ARTIGOS

 

Saúde da mulher na imprensa brasileira: análise da qualidade científica nas revistas semanais

 

Women's health in the Brazilian press: analysis of scientific quality in weekly magazines

 

Salud de la mujer en la prensa brasileña: análisis de calidad científica en las revistas semanales

 

 

Mariella Silva de OliveiraI; Lucia Helena Costa PaivaII; José Vilton CostaIII; Aarão Mendes Pinto-NetoIV

IPolítica Nacional de Humanização, Ministério da Saúde. Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Ciências Médicas, Departamento de Tocoginecologia. Rua Alexandre Fleming, 101 - Barão Geraldo Cidade Universitária 13083-970 -Campinas, SP - Brasil, mariellajornalista@ gmail.com
IIFaculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
IIIDepartamento de Tocoginecologia, Unicamp
IVDepartamento de Tocoginecologia, Unicamp

 

 


RESUMO

Este estudo, de corte transversal, avalia a qualidade científica de textos informativos sobre saúde da mulher em revistas de circulação nacional e descreve os temas abordados. Durante 12 meses consecutivos, foram coletados textos sobre saúde da mulher nas principais revistas semanais brasileiras de atualidades: Veja, Época e Isto É. Foram selecionados oitenta textos, analisados de forma independente por dois médicos e dois jornalistas, por meio do questionário Index Of Scientific Quality, adaptado para o português e submetido a prova-piloto e reteste. O instrumento possui oito itens que variam de um a cinco pontos e medem: a aplicabilidade, opinião versus fato, validade, alcance, precisão, coerência, consequência e um item global, que resume os outros itens e cuja mediana foi considerada para avaliação. A mediana da qualidade científica dos textos referente ao item global foi igual a três, demonstrando caráter moderado em relação às matérias publicadas.

Palavras-chave: Saúde da mulher. Jornalismo científico. Publicações periódicas. Meios de comunicação de massa. Publicações científicas e técnicas.


ABSTRACT

This cross-sectional study evaluated the scientific quality of informative texts on women's health in nationally circulating magazines and described the topics covered. Over a consecutive 12-month period, texts on women's health were collected from the principal Brazilian weekly current affairs magazines (Veja, Época and IstoÉ). Eighty texts were selected and were independently analyzed by two physicians and two journalists, by means of the Index of Scientific Quality, which had been adapted for use in Portuguese and subjected to pilot testing and retesting. The instrument consisted of eight items that ranged from one to five points and measured applicability, opinion versus fact, validity, scope, precision, coherence, consequence and an overall item. The overall item summarized the other items and its median was used for evaluations. The median scientific quality of the texts, relating to the overall item, was three. This demonstrated that the material published was of moderate nature.

Keywords: Women's health. Scientific journalism. Periodicals. Mass communication media. Scientific and technical publications.


RESUMEN

Este estudio, de corte transversal, evalúa la calidad científica de textos informativos sobre salud de la mujer en revistas de circulación nacional y describe los temas planteados. Durante 12 meses consecutivos se colectaron textos sobre salud de la mujer en las principales revistas semanales brasileñas de actualidades: Veja, Epoca e Isto é. Se han seleccionado 80 textos analizados de forma independiente por dos médicos y dos periodistas por medio del cuestionario Index of Scientific Quality adaptado al portugués y sometido a prueba piloto y nuevo test. El instrumento consta de ocho items que varían de uno a cinco puntos y miden la aplicación, opinión en relación al hecho, validad, alcance, precisión, coherencia, consecuencia y un item global que resume los otros items y cuya mediana se considera para evaluación. La mediana de la calidad científica de los textos referente al item global fue igual a tres, demostrando caracter moderado en relación a las materias publicadas.

Palabras clave: Salud de la mujer. Periodismo científico. Publicaciones periódicas. Medios de comunicación de masas. Publicaciones científicas y técnicas.


 

 

Introdução

A imprensa tem um papel fundamental na transmissão de informações em saúde uma vez que ela aproxima o discurso científico e o faz mais acessível e interessante, além de ser a principal fonte de informações de ciência e tecnologia (incluindo aí as informações de saúde) da população (Radfort, 1997). Estudo com 12 jornais de nove países da América Latina e Caribe (entre eles, o Brasil) encontrou que medicina e saúde são temas predominantes na maioria das colunas de ciência e tecnologia (Massarani, Boys, 2007). Pesquisa nacional mostra que mais de 80% de 162 entrevistados acreditam que o cuidado com a saúde é a principal justificativa para que a população participe nas questões da ciência, sendo que 71% se consideram pouco informados (Vogt, Polino, 2003). A mídia pode inclusive afetar a direção da pesquisa e desenvolvimento do país (Nelkin, 1995), pois os governantes se inteiram muito mais dos avanços em saúde por meio da imprensa que dos veículos especializados.

A população também se interessa pelo tema, pois estudo qualitativo sobre a percepção pública da ciência e tecnologia, realizada com 2.004 pessoas no fim de 2006, mostrou que: 60% dos brasileiros entrevistados têm muito interesse por medicina e saúde; 40% se informam muito sobre esses temas, e, para 56%, os principais benefícios dos avanços científicos estão na saúde e proteção contra doenças, sendo que os jornalistas (42%) e médicos (43%) foram apontados como confiáveis para informá-los (Brasil, 2007). Informação de qualidade nessa área é, então, fundamental para melhor qualidade de vida, em forma individual ou coletiva (Coe, 1998). Porém isso nem sempre acontece. Há limitações a serem consideradas, como o fato de a imprensa nem sempre recorrer a especialistas nacionais, preferindo fontes internacionais para legitimação do assunto saúde (Barata, 1990), ou cobrir somente a epidemia em si, em detrimento da prevenção (França, Abreu, Siqueira, 2004).

A cobertura na área de medicamentos, por exemplo, é considerada automaticamente como notícia, sem necessidade de se demonstrar sua importância, pois faz parte da agenda social. Porém, a propaganda comercial que muitas vezes está por trás dos textos jornalísticos pagos pela indústria farmacêutica, contribui para que parte da população acabe se automedicando sem necessidade. Além disso, há um descompasso entre o que é publicado na mídia e o perfil epidemiológico do consumo de psicotrópicos no país (Noto et al., 2003). De acordo com Lefévre (1999), a imprensa prepara o leitor para a "consumização da saúde"; que é preocupante, pois as pessoas têm direito a receber informações sobre saúde objetivas, verdadeiras, válidas e contextualizadas de tal modo que possam ser compreendidas (Calvo Hernando, 1997). O alcance de uma descoberta, a precisão dos dados, a coerência e consequência das informações para cada segmento da população deveriam, portanto, constar nos textos jornalísticos sobre saúde.

 

Saúde da mulher e mídia

No que se refere à saúde da mulher, foram encontrados poucos estudos nacionais relacionando o tema aos meios de comunicação, ao contrário da literatura internacional. Nos Estados Unidos, por exemplo, estudo com dez anos de revistas femininas descobriu que a maior parte delas focava o tema saúde em dieta, exercícios e nutrição, em detrimento de outros temas relevantes (Weston, Ruggiero, 1986). A cobertura nesse país nem sempre coincide com os temas das principais revistas médicas nem com a epidemiologia ou as preocupações femininas (Moyer, Vishnu, Sonnad, 2001). Quando a análise centra-se em temas específicos em saúde da mulher, o resultado mostra também disparidades entre o que é publicado e a realidade. Millers (1996) observou o tema aborto na imprensa e concluiu que, de 1986 a 1992, os meios de comunicação deixaram de lado o aspecto sanitário em saúde da mulher para focarem-se na legalidade do tema. Outro assunto analisado, a histerectomia, foi apresentado pelos meios de comunicação de forma ingênua, com linguagem entusiasta, sem destaque aos riscos e efeitos colaterais. Em análise de jornais e revistas de 1986 a 1992, foi relatado que há desequilíbrio entre benefícios e riscos desse procedimento de retirada do útero (Sefcovic,1996). O mesmo aconteceu com o tema relacionado às tecnologias reprodutivas, pois a imprensa americana, no período, deixou os leitores pouco informados sobre procedimentos mais baratos e menos invasivos que a fertilização in vitro, sem trazer muita informação sobre riscos, além de mascarar o alto custo do processo (Condit, 1996). Outros temas como menstruação e menopausa tiveram relevante cobertura na mídia americana no início dos anos 90, porém, a imprensa retratou o ciclo menstrual mais como um problema a ser tratado com medicamentos do que como um evento natural, apegando-se mais às más noticias (Kalbfleish, Bonnell, Harris, 1996).

Na Europa, uma análise sobre gênero e saúde, com amostra dos principais jornais espanhóis entre 1997 e 2001, também traz a saúde da mulher bastante relacionada a temas como sexualidade, beleza, estética e fitness, e pouco debate de outros temas (Revuelta et al., 2003).

Apesar de as mulheres viverem mais que os homens em todo o mundo, elas sofrem mais enfermidades e utilizam a maioria dos serviços médicos com maior frequência (Kramarae, Spender, 2006; Travassos et al., 2002; Aquino, Menezes, Acoedo, 1992). No Brasil, correspondem a mais da metade da nação (50,78%) (Brasil, 2000a) e sua expectativa de vida - que, na primeira década do século passado, era de 34,6 anos (Barroso, 1985) -, atualmente, chega a 75,93 anos (Brasil, 2006a). A população masculina no Brasil, por sua vez, tem longevidade de 68,35 anos (Brasil, 2006b). Com sua crescente entrada no mercado de trabalho, as mulheres correspondem hoje a 43,10% da população economicamente ativa (Brasil, 2006b) e demandam grande quantidade de informações sobre sua saúde, devido a sua exposição a fatores de risco antigamente restritos aos homens, atividade sexual precoce e livre, e novo estilo de vida (Brasil, 2000b).

Mesmo diante desse quadro, os meios de comunicação nacionais nem sempre trazem as informações necessárias sobre a saúde da mulher. Em 1997, em 28 dias de acompanhamento de seis veículos impressos brasileiros (quatro jornais e duas revistas), foram coletados 433 textos sobre saúde e constatou-se que a mídia destina, em média, 8% do espaço para a saúde da mulher (Simões, 2000). Outro estudo analisou, em quatro meses, o conteúdo sobre saúde da mulher de três revistas femininas publicadas no ano 2000, encontrando 188 textos sobre o tema; e revelou que até mesmo em veículos específicos para as mulheres, permanecem lacunas na epidemiologia, enquanto textos sobre beleza, consumo e com pautas superficiais têm considerável espaço (Brito, 2001). Há períodos em que o tema não é sequer abordado por um dos principais jornais brasileiros, a Folha de São Paulo (Mendonza, Santos, 2001).

Se a imprensa nem sempre cumpre seu papel de promoção da saúde, é preciso avaliar os textos produzidos, pois com eficiente divulgação de saúde, é possível melhorar a qualidade de vida das mulheres e evitar que muitas sigam vivendo com sua saúde debilitada, além de diminuir os gastos do governo com ações curativas e alertar aos governantes e a comunidade científica sobre os temas que merecem espaço na agenda pública. Nesse sentido, este trabalho analisa a qualidade científica das informações veiculadas durante 12 meses consecutivos nas três principais revistas semanais de circulação nacional - Veja, Época e IstoÉ. Não se tem conhecimento de estudos com essa abordagem no país, e a validade da pesquisa se reafirma ainda quando é sabido que 57% do público leitor de revistas são constituídos por mulheres (Grupo de Mídia, 2007).

 

Material e métodos

O presente estudo foi de corte transversal. A amostra se compõe de textos sobre saúde apresentados em três revistas semanais de alcance nacional publicadas entre agosto de 2005 e julho de 2006, coletados em duas bibliotecas públicas e fotocopiados. Ao todo, as revistas Veja, Época e IstoÉ alcançam tiragem total de mais de 1,8 milhões de exemplares (Grupo de Mídia, 2007).

A escolha por este veículo se justifica pelo fato de que a revista traz o texto contextualizado, descompromissado com o factual e analisa as consequências do fato, devendo ser rica em detalhes e informações diferenciadas (Lustosa, 1996), além de ser veículo que mais espaço dedica a textos de saúde (16%) (Epstein, 1998).

A revista Veja é a maior revista semanal de atualidades, a mais lida no país e a quarta mais vendida no mundo, e sua tiragem obteve no ano de 2006 a média de um 1,1 milhão de exemplares por edição. O perfil do leitor desta publicação da Editora Abril é feminino em sua maioria (53%), grande parte tem entre 20 e 39 anos (45 %) e 73% pertencem às classes A e B (Editora Abril, 2007).

Editada pelas organizações Globo, a revista Época também possui maioria de mulheres no seu público leitor (51%), 43% têm entre 18 e 34 anos, e a maioria com nível de instrução médio (40%). Seus leitores classe A e B correspondem a 62% e sua tiragem semanal gira em torno dos 433,6 mil exemplares (Editora Globo, 2006).

A revista IstoÉ, da Editora Três, possui tiragem de 351,2 mil exemplares por edição e 53% dos leitores são homens; 67% são da classe AB e 39% têm entre 30 e 49 anos (Oliveira, 2007).

Para garantir a homogeneidade da amostra, textos publicitários, opinativos e notas foram excluídos, juntamente com os que tratavam do simples relato do estado de saúde de celebridades sem ampliar a questão para a população, bem como os que continham palavras e expressões do campo semântico "saúde" (por exemplo, dor, cura), mas relatavam fatos de outra natureza. As notas têm como característica a superficialidade da informação, e o gênero opinativo, por sua vez, é uma forma de apresentação dos acontecimentos de acordo com a posição ideológica do veículo ou jornalista - nesse tipo de texto é explícita a opinião do autor que, com um fundo persuasivo, busca convencer o leitor sobre sua posição em relação ao fato (Mesa, 2004).

A coleta dos dados foi feita pela pesquisadora principal e o instrumento utilizado foi o questionário Index of Scientific Quality, adaptado para a língua portuguesa e criado para estudos descritivos sobre a saúde nas reportagens (Oxman et al., 1993). Ele é composto por oito itens em formato Escala de Likert, que vão de um (baixa qualidade) a cinco (alta qualidade), e está validado para o espanhol (Biondo, Khoury, 2005). Seus itens medem as seguintes características: aplicabilidade (mede o grau de clareza do texto em relação a seu público-alvo), opinião versus fato (analisa a distinção clara de opiniões e informações), validade (mede o nível de evidência e credibilidade das fontes utilizadas no texto), alcance (se o texto explicita o impacto da descoberta), precisão (se há bom fundamento em relação a estimativas e probabilidade); coerência dos dados (se há referência a outros estudos), consequência (se apresenta os benefícios, riscos e custos em relação ao tema principal do texto), e um item global que, baseado nas pontuações anteriores, dá uma avaliação geral do texto como sendo de boa, moderada ou baixa qualidade científica.

O questionário foi aplicado por dois médicos pesquisadores atuantes em saúde da mulher e dois jornalistas com experiência na área de saúde da mulher, em tabelas individuais, sem consulta entre os avaliadores. Foram selecionados quatro avaliadores para diminuir o grau de subjetividade que um observador apenas traria à pesquisa.

Para a análise estatística, foi criado um banco de dados no Excel com as respostas de cada avaliador e, após a verificação da consistência dos dados e limpeza do arquivo, eles foram transportados para o software SAS versão 9.1.3 (SAS Institute Inc., Cary, USA) onde foi calculada a mediana de cada item. Para a avaliação da qualidade, somente a mediana do item global do questionário foi considerada. O artigo original do questionário não traz um score, mas indica que o item global assume esse papel, por ser um resumo dos outros itens (Oxman et al., 1993).

 

Resultados e discussão

O objetivo do estudo foi analisar a qualidade científica em saúde da mulher nas revistas semanais brasileiras de generalidades. A amostra foi composta por oitenta textos, sendo que a revista Veja trouxe 37 unidades, Época apresentou 26 e IstoÉ, 17.

A mediana dos itens da qualidade científica total do conjunto dos avaliadores dos textos variou de dois a quatro em sete itens do questionário (Tabela 1). A análise centrada no conjunto dos avaliadores, sem considerar as medianas individuais, possibilita que se minimize a subjetividade do estudo, dando uma avaliação a partir de quatro observadores independentes. A mediana total do item global dos quatro avaliadores foi três, com pequena porcentagem tanto de mínima como máxima pontuação (7,2 e 11,6%, respectivamente), o que denota qualidade científica moderada aos textos da amostra. No estudo de validação do instrumento para o idioma espanhol, as medianas foram calculadas entre dois avaliadores, e os valores obtidos foram mais baixos (um e dois) (Biondo, Khoury, 2005).

O item que maior pontuação obteve foi o referente à aplicabilidade, com mediana quatro, e demonstra que os textos mostram com clareza a que público se destinam, de acordo com os avaliadores.

Os itens precisão e coerência (cinco e seis, respectivamente) tiveram as menores pontuações, com mediana de valor baixo, igual a dois. De fato, detalhes como a significância estatística dos dados e o tamanho da amostra, ou o fato de serem ainda estudos experimentais, não impedem que a mídia divulgue os eventos, pois o que importa é a novidade, mesmo que se tenha testado em poucos pacientes, ou seja, por exemplo, ainda estudo em andamento apresentado em congressos. O que é preocupante, pois pode alarmar a população sem necessidade (Woloshin, Schwartz, 2006). Em relação à coerência, também se percebe que boa parte dos textos se concentra em só um estudo, sem que o jornalista se preocupe em avaliar estudos anteriores sobre o mesmo tema ou, mesmo, discutir o estudo. Essa baixa mediana pode ser justificável pela própria autoridade do discurso científico, que faz com que o jornalista acredite e aceite o que o pesquisador afirma, sem buscar outras fontes ou o contraditório (Fog, 2002). O que é um tanto errôneo, uma vez que o jornalista pode se posicionar de forma crítica perante a área médica (Kuscinski, 2000).

O item dois, referente à distinção entre os fatos e opiniões obteve mediana três e pode indicar que, na amostra, os textos apresentam certa ambiguidade na apresentação das informações. Uma vez que as opiniões devem somente reforçar uma informação (Barros, 2003), este resultado não era esperado, sobretudo porque os textos do gênero opinativo foram excluídos da análise. Essa ambiguidade também pode ser devida à necessidade de supressão de informações e dados importantes, em função do pouco espaço editorial. Os jornalistas se centram mais nas conclusões das pesquisas e aplicação dos resultados no cotidiano das pessoas, e não nas observações que geraram hipóteses ou na metodologia da pesquisa (Gomes, 2003) - ponto central de avaliação do item três do questionário, que talvez, por isso, obteve menor percentagem de textos com pontuação máxima (3.4%), de onde pode-se inferir certa dificuldade dos produtores da notícia em avaliar a validade dos estudos. Porém mesmo que ele não cite os métodos, o fato de avaliar criticamente a pauta e, por si só, definir se ela merece espaço no jornal já faria com que sejam veiculadas evidências socialmente relevantes.

O item referente ao alcance complementa o anterior, e sua mediana com valor três indica que o leitor pode estar recebendo informações de forma ambígua ou incompleta. Considera-se fundamental que o jornalista verifique não só a metodologia utilizada, mas também explicite a origem dos recursos da pesquisa, para detectar conflitos de interesse e vínculos empresariais, além de contextualizar o estágio da descoberta em outros países, por exemplo, bem como consultar outras fontes sobre o mesmo tema que podem auxiliar no entendimento da pesquisa por parte do público leitor (Caldas, 2003).

A precisão dos dados e coerência das evidências (item cinco e seis, respectivamente), ambos com mediana dois, pode estar revelando certa dificuldade do jornalista em expressar em seu texto tanto a significância estatística como as comparações do tema com outras pesquisas e estudos na mesma área. O que é verdade para o pesquisador é relacionado ao grau de certeza que ele tem em relação àquela informação, mas esse conceito pode ter interpretações diferentes quando se ouve, por exemplo, um "outro lado" da ciência, sob a voz de outros estudiosos da área (Monteiro, 2003). No que se refere às consequências da informação, o resultado do item sete, com mediana três, oferece a possibilidade de se inferir que nem todas as consequências importantes são reveladas. Porém os dados que são pontos-chave deste item do questionário (benefícios, riscos e custos) são essenciais para que a população tome atitudes em saúde de forma consciente e não alienada.

Cabe ressaltar que, apesar de muitas vezes ser ofuscada pelo entretenimento e propaganda nos meios de comunicação, a informação em saúde tem um valor político, pois o jornalismo tem um ethos, que se baseia no dever de informar, levantar polêmicas, garantir a vigilância da cidadania e da justiça que o cidadão comum não consegue exercer diretamente (Kuscinski, 2000).

 

Saúde da mulher e a mídia brasileira

No que se refere aos conteúdos, a maioria dos textos teve como foco a saúde reprodutiva (22.5%). Outros temas em saúde da mulher observados na amostra foram: beleza e estética (13,75%); temas de saúde geral, cuja prevalência é maior em mulheres1 (13,75%); sexualidade (11.25%); prevenção, riscos e cuidados (11.25%); políticas e direito à saúde (8.75%); menopausa (8.75%); violência (6.25%), e saúde mental (3.75%) (Oliveira, 2008). O próprio foco das pesquisas nessa área poderia ser uma das explicações para o maior número de textos relacionados à saúde reprodutiva, já que os periódicos científicos em saúde da mulher trazem predomínio de temas como concepção, gravidez e parto (Gannon, Stevens, Stecker, 1997). E uma vez que esse tema é uma das principais causas de internação no país (Brasil, 2006c), é de se esperar que a imprensa lhe dedique mais atenção, assim como acontece na imprensa internacional. Nos Estados Unidos, uma análise de conteúdo envolvendo revistas femininas na década de 1970 levantou 157 exemplares entre revistas tradicionais e novas da época, obtendo que 30,2% dos textos das publicações novas faziam referência à saúde reprodutiva, que ocupava 11,9% das publicações tradicionais (Weston, Ruggiero, 1986). Na amostra deste estudo, a saúde da mulher também teve enfoque em saúde reprodutiva e pouco espaço para temas também relevantes, como a menopausa. Em outros estudos, o tema menopausa também ocupou pouco espaço (Amaral, 2005). Apesar de ser um processo natural, o climatério é um período onde a mulher precisa repensar vários temas que afetam a sua saúde, como: saúde do coração, força dos ossos, dieta, quantidade de exercícios, sono e, inclusive, a qualidade dos relacionamentos. Atualmente, as mulheres passam um terço da vida após a menopausa e demandam informações referentes aos cuidados com as mudanças no organismo feminino (Wingert, Kantrowitz, 2006). Nota-se que as revistas de generalidades no período analisado pouco difundiram esse tipo de informações.

Em contrapartida, o assunto estética ocupa o segundo lugar do ranking, o que pode se dever ao fato de que a imagem da mulher na nossa cultura e sociedade se coloca ao lado de beleza, saúde e juventude. A estética está vinculada à sociabilidade e regula boa parte de contextos e formas sociais. Para as mulheres, a beleza é um dever cultural e, atualmente, o discurso é que ela pode ser bela se quiser, basta se esforçar (comprar, consumir, imitar, malhar e até se mutilar), reproduzindo a beleza como uma questão de escolha e vontade (Novaes e Vilhena, 2003). Claro que muitas mulheres não sofrem a influência desse discurso, porém, ele pode explicar a grande quantidade de referências ao tema, afinal, as revistas trazem as notícias como produtos e ofertam temas que são vendáveis - como partem de empresas de comunicação, todas as publicações objetivam também o lucro.

Na amostra analisada, percebe-se ainda que o pouco espaço para políticas e direito à saúde pode significar um distanciamento em relação a esse papel atribuído ao jornalismo na construção da democracia, já que cabe ao jornalista o papel de socializar as discussões como um dos principais instrumentos de conquista dos direitos de cidadania.

 

Considerações finais

A mídia não deve se limitar a ser somente ferramenta para lazer, mas ser também porta-voz para reivindicar a preocupação social pelos temas de saúde. Uma vez que os itens do questionário são detalhistas em relação a informações para se mensurar a qualidade científica, o resultado com a amostra brasileira mostra uma qualidade científica moderada e a necessidade de se melhorarem ainda mais os textos sobre saúde na imprensa brasileira. Consideramos que uma qualidade científica moderada foi um resultado, até certo ponto, esperado, pois em nosso meio são poucos os profissionais com desenvoltura e formação específica na área. Como em outros países, a saúde reprodutiva ocupou a maior parte do noticiário, seguida de temas relacionados à beleza, em detrimento de outros temas relevantes da saúde feminina, como, por exemplo, a menopausa. Finalmente, ressaltamos a originalidade do método para os estudos em comunicação, uma vez que o Index of Scientific Quality já é utilizado em outros países e pode ser aliado às metodologias já consolidadas no Brasil, como a análise de conteúdo e discurso. O questionário pode ser solicitado aos pesquisadores principais, por e-mail.

 

Colaboradores

A autora Mariella Silva de Oliveira participou da concepção do tema, planejamento da pesquisa, coleta, análise dos dados, revisão e redação do artigo; Lucia Helena Costa Paiva participou da revisão metodológica; José Vilton Costa realizou os testes estatísticos, e Aarão Mendes Pinto-Neto participou da concepção do tema, planejamento da pesquisa, análise dos dados e revisão.

 

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Recebido em 09/06/2008.
Aprovado em 07/12/2008.

 

 

1 Os temas de saúde em geral abordados foram: a infertilidade feminina como doença psicossomática mais comum; uso de remédios para emagrecer; aumento das doenças de tireóide; distúrbios alimentares; compulsão por compras; hipertensão pulmonar; problemas com a libido na velhice; maior procura por estética dental; maior tendência a sentir dor, e maior autonomia delas na velhice.

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