GÊNESE DA SAÚDE GLOBAL: A FUNDAÇÃO ROCKEFELLER NO CARIBE E NA AMÉRICA LATINA

Lina Faria Sobre o autor
Palmer, S. Rio de Janeiro:Editora Fiocruz;2015.421 p.ISBN 978-85-7541-457-6

Em Gênese da Saúde Global: a Fundação Rockefeller no Caribe e na América Latina, Steven Palmer - historiador da ciência e da medicina, professor na Universidade de Windsor, no Canadá - debate os programas e as contribuições da Fundação Rockefeller no campo da saúde internacional. O autor examina, por meio de uma minuciosa pesquisa de fontes históricas, as ações da filantropia norte-americana e seu modus operandi, em parceria com atores locais e suas instituições. A obra tem significado para a história da medicina latino-americana e caribenha por trazer para o debate temas fundamentais para se entender o papel e a contribuição da Fundação na área da educação médica, na formação de profissionais em saúde pública e nas campanhas sanitárias de erradicação e controle da ancilostomíase e outras enfermidades.

O livro é uma versão revista e ampliada da edição original em inglês, publicada em 2010 pela Universidade de Michigan (Estados Unidos) com o título Launching Global Health: The Caribbean Odyssey of the Rockefeller Foundation. A edição brasileira traz um capítulo novo e polêmico no qual Palmer analisa as consequências de mortes causadas por superdosagens de óleo de quenopódio durante as campanhas de combate à ancilostomíase no Brasil e Colômbia. O fato de pesquisadores desses países e seus colegas estrangeiros se envolverem em tais fatalidades - que obedeciam aos preceitos de conduta ética e experimental ainda erradios e cientificamente frágeis em todo mundo - era tema de grande repercussão, menos na imprensa e, sobretudo entre os próprios sanitaristas.

Palmer relata os contatos estreitos, por vezes tensos ou até conflituosos, entre pesquisadores estrangeiros e nacionais no Caribe e na América Latina e as relações estabelecidas com as populações locais. Cabe aqui citar o memorando encaminhado por Wickliffe Rose, Diretor Geral da Junta Internacional, a Joseph White, Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos, escrito em fevereiro de 1914: “Será seu dever descobrir esse material local [...] que os serviços sejam enraizados dessa maneira na vida e nas tradições, e na confiança íntima do povo” (p. 128).

Uma hipótese que Palmer discute em seus estudos, fundamental para se entender a dinâmica das parcerias entre a Rockefeller e países da América-Latina e Caribe, refere-se ao que o autor classifica como “precedência periférica”. Para Palmer, a Fundação não seguia uma pauta impositiva de ações, mas procurava adaptar suas pesquisas e atividades a temas que eram particulares de cada país. Os médicos e sanitaristas norte-americanos dialogavam cientificamente com médicos e sanitaristas do porte de Carlos Chagas, Arthur Neiva, Adolpho Lutz e Belisário Penna no Brasil; Carlos Durán e Geraldo Jiménez, na Costa Rica; Manuel Núñez Butrón, no Peru. Definiam, em conjunto, objetivos e ações de saneamento e educação médica. Houve respostas locais e nacionais para os problemas de saúde. Mais do que isso, desenvolveram-se capacidades para solucionar os problemas cotidianos da prática científica, conformando um modelo de ciência e de ação profissional. As formações históricas distintas e, particularmente, a marca “nacional” das diferentes tradições médicas determinaram adaptações que diferenciaram as trajetórias da atuação nos países 11. Faria L, Paiva CHA. Saúde e doença na América Latina e no Caribe: perspectivas histórico-sociológicas. Physis (Rio J.) 2007; 17:193-218..

Um dos exemplos mais importantes das parcerias estabelecidas entre a agencia norte-americana e os governos estrangeiros foram as investigações locais sobre ancilostomíase. A experiência adquirida no Sul dos Estados Unidos, de 1910 a 1914, foi importante para organizar posteriormente as atividades que seriam implementadas. Sua visão global de saúde permitiu intervir em vários locais de pesquisa e tratamento da ancilostomíase pelo mundo. No caso da ancilostomíase, os sanitaristas norte-americanos souberam se adaptar às culturas locais e trabalharam em conjunto com as comunidades.

A saúde internacional estabeleceu primeiramente um programa-piloto na Guiana, em 1914. Em seguida, as operações se estenderam para Costa Rica, Guatemala, Nicarágua e Trinidad e Tobago. Palmer mostra como, na Costa Rica, muito antes da chegada da Fundação ao país, os agentes de saúde pública já estudavam e tratavam a ancilostomíase. A Costa Rica foi o primeiro país a desenvolver um programa nacional e contava com um ativo núcleo de médicos cientistas já no final do século XIX.

Os programas caribenhos e centro-americanos foram a origem do trabalho da Rockefeller no Brasil. Mas foi no Brasil que, em 1916, criou-se um dos mais ambiciosos programas de combate à ancilostomíase, com recursos vultosos para a busca da erradicação da doença. Porém, assim como na Costa Rica, os sanitaristas brasileiros já haviam começado a tratar a ancilostomíase na região sudeste do país, desde 1911.

No prefácio à edição brasileira, o historiador peruano Marcos Cueto afirma que as ideias de Palmer foram “uma contribuição empírica e teórica decisiva para os estudos recentes da história da ciência e da medicina e propuseram que os atores são mais poderosos que as estruturas”; que suas ideias, práticas e comportamentos “circulam transnacionalmente, num movimento sempre em transformação” (p. 13).

Palmer dá ênfase especial aos encontros interculturais em que os atores acabam modificando suas estratégias iniciais e recriando novos caminhos de adaptação aos cenários nacionais. Cabe lembrar exemplos admiráveis de parcerias entre médicos sanitaristas norte-americanos e brasileiros, o “fervor missionário” pela ciência, pela saúde das populações e o caráter social das missões sanitárias em áreas longínquas do imenso sertão brasileiro. A parceria entre Bailey Ashford, médico da Comissão de Saúde do Exército dos Estados Unidos, com Adolpho Lutz, em Capela Nova, Minas Gerais, é um belo exemplo. Embora o objetivo original fosse tratar a ancilostomíase, as questões de saúde mais sérias na região, que vieram a atrair suas preocupações, eram a tripanossomíase, a lepra e a leishmaniose. Durante 22 dias, Ashford e Lutz realizaram centenas de visitas e trataram cerca de 1.400 pessoas.

Outros exemplos foram narrados por Palmer nas experiências na Guiana e em Trinidad e Tobago. Os profissionais norte-americanos empreenderam esforços para, de certo modo, “crioulizar” a narrativa biomédica sobre a ancilostomíase e seu tratamento; buscava-se lidar com a complexidade étnica e cultural das populações. A medicina afro-caribenha era forte nessas áreas, baseada no conhecimento de remédios herbários e em crenças de fundo mágico e espiritual. Palmer reproduz o panfleto que em português se leria “O demônio que se transformou em vermes”, elaborado em 1917 por um sanitarista que dirigia a campanha de ancilostomíase na Guiana - como uma extensão às lendas ou histórias na língua hindi. A população hindu, em grande parte “transplanted labor” em condições de semisservidão desde início do século XX, tinha impacto demográfico nas Guianas. O panfleto citado revelava a preocupação dos médicos estrangeiros em transmitir a mensagem da higiene, adaptando narrativas tradicionais entre as populações.

O texto de Steve Palmer é denso e riquíssimo em dados, cuidadoso e firme nas interpretações. A Rockefeller transparece de seu livro como uma vasta instituição e pioneira no campo da saúde internacional. As ações desenvolvidas foram prioritariamente em prevenção e controle de doenças infectocontagiosas, todavia sua visão de saúde e seus recursos sem precedentes permitiram intervir em escala global, em vários cenários locais de pesquisa e no ensino médico-sanitário e de enfermagem. Palmer mostra em seu belo livro os passos e ações de uma instituição internacional, conquistas e obstáculos, objetivos alcançados e não atingidos, como uma lição para os tempos atuais, em que lemas e bandeiras parecem se sobrepor a ações concretas pela vida humana.

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    Faria L, Paiva CHA. Saúde e doença na América Latina e no Caribe: perspectivas histórico-sociológicas. Physis (Rio J.) 2007; 17:193-218.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Out 2017
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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