APRESENTAÇÃO

 

 

Ao apresentar a publicação de um dossiê sobre homeopatia nesta edição da Interface - Comunicação, Saúde, Educação, gostaria de registrar, em primeiro lugar, que se trata de fato inédito: é a primeira vez que uma revista brasileira não especializada em homeopatia publica um conjunto de artigos sobre o tema. Em segundo lugar, destaco a conveniência de tal publicação neste momento bastante delicado, quando, se por um lado ocorre uma grande ampliação da presença institucional dessa outra forma de cuidado, percebe-se, ao mesmo tempo, a permanência de um enorme desconhecimento a seu respeito entre os profissionais da saúde.

A homeopatia foi reconhecida como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina em 1980 e como especialidade farmacêutica pelo Conselho Federal de Farmácia em 1992. Atualmente, é uma opção de cuidado para os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) em 158 municípios contando, desde 2006, com o respaldo de políticas publicas do Ministério da Saúde para sua implementação. Mas, como apontam os artigos que compõem este dossiê, sua presença nos cursos da área de saúde é muito restrita e a desinformação é grande entre os próprios profissionais de saúde. Este desconhecimento diminui a possibilidade de parcerias entre esses profissionais e reduz o potencial de utilização desse recurso.

A leitura dos artigos que se seguem é uma oportunidade, dada aos leitores interessados, de entrarem em contato com os temas específicos abordados, e também, por meio de suas bibliografias, com uma parte da produção de pesquisas em homeopatia dos últimos anos. Tendo em vista o perfil desta revista e os temas de que tratam esses artigos, cria-se a estimulante perspectiva de uma provocação à reflexão, ao diálogo e ao debate com outros profissionais da complexa área das ciências da saúde, educação e formação profissional em saúde.

Os artigos "O ensino da homeopatia e a prática no SUS" e "Prática médica homeopática e a integralidade" apresentam reflexões sobre alguns temas muito freqüentes nas publicações em saúde, como integralidade e humanização do cuidado, discutidos com base em experiências com o atendimento homeopático no âmbito do SUS.

O primeiro deles utiliza entrevistas para avaliar a percepção sobre a homeopatia por parte de profissionais de saúde e usuários de uma unidade do SUS de instituição de ensino superior; avalia, ainda, as modificações na prática e conduta dos alunos de Medicina, a partir do ingresso no curso de especialização em homeopatia, e a percepção dos professores, preceptores e da Congregação da Faculdade de Medicina de Jundiaí sobre a homeopatia e sobre o curso. Entre seus resultados, merece destaque - pois reafirma observações de outros estudos - a descrição das transformações que o processo formativo em homeopatia promove entre os alunos, que passam a valorizar a necessidade do resgate da integralidade do doente, colocam o indivíduo no centro da atenção e vêem fortalecida a relação com o paciente.

O segundo artigo analisa a prática médica homeopática desenvolvida em uma unidade de saúde do Rio Grande do Sul, por intermédio de consulta a documentos, observação direta e entrevistas com profissionais, usuários e gestor da unidade, tendo como categorias de referência: acolhimento, vínculo e cuidado, tomadas como dimensões da integralidade. Seus resultados expõem as dificuldades encontradas pelas práticas integrativas e medicinas não hegemônicas de se organizarem no sistema público; e conclui sugerindo que "embora a homeopatia seja uma racionalidade médica coerente e fortalecedora dos princípios do SUS, é preciso que ela seja reconhecida, valorizada e disponibilizada como opção terapêutica a toda a população, contribuindo na promoção da integralidade em saúde."

Um terceiro artigo, "Ensino da homeopatia na graduação em farmácia", analisa o processo de definição curricular e normalização do ensino da homeopatia em face das diferentes forças atuantes no campo da farmácia: a legislação do Conselho Federal de Farmácia e da ANVISA; as novas diretrizes curriculares; as oscilações do mercado de trabalho; as ações políticas de estudantes e profissionais, e as demandas das associações de classe, como a Associação Brasileira de Farmacêuticos Homeopatas. Apresenta dados que indicam que a assistência farmacêutica homeopática no SUS não tem acompanhado a expansão da assistência médica homeopática, pois apenas 30% dos serviços de homeopatia da rede SUS fornecem medicamento homeopático. Reflete, ainda, sobre a necessidade de se incluir a homeopatia na formação do farmacêutico generalista, para atender ao modelo das diretrizes curriculares atuais, o que tenderá a diminuir a procura pelos cursos de pós-graduação em homeopatia.

Concluindo, é possível afirmar que esses artigos certamente servirão para uma boa aproximação com o campo homeopático, pois levarão o leitor a percorrer suas áreas mais relevantes: a formação de especialistas homeopatas (médicos e farmacêuticos); a caracterização da prática homeopática realizada a partir do próprio homeopata, de outros profissionais de saúde e de usuários; a interface entre a homeopatia e outros setores do campo da saúde, como SUS, Instituições de Ensino Superior e órgãos de regulamentação e certificação profissional.

Uma boa leitura!

 

Sandra Abrahão Chaim Salles
Instituto de Cultura e Escola Homeopática;
departamento de Medicina Preventiva, Faculdade de Medicina,
Universidade de São Paulo

UNESP Botucatu - SP - Brazil
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