LIVROS

 

Antônio Fausto Neto

Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Unisinos, RS. <fausto@icaro.unisinos.br>

 

 

Las historias en los tiempos del cólera
BRIGGS, C.; BRIGGS, C. M. Ed. Nueva Sociedad, 2004. 483p.

 

 

O retorno silencioso do cólera

Uma calamidade é geralmente uma "presa" de narrativas, como a dos noticiários jornalísticos, dos relatórios das fontes institucionais - defesa civil, serviços de saúde, obituários, policiais etc - ou ainda dos imaginários, junto a quem ela sobra como alguma coisa, povoando lembranças ou a memória dos que sobrevivem, inclusive daqueles que puderam dela ainda dizer algo.

Sobram, assim, relatos peculiares, sobre a epidemia do cólera, ocorrida na Venezuela, nos anos de 1992/1993, feito pelos pesquisadores Charles Briggs e Clara Martini-Briggs, na forma de livro, "Las histórias en los tiempos del cólera", publicado em espanhol pela Editora Nueva Sociedad, em sua primeira edição, no ano passado.

O livro não é apenas um relato técnico, escrito a quatro mãos - um antropólogo e uma sanitarista - que, em tempos recentes, estiveram literalmente afetados com o cólera, lá nas áreas venezuelanas que foram largamente afetadas pela epidemia. É um múltiplo documento, antes de tudo, de caráter humano e no qual se misturam vários textos ou "posições de leitores" assumidas pelos autores. Nele se manifestam, além das marcas enunciativas da epidemiologia e da medicina social, a fina e sólida investigação antropológica; a agilidade da metodologia jornalística da apuração e da cobertura: a sensibilidade estética para com a organização das mensagens fotográficas, que por si só, "fazem falar os objetivos deste produto editorial; o texto analítico do pensador social e formulador das políticas; sem esquecer, os cuidados com a análise dos discursos, segundo as referências das "boas escolas" que permitiram aos autores "deixar falar" os diferentes atores sociais protagonistas deste comovido e complexo episódio.

A resenha de um texto significa sempre a "tomada de posição" daquele que a elabora. Exercício textual, sobre o texto, o qual deve provocar aquele que o lê, sem contudo, atraí-lo como presa ao seu "contrato de leitura". De qualquer modo, o leitor é convidado, pelos "efeitos de discursividade" da estratégia enunciativa, a entrar na cena e seguir, como um co-protagonista, os autores nas suas estratégias narrativas, colocando-se, assim, como uma espécie de um co-enunciador. Para isso, o livro é pródigo de fortes recursos, na medida em que além do estilo dos autores, está tecnicamente bem editado, reunindo com clareza a articulação entre as mensagens - textos, imagens fotográficas, notas de pés de páginas, índices de matérias, e sem esquecer a fala de outros protagonistas, igualmente presentes, que são os atores sociais. O leitor (resenhador) é convidado a co-dividir com os autores uma rica reflexão para dar conta do modo de ser de uma sociedade que sofre por dentro os efeitos do que "vem de fora" também para conhecer os mecanismos de funcionamentos dos seus poderes; as disputas entre os diferentes campos sociais envolvidos com a epidemia e a eficácia dos discursos como possibilidades de nomeação e de explicação dos enfrentamentos a que são submetidas as pessoas pobres. Esta obra, ao falar a respeito da epidemia, é antes de tudo um estratégico pretexto sobre o modo de ser do que, antigamente, chamava-se de sociedades dependentes e hoje interligadas pela globalização.

Certamente não sabemos em quanto tempo este livro foi escrito, mas os efeitos de sua escritura deixam a entrever que sua produção parece ter ocorrido "em ato". Na medida em que Charles e Clara ali estavam com vários sentimentos e, dali recolhiam os materiais que eram levados para seus "manuais de campo", de onde saíram quase que intactos para a forma editorial, a tal ponto que estas duas formas de recolhimentos e edição de materiais se confundem. Pode-se afirmar que se trata de um livro permeado por uma outra temporalidade, aquela na qual se realiza a convergência entre o lugar da intervenção profissional e o do analista e do crítico social, e o de seres humanos solidários com a dor, a desolação e o sofrimento diante da penúria alheia.

Aquele que resenha deve, contudo, ter cuidado para não se regozijar, solitariamente, com os efeitos da sua leitura. Leal à expectativa formulada por uma demanda, que prevê antes de tudo que a primeira leitura seja submetida a outras pessoas, o trabalho daquele que resenha deve, assim, apresentar a obra a fim de que o possível leitor possa para ela se deslocar, participando assim de um protocolo interpretativo. É o que propõe a resenha sobre o livro de Charles e Clara, chamando atenção para o "índice-convite" de endereçamento às questões por eles tratadas.

A natureza da construção da epidemia

O livro está organizado em 13 capítulos, ou se preferirmos, momentos, que não deixam de ser espécies de cenas. No capítulo 1, descrevem os autores os investimentos discursivos realizados pelas agências internacionais, nacionais, das mídias e governamentais que estruturam um "cinturão interpretativo" e que operou como a única referência a possibilitar aos venezuelanos as noções sobre a epidemia. Espécie de transação de discursos entre agentes dos diferentes campos, as causas da epidemia já são forjadas no âmbito destas "máquinas-significantes". A doença começa a partir de narrativas. Constrói-se a "retórica da culpa", na medida em que o cólera está associado à pobreza, pois sua ocorrência é reportada à existência de pobres, com ambulantes, migrantes e vendedores sendo transformados em bodes expiatórios. Explica-se a existência de uma patologia associada à questão geográfica-fronteiriça (epidemia que é causada pelo Peru); e ainda opta-se por um modelo informativo cujo papel do "braço midiático" é instaurar em suas "políticas de sentidos" uma divisão entre indivíduos salubres e insalubres.

O capítulo 2 descreve o processo de intervenção das diferentes agências especializadas, com suas respectivas metodologias, para enfrentar a epidemia. Destaca que as preocupações dominantes, especialmente as da esfera política, e as do Estado, eram mais no sentido de legitimar as ações institucionais envolvidas, do que considerar a epidemia de sua perspectiva estrutural, ou da própria realidade social e histórica da população. Sobre a intervenção das diferentes instituições, lembram os autores que não se trata de uma mera intervenção técnica na medida em que subjacente aos procedimentos, estão colocados fundamentos que ajuízam a existência do cólera por parte dos discursos das instituições. Tais construções cuidam, como decorrência, de orientar as práticas sanitárias segundo critérios discriminatórios pelos quais a população é colocada num lugar de passividade, mesmo sobre "suspeita" face às políticas e campanhas de esclarecimentos. Sendo causadora da crise e da epidemia, a população (leia-se os pobres) deve efetivamente se colocar no lugar de paciente, pois seus membros devem ser tratados como insalubres, enquanto marginais.

O capítulo 3 chama atenção para a existência de outras discursividades, ou seja, as narrativas sobre a epidemia das próprias populações vitimadas pelo cólera. São relatos atravessados por vários imaginários e/ou lógicas de inteligibilidades que, contudo, não sensibilizam os setores científicos, políticos, sanitários etc. Tais narrativas têm um "efeito interno" sobre a própria população: criar significados específicos, restabelecer "fios de memórias", enfatizar o papel de certos rituais como possibilidades de levar o corpo à superação da dor, dos seus incômodos e de morte; abrir as possibilidades de novas percepções sobre o momento em que viviam as populações pobres. Contudo, a eficácia desta narrativa não conseguiu permear os cinturões discursivos oficiais sobre a epidemia, e este nos parece um aspecto central nesta obra: mostrar que o enfrentamento de fenômenos biológicos, culturais, políticos etc, passa necessariamente por políticas de disputas de sentidos. Nestas circunstâncias, como dizem os autores, nenhuma história contada pela população teve a possibilidade de influir na forma como outras pessoas perceberam e reagiram diante da epidemia. Segundo a hipótese deles, as populações foram proibidas de enfrentar a epidemia, na medida em que seus relatos, segundo suas respectivas lógicas, não foram levados em conta por aqueles que definiam as políticas institucionais.

Um olhar mais específico sobre o modo de enfrentar o cólera no contexto de uma pequena clínica de província, é o tema do capitulo 4. São descritos os procedimentos para coibir o vírus e atender a população num contexto de sofrimento e de extrema pobreza. O que nos parece mais rico nas observações desses momentos, da parte dos autores, é o fato de chamarem atenção para os modos pelos quais os protocolos de conhecimentos de prestação de socorro são avaliados e, conseqüentemente, criticados segundo a lógica do povo. Este aspecto é exemplificado da seguinte maneira: as pessoas são separadas pelo atendimento do pessoal de saúde, na Clínica, segundo os níveis de gravidade de sua situação. E, passam a ser chamadas pelo nome, para serem atendidas, no caso, receberem medicamentos. Uma mulher, insistentemente chamada pelo nome, não comparece ao atendimento, somente o fazendo momentos depois. Tentando compreender porque ela não respondera à convocação, a mulher é inquirida por um médico, mas permanece calada. Mas um outro paciente, responde no seu lugar: "o problema é que esta gente chegou cansada de tanta diarréia, depois de horas de viagem, e portanto, aqui, uma pessoa não tem que ter nome para que lhe dêem esta pastilha".

A explosão da crise, com desdobramentos no tecido social são tratados nos capítulos 5 e 6, nas quais particularmente se descreve alguns processos de contenção mobilizados pelas instituições visando evitar que a epidemia fornecesse munições para movimentos sociais que, por seu turno, concebiam o cólera como algo mais amplo do que um fenômeno biomédico. Destaca-se, sobretudo, o papel das mídias, cuja cobertura em muito colaborou para a entrada em cena de intervenções conjunturais de instituições, intervenções estas que não tinham, assim, caráter duradouro. Uma das conseqüências é o confinamento de populações "suspeitas" de terem contraído o cólera, em torno de circunscrições territoriais, fenômeno este que é nomeado pelos autores como um ato de extremo racismo contra as populações indígenas, que a sua maneira, estavam dispostas a ir mais longe para protestar (cap. 7) contra as políticas de reclusão a que foram submetidas pelas autoridades sanitárias.

Uma das passagens mais importantes da obra é a inserção da fala médica, tratada no capítulo 8. No relato, protagoniza sua inserção naquele processo, vivendo as situações de médico e de paciente. O relato dessas circunstâncias produz, como efeito, a existência de uma certa situação reflexiva em que o médico, além de um ator estratégico, é também alguém que elabora sua própria inserção naquela realidade, mas a partir de pânico, medo, miséria, de angústia e de incertezas. Mas a voz da autoridade médica desaparece enquanto tal, na medida em que ela não pode se manter, de um lugar outro, em relação à doença, pois os sintomas daquele sofrimento passam pela própria pele da medicina: o médico fora acometido pelo cólera. Isso dá origem a um duplo ponto de vista: o do especialista, que cuida, mas que ao mesmo tempo vive no corpo a experiência do outro. E a vive, de modo singular, ao narrar a ascensão do próprio quadro sintomatológico sobre seu corpo, fazendo valer como dimensões explicativas, o encontro das interpretações da medicina e da magia...

À procura da causa

Falar e escrever sobre o cólera - de onde veio, a quem e porque afetou - foi parte crucial das ações e os eventos que deram forma a epidemia. E, neste particular, mostram os capítulos 9 e 10 dois problemas antagônicos. No primeiro, o trabalho discursivo das diferentes instituições envolvidas com a epidemia, no sentido de construir enunciados que procuraram fazer equivaler ao cólera a uma experiência de cultura da própria população. As narrativas oficiais atribuíam à alimentação especialmente o consumo de carangueijos, e também à higiene, à geografia fluvial, como fatores causadores da manifestação do cólera entre os pobres, especialmente ainda o fato de pertencerem a classes sociais com baixos níveis culturais. Vale mencionar que algumas coberturas jornalísticas trabalhadas pelos autores mostram o papel que tem a "retórica do carangueijo" ao transformar esses crustáceos em uma narrativa epidemiológica. No capítulo 10, destaca especialmente um conjunto de outras lógicas construídas pelas populações, segundo estoques simbólicos muitos distintos e pelos quais outras retóricas se colocam nos horizontes em contraposição às construções oficiais. Elas operavam como uma espécie de "contra discurso", ainda que seu grau de efetividade tenha sido limitado, diante do poder das estratégias discursivas e análises oficiais, que tratam, a seu modo, de "silenciar" outras histórias. E o fizeram, pelo que é cuidadosamente apontado pelos autores, ao revelar o papel das técnicas muito sintomáticas: a estatística e sua leitura associando a epidemia a uma existência de valor social (capítulo 11).

Nos capítulos finais (12 e 13), os autores mudam de cenário: saem das localidades pobres de Tucupita, Barrancas e Mariusa, onde o cólera dizimou as pessoas, para dizer que as origens do cólera estão noutros lugares, no caso no ambiente das grandes instituições que tiveram um papel decisivo na determinação do seu curso nas regiões pobres da Venezuela, particularmente. O cólera é uma "sombra discursiva", isto é, uma decorrência de práticas de narrativas, feitas na forma de protocolos vários, esboçados pelas políticas das instituições: documentos, papéis, manuais, papers, estatísticas, e outros discursos frutos de transações de modelos e de interesses. Estes protocolos, segundo eles, são a gênese da epidemia. Talvez, dizemos nós, os efeitos da informação que "excede". Falam que, se as instituições fossem outras, ou tivessem outras concepções políticas, os efeitos do cólera sobre as populações, ou os modos de combatê-lo, seriam igualmente, outros. Como os efeitos foram limitados, danosas foram suas conseqüências, na medida em que o cólera e as políticas de combate deixaram rastros, especialmente a deterioração da vida das pessoas. Se outrora, populações indígenas foram acantonadas em ambientes para se conter a corrida do vírus, dizem os autores, depois, "o índio deixou de ser um personagem distante", ou escondido pela reclusão das instituições, para se converter num personagem midiático ao perambular como esmoler pelas ruas de Caracas. A isso, chamam do "retorno silencioso do cólera"...

Este livro é uma reflexão vigorosa - um texto de amor nos tempos de cólera - sobre o papel das narrativas na construção das inteligibilidades, especialmente aquelas sobre fenômenos que afligem as maiorias, hoje, ainda privadas até mesmo das possibilidades de proferir discursos, e fazerem valer suas próprias narrativas. Convidam-nos, os autores, com esta obra, a uma outra militância: operar e analisar discursos e seus efeitos para que se possa ajudar, ali, onde estão as pessoas, aqueles que precisam de algo, que necessitam ser conectadas aos regimes de reconhecimentos. Somente assim, poderemos superar o que chamam a cumplicidade global cujas políticas, apesar de dissimular discursivamente, continuam a produzir a enfermidade e a morte.

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