EDITORIAL

 

 

Interface – Comunicação, Saúde, Educação, nesta 37ª edição, publica mais uma série de artigos que são, em si, a expressão da rica paisagem temática do próprio campo da saúde coletiva. Uma característica importante desta e da revista no seu conjunto tem sido a diversidade, que se revela sobre vários aspectos, tanto em relação aos temas discutidos quanto na abordagem metodológica apresentada nos estudos publicados. Este cenário multifacetado de apresentação da publicação científica brasileira na área, que tem, na Interface, uma amostra, expressa, de alguma forma, o que é a saúde coletiva. Um campo que nasce interdisciplinar e que evolui com base em uma forte multiplicidade, onde o contraditório e o heterogêneo têm uma convivência saudável e produtiva. A diversidade traz riqueza ao campo e é o que possibilita a realização do seu imenso potencial criativo.

Em muitos dos artigos publicados nesta edição, observa-se o crescente reconhecimento do protagonismo dos sujeitos na pesquisa, há uma evidente presença de fragmentos da realidade compondo os textos. O mundo entra na revista e dela se apossa, tomando a forma de novos conhecimentos. Referenciais de diversos campos compartilham uma significativa presença, sem fixação de territórios, porque abrem para novas entradas, com diferentes colorações textuais. A inovação tem sido a forte característica da Interface, fortalecida por decisão editorial. Avalia-se que, devido à riqueza inerente ao campo da saúde coletiva, o cenário de produção na área é muito amplo, e igualmente fértil, e será cada vez mais produtivo se for preservado espaço de liberdade suficiente para a criação.

Interface 37 publica o ensaio de criação de Regina Favre, "Um corpo na multidão: do molecular ao vivido". A foto "na muvuca da vida" traz a imagem estruturada e concretada da cidade. Mundo este que invade a sala de aula, que também é outro mundo, porém mais intimista. Compõe-se, assim, uma performática expressão, onde o que define a imagem é, sobretudo, o olhar sobre ela, pois, entre um e outro cenário possível, há um espaço entre eles, onde as imagens se superpõem formando outro núcleo semiótico. Assim, o que seria antes uma realidade fixa e rígida, ganha contornos diferentes e transita para outras formas, ou para forma nenhuma. As imagens trazem a ideia de superposição de diferentes superfícies, movimentos e fluidez, numa realidade movente. Tudo isto se conecta a uma certa identidade da revista, expressa no seu esforço de publicação, que absorve a diversidade presente no campo, e a permanente reinvenção da saúde coletiva, e de si mesma enquanto veículo de publicação da produção científica do campo.

As imagens do ensaio vão se revelando, é como se elas se apresentassem como movimento, revelando o corpo nas suas muitas expressões e sua força autopoiética. E sempre em relação com o mundo, este, também, um corpo com intensa capacidade de afetar. O encontro produz novas formas, sendo que, a partir daí, corpo e mundo ganham novos sentidos. O corpo neural, o afetivo, o que se apavora, o que revela um espaço vazio em si, o corpo processo - e, assim, as muitas cartografias corporais vão ganhando sentido, expressões múltiplas, que levam à percepção de que o corpo é uma produção social e biossubjetiva, em permanente mutação. Portanto, há uma ética que produz as expressões do corpo e uma estética que lhe dá contorno, linhas, formas; mas, ao mesmo tempo, as imagens revelam campos que são captados apenas pelo que há de vibrátil nos corpos, como o são as sensações de pavor, o entorpecimento das imagens-mundo, campos não estruturados, e que são, ao mesmo tempo, parte do mundo da vida. 

Com esta edição, Interface oferece mais uma sequência de artigos contribuindo para a divulgação, produção e inovação no campo da saúde coletiva.

Boa leitura!

 

 

Túlio Batista Franco
Editor Associado

UNESP Botucatu - SP - Brazil
E-mail: intface@fmb.unesp.br