ARTIGOS

 

A construção da identidade profissionalna graduação do nutricionista*

 

Construction of professional identity in undergraduate courses for nutritionists

 

La construcción de la identidad profesional en la graduación del nutricionista

 

 

Maria Luiza Sampaio BandukI; Lidia Ruiz-MorenoII; Nildo Alves BatistaIII

INutricionista. Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Rua Dr. Sampaio Viana, 203, apto. 101, Paraíso, São Paulo, SP, Brasil. 04.004-000. malubanduk@uol.com.br
IIBióloga. Centro de Desenvolvimento do Ensino Superior em Saúde (Cedess)
IIIMédico. Unifesp

 

 


RESUMO

Propôs-se conhecer como a identidade profissional é trabalhada na graduação de nutricionistas, com base em depoimentos de coordenadores e alunos dos cursos de nutrição no município de São Paulo. Observou-se que, embora de forma assistemática, a identidade profissional é objeto de preocupação, trabalhada por meio de discussões sobre atribuições específicas do nutricionista e conceitos éticos. Coordenadores consideram importantes o debate e a pesquisa sobre o tema, recomendando sua ocorrência na graduação de modo transversal, no cotidiano das aulas. Propõem um maior aprofundamento da questão, advertindo sobre a necessidade de formação docente. Alunos preocupam-se com a prática profissional imediata, em franca diversificação, e com o reconhecimento social. Conclui-se que, em função da grande expansão da ciência da Nutrição e da atuação do nutricionista e tendo em conta o contexto condicionado pelas atuais políticas públicas, o assunto é relevante, verificando-se que a identidade do nutricionista revive um processo de construção.

Palavras-chave: Nutricionista. Identidade profissional. Graduação. Nutrição. Ensino superior.


ABSTRACT

This study aimed to find how nutritionists' professional identity is developed during undergraduate courses, based on statements from coordinators and students of nutrition courses in the municipality of São Paulo. Professional identity was seen to be a subject of concern, albeit non-systematically, developed through discussions on nutritionists' specific attributes and ethical concepts. The coordinators believed that debate and research on the topic were important and should be conducted during the course in interdisciplinary form, within the classroom routine. They proposed going into this subject more deeply and warned about the need for teacher training. The students were concerned about immediate professional practice, which is clearly diversifying, and about social recognition. It was concluded that this subject is important because of the great expansion of the science of nutrition and the activities of nutritionists, within a context conditioned by current public polices. It was seen that nutritionists' identity has been undergoing a formation process.

Key words: Nutritionist. Professional identity. Undergraduate courses. Nutrition. Higher education.


RESUMEN

Este artículo se propone conocer como se trabaja la identidad profesional en la graduación de nutricionistas a partir de declaraciones de coordinadores y alumnos de los cursos de nutrición en el municipio de São Paulo, Brasil. Se ha observado que, aunque de forma asistemática, la identidad profesional es objeto de preocupación, trabajada por medio de discusiones sobre atribuciones específicas del nutricionista y conceptos éticos. Los coordinadores consideran importantes el debate y la investigación sobre el tema. Proponen una mayor profundización, advirtiendo sobre la necesidad de formación docente. Los alumnos se preocupan con la práctica profesional inmediata, en franca diversificación, y con el reconocimiento social. El asunto es relevante verificándose que la identidad del nutricionista revive un proceso de construcción.

Palabras clave: Nutricionista. Identidad profesional. Graduación. Nutrición. Enseñanza superior.


 

 

Introdução

A existência da profissão do nutricionista no Brasil há mais de sessenta anos ainda não lhe garante uma identidade profissional claramente percebida pela sociedade brasileira. A busca de aprimoramento da qualidade de vida coloca os hábitos alimentares saudáveis, dietas e propriedades de alimentos em evidência, mas a exata dimensão da contribuição do nutricionista na pesquisa, no planejamento e na aplicação dos mais modernos conceitos da Nutrição só é conhecida em grupos especialmente dedicados ao assunto. O próprio grupo profissional tem frequentemente relatado a dificuldade de se impor, de modo coletivo, perante seus pares na suposta equipe multiprofissional da saúde (Motta, Oliveira, Boog, 2003).

O conceito de identidade é complexo, pois perpassa áreas de conhecimento como a Psicologia, a Sociologia, a Antropologia e a Filosofia. Laurenti e Barros (2000) afirmam que a identidade não é inata e pode ser entendida como uma forma socio-histórica de individualidade. O contexto social fornece as condições para os variados modos e alternativas de identidade, e a identidade individual expressa, de certa forma, uma singularidade construída nas inter-relações. Os autores explicam que o processo de construção da identidade tem um caráter dialético; nessa perspectiva, adotam as leis da dialética apresentadas por Gadotti (1983), para caracterizá-la como totalidade, movimento, contradição e evolução.

Mais recentemente, Ronzani e Ribeiro (2003), discutindo a identidade e a formação profissional do médico, ponderam que a identidade social, embora socialmente construída, não é imutável, implicando uma relação entre indivíduo e grupo, onde importam não apenas as semelhanças, como também as diferenças entre os membros. Dessa maneira, a importância dada ao grupo é dependente do grau de envolvimento de cada indivíduo, motivo pelo qual é frequente a apresentação de dificuldades de adaptação a novas realidades, especialmente no caso da área da saúde, em que a mudança de contexto é uma realidade.

Baptista (2002) acredita que o processo de construção da identidade coletiva acontece quando um conjunto de pessoas, em um determinado tempo histórico, apresenta características que o marcam como idêntico a si mesmo e diferente de outros. Segundo Habermas (apud Baptista, 2002), uma instância extremamente importante dessa identidade coletiva é a que dá sentido de continuidade para os indivíduos, por adotarem papéis, normas e valores válidos para todos os componentes do grupo, o que é reafirmado constantemente por suas realidades objetiva (estrutura social, grupos de referência, organizações, instituições) e subjetiva (representada, sobretudo, pela capacidade de reflexão de cada uma das pessoas).

Ao estudar a sociologia das profissões, Pereira Neto (2000) explica o processo de profissionalização como uma conquista de um determinado grupo social. Para o autor: "[...] profissão é definida como ocupação com prestígio e poder especial. Diferencia-se da ocupação em razão de chegar a adquirir, por meios políticos, culturais e ideológicos, extraordinária autoridade cognitiva e normativa" (p.400).

No caso da autoridade cognitiva, sua expressão estaria constituída de formação institucionalizada, conhecimento específico, linguagem própria e da resolução efetiva dos problemas que a sociedade demandasse; e, no caso da autoridade normativa, da capacidade de se autodisciplinar e cumprir espontaneamente a regulação de conduta. Essas características, uma vez adquiridas, garantiriam a autonomia e, consequentemente, o reconhecimento da identidade do profissional pela sociedade.

De acordo com esse raciocínio, na Nutrição, a identidade profissional estabelecer-se-ia em um processo de construção contínuo, a partir do desempenho do papel para o qual o profissional está inicialmente preparado, e ao longo das transformações qualitativamente estimuladas pela sua capacidade de reflexão e pelo empenho das instituições que o referendam (ensino) ou representam (corporativas) na luta para conquista de sua autonomia.

Um estudo recente, de caráter nacional, sobre a formação do nutricionista no Brasil (Zainko, 2000), faz referência à permanente busca de identidade pelo nutricionista, marcada pelo fato de que, apesar da conquista de avanços teóricos significativos, ainda há certa distância entre a teoria idealizada e a prática profissional.

Estudos desenvolvidos na década de 1990 demonstram que a maior preocupação na formação do nutricionista tem sido a definição do perfil profissional e das habilidades específicas à área. Para Costa (1999), esses estudos estiveram concentrados no esforço de incorporar a Nutrição, enquanto ciência aplicada, aos serviços de saúde, especialmente diante da necessidade de delimitação do espaço a ser ocupado pelo nutricionista no país.

Considerando a situação acima descrita, o objetivo deste artigo é analisar, com base em depoimentos de alunos e coordenadores de cursos de Nutrição do município de São Paulo, como a temática da identidade profissional tem sido trabalhada na formação de nutricionistas, investigando-se concepções, conteúdos e estratégias de ensino-aprendizagem em relação ao momento do curso em que são utilizados, bem como identificando expectativas quanto à necessidade e ao aperfeiçoamento do debate em torno dessa temática.

 

Metodologia

Foi estudado o universo dos cursos de nutrição localizados no município de São Paulo que já haviam formado, ao menos, uma turma até o momento em que se realizou o estudo (2004) - universo este constituído por nove cursos de graduação (oito do setor privado e um do setor público), distribuídos em 15 campi. Foram entrevistados os nove coordenadores dos referidos cursos, por se considerar que eles possuíam clareza da globalidade do projeto pedagógico que coordenavam, e 17 estudantes de último ano desses cursos, por se compreender que estes já tinham uma visão geral do processo de formação e capacidade de análise do aprendizado recebido. Os alunos se apresentaram espontaneamente para responder às entrevistas, após uma apresentação do objeto da pesquisa às turmas por ocasião de reuniões de supervisão de estágio, de rotina nas suas universidades.

O dimensionamento dessa população respeitou as recomendações de Minayo (1998), para quem, na pesquisa qualitativa, a amostra deve privilegiar os sujeitos sociais que detêm os atributos do estudo. No caso dos estudantes, a opção foi pelo número suficiente que permitisse certa reincidência de informações. Assim, a amostra de 17 alunos mostrou-se satisfatoriamente consistente para a identificação de padrões simbólicos e categorias de análise, de modo que se obteve o número suficiente ou de saturação.

O instrumento de coleta de dados foi uma entrevista semiestruturada, não diretiva, na qual o pesquisador apenas guiou a entrevista, mantendo-se interessado no que o entrevistado falava. Aos coordenadores, perguntou-se diretamente em que momentos, disciplinas e conteúdos o tema da identidade profissional era abordado, e que dificuldades/desafios eles enumerariam para sua completa discussão. Aos estudantes, perguntou-se de que modo o curso havia contribuído para a sua visão atual sobre ser nutricionista e que sugestões apresentavam para o aprimoramento desse processo.

As entrevistas foram gravadas e transcritas pelo pesquisador, obtendo-se autorização dos entrevistados para esse procedimento. A pesquisa obteve autorização do Comitê de Ética da Universidade Federal de São Paulo, sob o protocolo n. Cep 0283/04.

Optou-se pela análise de conteúdo, compreendida, segundo Bardin (2006), como um conjunto de técnicas de análise das comunicações, capazes de construir indicadores que permitem inferir conhecimentos relativos às condições de produção das mensagens - técnicas estas de uso crescente na análise de dados em pesquisas qualitativas.

Com base nos núcleos direcionadores da entrevista (Concepção de identidade profissional e Ensino e aprendizagem do tema), a análise de conteúdo compreendeu as seguintes etapas, como sugere Franco (2003): leitura seletiva do material coletado; organização das respostas dos diferentes entrevistados; seleção dos depoimentos e identificação de unidades de contexto e suas respectivas unidades de registro; apreensão das categorias de análise.

 

Resultados e discussão

Na opinião dos coordenadores, o conceito de identidade profissional não tem sido objeto de aprofundamento nos cursos de graduação. Os entrevistados reconhecem a necessidade de maior discussão, afirmando que a identidade profissional coletiva ainda não está consolidada, o que associam à falta de autonomia do nutricionista. Alguns coordenadores chegam a evidenciar a superposição de diferentes conceitos relacionados, questionando:

Identidade, de repente, ela pode ser o perfil, né? E pode ser atribuição. Acho que passa muito por isso, não é? Toda vez que você pensa... bom, qual é a identidade do profissional nutricionista? Eu também faço a mesma pergunta: qual é o perfil do profissional nutricionista? O que ele teria como atribuição para compor a chamada "identidade profissional"? Eu acho que isso vem mudando ao longo dos anos [...]. (C9)

Mas a maioria dos coordenadores concebe o nutricionista como um profissional da área da saúde que vem conquistando uma atuação abrangente, preferencialmente educadora, e sua inclusão na equipe multidisciplinar.

O nutricionista é um profissional da saúde... é um educador, em qualquer área de atuação. Eu gostaria muito de reforçar isto na formação dos alunos, essa visão de educador, ter uma ação transformadora no seu ambiente de trabalho. Obviamente baseado em toda a tecnologia, na técnica e na ciência da Nutrição. (C8)

A expectativa dos estudantes de vivenciar a prática, e a preocupação com as atuais condições de trabalho do nutricionista os levam a interessar-se preferencialmente pelas atribuições desse profissional, em detrimento da reflexão sobre a sua identidade. A visão do nutricionista como educador é também enfatizada pelo grupo.

Eu acredito que a nutricionista é sempre uma educadora, independentemente da área que a gente vai ter de atuação, procurando sempre buscar uma qualidade de vida e uma reeducação alimentar. Porque a gente sabe que desde quando nasce até o idoso, a gente tem que estar reforçando como deve se alimentar e como deve estar mantendo a alimentação. (E5)

Importantes estudos sobre a história do nutricionista e sua formação no Brasil foram desenvolvidos desde meados dos anos 80 e, mais intensamente, na década de 1990, dedicando-se à análise da situação dos egressos dos cursos de Nutrição existentes à época (Boog, Rodrigues e Silva, 1988; Boog, Rodrigues e Silva, 1989; Prado, Abreu, 1991; Rottemberg, Prado, 1991; Costa, 1996); à história desse profissional, e à análise de sua prática (Costa, 1999; Santos, 1988; Ypiranga, Gil, 1989; Asbran, 1991; Bosi, 1996; Viana, 1995).

A busca pela autonomia técnica do nutricionista foi apontada em vários deles, fazendo-se, inicialmente, referência à origem de subordinação técnica e científica ao papel hegemônico do médico (Santos, 1988; Viana, 1995).

Nesta pesquisa, tanto os coordenadores de curso como os estudantes expressaram suas preocupações com essa situação. "A população, geralmente, não vai acreditar no nutricionista, vai acreditar mais no médico, né?" (E4).

Essa representação tem influenciado a identidade do nutricionista, pois esta se apresenta, segundo Ronzani e Ribeiro (2003, p.229), "como uma relação de unicidade e, ao mesmo tempo, de pluricidade", em que o sujeito compartilha valores e crenças com o grupo cultural a que pertence.

Os depoimentos dos entrevistados mostram que a construção da identidade do nutricionista na equipe de saúde ainda precisa ser aprimorada. "Numa equipe multiprofissional, a gente vê que o nutricionista sempre fica um pouco de fora... do trabalho de todo mundo. A gente, nos estágios, nunca vê o nutricionista no auge" (E6).

As atuais Diretrizes Curriculares (Brasil, 2001) enfatizam a necessidade de o nutricionista desenvolver competências para integrar as equipes multiprofissionais no contexto do atual sistema público de saúde do país. Na opinião de Motta et al. (2003), a efetiva integração desse profissional na equipe de saúde ainda apresenta grandes desafios relacionados à construção da identidade profissional.

O correto exercício das competências comuns, enunciadas nas Diretrizes Curriculares, dos diferentes cursos da área da saúde, demanda não somente a discussão das alternativas de melhoria da formação técnica e científica na graduação, mas também a permanente reavaliação das interseções e limites profissionais entre as diversas áreas.

Guimarães e Rego (2005), em um estudo sobre o debate provocado pela institucionalização do Ato Médico, consideram indispensáveis: uma avaliação criteriosa dos saberes e competências específicos à formação dos diferentes profissionais da equipe de saúde, e a consequente preservação dos limites de cada competência, respeitada a divisão do trabalho já efetivada.

Os autores afirmam que são fundamentais a observação e a análise das possibilidades de autonomia de cada uma das categorias profissionais, bem como o enfrentamento das ameaças de perda de identidade resultantes das novas relações de trabalho.

Baptista (2002) assume que a identidade profissional é construída na interação do eu com a sociedade. Sua ênfase recai naquilo que as pessoas têm em comum, enquanto grupo sociocultural, e as diferencia em relação àqueles que atuam em outros ramos de atividade.

Recentes relatos de experiências positivas de inserção do nutricionista em equipes multidisciplinares, tais como equipes do Programa de Saúde da Família ou equipes ambulatoriais, trazem a riqueza da integração construída junto aos pares e validam a possibilidade de uma efetiva assistência nutricional à população brasileira. Esses relatos trazem à tona, entretanto, a ignorância sobre as funções desse profissional pelos gestores de diferentes programas de saúde, e a insuficiência das orientações nutricionais realizadas pelos profissionais não nutricionistas. Assim, confirmam a importância da orientação nutricional no quadro epidemiológico brasileiro e a demanda pela institucionalização dessa assistência como direito do cidadão (Santos, 2005; Pádua, Boog, 2006; Oliveira, Radicchi, 2005).

Uma das coordenadoras entrevistadas enfatiza justamente a busca do nutricionista pela autonomia na equipe de saúde: "Eu acho que nós ainda não a sedimentamos, a gente busca mais autonomia dentro da equipe de saúde, portanto está revendo conceitos, está sempre se perguntando que papel a gente está ocupando [...]" (C4).

Bosi (1996) trata essa questão como um dilema do profissional, concluindo que, aparentemente, o nutricionista ainda não tem clareza quanto ao objeto de sua prática. Nesse sentido, Ypiranga (1990) passou a defender a necessidade do estabelecimento de uma distinção clara entre o objeto de estudo do nutricionista (a ciência da Nutrição) e o objeto de seu trabalho (a alimentação do homem) para que a atuação profissional o identifique frente à sociedade.

Os coordenadores entrevistados no presente estudo apontam algumas mudanças necessárias, na graduação, com vistas ao aprimoramento da construção da identidade profissional pelo futuro nutricionista, enfatizando a importância de uma formação ampla, comprometida com os processos de transformação social, que transcenda a formação técnico-profissional.

[...] eu gostaria que o nutricionista que nós formamos aqui tivesse uma visão abrangente, e não apenas aplicar... o técnico que aplica a ciência específica, mas de um profissional dentro de um contexto de saúde, de um país em desenvolvimento, com muita diferença social. Estar trabalhando em equipe e nesses ambientes onde vários profissionais... eu acho que você tem que ter essa identidade de ser um elemento da área de saúde [...]. (C8)

Os estudantes investigados consideram sua formação geral consistente, fazendo uma avaliação positiva de seus cursos. Compreendem que devem a estes a maturidade que adquiriram, tanto no que diz respeito à aquisição de conhecimento como à sua concepção sobre o nutricionista brasileiro na atualidade. Segundo os estudantes, a construção da identidade profissional só ficaria parcialmente prejudicada pela carência de propostas de ensino das áreas emergentes na prática profissional do nutricionista: "Algumas matérias importantíssimas, como esporte e marketing, não foram passadas adequadamente; ou a gente não captou a mensagem direito, né?" (E6).

Nesse sentido, Amâncio Filho (2004) e Silva (2000) defendem que a formação profissional seja competente para possibilitar, aos futuros trabalhadores, a participação na sociedade científica e tecnológica não apenas como objetos, mas como sujeitos, resgatando-se, assim, sua dimensão política: a construção da identidade social e a integração plena na cidadania.

A graduação em Nutrição, como outros cursos de graduação, vive período de reformas no seu currículo, decorrentes, em parte, das mudanças requeridas pelas novas Diretrizes Curriculares para o Curso de Nutrição (Brasil, 2001). Apesar de a vantagem de fugir da padronização imposta pelos currículos mínimos, os cursos, agora, atravessam um período de adequação, não estando integralmente implantadas as novas propostas.

Para Ronzani e Ribeiro (2003), torna-se relevante analisar a reforma curricular não como um processo estático, mas como uma forma de mudança cultural, iniciada por uma reavaliação de práticas e crenças dos formadores de opinião (professores), uma vez que a organização informal é uma importante fonte de influência na formação da identidade do aluno.

A compreensão das recomendações implícitas na nova legislação e a habilidade das instituições de ensino em implantá-las resultaram em diferentes velocidades de engajamento, de modo que, neste estudo, encontraram-se cursos em fases diferentes de análise de seus currículos.

Alguns dos coordenadores entrevistados relatam a tentativa de implementar currículos integrados e abordagens diferenciadas para aproximar o aluno da prática profissional e, consequentemente, dar início à construção de sua identidade profissional. No entanto, a maioria dos cursos mantém um ensino tradicional, fragmentado e com ênfase nos conteúdos. Nesses casos, a discussão sobre a identidade profissional está concentrada nas disciplinas Ética e/ou Deontologia e Legislação Profissional. "[...] nós temos, na disciplina de ética profissional, no último semestre. Ela tem toda aquela parte de legislação, o que regem os conselhos e as entidades de classe... e entram em contato com as portarias, com as resoluções e tal [...]" (C8).

Apesar da defesa, pelos coordenadores, da relevância dessas disciplinas no processo de aprendizagem da temática da identidade profissional, seus conteúdos não foram especialmente valorizados pelos alunos, mais preocupados com a inserção imediata no mercado de trabalho.

A aproximação com a identidade profissional tem se dado também por meio da leitura das atribuições, aparecendo implicitamente no conteúdo programático das disciplinas profissionalizantes. "[...] no 3º ano, com as disciplinas específicas, os profissionais já vão colocando a atuação em cada área, pois é mais próximo da atuação [...]" (C5).

A concepção disciplinar de ensino tem sido amplamente debatida nas discussões sobre o Ensino Superior. Morin (1996) recomenda que a perda da visão de totalidade e do significado social e humano do conhecimento, gerada pela retaliação da ciência em disciplinas isoladas e autônomas, seja superada pela organização de currículos que avancem para processos interdisciplinares e para a integração com base na complexidade dos fenômenos que constituem os objetos de estudo.

Soares e Boog (2003) propõem a interdisciplinaridade na formação das profissões da saúde, tanto na graduação como na pós-graduação. Eles ressaltam a importância das atividades interdisciplinares nos estágios, sob supervisão docente, como possibilidade de vivência de parcerias e do exercício profissional em equipe.

Apesar de uma cultura predominantemente disciplinar nos cursos de Nutrição investigados, a maioria dos coordenadores entende que o ensino da identidade profissional deveria ocorrer de modo transversal, em diferentes momentos do curso. Nesse sentido, alguns cursos vêm realizando mudanças em suas grades curriculares, com a introdução de abordagens profissionalizantes desde o primeiro ano da graduação. "Nós colocamos disciplinas de Introdução à Ciência da Nutrição: levamos o aluno a entender, desde o primeiro semestre, a entender o que é o nutricionista, o que é que eles estão buscando se formar"(C3).

A introdução de palestras sobre temas emergentes na evolução da ciência da Nutrição e sobre as novas áreas de atuação dos nutricionistas também foi citada pelos coordenadores como estratégia. Eles expressaram o necessário reconhecimento da importância da disciplina "Técnica e Dietética" na formação do nutricionista. "Nossos encontros de nutricionistas, isso sempre se faz, e procuro trazer para cá professores ou palestrantes que tenham... uma certa... tenham se destacado de uma certa forma dentro da sua área de atuação" (C6).

Os estágios foram enfatizados como momentos fundamentais de desenvolvimento para a construção da identidade profissional em todos os cursos estudados. Citou-se a organização de clínicas de atendimento nutricional, voltadas para a comunidade, como exemplo de estratégia de aproximação com a prática. Os estudantes também valorizaram o papel do estágio na formação do "ser nutricionista", solicitando sua antecipação para momentos iniciais do curso. "Eu acho que um ano de estágio é muito pouco... porque eu gostaria de entrar na faculdade com a mente que eu tenho hoje... eu acho que sou mais crítica agora... depois do estágio. Se começasse antes, abriria mais a mente" (E16).

O estágio supervisionado no curso de nutrição obedece, geralmente, a um modelo padronizado, desenvolvido nas três áreas básicas de atuação do nutricionista (administração de serviços, clínica e saúde pública), com inserções diferenciadas nas chamadas áreas emergentes (marketing, controle da qualidade de alimentos, estudo experimental de alimentos, esporte, entre outras). A realização desses estágios, entretanto, vem merecendo discussão há algum tempo, questionando-se, entre outros pontos: organização, programas, atribuições de supervisores, locais, e real aprendizado dos estudantes. Pimenta (1995) comenta que o conceito de prática adotado por estágios curriculares vem se modificando na história da educação, superando a fase de observação e reprodução de modelos, em direção a uma prática mais teorizada e à formação de profissionais.

Kuenzer (2003) reforça o papel do docente na supervisão do aluno no estágio, considerando-o como uma atividade pedagógica planejada e supervisionada que permite uma alternância entre a teoria e a prática.

Ao discutir os conteúdos priorizados para a abordagem da identidade profissional, os coordenadores estudados não se referiram a conteúdos propriamente ditos, mas apontaram estratégias que, preferencialmente, deveriam ser adotadas. Tratar-se-ia de estratégias de ensino-aprendizagem diversificadas, que favorecessem a aprendizagem significativa.

Batista (2004) defende que "A aprendizagem pode, superando as concepções tradicionais, ser entendida como processo de construção, em que o aluno edifica suas relações e intersecções na interação com outros alunos, professores, fóruns de discussão e pesquisadores"(p.63).

O perfil do aluno é apontado por coordenadores e estudantes como fator importante no processo de formação do futuro nutricionista. O seu (des)preparo no Ensino Médio é considerado um desafio para a graduação, e a sua falta de amadurecimento seria responsável pelo aproveitamento parcial das mensagens que os cursos ofereceriam sobre o exercício profissional. Nesse sentido, os coordenadores citam sua intervenção pessoal junto aos alunos, ainda que de maneira assistemática.

Tanto coordenadores como estudantes valorizaram a participação discente em todos os momentos do curso. "Acho importante que os próprios alunos participem desse processo e, para isso, tem que ter alguma estratégia, que tentem dinâmicas de integração, especialmente com as disciplinas ligadas às humanidades"(C2).

Vasconcelos (2002) considera decisivo que os alunos assumam seus papéis de sujeitos e protagonistas de seus processos de formação, superando a tradição da estrutura escolar em reduzi-los a meros receptáculos.

A formação dos professores é também mencionada, tanto pelos coordenadores como pelos estudantes, como aspecto fundamental para a melhoria dos cursos, em particular para a abordagem do tema pesquisado. Os entrevistados afirmam que, mais importante do que o conteúdo, é a postura do docente, especialmente o nutricionista, compreendido como um modelo para o aluno.

[...] acho que a primeira coisa é a gente trabalhar o formador e o centro de formadores, porque é a partir da nossa visão que a gente vai conseguir ensinar... A gente não pode só achar que o aluno tem uma visão distorcida da nossa profissão, mas precisamos avaliar a visão que a gente tem passado para o aluno. (C4)

A resistência dos docentes a mudanças, especialmente a um trabalho mais integrado, é apontada pelos coordenadores como uma das principais dificuldades no ensino da Nutrição. Os estudantes citam, também, a existência de docentes não inteirados da prática do nutricionista, pouco inovadores e mantenedores de estratégias de ensino desestimulantes."A partir do momento que a gente tem professor qualificado para aquela disciplina... nossa!!! Desperta!" (E2).

Uma maior aproximação docente-aluno no debate sobre a prática profissional mostra-se como um caminho profícuo para o aprimoramento do processo de construção da identidade profissional dos futuros nutricionistas.

 

Conclusão

Ao reler a história desse profissional, o relato dos últimos estudos sobre a sua formação e os dados encontrados nesta investigação, verifica-se que o conceito de identidade profissional permanece difuso, frequentemente confundido com atribuições e, portanto, sujeito a uma definição tão múltipla quanto as áreas de atuação do nutricionista.

A compreensão de que a construção da identidade pode e deve ser realizada a partir da graduação é um passo importante. Fica claro, porém, que a falta de debate e concordância sobre o conteúdo dessa proposta vem adiando sua implementação pelos docentes.

Verificou-se que os coordenadores dos cursos consideram a disciplina "Deontologia e Legislação Profissional" um lócus privilegiado para o desenvolvimento da identidade profissional. Essa constatação não é, porém, explicitada pelos alunos, prioritariamente preocupados com a ampliação dos seus conhecimentos práticos e com a compreensão e legitimação social da sua prática, evidenciando um maior interesse na formação técnico-profissional.

Um ponto muito enfatizado, tanto pelos coordenadores como pelos alunos, foi o papel da relação docente-aluno, especialmente no caso do professor nutricionista, no processo de ensino-aprendizagem. A incorporação, pelos docentes, de novas técnicas e estratégias que valorizem a interdisciplinaridade, a transversalidade, a dimensão da prática na construção do conhecimento e sua função mediadora na formação da identidade profissional dos futuros nutricionistas, poderá tornar-se eixo direcionador de uma proposta de graduação comprometida com a formação de profissionais mais conscientes e identificados com sua função na sociedade.

Esta investigação aponta importantes desafios a serem enfrentados para o aprimoramento do processo de construção da identidade profissional do nutricionista na graduação, especialmente na atualidade, com a emergência de novas áreas para sua atuação. A identidade profissional coletiva só irá se configurar a partir do momento em que se concretize a participação de estudantes, profissionais e docentes no debate dessa questão, incluindo ação conjunta.

 

Colaboradores

Os autores Maria Luiza Sampaio Banduk, Lidia Ruiz Moreno e Nildo Alves Batista participaram, igualmente, de todas as etapas de elaboração do artigo.

 

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Recebido em 06/11/07.
Aprovado em 21/08/08.

 

 

* Elaborado com base em Banduk (2005).

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