LIVROS

 

Rogério Amoretti

Diretor Técnico do Grupo Hospitalar Conceição. Porto Alegre, RS. <ranna@terra.com.br>

 

 

A mediação da cultura docente na formação médica
URTIAGA, M. E. O. Editora Universidade Federal de Pelotas, 2004. 180p.

 

 

O tema da formação médica tem atraído progressivamente o interesse de pesquisadores e gestores da área da saúde, havendo o entendimento que ele é central para a organização do sistema de saúde no Brasil e para o futuro da medicina em nosso país. Enfoques diversificados como medicina e tecnologia, ética, graduação, reforma de currículo, métodos pedagógicos, pós-graduação, tendências de mudanças, mercado de trabalho, organização do Sistema Único de Saúde, saúde coletiva, entre muitos outros, estão sendo abordados por diferentes autores e a literatura disponível, antes escassa, é enriquecida constantemente, nos últimos anos.

O texto de Maria Elizabeth de Oliveira Urtiaga, da Universidade Federal de Pelotas, traz algumas novidades de abordagens importantes que faz com que ele se saliente entre os demais, provavelmente devido à própria formação singular da autora: médica, com especialidade em Capacitação Docente em Medicina Geral, em Ciências Políticas, em Teoria e Técnica Psicanalítica Aplicada à Psicoterapia, desenvolve ainda projetos de extensão e ensino na área de Bioética. Ela nos disponibiliza agora sua dissertação de mestrado, que aborda o estudo da subjetividade do professor de medicina e a relação dele com seus alunos, em forma de livro.

O foco na função mediadora do professor e na cultura docente, insistentemente sustentado ao longo dos diferentes capítulos do livro, coloca-nos diante da realidade inarredável que, qualquer que seja a transformação proposta na educação médica, ela deve necessariamente passar pelo desejo dos médicos de mudanças na cultura construída por eles mesmos. Portanto, a construção de instrumentos e práticas para a promoção de novas e necessárias realidades na área da saúde, com vistas à humanização, qualificação do cuidado, e ao trabalho integrado multiprofissional e resolutivo deve envolver o conjunto dos médicos, na construção permanente do seu fazer/saber diários.

Desde a seleção dos sujeitos da pesquisa, professores repetidamente homenageados pelos alunos ao final do curso de medicina e os próprios alunos, expondo os motivos de suas escolhas, ao rigor metodológico do estudo de casos com a utilização de entrevistas narrativas semi-estruturadas e uma ótima revisão bibliográfica de sustentação dos argumentos, a autora consegue manter a atenção do leitor por meio de uma escrita fluente. A função mediadora do professor diante de um aluno que não é passivo, mas antes é também agente do processo de ensino-aprendizado, se desnuda na pesquisa qualitativa, na qual se salientam aspectos históricos da vida acadêmica, o afeto presente na relação entre professores e alunos e os principais determinantes do complexo processo da formação de um médico. Destaca-se, por relatos fascinantes, o ambiente cultural docente, no qual a figura do professor surge como modelo a ser observado e imitado ou mesmo refutado.

A reflexividade crítica da autora não deixa de apontar os principais problemas presentes na educação médica e não perde a dimensão de que esta mudança necessária é uma tarefa coletiva que precisa romper limites corporativos e buscar novos cenários para as práticas de ensino-aprendizado, que tenham como centro as pessoas, usuárias do sistema de saúde, em suas múltiplas e variadas necessidades.

Se o processo de internalização da cultura médica que forma e muitas vezes deforma o estudante, futuro profissional, é determinado pelos docentes médicos e suas práticas, fica evidente a importância de construir este diálogo de mudança pela reflexão conjunta de médicos em geral, docentes, alunos, usuários, gestores públicos e privados e muitos outros representantes da sociedade civil. Esta complexa mensagem é sugerida ao longo do agradável e sensível texto da docente de medicina Maria Elizabeth Urtiaga, que nos oferece mais esta obra sobre a educação médica, que enriquece, a partir de agora, a biblioteca dos estudiosos e interessados no tema.

 

 

Recebido para publicação em: 21/02/05.
Aprovado para publicação em: 03/03/05.

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