LIVROS

 

 

Ana Maria Canesqui

Departamento de Medicina Preventiva e Social, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas, Rua Tessália Vieira de Camargo,126, Barão Geraldo, Campinas, SP, Brasil, 13.083-887, E-mail: anacanesqui@uol.com.br

 

 

LE BRETON, D. Compreender a dor. Portugal: Estrelapolar, 2007.

 

 

Este é mais um livro de uma série sobre o corpo, escrito por Le Breton, sociólogo, antropólogo e psicólogo, professor da Universidade de Marc Bloc, Estrasburgo, França.  Ele foi, primeiramente, editado na França em 1995, sob o título Anthropologie de la douleur. Logo a seguir, em 1999, foi publicado em espanhol pela editora Seix Barral de Barcelona e, em 2007, foi traduzido para o português de Portugal, sob o título Compreender a Dor.  Apenas dois livros de Le Breton foram traduzidos e publicados no Brasil: Adeus ao Corpo e Sociologia do Corpo.

O próprio autor, em entrevista a Claúdia Machado de Souza, professora da Universidade Federal Fluminense, refere-se aos seus leitores com estas palavras:

estou acostumado com a interferência na realidade porque escrevi no campo da medicina, do tratamento do doente e eu sei que se encontra nos meus livros uma maneira de melhor entender e posicionar-se à frente da doença e às técnicas médicas. Eu escrevi um livro sobre a dor e muitas pessoas que sofrem a dor às vezes encontram respostas em meus trabalhos. (Le Breton, 2009, p.2)

Além deste público, o livro interessa aos cientistas sociais e aos diferentes profissionais de saúde. Le Breton adverte o leitor(a), nas primeiras páginas da Introdução, sobre o fato de a dor não ser meramente sensorial, inscrita na fisiologia e isenta da dimensão afetiva. Não há dor sem sofrimento, sendo ela sentida e percebida por aquele que a sofre.

A dor está no cerne da relação do indivíduo com o mundo e de sua experiência acumulada com ele, ultrapassando, portanto, as configurações do signo clínico, postas pela medicina. Penetra as experiências pessoais prenhes de significação, interpretação e explicação, sempre mediadas pela cultura, pelas relações sociais e subjetividade. A abordagem antropológica da experiência da dor e da enfermidade, como sofrimentos experimentados pelos enfermos, é uma forma de aproximar-se dos adoecidos, não ouvidos pela medicina.

O livro compõe-se de seis capítulos redigidos em linguagem estimulante, capaz de proporcionar prazer estético e, simultaneamente, é rigorosa e densa, do ponto de vista acadêmico. O autor afirma que as palavras do sofredor são limitadas para expressar a sua dor, feita pelos gritos, gemidos e palavrões, rompendo as convenções sociais, ou pelas metáforas, tão presentes nas descrições dos pacientes aos médicos. No primeiro parágrafo do capítulo 1, Le Breton impacta o leitor(a) afirmando ser: "a dor, sem dúvida, a experiência mais partilhada para além da morte: nenhum privilegiado reivindica ignorância em relação a ela ou se gaba de conhecê-la melhor do que ninguém" (Le Breton, 2007:23). 

Este capítulo percorre a experiência da dor, sob vários ângulos: como ameaça ao sentimento de identidade; como possessão corrosiva do indivíduo; como alteração da relação do homem com a totalidade do mundo e com o seu corpo; como interferência no jogo do desejo e no laço social, criando o sentimento de infortúnio para quem a sofre e um estado de graça para quem se livra dela.

A dor pode ser transitória e aguda; crônica, recorrente e total, sem trégua, acompanhando, geralmente, o fim da vida dos acometidos pela Aids. A medicina procura amenizá-la ou suprimi-la, seja tornando inconsciente o paciente ou, alternativamente, preservando sua lucidez e dignidade perante a morte. Substituindo a linguagem do paciente, a medicina criou escalas para medir a dor, porém ela é menos dita e muito mais sentida, diz o autor.

O segundo capítulo penetra nos aspectos antropológicos da dor, explorando seu simbolismo e inconsciente nas situações de hipocondria, na expressão das múltiplas queixas de dor sem causas aparentes, por pacientes classificados como poliqueixosos, não legitimados pela medicina. O autor sugere aos médicos, nestas situações, substituírem a busca orgânica pela dos sentidos, para chegarem à raiz do sofrimento e do dilema da identidade do sofredor.

Muitos exemplos, extraídos da relação dos pacientes com os médicos, mostram a dor emaranhada nas histórias pessoais, nas relações do homem com seu corpo e sua fisiologia, nos que foram privados de afeto, nos psicóticos, nos indiferentes à dor; nos que a sofrem fisicamente sem causa aparente. As diferentes racionalidades médicas e práticas de cura possuem distintas interpretações do corpo, sendo o saber médico apenas uma delas. O clássico exemplo do xamã, de Lévi-Strauss, sobre a eficácia simbólica de suas curas, funda-se nas crenças coletivas e na posição do curador legitimada pelo grupo social. A eficácia simbólica permeia a medicina e as demais práticas de cura. Os efeitos dos placebos, usados no alívio da dor, pela medicina, exemplificam sua percepção não restrita ao físico do homem, uma vez impregnada pelo social, situacional, relacional e individual.

O terceiro capítulo reconstitui os sentidos do sofrimento humano nas diferentes religiões, integrados às suas explicações sobre o universo. Nas várias narrativas bíblicas, selecionadas pelo autor, a dor passa pela infração às leis divinas. No judaísmo, o sofrimento é um mal incompreensível ao homem. Na tradição cristã, a dor advém do pecado original como condição humana fatal. A dor deve ser aceita pelo cristão ou ser usada como mortificação para alcançar a graça divina. A Reforma Protestante recusou a dor como força redentora ou como punição do homem, devendo ser combatida. Para o mulçumano, dor e sofrimento são provações de Deus, às quais o homem não pode fugir.

O capítulo se encerra com a dor merecida, tão presente nas espiritualidades orientais (budismo, hinduísmo e jainismo), da qual o homem pode se livrar cultivando a disciplina, a espiritualidade, o conhecimento e a sabedoria. O merecimento da dor é desconhecido do indivíduo, associando-se ao carma, no hinduísmo. As diferentes religiões fornecem um sistema de valores morais, repercutido nas maneiras como os indivíduos religiosos pensam e lidam com a dor. A dor penetra a moral encarnando a figura do mal, tal como a doença, sendo assim percebida pelos não religiosos. A doença merecida ainda povoa o imaginário social contemporâneo, sendo a AIDS exemplar, como castigo decorrente dos modos de vida e da sexualidade não convencional.

O quarto capítulo é o mais extenso, repleto de informações empíricas sobre o corpo, saúde e doença, extraídas de pesquisas norte-americanas e francesas, abarcando a construção social da dor e sua integração à cultura. Afirma o autor: "todas as sociedades humanas integram a dor na sua visão de mundo, conferindo sentido, até um valor, que lhe desarma a nudez e freqüentemente, a acuidade" (Le Breton, 2007, p.112).

A cultura oferece, a cada sociedade e aos grupos sociais, as explicações sobre a causalidade da dor, assim como os meios simbólicos e práticos de combatê-la. Fornece, ainda, as experiências acumuladas e as expectativas sobre o sofrimento habitual a cada tipo de situação.

A expressão da dor é aprendida, primeiramente, no seio da família e, depois, no meio social e em outras instâncias socializadoras secundárias; transmite-se de geração em geração, cerca-se das tradições, das convenções e da história, assim como sofre influência do meio social e cultural. A percepção da sensação da dor varia no tempo e no espaço, moldando-se pelas experiências singulares e pelos modelos culturais.

Os estudos sobre a comunicação do paciente ao médico, de suas sensações corporais de dor, dos indivíduos procedentes das classes populares, mostram como elas se integram às referências culturais; às imagens da vida cotidiana, às relações com os outros e com o trabalho. Confrontam-se os discursos médicos e populares, ignorando, os primeiros, o conhecimento do senso comum sobre o corpo e a cultura do cotidiano.

O autor recorre aos clássicos trabalhos de autores norte-americanos, como Koos, 1954, e Zborowski, 1952, explorando as variações da expressão da dor segundo os grupos étnicos, de idade, gênero e geração. Se, de um lado, estas pesquisas comprovaram as variações da dor, de outro, estão circunscritas ao seu tempo - a década de 1950 - à medida que diferem as respostas à dor nas sociedades contemporâneas, expostas às múltiplas influências e maior liberdade dos modelos tradicionais, onde prevalece a ideologia individualista. Há limitações nestes estudos por desprezarem a relação da dor com as condições de existência e o modo de vida, imprimindo às classes populares maiores resistências à dor e menor atenção ao corpo, postergando-se a ida ao médico.

Após 30 anos, operários franceses da década de 1960 passaram pelo enfraquecimento dos antigos valores em relação à dor e ao uso do médico. Acrescenta o autor que os grupos errantes e rurais ainda atribuem pouca atenção ao corpo, às doenças e ao cuidado com a saúde, ao contrário das camadas médias, que prestam atenção ao corpo, buscam os conselhos divulgados pela medicina, penetrando a dor e a doença em sua consciência, intensificando a busca do médico e de outras práticas de cura.

É lembrado, por Le Breton, o clássico estudo de Boltanski (1975) sobre os usos sociais do corpo nas diferentes classes sociais francesas, feito na década de 1970. Estudos como esse mostram as diferentes visões de mundo dos médicos e pacientes, cuja compatibilidade requer a construção de negociações, e não a desqualificação e desprezo pela visão de mundo e herança cultural das classes populares. A perspectiva antropológica impõe o respeito à alteridade e à diferença.

O capítulo ainda explora: os estudos experimentais sobre o limiar da dor; a interposição dos dados pessoais e do meio ambiente na sua modelagem; a gestão da dor pela medicina, seu estatuto social, comentando, especialmente, a dor crônica e seus impactos sobre a integração social dos acometidos por ela, o uso de mecanismos de gratificação pela dor; as difíceis relações entre os adoecidos, por dor crônica, e seus familiares. O capítulo encerra com severas críticas aos estudos norte-americanos sobre a dor experimental, calcados no estímulo biológico, desprezando o sentir do homem envolto na experiência pessoal, na subjetividade e nos valores culturais de seu grupo social e sociedade.

As transformações das ideias sobre a resistência à dor, postas pelas culturas tradicionais, estão no capítulo quinto, que analisa a importância das técnicas médicas no controle e erradicação da dor pelos medicamentos. Entretanto, diz o autor, "sonhar em eliminá-la é abolir a faculdade humana de sofrer, é abolir a condição humana" (Le Breton, 2007, p.176). Para a cultura médica contemporânea, a dor equivale à tortura, quando não combatida pelos meios científicos.

O último capítulo aborda os usos sociais da dor. Retoma a análise dos valores religiosos cristãos em relação ao sofrimento, referindo-se a várias passagens do Novo Testamento onde está a fé desarmando o sofrimento; o uso da dor para aproximar-se de Deus; a escolha da dor como fonte de alegria ou de devoção. Outras experiências com a dor remeteram ao êxtase e ao sinal da manifestação divina em Tereza D´Ávila; aos exercícios da penitência em Santo Inácio de Loyola, buscando identificar-se com Cristo, e a própria aceitação das dores, por Cristo, no calvário, como meio de salvação da humanidade. No pensamento ocidental, o gosto pela dor foi abolido pela medicina.

Le Breton volta seu olhar para aqueles que se beneficiam da dor, buscando serem cuidados e obterem a atenção dos outros. Enfoca os portadores de dor crônica incurável, cujo sofrimento e redenção tiram-lhes o gosto de viver; o uso da dor como meio de chantagem, de controle do outro e como arma política, exemplificada pelas greves de fome. Recorre à história para mostrar a dor infligida como meio de punição, entre os romanos, e a dor educativa entre os gregos helênicos, assim como à Bíblia, exemplificando os usos da dor.

Sobre a educação das crianças, mostra como a dor, na Idade Média do século XVI, associou-se à punição, como consequência do mal cometido. Alterou-se a relação com a infância no século XVIII, quando devia ser instruída, e não punida, militarizando-se sua disciplina no século XIX, quando foi suprimida como meio de retificar condutas. No século XX, a dor deixa de ser instrumento de submissão, suprimindo-se das escolas as punições e os castigos corporais como meios educativos, embora continuem praticados.

O autor aborda outros usos da dor, como a infligida como meio de correção das condutas desviantes; a dor consentida dos atletas, a dor dos rituais de iniciação, bastante presente na literatura etnológica, e a dor como abertura do mundo, onde se apresenta como princípio radical da metamorfose. O autor fecha o capítulo e o livro com a frase "mas a dor não é um continente onde é lícito instalar-se, a metamorfose exige o alívio" (Le Breton, 2007, p.227).

Este belo e denso livro de Le Breton merece leitura cuidadosa e reflexiva. Ele não deixa brechas sobre a complexidade e as múltiplas dimensões da dor, recusando circunscrevê-la à fisiologia. A dor tornou-se objeto extremamente fecundo da condição humana e dos sentimentos de quem a sofre. Passa pela cultura, como simbolismo, sistema de crenças e valores modeladores do seu significado e expressão; passa pela experiência dos que sofrem, na sua relação com a medicina.

Penetra o mundo das ideias transformadas na história, tanto dos saberes médicos eruditos, religiosos, quanto das tradições dos grupos rurais e operários do passado e da contemporaneidade, em relação às suas posturas de resistência à dor. O autor mostra como a dor perpassa as relações sociais, os rituais, os sistemas punitivos educativos e a medicina, suas técnicas e a cultura médica.

Este estudo é exemplar da interdisciplinaridade fecunda entre as várias ciências sociais e humanas, cujo domínio pelo autor é bastante evidente, permitindo-lhe tecer e percorrer as múltiplas facetas da relação dos homens com a dor. A fantasia da supressão da dor, pelas tecnologias médicas, deságua na indiferença à vida. Perder a dor é também perder o gosto e o prazer de viver. Esta é a mensagem transmitida pelo autor aos leitores deste livro.

 

Referências

BOLTANSKI, L. Los usos sociales del cuerpo. Argentina: Ediciones Periferia, SRL, 1975.         

KOOS, E.L.  The health of Regionville. New York: Columbia University Press, 1954.         

LE BRETON, D. Entrevista. Iara Rev. Moda Cult. Arte, v.2, n.2, p.1-2, 2009. Disponível em: <http:// www.iararevista.sp.senac.br>. Acesso em: 15 nov. 2010.         

______. Compreender a dor. Portugal: Editora Estrelapolar, 2007.         

ZOBOROWSK, M. Cultural components in response to pain. J. Soc. Issues, n.8, p.16-30, 1952.         

UNESP Botucatu - SP - Brazil
E-mail: intface@fmb.unesp.br