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A oportunidade de publicar o nosso artigo em Debates, na Revista Interface, deixa-nos lisonjeadas e instigadas a pensar mais sobre o assunto, especialmente por recebermos quatro enriquecedores comentários sobre o texto. Assim, agradecemos à Laura, ao Marco, a Ana e ao Ricardo por sua atenta leitura e pela qualidade dos comentários feitos. Não podia ser diferente, como "atores" implicados radicalmente com a Residência Multiprofissional em Saúde (RMS). Dizemos radicalmente por conhecermos sua história pessoal e profissional e seus envolvimentos não só com a RMS, mas também com a pauta das residências, de modo geral. Como foi dito na dissertação que originou o artigo que abre o debate, nossos interlocutores são fundadores de discursividade sobre a RMS, ou seja, "o discurso produzido abriu espaço para outra coisa diferente dele e que, no entanto, pertence ao que aquele discurso fundou" (DALLEGRAVE, 2008, p. 20), que o referencial que utilizamos seria configurado como um regime de verdade sobre a RMS, isto é, os discursos que um grupo acolhe e faz funcionar como verdade. As tais verdades que, como diz Foucault, são deste mundo.

O que há de comum entre os quatro textos é que nossos debatedores nos brindam com uma rica contextualização sobre as lutas dos movimentos sociais em prol das conquistas que temos hoje e falam dos mesmos lugares, produzindo discursos considerados verdadeiros, formadores do ambiente em que se inscrevem e atravessados pelo meio institucional, compondo aquilo que é considerado o discurso da RMS. Este também foi um jeito de inventar culturalmente a RMS. Em nosso texto tentamos mudar o foco: ao invés de produzir respostas, elaborar perguntas, ao invés de demonstrar certeza, instalar a dúvida, ao invés de prescrever, modo tão caro aos artigos de revistas científicas, problematizar. Deste modo, não pretendemos escrever uma história ou a história da RMS, o que ela seria ou poderia ser, mas sensibilizar os olhares para outros modos e possibilidades de ver, enfim, fazer outras e novas perguntas sobre a RMS.

Tendo como base este modo de pesquisar pretendemos conhecer os discursos que circulam sobre a RMS, tomando para isto desde os documentos de regulamentação (leis e portarias) até textos de jornais e revistas, impressos ou postados na internet, boletins informativos de corporações e até mesmo panfletos que circulam entre os residentes. A proposta era conhecer as condições de possibilidade da existência desses discursos e como se articularam a partir de palavras, frases e proposições que se encontram nos focos difusos do poder.

Assim, nossa análise pretendeu identificar quem está autorizado a falar sobre o assunto, de onde tais autores falam e para quem falam e como tais discursos constituem o que se chama Residência Multiprofissional em saúde.

Muitos dos comentários que fazemos no texto resultam da abordagem teórica utilizada na dissertação. O modo pós-estruturalista de pesquisar, escrever, abordar um tema, não pressupõe contar a verdade total e definitiva sobre o mesmo, nossos achados são parciais e provisórios, sujeitos a mudanças quando submetidos a outros olhares. Fizemos é uma leitura interessada dos textos analisados que não é, e nem pretende ser, a única leitura possível. E esta, na nossa maneira de ver, constitui a riqueza da análise. Situando nossos leitores neste referencial, não nos preocupamos em conhecer o que seria mesmo a RMS, mas como ela se constituiu, os discursos que a produzem e sustentam, as condições de possibilidades do aparecimento desta modalidade de formação em saúde no Brasil.

Em relação à possibilidade de irmos para além das aparências, em busca de uma suposta essência, podemos, outra vez, citar Foucault quando nos diz que se há algum segredo a desvendar é que as coisas não têm essência, uma vez que esta foi também construída (ou inventada) na história e na cultura. Então, em nosso caso, a RMS não tem nada de natural ou essencial, tendo sido construída socialmente, por relações de poder. Do mesmo modo, embora concordemos que os diferentes lugares não são monolíticos, entendemos que há uma ordem de discurso possível conforme a posição de sujeito que se ocupa. Os diferentes atores implicados com a possibilidade de organizar esta formação em "ato", construída nos atos mesmos dos encontros (aqui consideramos os encontros sugeridos pelo texto da Laura), dão a cara desta proposta dita inovadora, que carrega consigo muitas outras possibilidades de discurso edificadas pelas condições de possibilidade da invenção da RMS. A partir dos documentos analisados podemos dizer que Estado, residentes e entidades médicas ocupam posições de sujeito que foram apresentadas no artigo e, a partir do nosso olhar, apoiado no referencial pós-estruturalista, esta foi uma leitura possível. Muitas outras podem e devem ser feitas, pois muito ainda há para se construir.

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