ESPAÇO ABERTO

 

O amor nos tempos de Narciso

 

Love in the time of Narcissus

 

El amor en los tempos de Narciso

 

 

Izabel Cristina Rios

Médica. Centro de Desenvolvimento da Educação Médica "Professor Eduardo Marcondes", Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (CEDEM-FMUSP). Av. Dr. Arnaldo, 455 Cerqueira César São Paulo, SP 01.246-903 izarios@usp.br

 


RESUMO

O presente artigo discute a dificuldade do encontro amoroso nos tempos atuais. Parte da leitura psicanalítica sobre as origens dos modos de amar na fase do desenvolvimento psicossexual chamada narcisismo primário, na qual o eu e o outro se constroem dentro de um contexto cultural. Ao longo da vida, a identidade continua sendo modelada pela interação do eu com o mundo em que vive. Do estudo de alguns aspectos do mundo atual, desenvolve a idéia de que a cultura contemporânea apresenta valores e modelos que não sustentam as relações intersubjetivas porque estimulam o modo narcísico de subjetivação. Valores como individualismo, consumismo, culto ao corpo e à imagem, produzem comportamentos que revelam a supremacia do eu. No mundo atual, cada um está voltado para si mesmo, e o outro, como alguém diferente do eu, não é desejável. Essa posição subjetiva impede o autêntico encontro amoroso e sua sobrevivência.

Palavras-chave: Amor. Narcisismo. Subjetividade. Psicanálise. Cultura.


ABSTRACT

This paper discusses the difficulty of amorous encounters nowadays. It starts from a psychoanalytic reading of the origins of types of love within the psychosexual development phase known as primary narcissism. In this, the self and the other are constructed within a cultural context. Over the course of life, identity continues to be shaped by the interaction between the self and the surrounding world. From studying some aspects of the present-day world, the idea developed is that contemporary culture has values and models that do not support interpersonal relationships because they stimulate a narcissistic manner of subjectivation. Values such as individualism, consumerism and cult of the body and image produce behavior that demonstrates the supremacy of the self. In the present-day world, everyone is engrossed in himself or herself, and the other, as somebody different from the self, is undesirable. This subjective position impedes authentic amorous encounters and their survival.

Key words: Love. Narcissism. Subjectivity. Psychoanalysis. Culture.


RESUMEN

El presente artículo discute la dificultad del encuentro amoroso en los tiempos actuales. Parte de la lectura psicoanalítica sobre los orígenes de los modos de amar en la fase del desarrollo psico-sexual llamada narcisismo primario en la cual el yo y el otro se construyen dentro de un contexto cultural. A lo largo de la vida, la identidad continúa siendo modelada por la interacción del yo con el mundo en que vive. Del estudio de algunos aspectos del mundo actual desarrolla la idea de que la cultura contemporánea presenta valores y modelos que no sustentan las relaciones inter-subjetivas porque estimulan el modo narcisista de subjetividad. Valores como individualismo, consumismo, culto al cuerpo y a la imagen producen comportamientos que revelan la supremacia del yo. En el mundo actual, cada uno se vuelve para si mismo y el otro, como alguien diferente del yo, no es deseable. Esta posición subjetiva impide el auténtico encuentro amoroso y su sobrevivencia.

Palabras-clave: Amor. Narcisismo. Subjetividad. Psicoanálisis. Cultura.


 

 

O amor fascina...

Ainda que o discurso da ciência e da política reserve à vida amorosa o espaço da norma e da ordem, na clandestinidade, o amor (e seus prazeres e ciladas) sobrevive intensamente nos entremeios dos lugares das responsabilidades sociais, depois (ou antes) dos estudos, da carreira profissional, da conquista de bens e da reprodução da família. O desejo amoroso se espalha e contamina qualquer ambiente, dando-lhe contornos eróticos ou amorosos – amizades, parcerias, paqueras, casos, namoros. O amor transborda os limites da vida privada e desliza nos interstícios da vida pública, com registro semelhante ao da sexualidade (Foucault, 1985), no seu sentido mais amplo: é parte essencial da vida humana, mas atua nos seus bastidores, nem por isso com pouca influência, ao contrário, com força intensa, poderosa, mas dissimulada.

Estamos nos referindo ao amor sensível e temporal, que para os filósofos e teólogos é o chamado amor cupiditas, uma forma de amor, durante séculos, considerada menor em relação ao amor caritas, eterno e acima das paixões terrenas.

Desde a Modernidade, o amor cupiditas passou a ser a expressão máxima da realização pessoal. Alicerce da felicidade individual e seus derivados: cumplicidade, parceria, segurança afetiva, solidariedade, constituição da família, prazer sexual acrescido de carinho e sentimento. Sua ascensão no mundo moderno, em parte, se deve ao que passou a ser o homem comum no mundo capitalista: força de trabalho e agente de consumo. À margem da racionalidade, que determina o pensamento dessa época, as emoções e sentimentos, sobrou o endereço particular das relações amorosas para o indivíduo experimentar sua natureza humana sensível (Costa, 1998).

Esse amor, também chamado de amor romântico, surge na história da humanidade como um produto cultural do retraimento do homem comum da malha social mais ampla. Em visão panorâmica, o amor romântico aparece como fenômeno social, junto com o individualismo, no conjunto de estratégias de organização da sociedade capitalista (Foucault,1986). No espaço individual da produção da subjetividade, os processos do amor tornam-se fundamentais para a formação e manutenção da identidade (Costa, 1998).

 

O amor no divã

Na vida íntima das pessoas, o amor (ou sua falta) dirige escolhas, caminhos, tece destinos, faz a saúde, ou a consome. Freud dizia que a saúde é assegurada pela capacidade para o amor e o trabalho...

Para a Psicanálise (Freud, 1914), o amor é sentimento e ação de investimento de energia psíquica (libido) sobre um objeto. A ligação da libido com o objeto participa de (pelo menos) dois processos essenciais no psiquismo: a satisfação parcial do desejo (por exemplo, no prazer erótico do encontro sexual) e o contínuo trabalho psíquico de lapidação do eu na relação com o outro. O amor é fonte de prazer e alicerce da construção permanente da identidade. O seu fracasso pesa sobre essas duas condições básicas para o bem-estar psíquico humano.

Vejamos de perto... Desde o início da vida, o eu se constrói e se sustenta na relação com o outro que também é "criado" nessa relação (Green, 1988; Freud, 1914). Na fase do desenvolvimento psicossexual, que Freud chamou de narcisismo primário, o eu e o outro se constroem numa relação de espelhamento. O objeto amado é visto à imagem do eu e valorizado pela semelhança, no tipo de ligação amorosa chamada narcísica. Em um ambiente seguro e amoroso, na convivência com o adulto que cuida, alimenta e protege, a criança começa a perceber o outro como diferente e passa a sustentar seu valor não mais na semelhança, mas na relação intersubjetiva, no tipo de ligação amorosa chamada anaclítica. Os dois modos de amar se mantêm funcionais ao longo da vida, não havendo uma separação precisa e rígida entre um e outro, mas diferentes gradientes, tendências e inclinações.

De certa forma, toda escolha apaixonada de objeto de amor revela uma captura narcísica (Freud,1914) – inconscientemente, vejo no outro o que eu sou, o que eu fui, o que eu gostaria de ser ou o que eu gostaria de possuir. Quem nunca encontrou, alguma vez na vida, aquela pessoa perfeita que faz o coração pular de alegria?

No desapaixonamento, com a queda dos ideais narcísicos projetados, o valor do objeto pode desabar. Quem nunca descobriu, algum tempo depois, que aquela pulsação toda não era mais que uma disritmia passageira?

A relação amorosa permanece depois de decantar a paixão, quando o eu consegue transpor o estado narcísico para o estado da alteridade e reconhecer no outro alguém para amar. Ou seja, o eu, suficientemente constituído e seguro da sua capacidade de transitar pelo campo relacional formado por subjetividades diferentes, consegue sustentar a relação com o outro e ainda se enriquecer pelo compartilhamento de idéias, afetos e experiências novas.

A constituição desse eu competente para o encontro intersubjetivo ocorre a partir da relação mãe-bebê (Winnicott, 1993) e, durante a vida, permanece em equilíbrio dinâmico com o ambiente cultural e as referências com as quais o eu mantém diálogo e espelhamento. O narcisismo é uma fase normal do desenvolvimento psíquico, fundamental para a constituição do eu e do lugar do outro em nossas vidas. As dificuldades no relacionamento intersubjetivo ocorrem quando, por algum motivo, a saída dessa fase fica comprometida ou, na vida adulta, o retorno a ela encapsula o eu em si mesmo, caracterizando um modo de subjetividade na qual não há legítimo valor e interesse pelo outro.

A experiência do encontro intersubjetivo e, mais ainda, do encontro amoroso, desejado e sonhado em verso e prosa, letra e música, depende de uma subjetividade construída nas bases de um eu que passou pela fase do narcisismo primário, dele saiu competente para a experiência da alteridade, e que se mantém e se reforça durante a vida em uma cultura que lhe ofereça modelos de sustentação da intersubjetividade.

Nos tempos atuais, é cada vez mais freqüente o sentimento e a queixa de dificuldades de relacionamento na vida das pessoas. Imaginando que por sorte, ou simplesmente por uma "certa normalidade" na infância, o sujeito tenha se desenvolvido bem, perguntamos: por que é tão difícil realizar o encontro amoroso?

 

A cultura da solidão

A cultura contemporânea, também chamada de Cultura Narcísica, Somática ou do Espetáculo (Costa, 2004), reproduz conceitos e práticas que não sustentam a alteridade, e constantemente devolvem o sujeito para o miolo de si mesmo quando este procura referências fora de si, na experiência coletiva. É por esta vereda que agora vamos deixar seguir nossas reflexões neste estudo.

Os tempos atuais a que nos referimos correspondem ao período que se inicia por volta da década de 30 do século XX até os dias de hoje, que, para alguns autores, é chamado de Época da Pós-modernidade (Lyotard, 2002; Anderson, 1999), e, para outros, Época Hipermoderna ou Supermoderna (Augé, 2005; Lipovetsky, 2004).

Para eles, a condição pós-moderna, ou hipermoderna, é fruto do desenvolvimento do capitalismo multinacional e dos fenômenos da globalização. Sua base material é a globalização econômica, a lógica do mercado e o neoliberalismo que solaparam os ideais utópicos, políticos, éticos e estéticos da Modernidade.

O antropólogo Marc Augé (Augé, 2005) diz que a principal característica dos tempos atuais não é o fim da modernidade, mas o excesso, a hipertrofia e a deformação, particularmente em três dimensões: o tempo, o espaço e o eu. A figura do excesso do eu surge do fracasso das grandes narrativas ideológicas que davam sentido ao coletivo humano. Na sua falta, faz-se necessário a produção individual de sentido para a existência. As pessoas, descrentes da política e das idéias revolucionárias que prometiam um mundo melhor, não se vêem mais como pertencentes a grandes coletivos sociais, mas sim a identidades particulares. A atuação na esfera pública não diz respeito às lutas de classe, mas, no máximo, às lutas pelos interesses de grupos (sexuais, raciais, culturais, religiosos etc), estando cada um mais voltado para si mesmo. O individualismo, que nasceu com o modernismo, na contemporaneidade faz sua apoteose narcísica (Costa, 2004).

Na falta de referências culturais que legitimem a experiência com o outro, enquanto diferente e desejável, o eu tem a si mesmo como objeto de amor e de sustentação da sua identidade. No estilo "Amar bastante a mim mesmo de modo a não precisar que ninguém me faça feliz" (Badinter apud Costa, 1998, p.143), vivemos em um mundo onde o encontro amoroso fracassa antes mesmo de se insinuar como tal porque as relações intersubjetivas estão em ruínas.

Na vida cotidiana, as pessoas se agrupam para trabalhar, para estudar, para ganhar dinheiro, para se divertir, para "ficar". Mas, é o estar junto fisicamente que realiza o encontro intersubjetivo? Por exemplo, observemos pessoas em grupo, em um espaço público, um restaurante ou uma festa: falam demais, gesticulam, ocupam todo o espaço possível com uma presença ruidosa. Se prestarmos atenção, veremos que a maioria não escuta umas às outras, exceto o mínimo necessário para abrir espaço para a sua própria fala. Falta interesse legítimo pelo universo alheio. Falta disposição interna para escutar, refletir, construir junto um pensamento compartilhado, produto de um encontro. No cenário público, é cada vez mais freqüente o comportamento teatral, mais precisamente, televisivo. As pessoas agem como se fossem personagens de uma história que está sendo filmada – e não raramente estão mesmo sob as lentes de alguma câmera do sistema de segurança eletrônico – e deixam exibir, na tela, a satisfação por aparecerem na TV, mesmo que em situações constrangedoras ou dolorosas.

O comportamento narcísico, que podemos ver em diversos cenários da vida pública e privada, ganha destaque nos meios de comunicação. Há pouco tempo, uma revista de grande circulação trazia matéria sobre as mulheres mais belas de São Paulo. No meio das declarações sobre segredos de beleza ou idéias a respeito de ser bela, encontramos uma pérola: uma das entrevistadas declarava que se não fosse bela, seria cantora lírica! Indignada, na semana seguinte, uma leitora respondeu que se tratava de um absurdo, porque havia (e citava nomes) cantoras líricas muito bonitas também! Não fosse cômico o duelo das duas titãs dos nossos tempos de Narciso, seria deprimente a exposição pública de um olhar e um pensar tão incapaz de ir além da aparência. Esse exemplo mostra também uma importante mudança do modo subjetivo do homem atual em relação ao homem moderno, a mudança da primazia do sentimento/pensamento para a sensação/corporeidade (Costa, 1998). As identidades no mundo contemporâneo se sustentam mais pelas imagens do que pela reflexão, mais pelo consumo que pelo cultivo.

O outro é colocado no papel de mero espectador, com a função de assistir a cena do eu, protagonista principal (seja lá do que for), admirar a sua "beleza" e, assim, proporcionar a ele o prazer da exibição. Ou então o outro é tratado como um dos bens de consumo do eu, com os quais ele sustenta sua identidade na linha do "você é o que você consome".

O amor e o sexo não escaparam ao princípio consumista do mais querer, que produz o rápido esgotamento do que se tem. Acumulam-se casos e histórias como se acumulam coisas. E deles se descarta do mesmo jeito. Nessa lógica, é estimulado o exercício do sexo (seguro e em grande quantidade), com muita diversificação não só de parceiros, como de técnicas, acessórios e cenários. Subtrai-se o encontro amoroso e multiplica-se a ginástica sexual.

Em um mundo de pessoas voltadas para si mesmas, encantadas consigo mesmas, hipocondríacas, obcecadas por seus corpos e mergulhadas na fantasia do prazer constante, o amor é um sentimento fraco, de uma ligação frouxa com o outro. Não importa se é o outro simbólico, da ligação amorosa anaclítica, ou o outro especular, da ligação amorosa narcísica, porque, no primeiro caso, não se tolera a diferença, e, no segundo, a miragem rapidamente desvanece quando se percebe o engano. O modo de subjetivação que não transpõe o narcisismo no encontro intersubjetivo e, mais ainda, no encontro amoroso, tem marca registrada, nos tempos atuais.

A queixa comum é o sentir-se só, mesmo que acompanhado. Homens e mulheres se ressentem do egoísmo e da superficialidade nos relacionamentos. Para ambos, o amor romântico continua atraente e sucesso garantido nas novelas: idealizado, puro e completo. Se, na versão dos tempos modernos, significava desafio e esforço para o crescimento dos parceiros, nos tempos de Narciso é o amor perfeito, mágico, raro e, no mais das vezes, natimorto. No modo subjetivo contemporâneo, o encontro amoroso fica na fantasia: para ele se enfeita, a ele se exibem bens, nele não se entrega, dele se retrai desiludido. Afinal, se o amor de "boa qualidade", o "amor de verdade", não acontece rápido e fácil (como querem os tempos atuais), então, melhor ficar só. A solidão, que também é um estado psíquico necessário em muitos momentos da vida, neste caso torna-se um ideal de ser. O ser só, que se apóia no ideal de auto-suficiência (Birman, 2001), onipotente na ilusão de não precisar de ninguém além de si mesmo, adquire grande valor social entre nós.

O encapsulamento é um recurso de proteção contra o incômodo, a decepção, e o custo da relação intersubjetiva, que requer o exercício da tolerância, da reflexão, do diálogo, da autocrítica e do esforço para mudar... (que, só de pensar, dá canseira, imagine pôr em prática!).

Não que o legado do amor romântico moderno (Costa, 1998) seja algo a se preservar enquanto tal. O amor romântico fala de um encontro amoroso profundo até a raiz da alma, incompatível com a realidade da vida conjugal comum. Na prática, acaba fazendo a frustração das pessoas que querem alcançar êxito numa fórmula amorosa tão ideal quanto impossível... Mas, incrustar-se em si mesmo e manter a relação afetiva reduzida à superfície do contato psíquico, esperando que o fim da noite separe quem se encontra a seu lado na mesma cama - da qual se levanta com a legítima sensação de ter dormido com uma pessoa estranha, ou até inimiga -, não parece ser uma solução melhor.

Amar dá trabalho. E o ganho pode parecer pouco – especialmente quando se vive em um mundo como o nosso, que nos cobra a busca por um fictício estado prazeroso ininterrupto. O ganho, que não está previsto nessa conta que soma êxtases, é aquele que não se percebe de imediato: as transformações do eu na experiência da intersubjetividade. Como dito anteriormente, o eu não é um produto pronto e acabado na saída da primeira infância. O eu passa a vida se fazendo e refazendo nas relações com o mundo. A falta de relações intersubjetivas autênticas impossibilita experiências de vida que são imprescindíveis para a felicidade do eu. Ou seja, não nos bastamos, mesmo quando acreditamos que é melhor não gostar de ninguém para evitar sofrimento. Evitamos as dores de amores pelo outro e afundamos nas dores do vazio de si mesmo.

Claro que cada um de nós tem direito a escolher com qual dos males pretende levar sua existência. Parece que, atualmente, a segunda opção tem conquistado mais adeptos.

 

Amor, impossível amor...

Mário de Andrade definiu para sempre: amar é verbo intransitivo.

O amor atrai pela promessa do bem, mas cutuca uma ferida narcísica: expõe nossa carência, nossa falta em sermos completos como gostaríamos. Quando amamos, sofremos porque vemos no outro tudo o que nos falta e queremos. Sofremos porque temos medo de que o outro goste menos de nós e nos abandone, levando consigo uma parte nossa que nos desabita. Se não amamos, sofremos porque não temos com quem compartilhar o que temos. Se não somos amados, não adianta ter o que compartilhar. Goethe (2000, p.112) diz: "Ah, ninguém me poderá dar o amor, a alegria, o calor e o prazer, se tudo isso não estiver dentro de mim mesmo, e com um coração repleto de felicidade não poderei fazer feliz a outrem, se ele permanecer frio e sem forças diante de mim".

O amor nunca é calmo, manso e sereno, justamente porque se realiza na intersubjetividade, espaço de encontro e desencontro de esperanças e desejos.

Diante da dificuldade dos encontros intersubjetivos e, mais precisamente, dos amorosos - nos quais, de fato, duas pessoas se permitem conhecer uma à outra, se interessar de verdade por universos pessoais distintos, dos quais possam emergir deixando lá algo de si, trazendo cá algo do outro -, fica uma questão e um desafio. Se os valores da nossa cultura atual estão na base dessa contínua construção/ reconstrução de sujeitos superficiais e enfraquecidos, sem a verve necessária para esse experimento humano essencial e profundo, como plantar em si "o amor, a alegria, o calor e o prazer" e experimentar a arte de amar?

Será que, diante do que temos, precisaremos nos contentar com o final "enfim só", depois do shopping, da pizza com coca-cola na frente do computador ou do plasma da TV, e um comprimido de antidepressivo, duas vezes ao dia?

 

Referências

ANDERSON, P. As origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.         

AUGÉ, M. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 2005.         

BIRMAN, J. Mal-estar na atualidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.         

COSTA, J.F. O vestígio e a aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.         

______. Sem fraude, nem favor: sobre o amor romântico. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.         

FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1986.         

______. História da sexualidade I. Rio de Janeiro: Graal, 1985.         

FREUD, S. Introdução ao narcisismo. Rio de Janeiro: Imago, 1914. (Edição Standard Brasileira, v.14).         

GOETHE, J.W. Os sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Martins Fontes, 2000.         

GREEN, A. Narcisismo de vida, narcisismo de morte. São Paulo: Escuta, 1998.         

LIPOVETSKY, G. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2004.         

LYOTARD, J.F. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2002.         

WINNICOTT, D.W. Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993.         

 

 

Recebido em 19/04/07.
Aprovado em 14/03/08.

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