ESPAÇO ABERTO

 

Promoção da amamentação por crianças do Ensino Fundamental

 

Breastfeeding promotion by children within Elementary Education

 

Promoción del amamantamiento por niños de la Enseñanza Fundamental

 

 

Aida Victoria Garcia MontroneI; Cássia Irene Spinelli ArantesII; Nathalia de Moraes LébeisIII; Talita de Azevedo Coelho Furquim PereiraIV

IDepartamento de Metodologia de Ensino, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Rodovia Washington Luís, Km. 235, São Carlos, SP, Brasil. 13565-905. montrone@ufscar.br
IIDepartamento de Enfermagem, UFSCar
IIIGraduanda de Licenciatura e Bacharelado em Enfermagem, UFSCar. Bolsista PIBIC/CNPq
IVGraduanda de Enfermagem, UFSCar. Bolsista ProEx/UFSCar

 

 


RESUMO

O objetivo deste estudo foi descrever e analisar processos educativos envolvidos no desenvolvimento e implementação de propostas educativas elaboradas por crianças do Ensino Fundamental para a promoção da amamentação na comunidade escolar. Trata-se de um estudo descritivo com análise qualitativa dos dados. Participaram 38 crianças de uma escola pública de São Carlos-SP. Os resultados mostraram que as crianças possuem conhecimentos, atitudes e mitos sobre a prática da amamentação oriundos da observação e da convivência com a família e pessoas das comunidades às quais pertencem. Elas tiveram criatividade e responsabilidade na proposição e confecção de jogos, brincadeiras, modelos anatômicos e músicas para promover a amamentação na comunidade escolar, incentivando crianças, professores/as e funcionários à participação nas atividades propostas. Conclui-se que a promoção da amamentação por crianças do Ensino Fundamental contribui para a formação de conhecimentos, atitudes positivas e uma cultura favorável frente à prática de amamentar.

Palavras-chave: Amamentação. Promoção da saúde. Crianças. Processos educativos.


ABSTRACT

The objective of this study was to describe and analyze the educational processes involved in developing and implementing educational proposals elaborated by children within elementary education to promote breastfeeding within the school's community. This was a descriptive study with qualitative data analysis. Thirty-eight children from a public school in São Carlos, SP, Brazil participated. The results indicated that the children had knowledge, attitudes and myths regarding breastfeeding practice arising from observations of their families and closeness of living with them and people from their community. They were creative and responsible in proposing and preparing games, activities, anatomical models and music in order to promote breastfeeding within the school's community, thus encouraging children, teachers and school employees to participate in the activities. It was concluded that promotion of breastfeeding by children within elementary education contributes towards creating knowledge, positive attitudes and a culture favorable to the practice of breastfeeding.

Keywords: Breastfeeding. Health promotion. Children. Educational processes.


RESUMEN

El objeto de este estudio ha sido el de describir y analizar procesos educativos concernientes al desarrollo e implementación de propuestas educativas elaboradas por niños de la Enseñanza Fundamental para la promoción del amamantamiento en la comunidad escolar. Se trata de un estudio descriptivo con análisis cualitativa de los datos. Han participado 38 niños de una eecuela pública de São Carlos, estado de São Paulo, Brasil. Los resultados muestran que los niños poseen conocimientos, actitudes y mitos sobre la práctica del amamantamiento oriundos de la observación y del convívio con la familia y personas de las comunidades a las que pertenecen. Ellos han tenido creatividad y responsabilidad en la propuesta y confección de juegos, bromas, modelos anatómicos y Músicas para promover el amamantamiento en la comunidad escolar, incentivando a niños, profesoras, profesores y funcionarios hacia la participación en las actividades que se han propuesto. Se concluye que la promoción del amamantamiento por niños de la Enseñanza Fundamental contribuye a la formación de conocimientos, act itudes posit ivas y una cultura favorable frente a la práctica del amamantamiento.

Palabras clave: Amamantamiento. Promoción de la salud. Niños. Procesos educativos.


 

 

Introdução

Sabe-se que o leite materno é o melhor alimento para o bebê, pois contém todos os nutrientes necessários e atende necessidades físico-químicas, imunológicas e fisiológicas do lactente (Nobrega, 2006; Almeida, 2004, 1999). Para a mãe, é um fator de proteção de câncer de mama e de ovário, auxilia na recuperação pós-parto, no intervalo interpartal, e, possivelmente, tem resultados positivos em relação à artrite reumatóide e à depleção mineral óssea (Teruya, Coutinho, 2006; Rea, 2004).

Amamentar propicia o estabelecimento dos vínculos afetivos e é reconhecido que o contato direto mãe-bebê e a participação paterna durante o processo de lactação favorecem o desenvolvimento afetivo-emocional e social na infância (Carvalho, Pamplona, 2001). Economicamente, o aleitamento materno é vantajoso para a família, estabelecimentos de saúde e para a sociedade, pois reduz gastos com leites artificiais e mamadeiras, reduz episódios de doenças nas crianças e, consequentemente, as faltas ao trabalho dos pais por doença da criança (Giugliani, 2002). Um outro benefício é o ecológico, já que amamentar não polui, não precisa de embalagem e não há desperdício, sendo de grande importância para a preservação da natureza.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, a cada ano, um milhão e meio de mortes poderiam ser evitadas por meio da prática do aleitamento materno. Entretanto, a duração do aleitamento materno exclusivo1 é menor que o proposto pela OMS em praticamente todos os países do mundo (Nakamura et al., 2003). No Brasil estudos vêm mostrando um aumento nas taxas de prevalência do aleitamento materno. A duração mediana da amamentação elevou-se de 5,5 meses em 1989 para sete meses em 1996, sendo este aumento mais acentuado na área urbana e nas regiões centro-oeste e sudeste (Venâncio, 2003; Venâncio, Monteiro, 1998; Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde, 1997; Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição, 1989). Na cidade de São Carlos, SP, a porcentagem de crianças menores de quatro meses em aleitamento materno exclusivo foi de 37,8%, bem distante dos 100% preconizados pela OMS (Montrone, Arantes 2000). O Instituto de Saúde de São Paulo vem coordenando inquérito sobre a prática de alimentação infantil desde 1998, nos municípios do estado de SP, mostrando que tem ocorrido uma melhora na evolução dos índices de aleitamento materno exclusivo (Instituto de Saúde de São Paulo, 2008).

Diante disto, vemos que é necessário ampliar as ações de promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno nas cidades brasileiras, de maneira a adequar os programas de amamentação às necessidades e realidades de cada região.

A decisão materna de amamentar ou não, e por quanto tempo, é regida por múltiplos componentes, tais como: motivação, apoio familiar, apoio cultural, educação pré e pós-natal, e conhecimentos e habilidades específicos sobre como amamentar. A educação na promoção da amamentação deve, portanto, considerar todos estes aspectos bem como a formação de uma cultura favorável à amamentação que pode ser iniciada bem antes da mulher engravidar ou do homem descobrir que será "papai". Segundo Nakamura et al. (2003, p.182), "se desde a escola as crianças recebessem informações adequadas sobre o aleitamento materno, quando chegassem a serem mães, as meninas possivelmente estariam mais motivadas a amamentar e, no caso dos meninos, mais aptos a apoiar a decisão materna". A implementação de ações educativas para a promoção da amamentação em escola do Ensino Fundamental favorece o interesse e desperta as crianças para a temática (Montrone et al., 2003).

As crianças trazem conhecimentos sobre a prática de amamentar, advindos do convívio e experiências na família e nas comunidades em que vivem, que devem ser considerados no processo de ensinar e aprender. Neste sentido, Paulo Freire (1992) nos alerta sobre a diferença do momento vivido pelo(a) educador(a) e o momento vivido pelo(a) educando(a).

É preciso que o(a) educador(a) saiba que o seu "aqui" e o seu "agora" são quase sempre o "lá" do educando. [...] tem que partir do "aqui" do educando e não do seu. [...] Isto significa, em última análise, que não é possível ao(à) educador(a) desconhecer, subestimar ou negar os "saberes de experiências feitos" com que os educandos chegam à escola. (Freire, 1992, p.59)

Nos processos educativos na promoção da amamentação, o diálogo pode contribuir para a desconstrução de mitos e construção de novos conhecimentos e atitudes positivas frente à amamentação. Neste sentido, a pergunta é fundamental. Ao contrário da educação bancária, em que ela responde o conteúdo programático, a educação dialógica pressupõe "a devolução organizada, sistematizada e acrescentada ao povo daqueles elementos que este lhe entregou de forma desestruturada" (Freire, 1987, p.84).

No ato de educar, a palavra não é para os educandos, e sim com os educandos, mediatizados pelo mundo.

Se não sei escutar e não dou testemunho aos educandos da palavra verdadeira através da minha exposição à palavra deles, termino discursando "para" eles. Falar e discursar "para" termina sempre em falar "sobre", que necessariamente significa "contra". Viver apaixonadamente a palavra e o silêncio significa falar "com" os educandos, para que também eles falem "com" a gente. (Freire, 1985, p.1)

Desta forma, falando-se "com" as crianças e compartilhando conhecimentos e experiências sobre a prática de amamentar, pode-se contribuir para que elas venham a ser agentes de promoção da amamentação nas suas comunidades e auxiliar na melhoria dos índices de aleitamento materno.

Tendo como referência a educação pautada nos pressupostos de Paulo Freire, 1985, 1987, o objetivo deste estudo foi descrever e analisar processos educativos envolvidos no desenvolvimento e implementação de propostas educativas elaboradas por crianças do Ensino Fundamental para a promoção da amamentação na comunidade escolar.

 

Metodologia

Trata-se de um estudo descritivo, com abordagem qualitativa de análise de dados. A população de estudo se constituiu de 38 crianças, vinte meninas e 18 meninos, com idade entre nove e 11 anos, do Ensino Fundamental da Escola Estadual Bento da Silva César, São Carlos, SP. O trabalho de campo foi realizado em cinco etapas:

Etapa 1 - Aproximação da Escola de Ensino Fundamental: foi contatada a direção da escola que aprovou o desenvolvimento do trabalho. O projeto foi apresentado para a professora da quarta série e seus/suas alunos/as, convidando-os/as a participar desta pesquisa.

Etapa 2 - Inserção no grupo de crianças participantes: as pesquisadoras se inseriram no grupo de crianças por meio do convívio nas atividades realizadas e em momentos escolares e de recreação.

Etapa 3 - Entrevistas: foram realizadas entrevistas grupais com as crianças, na escola, seguindo um roteiro com as seguintes questões: Como vocês acham que devem ser alimentados os bebês? Vocês acham que amamentar no peito é bom ou ruim para a mãe? Por quê? Até que idade vocês acham que o bebê precisa mamar só no peito? Por que vocês acham que algumas mães não conseguem amamentar seus bebês? O que vocês acham que a mãe tem de fazer para ter bastante leite? O que vocês ouviram falar sobre: por que algumas mães param de amamentar? O que vocês acham que é necessário fazer para ajudar as mães a amamentarem? Também foram entrevistadas algumas professoras, e a pergunta foi: O que você acha da promoção da amamentação na escola, por alunos/as de quarta série? Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas para análise e interpretação dos dados.

Etapa 4 - Programa de ensino: com base nos dados das entrevistas grupais e da dinâmica para levantamento de dados com as crianças sobre conhecimentos, atitudes, dúvidas e curiosidades em relação à prática de amamentar, foi elaborado e implementado o programa de ensino.

Etapa 5 - Promoção da amamentação: as crianças propuseram as ações educativas, elaboraram materiais de divulgação e realizaram as atividades de promoção da amamentação na escola. Estas atividades foram desenvolvidas com todas as crianças e professores das terceiras séries em um dia, no final do período letivo.

Os registros sobre todas as atividades desenvolvidas foram realizados por meio de notas de campo organizadas pelo grupo de pesquisadoras. Para análise temática dos dados, foram seguidos os passos propostos por Minayo (2004). Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética de Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de São Carlos (Proc. nº 216/05).

 

Resultados e discussão

Na análise dos dados, emergiram as seguintes categorias temáticas: percepção e conhecimentos sobre a prática de amamentar; ensinar e aprender sobre amamentação; crianças na promoção da amamentação.

Percepção e conhecimentos sobre a prática de amamentar

Constatou-se que as crianças trazem conhecimentos adquiridos em suas próprias casas, na vivência com seus familiares e no convívio na sua comunidade. Durante a primeira entrevista, quando perguntadas como devem ser alimentados os bebês, elas referiram que os bebês devem ser alimentados com o leite da mãe e com a papinha, mas não souberam explicitar até que idade deveriam mamar só no peito e quando poderiam começar a comer outros tipos de alimentos, como mostra a fala a seguir:

"Minha mãe e minha tia, falou que tem que dar mamar até quando conseguir."

Conhecem, ainda, que a amamentação é importante para o bebê:

"Porque o leite já tem proteína, vitamina e sais minerais, e quando nasce ele só precisa daquele leite."

A partir destes resultados, foram incluídos, no programa de ensino, conteúdos sobre duração e tipos de amamentação, seguindo a recomendação da OMS e do Ministério da Saúde do Brasil (Brasil, 2002; OMS, 1991).

Quando as crianças foram indagadas sobre os benefícios de amamentar para a mulher, as respostas se relacionaram à amamentação com dor, julgando ser ruim para a mãe, ou como um benefício que ela deve outorgar para seu filho, ou seja, um dever da mãe. Para algumas crianças, amamentar gera satisfação e felicidade da mãe ao ver seu filho saudável. As falas a seguir ilustram estes dados.

"Eu acho que é ruim. Não sei por que, mas minha mãe fala que nunca gostou de amamentar no peito."

"É bom porque o bebê cresce saudável e a mãe fica feliz."

De acordo com o levantamento desses conhecimentos, foram propostas atividades para analisar os benefícios do aleitamento materno, não só para o bebê, mas também para a mãe, família e sociedade.

Em relação às dificuldades do aleitamento materno, as crianças apontaram:

"Acho difícil para trabalhar, né. Ela tem que deixar o bebê."

"Porque o leite empedra."

Assim, foram elaboradas as atividades sobre dificuldades na amamentação (como leite empedrado, ingurgitamento mamário, pega correta do bebê etc.) e suas resoluções (ordenha manual, passar o próprio leite na aréola etc.). Foi elaborada, também, uma atividade sobre legislação, abordando licença-maternidade e paternidade e direitos maternos na volta ao trabalho.

As crianças comentaram dificuldades que podem ocorrer no processo de lactação e apresentaram os mesmos mitos que pessoas adultas, provavelmente porque ouvem seus pais, amigos e familiares conversando sobre o assunto.

"Tem mãe que não tem leite, o leite seca."

"Tem mãe que tem leite fraco"

"Se o bico rachar, tem que passar pomada."

Para tratamento de lesões mamilares, seguiu-se a recomendação atual de tratamento úmido (Giugliani, 2004), com a utilização do próprio leite materno, a fim de formar uma camada úmida de proteção e evitar a desidratação.

Trabalhar com as crianças cada um destes conhecimentos e mitos quanto a sua veracidade, com base na experiência científica, possibilita a desconstrução de mitos e a construção de conhecimentos corretos para a resolução de dificuldades. Tentamos, nesta forma de trabalho, utilizar habilidades do enfoque de aconselhamento usado na abordagem às mães (Bueno, Teruya, 2004).

Ensinar e aprender sobre amamentação

O ensinar e aprender se deu de forma contínua e coletiva, por meio do qual crianças e educadoras puderam trocar conhecimentos, saberes e experiências, permitindo que todos participassem do processo de construção do conhecimento. A seguir, descrevemos algumas atividades que exemplificam este resultado.

No início da atividade sobre composição do leite materno, perguntou-se às crianças se elas sabiam como os alimentos são classificados, para, posteriormente, falar sobre a composição do leite. Foi utilizada a dinâmica "tempestade de palavras", em que as crianças falavam quaisquer alimentos que lembrassem, os quais eram escritos numa metade da lousa; na outra metade, havia três colunas: alimentos construtores, reguladores e energéticos. Após esta classificação, foi colocado que o leite materno possui todas essas propriedades, além de água e anticorpos. Todos ficaram surpresos quando foi dito que existe água no leite materno: "Ah, então é por isso que o bebê não precisa beber água?" Podemos verificar, na fala desta menina, como ocorreu o processo de aprendizagem, as relações que ela fez entre o que acabou de aprender e sua conclusão sobre por que os bebês não precisam ingerir outros alimentos ou líquidos além do leite materno até os seis meses.

Quando foi abordado que, no leite materno, havia anticorpos, houve uma agitação geral, pois as crianças não sabiam o que isso significava. Então foi explicado que eram "soldadinhos de defesa", que protegem nosso organismo contra doenças e infecções. Esta forma de apresentar este conteúdo favoreceu a aprendizagem das crianças. Ela se mostrou motivadora e despertou a curiosidade e a criticidade das crianças. Neste sentido, Freire aponta: "Não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e nos põe pacientemente impacientes diante do mundo que nós fizemos, acrescentando a ele algo que fazemos" (Freire, 2004, p.32). Para as crianças, esse conhecimento foi novo e o fato de se utilizar uma linguagem mais próxima da realidade delas possivelmente contribuiu para que entendessem melhor, incentivando-as para a construção de novos conhecimentos. Após essa primeira atividade e a posterior discussão sobre a composição do leite materno, a maioria das crianças soube responder qual era a composição do leite materno.

Um outro tema abordado foi sobre o tempo recomendado de amamentação. Foi discutido com elas que o leite materno é um alimento completo que contém tudo o que bebê precisa para crescer saudável e, por isso, recomenda-se a amamentação exclusiva até seis meses. A partir dessa idade, inicia-se a alimentação complementar, continuando a amamentar até dois anos ou mais. As crianças ficaram interessadas e relacionaram estes conhecimentos às experiências feitas, construindo novos saberes. O educador, segundo Freire (1992, p.59): "não pode negar ou subestimar os saberes e experiências feitos com que os educandos chegam à escola"; para isto foi necessário que se ouvisse com atenção o que cada um tinha a dizer, de forma a facilitar a construção individual e coletiva dos conhecimentos.

Para abordar os benefícios do aleitamento materno, as crianças foram divididas em grupos e cada uma recebeu uma folha com várias frases sobre os benefícios da amamentação. Escreveu-se na lousa: "mãe, família, bebê e mundo"; as crianças fizeram o mesmo em suas folhas, formando quatro colunas. Cada grupo tinha de relacionar o benefício ao beneficiado.

As crianças demonstraram conhecimentos, como: "amamentar é bom porque o bebê fica forte" e "o leite da mãe é o melhor alimento para o bebê que acabou de nascer". Porém, quando foi perguntado a elas se sabiam para quem era bom amamentar, a maioria das respostas estava relacionada somente a vantagens para o bebê. No decorrer das atividades, elas relacionaram o benefício ao beneficiado (bebê, mãe, família e mundo). As atividades sobre a temática anatomia e fisiologia da lactação tiveram início perguntando-se às crianças se elas sabiam onde e como é produzido o leite materno. Elas responderam:

"Ah, Deus manda."

"Vem do leite que a mãe bebe."

A seguir, as crianças foram divididas em grupos e cada uma recebeu massas de modelar e um perfil de uma mama feita com folha emborrachada (EVA). As crianças aprenderam sobre os alvéolos ("fabriquinhas" que produzem o leite), ductos lactíferos ("estradinhas" que levam o leite até as ampolas) e ampolas/seios lactíferos ("mercadinhos" onde o leite fica armazenado até o bebê mamar). No final da atividade, as crianças reconheciam o nome das estruturas e suas funções (Figura 1).

 

 

O ensino sobre a ordenha manual e a conservação do leite materno foi feito utilizando-se: um modelo de mamas, para demonstrar como se realiza a ordenha manual; um vidro de maionese vazio, para ensinar o armazenamento do leite ordenhado, e um copo para mostrar como pode ser oferecido o leite materno ao bebê. Uma menina destacou a utilidade da ordenha na continuidade da amamentação para as mães trabalhadoras: "Se a mãe for trabalhar, ela pode fazer a ordenha e alguém pode dar o leite pro neném assim no copinho, né, daí ela pode trabalhar e amamentar seu bebê também". Também o conteúdo sobre legislação foi apresentado às crianças, por meio de uma conversa na qual elas aprenderam os direitos da mulher gestante, da mulher puérpera e do pai.

Na discussão sobre por que a mama da mulher fica diferente após a gestação, uma criança disse: "Minha mãe disse que amamentar faz o peito cair". Este é um mito muito difundido na sociedade e, para trabalhá-lo, foi realizada uma discussão e análise com as crianças sobre o desenvolvimento mamário até a gestação, período em que se completa o desenvolvimento. Para facilitar a compreensão das crianças, foi realizada a seguinte atividade: na lousa, foram desenhados perfis da glândula mamária feminina na infância, adolescência, idade adulta e gestação, demonstrando o desenvolvimento mamário das mulheres.

Segundo Freire (1992, p.81), "[...] ensinar não é a simples transmissão do conhecimento em torno do objeto ou conteúdo". O educando precisa aprender a razão de ser do conteúdo. Neste caso, as crianças entenderam por que é um mito "o peito cai com a amamentação"; elas compreenderam o desenvolvimento mamário durante a gestação e entenderam que as mudanças ocorrem nas mamas, independente de a mulher amamentar.

Ao se abordarem as dificuldades na amamentação, as crianças discutiram sobre o leite empedrado (ingurgitamento mamário): "O que eu tenho que fazer se o leite empedrar?". A outra criança respondeu: "Coloca na água quente e faz massagem, minha tia fazia isso quando ela teve bebê". Foi discutido com as crianças que colocar água quente nas mamas vai aumentar ainda mais a produção de leite e que leite empedrado é acúmulo de leite, por esse motivo, a solução é a retirada deste acúmulo, por meio da ordenha manual.

Crianças na promoção da amamentação

Para a promoção da amamentação na escola, as crianças propuseram e confeccionaram diversos jogos, modelos anatômicos de mama e música. Elas demonstraram muita criatividade e responsabilidade na construção destes materiais. A elaboração desses materiais educativos aponta que as crianças, quando incentivadas a criarem seus próprios meios de ensinar, não optam pela maneira expositiva, como são ministradas as aulas dos professores no dia-a-dia. Durante a entrevista com a professora da quarta série, ela também destacou a importância da utilização de outros materiais para ensinar:

"O material que vocês usaram foi muito bom, posso dizer, surpreendente. É um material simples, objetivo, prático, mas que chega ao interesse do aluno..."

No dia da promoção da amamentação na escola, todas as crianças estavam ansiosas para o início das atividades. A primeira atividade foi o rap da amamentação, que foi criado e apresentado por uma dupla (Figura 2).

 

 

Duas meninas ensinaram sobre a anatomia e fisiologia da lactação e destacaram a importância da pega correta (Figura 3).

 

 

Um grupo de meninos trabalhou a promoção da amamentação com um jogo de dama: em cada casa do tabuleiro havia uma pergunta e a peça só era movida se a resposta estivesse correta (Figura 4).

 

 

Estes resultados mostram que crianças podem ser promotoras da amamentação. Neste sentido, Montrone (2002) aponta que a promoção da amamentação pode ser realizada não somente por profissionais da saúde, como também por outros membros das comunidades, neste caso, crianças de escola de Ensino Fundamental.

A professora da quarta série também destacou a importância da atividade na promoção da amamentação pelas crianças:

"Ensinam para as mães, para as irmãs, porque aqui são famílias de muitos filhos... Muitos aqui tiveram irmãozinho [...] E eles falavam pra mim: 'professora, minha mãe teve bebê, ela está amamentando' [...] a criança leva a informação para casa, com certeza."

Para as crianças, realizar as atividades de promoção possibilita que elas utilizem sua criatividade e conhecimentos ao terem oportunidade de ensinar o que aprenderam a outras crianças e às suas famílias:

"Sempre que eu chego em casa eu conto pra minha mãe tudo que aprendi, ela até me faz perguntas...eu começo a contar, e ela acredita em mim."

Estes resultados indicam que crianças de quarta série do Ensino Fundamental podem ser agentes de mudança em sua comunidade escolar, levando conhecimentos e atitudes favoráveis à prática de amamentação.

 

Conclusões

Em relação à percepção e conhecimentos sobre a prática de amamentar, verificou-se que o aleitamento materno faz parte do cotidiano das crianças, seja na convivência, seja na participação da gestação de suas mães, tias ou vizinhas, ou na alimentação de bebês na família ou comunidade. E, neste cotidiano, as crianças constroem saberes e atitudes sobre a prática de amamentar.

Foi constatado que crianças da quarta série do Ensino Fundamental apresentam os mesmos mitos presentes na população adulta: "leite fraco", "o peito cai", "amamentar só faz bem para o bebê" e outros.

Na temática ensinar e aprender sobre amamentação, a metodologia utilizada no desenvolvimento do programa de ensino mostrou-se adequada, pois favoreceu a criatividade, a curiosidade, a criticidade e a construção de conhecimentos e atitudes favoráveis ao aleitamento materno.

As atividades desenvolvidas incentivaram professores a discutirem esta temática, assim como a repensarem a metodologia utilizada no ensino das disciplinas curriculares.

Na promoção da amamentação na comunidade escolar, as crianças apresentaram iniciativa, empenho, responsabilidade e criatividade ao proporem e confeccionarem jogos, brincadeiras, modelos anatômicos e músicas, instigando as crianças de outras classes, professores e funcionários da escola a participarem da promoção. Os materiais criados e utilizados se mostraram apropriados para se trabalhar esta temática junto à comunidade escolar. Assim, crianças de quarta série do Ensino Fundamental podem ser agentes de mudança em sua comunidade escolar.

Os depoimentos das crianças e das professoras evidenciam que as crianças também podem ser interlocutoras na promoção da amamentação em suas famílias e na comunidade em que vivem, ao ensinarem sobre a prática de amamentar.

Além da formação de uma cultura favorável à amamentação em diversas comunidades, a experiência propiciada por este trabalho passa a fazer parte da vida dessas crianças, que, quando forem pais e mães, possivelmente terão atitudes de valorização da prática de amamentar.

Esta é uma experiência inovadora e de grande relevância para a valorização social e promoção de uma cultura favorável à prática da amamentação, mostrando que a formação de crianças para a promoção da amamentação contribui para a promoção da prática de amamentar nas comunidades.

 

Colaboradores

As autoras trabalharam juntas em todas as etapas do manuscrito.

 

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Recebido em 26/05/08.
Aprovado em 07/10/08.

 

 

1 Amamentação exclusiva: aleitamento materno como único alimento, podendo o lactente receber, também, vitaminas, minerais ou medicamentos; recomendada até seis meses. Amamentação: recebe leite materno, independente do consumo de qualquer complemento, lácteo ou não; recomendada, pelo menos, até os dois anos (Brasil, 2002; OMS, 1991).

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