodrigues Ferreira Júnior Luiza Jane Eyre de Souza Vieira Sobre os autores
Castiel, LD; Xavier, C; Moraes, DR. Rio de Janeiro: :. Editora Fiocruz, ;2016. .400. p. ISBN. 978-85-7541-482-8

A Editora Fiocruz nos apresenta o livro À Procura de um Mundo Melhor: Apontamentos sobre o Cinismo em Saúde, escrito pelos Doutores em Saúde Pública Luis David Castiel e Danielle Ribeiro de Moraes, e pelo Doutor em Antropologia Caco Xavier. O trio, com vínculo na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), nos presenteia com um conjunto de ensaios que mesclam uma originalidade crítica dotada de contradições e indignações.

Em três partes e nove capítulos, observam-se elementos reflexivos com base em uma linguagem irônica e, ao mesmo tempo destemida, nomeando os atores, em diferentes contextos de tempo e espaço, com os seus respectivos atos. Esses, por sua vez, são desnudados a partir da forma como se apresentam, buscando dissipar a ocultação do óbvio, presente na sociedade atual como algo natural. Para mudar a realidade posta, idas e vindas entre o passado na Grécia antiga, que possibilitam o entendimento do presente paradoxal e o presente multifocal, indicam os rumos possíveis em busca de um futuro unidirecional, remetendo à esperança cravada no título do livro.

Na primeira parte, o cinismo como doutrina filosófica é apresentado já nos trazendo a explicação do porquê da imagem de um cão na contracapa, despudorado, autossuficiente e livre, encarando, sem pretensões de atacar, e ao mesmo tempo ironizando os padrões de seriedade formalizados estruturalmente no cerne do Estado. Isso remete a uma das características da escola cínica, a anaídea, expressão que remete à provocação. As reflexões são permeadas por uma linha de raciocínio pretensiosa e transgressiva pautada em uma segunda característica do cinismo, a parrésia, que envolve a liberdade de expressão mesclada com a responsabilidade pela verdade direcionada ao bem comum.

Na segunda e terceira partes, os autores se utilizam da criatividade para trazer inúmeras referências, científicas ou não, populares e midiáticas, por meio de trechos de filmes, vídeos, palestras, livros, cartuns e ilustrações. Esses elementos são incorporados aos capítulos à proporção que se expõem as influências do neoliberalismo nos atos do gerencialismo moderno e suas consequências frente às transformações tecnológicas. Gerencialismo esse que é pautado em mudanças técnicas na condução da gestão, sem o comprometimento com as contradições produzidas em seu cerne, gerando atos ilusionistas limitados a persecução de metas em detrimento da integralidade e de perspectivas propositivas para a melhoria das condições de saúde (de vida) da população.

Com o uso de trocadilhos, humor e paródia, os autores discutem a transformação da frágil relação médico-paciente em uma relação prestador-consumidor, influenciada pelo complexo econômico-industrial da saúde que dita as normativas que serão adotadas em busca da condição de saúde ideal. Isso tudo mediado pela influência das tecnologias de comunicação e informação que despersonalizam o caráter coletivo do ser para uma incessante busca individual do ter. Nesse contexto, o cinismo é retratado como componente indissociável das práticas sanitárias, enfatizando o foco na exposição aos riscos epidemiológicos determinados com base nas percepções teórico-metodológicas estabelecidas pelos profissionais de saúde. Como consequência, molda-se uma postura hiperpreventiva que, suportada por uma corrente de medo global influenciada por agências internacionais, condicionam e determinam verdadeiros exageros no cuidado em saúde.

Uma crítica ao publicacionismo, expondo suas fragilidades na contemporaneidade competitiva e o seu lado, não obscuro, de servidão ao domínio quantitativista é apresentada de forma destemida. Situação essa que direciona os pesquisadores, quase que coercitivamente e em busca de sobrevivência no meio acadêmico, para a utilização de meios escusos em busca de auxese na produção científica. Exemplifica-se com base no uso de substâncias lícitas sem necessidade comprovada por meio de desequilíbrio no estado de saúde mental, caracterizando o neuroaprimoramento farmacológico, terminologia ampliada para se referir ao dopping (moral) como estratégia para ter mais e mais artigos aceitos em periódicos de qualis elevado e evidenciar o status acadêmico.

Esse academicismo por sua vez é criticado ao tentar se monopolizar por uma quantificação marcante, característica do contexto médico-epidemiológico, que garante a manutenção da produtividade científica necessária para manter um programa de pós-graduação em nível de destaque minimamente nacional. Esse vigoroso mecanismo de padronização muitas vezes limita a perspectiva objetiva do pesquisador à omissão, na busca de arranjos analíticos que comprovem as hipóteses defendidas em suas pesquisas.

Na parte final, os autores discutem a fantasmagorização dos riscos, gerados baseando-se em padrões comportamentais ditos pela mídia ou supostos experimentos científicos como ideais em busca da tão sonhada longevidade associada com vitalidade. No entanto, esses promovem verdadeiras guerras mercadológicas para um estilo de vida saudável dificilmente alcançável pela maioria da população, cujos resultados positivos não dependem do esforço único e exclusivamente individual, mas do meio capitalista e opressivo responsável pelas distorções que nos influenciam além dos limites do nosso cotidiano.

A discussão ao longo dos capítulos é recheada de aproximações e distanciamentos que envolvem as questões de saúde coletiva em seu eixo teórico, que busca fortalecimento como campo de atuação na saúde, e prático, vivenciado por ações nem sempre conexas à realidade.

Voltado principalmente para acadêmicos da área de pós-graduação em saúde (coletiva) e afins, e para os profissionais que atuam nos serviços de saúde, seja na gestão e atenção, o livro torna-se relevante por propiciar reflexões acerca das praticas acadêmicas que influenciam diretamente as práticas profissionais na saúde coletiva. Faz pensar sobre o cinismo na história e a reverberação disto nos dias atuais, com foco na construção da ciência, o que nos leva a confrontar os paradoxos da/na saúde coletiva.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Nov 2017
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: cadernos@ensp.fiocruz.br