DEBATES

 

Trote violento contra calouros universitários

 

 

Marco Segre

Médico, professor de Bioética da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - FMUSP. Membro do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo.

 

 

Notícias de trote violento contra calouros universitários têm sido comuns, desde sempre. Vez ou outra há vítimas fatais e o "trote" passa, então, a ser discutido pela imprensa. Formam-se comissões de sindicância nas faculdades, chamam-se psicólogos, bacharéis e cientistas sociais para opinarem sobre o "fenômeno"...

Há bastante hipocrisia nisso tudo, porque há décadas se sabe o que é o trote e as reações do público sempre variaram da sorridente cumplicidade com esse "baile de debutantes", à tolerância enfastiada e até à inaceitação mais severa.

Como encarar o fato? (falo do fato em si, independentemente de surgirem vítimas fatais).

Trata-se, indiscutivelmente, de uma violência. A consideração de que se trata de um "ritual" que faz parte da tradição acadêmica deste e de alguns outros países não altera esse aspecto. A amputação do clitóris em certos grupos islâmicos, as práticas de emancipação de adolescentes em tribos indígenas, as humilhações impostas aos recrutas do exército são outros exemplos em que a justificativa do "cultural" poderá também ser levantada. Mas, por esse caminho, também justificaríamos a lavagem étnica de Kosovo ou até mesmo as câmeras de gás de Auschwitz.

Há, sim, violências que são até prazeirosas para suas vítimas. Sem recorrermos ao exemplo do ótimo filme "O império dos sentidos" - em que o estrangulamento progressivo era estímulo erótico para dois amantes - o prazer de ser submetido à dor ou a humilhações por seus pares (é o caso de todos os rituais de iniciação) advém do orgulho de ser admitido numa "casta superior". E quanto mais pessoas virem, maior será esse prazer.

Não estamos aqui, porém, para discutir o prazer ou desprazer que o trote pode causar em uns e outros. Eu mesmo, por ocasião de minha entrada na FMUSP, não odiei o trote. Houve algo de festivo, para mim, na participação solidária, com antigos e novos companheiros, nessa "maratona" que se sucedeu à minha auspiciosa entrada na Faculdade.

Cresci. Aprendi a perceber "algo mais" na postura de muitos (não todos) "veteranos" que "dão o trote". Há sentimentos de vingança contra o que muitos deles sequer atinam. Há prazer na submissão de indefesos, no "tudo posso", há revanchismo no "eu passei por isso e agora é a vez deles" (talvez seja por isso que, não me tendo sentido vilipendiado pelo trote, não tive o desejo de retribuí-lo). Mas também não é para avaliarmos todos os aspectos emocionais que permeiam o trote que escrevo este artigo.

Virei professor de Bioética. Embora eu não atribua à "autonomia, beneficência, não maleficência e justiça", o sentido que os principialistas lhe querem dar (linha de Beauchamps e Childress), pois fujo de tudo o que seja normativo em termos de "pensar e sentir humanos", é claro que, na maioria das vezes, o trote é uma violação da autonomia. O fato de muitos acabarem gostando (ou, até mesmo, de já iniciarem gostando) lembra-me o adágio de "se você for estuprada, relaxa e goza". Sorte de quem pode. É absolutamente certo, também, que qualidade de vida é subjetividade.

Que se faça uma consulta, antes do trote, para saber quem o deseja. E que se especifiquem, como num contrato, as condições em que ele será aplicado. E que se obtenha a anuência, por escrito, dos "sujeitos". Afinal, serão essas mesmas pessoas que, ao cabo de um curso de Medicina, deverão saber que, tanto para o exercício profissional como para a pesquisa em seres humanos, exige-se o consentimento esclarecido!

Não será fácil, para os professores de Bioética, transmitir para esses alunos (ex-calouros e ex-veteranos) o valor do respeito à autonomia após todas suas vivências no trote e fora dele.

Estamos quase na virada do milênio. Expande-se o fundamentalismo religioso, muitos se escondem atrás do cientificismo e do determinismo (o gene explica tudo, para que teríamos, então, que pensar e decidir?). Não obstante isso, fala-se bastante em respeito aos valores humanos, à individualidade, à etnia e à opção sexual. Com quem estamos, no embate entre essas duas tendências? Não tenho qualquer dúvida de que o verdadeiro desafio da virada do milênio passa pelo humanismo.

E este, certamente, não passa pelo trote, nem pela cumplicidade a todo tipo de violência. Também não passa pela gabolice irresponsável e insensível de atribuir a si mesmo um homicídio que, até, não se haja praticado!

UNESP Botucatu - SP - Brazil
E-mail: intface@fmb.unesp.br