CRIAÇÃO

 

Um corpo na multidão: do molecular ao vivido

 

 

Regina Favre

Laboratório do Processo Formativo, Rua Apinagés, 1100, cj 507. Perdizes, SP, Brasil, 05.017-000, E-mail: reginafavre@yahoo.com.br

 

 

 

Condições formativas dos corpos HOJE: uma cartografia

Indivíduos-corpos: relativos, interdependentes e interconectados, formando camadas de tecido social instáveis, onde a capacidade de manter agregação de si e conexão com as redes funcionais, em cada corpo, desempenha o papel principal.

Forma do lucro: está mais no uso que na produção; os bens estão mais ligados à circulação do que à acumulação.

Ambiente-mercado: produz, sobretudo, serviços, estilos de vida e modos de inserção.

Capitalismo atual: com seu funcionamento em rede nos ameaça com a exclusão e não mais, diretamente, com a captura dos corpos pelo trabalho a serviço das classes dominantes, característica do capitalismo industrial.

Poder mundial: aristocracia financista e multinacional, por um lado, e redes de colaboração e produção livre, sobretudo, a multidão, por outro.

Perigos: perda das conexões e falsa agregação de si.

HOJE em qualquer ponto do planeta o problema está no horror à exclusão.
Exclusão das redes físicas é a morte.
Exclusão das redes sociais é a miséria.
Exclusão das redes de sentido é a loucura.

Nesse ambiente-mercado totalmente midiatizado, onde vivemos hoje, o tempo todo estamos expostos à informação que nos manipula e horroriza com as situações de exclusão: doença, envelhecimento, isolamento, violência, miséria, desemprego, desamparo, favela, fila de hospital etc etc etc etc etc. 

 

 

Nesse estado de apavoramento que atinge a todos, somos tomados pela vivência da desagregação somática desencadeada pela resposta reflexa do tronco cerebral. Com o reflexo do susto, o processo somático imobiliza e suspende sua continuidade como um modo de barrar a excitação excessiva, fatal para o córtex cerebral.

 

 

Mas, ao mesmo tempo, essa mesma mídia que nos apavora vem, aparentemente, nos socorrer... oferecendo contornos existenciais vendáveis que prometem forma, contenção da excitação e inclusão. São imagens de fácil assimilação que suscitam o reflexo da imitação. Evidentemente, uma gambiarra formativa que dura um piscar de olhos...

Um conceito de corpo tendo em vista os problemas formativos HOJE.

O corpo é um processador ambiental
em contínua produção de si e de mundo pela interação de suas camadas embriogênicas

O corpo é um processo
morfogênico autopoiético contínuo. do micro ao macro do nascimento à morte

Tarefas urgentes de cada corpo HOJE: Situar-se na velocidade e na violência dos processos coletivos e cultivar uma potência que lhe permita manter: 1 agregação de si em continua mutação, 2 ligações de cooperação com os diferentes ambientes, 3 capacidade de assimilar o acontecimento, transformando afetações em tecido, neural e muscularmente estruturado, como experiência e comportamento.

Lembrando que:

1 forma, funcionamento e comportamento são a mesma coisa, do micro ao macro. 2 o trabalho sobre os processos formativos e maturacionais de corpos e seus modos-forma de agregação e conexão requer cartografias e práticas precisas, sempre observando o modelo do vivo:

excitação, membrana e pulso continuidade da embriogênese da concepção à morte bomba pulsátil corpo canal peristalse propulsão no espaço expressão conectiva

 

 

 

 

Cada corpo
é um lugar na biosfera
um AQUI
um lugar self atravessado por ocos
geneticamente imantado

 

Myself

Como se faz (my)self em torno de um oco? O que considerar?

 

 

Agregação de partes Qualidade de membrana Permeabilidade entre as camadas Expansão-contração Autorreconhecimento Autoagência de si Modos de conexão Modos de subjetivação...

conduzindo substâncias e informação de todo tipo, bombeando, processando e gerando ambientes, internos e externos, sempre em conexão...

Crescimento e maturação do soma:

 

 

Um continuum formativo de modos de conexão aos ambientes fusão dependência busca de reconhecimento controle cooperação

São necessários ambientes confiáveis e tempos formativos para o amadurecimento dos pulsos e superfícies de conexão. A conexão, em sua condição adulta, se dá pela cooperação dos corpos.

Cooperar significa:

reconhecer-se apenas parte de processos maiores

agir como parte

formas imaturas se conectam aos campos corpantes fundindo, dependendo, buscando reconhecimento, dominando...

hoje, em nossa vida visivelmente em rede, mais do que nunca, urge a cooperação.

Um modo de estar no campo corpante: a clínica realinha o processo formativo

 

 

Normopatia é o nome das forças do mainstream. Todos, de um modo ou de outro, nos afetamos pela sedução desse mundo aparentemente estável. Todos os corpos e formas, ao se desencadearem, já emergem do oceano formativo diretamente num mundo capitalista regido por poderes e valores que os capturam para dentro de redes de sentido, moldando-os e modelando-os. Isso é a homogênese.

Portanto é vital acessarmos:

o reflexo do susto as formas-socorro do mercado que envelopam nossa angústia a paralisação do processo maturacional das formas de conexão

 

 

como você funciona?

um AQUI biológico percorrido por ocos autorreferente autoagente autorregulado que vai se constituindo SUJEITO co-corpando em campos corpantes através de modos de subjetivação que são os modos sociais de se constituir SUJEITO com o poder de interferir em suas próprias formas e manejá-las, dentro do presente coletivo.

A maturação conectiva e a diferença só podem ser produzidas, sobre cada corpo, cada processo, cada conexão, de modo paciente e artesanal, observando as regras da formação biológica onde o corpo e seu cérebro, problematizando cada funcionamento, agem juntos sobre “o que é” e “como é”, e operam experimentações sobre as intensidades e amplitudes de cada forma, liberando, assim, forças autopoéticas que vão se condensando em novas formas a serem captadas, definidas em suas bordas, muscularizadas, praticadas, cuidadas e articuladas aos ambientes, internos e externos.

Uma política do vivo

A biologia tal como é compreendida hoje nos ajuda a contemplar que a organização morfogênica do vivo é molecular e em contínua autoprodução; que a multidão e o vivo operam da mesma maneira, isto é, formativamente, autopoieticamente.

Esta é uma visão extremamente otimista

O processo de produção de corpos pode ser enxergado através de um continuum de máquinas de produção de pulsos:

pulso cósmico, pulso vivo, pulso genético, pulso embriológico membrana e pulso, intensidades e vínculos,

desencadeamento de fases formativas, ambientes assimiláveis ou excessivos, a produção de si, a produção da diferença, as ondas formativas, os afetos e o neuromotor...

A seleção natural opera, sempre, do molecular ao comportamento macro, em possibilidades combinatórias quase infinitas,

o que desabsolutiza funcionamentos e relativiza a fitness, isto é, a encaixabilidade de um fluxo com outro.

Uma gramática formativa necessita estar profundamente ancorada na biologia molecular, nas regras biológicas da produção dos tecidos e das formas, da maturação dos corpos e suas ligações, gerando práticas cooperativas do co-corpar e de produção-sustentação de campos corpantes.

 

Referências consultadas

KELEMAN, S. Anatomia emocional. São Saulo: Summus, 2002.         

______. Corporificando a experiência: construindo uma vida pessoal. São Paulo: Summus, 1995.         

FAVRE, R. Viver, pensar e trabalhar o corpo num processo de existencialização contínua. Revista Reichiana, n.13, p.78-84, 2004.         

______. Trabalhando pela biodiversidade subjetiva. Cadernos de Subjetividade, p.108-23, 2010.         

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