CRIAÇÃO

 

Fotografia na Enfermaria de Ortopedia: pesquisando espaços de comunicação

 

Photography in an Orthopedic Ward: researching areas of communication

 

 

Maria Lúcia Toralles PereiraI; Trajano SardenbergII; Heloísa Wey Berti MendesIII

IProfessora do Departamento de Educação, Instituto de Biociências de Botucatu, Universidade Estadual Paulista/Unesp. <toralles@ibb.unesp.br>
IIProfessor do Departamento de Cirurgia e Ortopedia, Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista/Unesp. <tsarden@fmb.unesp.br>
IIIProfessora do Curso de Enfermagem, Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista/Unesp. <weybe@uol.com.br>

 

 

A transformação do indivíduo em paciente inclui a vivência de uma série de separações, marcadas, freqüentemente, por experiências de fragmentação e perda de autonomia sobre o próprio corpo.

Deitado na cama de hospital, a situação que o paciente experimenta é, como observa Sant'Anna (2000, p.13), a da "fragmentação do tempo, do corpo e das atividades". Em situações de maior imobilidade no leito, o teto e a superfície superior das paredes passam a referenciar suas relações com objetos e experiências no interior do quarto. Essa condição de imobilidade e privação de autonomia diante de situações rotineiras, somada à experiência de intimidação gerada pelo cenário dos equipamentos de uma Enfermaria de Ortopedia (serra elétrica, brocas, perfuradoras, instrumentos de tração, martelos etc) trazem, para a prática em Saúde, a preocupação com a qualidade do atendimento/tratamento, entendida não sob a ótica das condições materiais ou técnicas implicadas na assistência, mas no que se refere à dimensão subjetiva daqueles que vivenciam tais experiências.

Conhecer o modo como essas situações são vividas, pensadas e valorizadas na dimensão subjetiva do paciente, foi a proposta da pesquisa.

Entregamos câmeras fotográficas a cinco pacientes acamados, internados na Enfermaria de Ortopedia de um hospital universitário, no segundo semestre do ano de 2001, propondo que registrassem sensações, idéias e experiências vividas como pacientes, procurando responder às perguntas: o que significa estar doente? O que é bom e o que é ruim em sua rotina na Enfermaria?

 

 

 

 

 

 

... para mim, ruim foi que eu fiquei vários dias parado e bom, foi que eu fiz amizades, fiz muitas amizades novas, pessoas diferentes, que sabem conviver com pessoas que têm defeitos, doenças... Todo mundo aqui tem consciência de que a vida vale mais do que qualquer coisa. (LF)

... pra dizer a verdade, só o fato de você estar no hospital já é um motivo ruim ... mas o que eu acho pior aqui é a falta de informação ... qualquer coisa que a gente queira saber do médico e não conseguir conversar. Porque às vezes o residente não pode te dar informação, ele tem que conversar com o docente... só que esse docente, às vezes a gente não tem acesso, porque ele não vem nos quartos, não aparece aqui para explicar nada para a gente. Esse é um diferencial em favor do doutor .... Eu achei super importante esse contato médico/paciente. Então, ... é difícil falar o que tem de bom aqui. (AD)

... os médicos que estão atendendo a gente aqui... é uma coisa boa... de manhã eles vêm aqui, animam a gente, conversam, explicam tudo para a gente. (AR)

 

 

 

 

 

 

 

É a bandeja da comida. ... não que seja ruim, a comida do hospital é boa. Só que a gente, na condição que se encontra aqui, não tem apetite. Então volta muita comida. Às vezes, até dá dó pelo desperdício.

É um negócio que estava conversando com outras pessoas, ... a quantidade de alimento que vem, cinco refeições... e a proximidade uma da outra. Você toma café, oito e pouco, quando é onze já tá chegando o almoço, aí às duas já vem outro café, quando é cinco já está jantando. A alimentação é muito seguida. No trabalho a gente não está acostumado com isso, não se alimenta dessa forma. O dia a dia da gente não é assim.

Eu acho que a janta poderia ser mais tarde um pouco ... (AD)

 

 

Recebido para publicação em: 28/06/02
Aprovado para publicação em: 10/07/02

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