APRESENTAÇÃO

 

Bioética: um convite para trilhar uma ponte...

 

 

... É nesta disposição que vai o convite à leitura dos artigos do Dossiê sobre bioética neste número de Interface.

Nos anos 1970, a bioética reapresentou-se ao mundo, especialmente na saúde, como ponte para interligação de esferas do conhecimento humano - ou poderíamos dizer, da própria vida - que, se não andavam realmente separadas na produção acadêmica, ao menos, tal vinha sendo a tentativa: distanciar biologia (bios - fatos) e humanidades (ética - valores humanos).

A enriquecedora confluência de fatos e valores ficava esquecida. Não se considerava que os fatos sem valores tornam-se cegos e que os valores sem o suporte dos fatos são vazios.

A bioética, ponte vital entre bios e ética, interliga estes dois campos de vida e desafia a problematizar a realidade que estamos construindo para os tempos atuais e para o futuro da Terra, da humanidade.

Vê-se, então, que a bioética não se restringe a debates em torno dos últimos avanços da biotecnologia e, tampouco, à assistência, aos cuidados à saúde e à ética profissional ou em pesquisa. Ao contrário, sem deixar de abarcá-los, a eles não se restringe, mas penetra-os de maneira contextualizada, e amplia-os para a complexidade da própria vida, problematizando-os para encontrar soluções, quando possível.

Isto o leitor poderá constatar pelo espectro dos três artigos que integram o dossiê. Em conjunto, apresentam o ser profissional em ponte com o mundo do trabalho e este ligado ao institucional e às políticas públicas, numa via de mão dupla entre o âmbito da realidade vivida (fatos) e o do deveria (a plena realização de todos os valores positivos), para encontrar, em outra ponte, o deve, ou seja, o que é possível realizar dos valores no mundo real, vivido, com vistas a melhorar a prática na/e da saúde. Entendendo, assim, possível como oposto a necessário, ou seja, como aquilo que é passível de ser modificado, transformado pela ação humana, a fim de pôr a realidade em condições favoráveis para que nela possamos viver como pessoas. E lembrando que o âmbito do deveria consiste no norte a não ser perdido de vista em nosso horizonte ético.

Ramos e Do Ó discutem a identidade do profissional da saúde como "modos de ser profissional" aprendidos na formação, numa "rede" onde a reflexão bioética pode ocorrer em "múltiplas conexões" em diferentes "pontos ou cruzamentos" com os "processos políticos e tecnológicos", o que faz a ética ultrapassar "conteúdos e experiências tradicionalmente estandardizadas".

Tomando a relação médico-usuário como "espaço social" solidário "construído por relações simétricas entre dois sujeitos morais maiores de idade", Lima e Verdi apresentam um desafio para a bioética ao propor a solidariedade como princípio para a medicina de família.

Junges, entende "bios" como vida moral e política, discute a intervenção do poder simbólico do mercado no biopoder e na compreensão do direito à saúde como consumo de produtos biotecnológicos, e defende a incorporação da perspectiva dos direitos humanos numa bioética da saúde pública.

Como se vê, as pontes são muitas e em várias direções, mas sempre com uma bússola a guiar quem se propõe a caminhar em suas trilhas. A bússola é a da vida boa, vida plena para todos os viventes.

Mas....o que é vida boa? O que é vida plena? O caro leitor pode estar se perguntando: Em um mundo tão plural como o atual, com tantas concepções do bom, o que vem a ser vida boa? Haveria 'uma' vida boa ou vidas boas? É possível conjugá-las? Em meio a tanta diversidade do que é tido como bom, há limites? Limites a serem respeitados, quebrados ou dialogados? É possível o consenso? Que valores são eticamente válidos? Todas as morais são igualmente respeitáveis? O justo e o bem são o mesmo? Ou seja, para onde apontar nossa bússola? Que valores integrar ao nosso norte?

Estas e outras são perguntas abertas para a trilha da bioética. Por isso, a bioética não é tarefa apenas cognitiva, mas empreitada para o espírito humano. Requer, como bagagem para a trilha das pontes: o diálogo entre interlocutores válidos, tolerância ativa, compreensão para a complexidade, respeito mútuo, escuta intersubjetiva, atenção e valorização do outro como fim em si mesmo, curiosidade simpática pelo diferente, humildade para se reconhecer que se pode estar equivocado, discernimento, consciência planetária e ecológica.

E os calçados para a trilha são os da responsabilidade. As questões éticas, para a bioética, não se resumem à pendência de direitos individuais das pessoas ou grupos viventes, mas se tratam de ameaças à rede de responsabilidades mútuas decorrente de nossa intersubjetividade e interdependência, e da qual depende a manutenção de todas as formas de vida.

Justificar atos, escolhas e seus impactos para a vida é o que faz quem é responsável. Justifica escolhas depois de interligar obrigações, convicções, o que deveria fazer, valores positivos que deveria realizar com circunstâncias, contexto, consequências previsíveis dos atos e opções. Sabe que a ética acontece na vida real, cotidiana, como construção complexa, partilhada e constante, numa espiral dialética entre nossas convicções, valores, fatos, circunstâncias e consequências, que ponderam e indicam o possível para o momento ou a situação. Isso sem se perder no relativismo ou pragmatismo, porque o responsável tem convicções e busca realizá-las. É convicto, mas não fundamentalista ou doutrinador, sabe e deseja dialogar para encontrar cursos de ação que não sejam extremos ou trágicos para lidar com os problemas e as questões éticas.

A bioética implica a construção conjunta, de maneira deliberativa, de uma sabedoria prática. O conhecimento de como usar o conhecimento para o bem social, com justiça e cuidado. Ampliando o discernimento por meio do confronto dialogado dos fatos e dos valores envolvidos nos problemas práticos, nas diferentes áreas das ciências da vida e da saúde, a bioética propõe-se como atitude responsável na realização de valores que permitam viver de forma humana.

Ao abrir este Dossiê dedicado à bioética, sinto-me como se falasse de uma interface à Interface. Por isso, não poderia finalizar sem registrar a sensibilidade e atualidade de seus editores ao reconhecer mais esta interconexão de campos diferentes da realidade que se apresenta na Saúde, Educação e Comunicação.

Boa leitura! Ou melhor, boa travessia!

 

Madrid, 21 de abril de 2009.

Elma Lourdes Campos Pavone Zoboli
Enfermeira, Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo
elma@usp.br

UNESP Botucatu - SP - Brazil
E-mail: intface@fmb.unesp.br