8º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde: aportes e perspectivas de publicação para as revistas de Saúde Coletiva

Martinho Braga Batista e Silva Suely Ferreira Deslandes Jorge Alberto Bernstein Iriart Sobre os autores

O 8º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CBCSHS) reuniu em setembro de 2019, em João Pessoa (Paraíba), 2.168 congressistas. Foram mais de 1.900 inscritos e 1.215 trabalhos apresentados. Isso significa um crescimento de mais de 100% do número de participantes em relação à edição anterior e evidencia a contínua expansão desse campo inter-trans-multi-disciplinar.

Com o tema “Igualdade nas diferenças: enfrentamentos na construção compartilhada do bem viver e o SUS”, o 8º CBCSHS apontou para uma articulação singular entre conceitos formulados no bojo de saberes científicos e causas defendidas pelos movimentos sociais. Esse é o caso da construção compartilhada do bem viver, conceito forjado incluindo tanto a construção compartilhada do conhecimento - metodologia emancipadora desenvolvida pela Educação Popular em Saúde 11. Carvalho MA, Acioli S, Stotz E. O processo de construção compartilhada do conhecimento: uma experiência de investigação científica do ponto de vista popular. In: Vasconcelos EM, Prado EV, organizadores. A saúde nas palavras e nos gestos: reflexões da rede de educação popular e saúde. São Paulo: Editora Hucitec; 2001. p. 101-14., como o bem viver, termo oriundo da visão de mundo dos povos indígenas 22. Acosta A. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Autonomia Literária/Elefante; 2016.. O conceito de bem viver remete ao fortalecimento das relações comunitárias e solidárias, baseadas na reciprocidade e no respeito às diferenças e a diversidade dos povos, visando a construção de um modo de vida em que as necessidades da população estejam harmonizadas com a conservação da vida, da diversidade biológica e do equilíbrio de todos os sistemas de vida 22. Acosta A. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Autonomia Literária/Elefante; 2016..

Destacaram-se também as discussões sobre as Epistemologias do Sul, que visam repensar o mundo a partir de saberes e práticas do Sul Global (que não se confunde com o sul geográfico) e de epistemologias insurgentes na crítica à colonialidade do saber e aos epistemicídios, partindo do pressuposto de que não há justiça global sem justiça cognitiva global 33. Santos BS, Araújo S, Baumgarten M. As epistemologias do sul num mundo fora do mapa. Sociologias 2016; 18:14-23..

Unindo causas anticoloniais e críticas ao conteudismo, essas inovações conceituais são o produto de uma intensa convivência entre integrantes de movimentos sociais, pesquisadores e, em grande parte das vezes, pessoas que são as duas coisas ao mesmo tempo. A primeira indagação que o mote do congresso suscita é como seremos capazes de comportar tais inovações conceituais de cunho político e epistemológico em nossos veículos de divulgação da produção científica?

Há 8 anos os CBCSHS passaram a incluir grupos temáticos (GTs) em sua programação, uma forma de organizar a apresentação dos trabalhos científicos tal como outros eventos de Ciências Sociais o fazem 44. Trad LAB. Temas e enfoques contemporâneos nas Ciências Sociais e Humanas no Brasil: expressões e tendências refletidas no V congresso da área. Cad Saúde Pública 2012; 28:2373-9.. Foram 29 GTs que agregaram a apresentação dos trabalhos científicos no 8º CBCSHS e pela primeira vez se incluiu entre os coordenadores os estudantes de pós-graduação.

Os GTs reafirmaram pautas basilares, como a necessária sinergia entre os movimentos sociais e o Sistema Único de Saúde (SUS) na construção e defesa do direito à saúde, a construção compartilhada do SUS, a igualdade de gênero e direitos sexuais e reprodutivos. A perspectiva da interseccionalidade aparece com força na discussão da Promoção da Igualdade Racial, nas discussões de raça, gênero e deficiência, colocando na ordem do dia a necessidade de analisar as intersecções entre várias categorias que falam de expressões e forças identitárias bem como assujeitamentos (de raça, classe, etnia, sexualidade, deficiência). O tema do cuidado também emergiu, seja no reconhecimento dos itinerários terapêuticos e interseccionalidades no contexto de vulnerabilidades, seja na perspectiva de saberes e experiências plurais envolvidos.

A análise dos cenários de retrocessos e perdas de direitos impostos pelas políticas ultra-neoliberais e as resistências que se desenham também foram temas constantes nos GTs com destaque para a discussão dos desafios sociais e políticos para o enfrentamento dos retrocessos nos Direitos Sexuais e Reprodutivos (aborto, contracepção), a atenção em IST/HIV/aids, a atenção psicossocial e à saúde dos trabalhadores. Não por acaso que o tema das vulnerabilidades e saúde agregou o GT que recebeu o maior número de inscrições de trabalhos científicos no 8º CBCSHS. Destaca-se também a discussão em torno da Defesa do SUS associada à Perspectiva do Bem-Viver e os obstáculos que se colocam na atual conjuntura, assim como as perspectivas de enfrentamentos. Houve muito destaque também na discussão da Saúde da População Negra e Indígena em um contexto de vulnerabilidade e racismo.

As iniquidades em saúde foram abordadas em diversos GTs e oficinas na análise das trajetórias de vida, hábitos e comportamentos em saúde, formas sistemáticas de adoecimento, raça/cor, violência, assim como intervenções e enfrentamento dos seus determinantes sociais. O CBCSHS pontuou com força as iniquidades regionais em ciência e tecnologia que ainda marcam a produção científica na área de Saúde Coletiva e a necessidade de desconstrução e superação de tais modelos. Descolonização foi um conceito recorrente também tanto na discussão da Comunicação em Saúde (no estudo de mídias, estratégias e metodologias que favoreçam um processo de descolonização) quanto na discussão da afirmação de saberes e práticas emancipatórias nos sistemas de saúde e tradições de cura no Brasil. Conceitos como necropoder e racismo ambiental deram a tônica da urgência em estabelecer reflexões estratégicas sobre lógicas macrosociais em tempos de ultraneoliberalismo. Assim, marcaram presença os estudos sobre populações de extrema vulnerabilidade como é o caso de GTs que discutiram a saúde nas prisões e mais especificamente a saúde de mulheres privadas de liberdade, assim como a saúde de migrantes, refugiados, população de rua e outros grupos vulneráveis.

Os relatos de experiência fomentaram o pensamento crítico sobre as intervenções e a transmissão dos aprendizados oriundos da experiência. Essa modalidade de apresentação representou aproximadamente 35% dos 1.215 trabalhos apresentados. Do mesmo modo que os produtos de projetos de extensão, os relatos de experiência nem sempre contam com tanta receptividade quanto os de pesquisa em nossos periódicos científicos.

Finalmente, as causas feminista, antimanicomial e antiproibicionista se fizeram notar nas atividades da programação do 8º CBCSHS, também as lideranças indígenas, o movimento negro e LGBT, visibilizando um mosaico de indivíduos, coletivos e instituições que sustentam cada vez mais conceitos imersos em causas. Se nossos veículos de divulgação da produção científica têm se tornado cada vez mais receptivos aos estudos interdisciplinares e sobre políticas intersetoriais, seria o caso de fazê-lo também com a variada gama de abordagens interseccionais que os ativistas que participaram do 8º CBCSHS adotaram nos debates em mesas-redondas.

Para concluir, consideramos que o CBCSHS deixou clara a mensagem de que a dimensão epistemológica é tão central para a saúde pública quanto a política. O CBCSHS colocou em pauta a necessária reintegração das metodologias participativas numa perspectiva profunda de ecologia de saberes, envolvendo profissionais de saúde, coletivos, comunidades e movimentos sociais - práticas muita das vezes vistas com certa desconfiança pelos meios editoriais mais conservadores.

A emergência e disseminação de novas epistemologias que visam questionar práticas científicas estabelecidas, promover uma pluralidade epistemológica e encorajar a produção de um saber que emerge e se legitima no contexto do Sul Global é alentadora, bem-vinda e necessária. É importante que as revistas da área da Saúde Coletiva estejam abertas para inovações epistemológicas e metodológicas, assim como para os novos objetos temáticos na construção do saber em Saúde Coletiva.

Agradecimentos

Aos participantes e organizadores do 8º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde.

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    Carvalho MA, Acioli S, Stotz E. O processo de construção compartilhada do conhecimento: uma experiência de investigação científica do ponto de vista popular. In: Vasconcelos EM, Prado EV, organizadores. A saúde nas palavras e nos gestos: reflexões da rede de educação popular e saúde. São Paulo: Editora Hucitec; 2001. p. 101-14.
  • 2
    Acosta A. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Autonomia Literária/Elefante; 2016.
  • 3
    Santos BS, Araújo S, Baumgarten M. As epistemologias do sul num mundo fora do mapa. Sociologias 2016; 18:14-23.
  • 4
    Trad LAB. Temas e enfoques contemporâneos nas Ciências Sociais e Humanas no Brasil: expressões e tendências refletidas no V congresso da área. Cad Saúde Pública 2012; 28:2373-9.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Dez 2019
  • Data do Fascículo
    2020
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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