Apresentação

 

 

INTERFACE – Comunicação, Saúde, Educação chega ao terceiro número trazendo transformações em seu projeto gráfico-textual. Sem intenção de cristalizar formas ou hierarquizar conceitos e experiências, a revista trabalha com a idéia de um projeto em movimento. Assume como desafio buscar novas interfaces, procurando cruzamentos e implicações entre diferentes discursos, trazendo relações entre texto e texto, texto e imagem, imagem e imagem, numa concepção de conhecimento não linear, hipertextual.

A opção por um bloco temático que, a cada número, está representado na seção de ensaios, constitui um dos recursos de INTERFACE para traçar, com maior precisão, a rede de relações de sentido que constrói sua identidade.

Com o bloco temático e as demais seções, a revista vai demarcando seus espaços, em superfície e profundidade, procurando encontrar seu leitor, em sua diversidade, para intensificar trocas, problematizando conceitos e experiências que dão materialidade ao debate que se adensa neste final de milênio, na confluência das três áreas que estão na origem de seu projeto editorial. Como arena desse debate, propõe mediar os conflitos entre as diferentes análises e reflexões teóricas, explorando a pluralidade de temas e abordagens, sem deixar de explicitar seu alinhamento.

No atual momento do mundo contemporâneo, em que o avanço científico e tecnológico ocorre numa velocidade bem maior do que a nossa capacidade de interpretar, refletir e decidir, ameaçando transformar, a curto prazo, o corpo humano numa mercadoria, INTERFACE assume uma posição polarizada em favor do humano.

A dimensão de responsabilidade que hoje precisamos encarar frente às contradições criadas pela ciência moderna é grande em demasia para poder ser percebida num contexto de formação pautado pelo automatismo tecnológico. Pelo contrário, coloca em evidência a necessidade de recuperar o valor da formação geral e cultural de tipo humanista.

A acumulação das irracionalidades que ameaçam a vida humana neste final de século — o risco iminente de uma catástrofe ecológica, a miséria e a fome a que é submetida grande parte da população mundial, a violência e a intolerância, a droga e a medicalização da vida — nos colocam frente a frente com a complexidade do desafio contemporâneo. A busca de um novo equilíbrio entre capacidade de ação e capacidade de previsão das conseqüências dessa ação exige uma nova articulação entre o conhecimento concreto e a problematização mais ampla do sentido da vida e da sociedade, como bem traduziu Boaventura Santos, cujas idéias têm fundamentado o projeto editorial da revista.

Neste sentido, intervir em favor do humano pode significar, hoje, comprometer-se com a desocultação das relações sociais e dos interesses que constróem o automatismo tecnológico. Pode significar criar alternativas que possibilitem uma relação mais conseqüente entre ação e capacidade de previsão. Numa posição de resistência à desumanização da vida e, recuperando uma analogia de Boaventura Santos, a exemplo da postura assumida por um guarda na exposição de arte em Kassel, que, em defesa da autonomia da arte, diz "não toque. Isto é arte", caberia, talvez, dizer: não toque. Isto é humano.

UNESP Botucatu - SP - Brazil
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