ARTIGOS

 

Doação de órgãos e tecidos: a centralidade do coração e a emergência do cérebro manifestadas em projeto artístico*

 

Donación de órganos y tejidos: la centralidad del corazón y la emergencia del cerebro expresadas en proyecto de arte

 

 

Zenilda Cardozo Sartori; Luís Henrique Sacchi dos Santos

Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências: Química da Vida e Saúde, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Avenida Osvaldo Aranha, 824/32. Bairro Bom Fim, Porto Alegre, RS, Brasil. 90.035-191. z.cardozo@ibest.com.br

 

 


RESUMO

A centralidade do coração e a emergência do cérebro nos textos dos participantes da ação artística 'Doações do Corpo', produzidos para se candidatarem à recepção de um órgão, sob a forma de objeto artístico, são analisadas com base nas contribuições de autores que teorizam sobre o corpo na contemporaneidade. Essa ação foi desenvolvida com o objetivo de provocar um tensionamento na intersecção entre os campos das artes e das ciências, colocando o participante no lugar de receptor, à espera por transplante e, ao mesmo tempo, no lugar de artista procurando por espaço para suas obras. Analisa-se, também, um dos pontos significativos evidenciados durante a pesquisa: aquilo que podemos chamar de simbologia e fantasmática, presentes nos discursos sobre transplantes. Por fim, discute-se a centralidade atribuída ao coração (como sede das emoções) em concorrência ao cérebro (órgão que representa a racionalidade, a instância do próprio 'governo do eu').

Palavras-chave: Doação dirigida de tecido. Coração. Cérebro. Arte.


RESUMEN

La centralidad del corazón y la emergencia del cerebro en textos de participantes de la acción artística 'Donaciones del Cuerpo', producidos con el intuito de postularse a la recepción de un órgano, bajo la forma de objeto artístico, se analizan a partir de autores que teorizan sobre el cuerpo en la contemporaneidad. Esta acción tuvo el objetivo de provocar la intersección entre artes y ciencias, situando el participante como receptor, a la espera por un trasplante y, al mismo tiempo, como el artista, buscando espacio para exponer sus trabajos. También se analiza un punto significativo evidenciado durante la investigación: que podemos llamar de simbología y fantasmática, presente en los discursos sobre trasplantes. Por fin, se discute la centralidad del corazón - como sede de las emociones - en competencia con el cerebro - órgano de la racionalidad, la instancia del propio 'gobierno del yo'.

Palabras clave: Donación directa de tejido. Corazón. Cerebro. Arte.


 

 

Introdução

Neste período de transição em que vivemos, de conceitos líquidos e de culturas intermináveis (Canevacci, 2005), que questionam a linearidade de nossa visão do mundo, o sistema das artes - não imune a esta instabilidade - reflete a problematização dos próprios conceitos e as possíveis relações com outros campos do saber. Na produção artística contemporânea, isso se expressa, por exemplo, na coexistência de diferentes tendências ocupando os mesmos espaços, provocando importantes tensões tanto no campo da arte quanto em outros. Um deles - objeto de discussão deste texto - diz respeito à ciência, mais especificamente à medicalização crescente da sociedade, que se narra e se pensa, cada vez mais, a partir de conhecimentos tecnobiomédicos1.

Diferentes autores brasileiros contemporâneos (Sibilia, 2009, 2002; Ortega, 2008a; Couto, Goellner, 2007; Sant'Anna, 2004) vêm analisando as formas pelas quais os indivíduos têm sido constantemente interpelados por discursos que privilegiam os cuidados e as intervenções sobre o corpo a partir de uma matriz tecnobiomédica. Esses discursos, que problematizam o corpo, também constituem uma das tendências de abordagem da arte contemporânea, caracterizada pela simultaneidade e pluralidade de propostas, temáticas, técnicas, estilos e reflexões. Percebemos o crescente número de tais abordagens através de vídeos, fotografias, instalações e apresentações com diferentes ênfases sobre o corpo vivo, orgânico, fragmentado, visceral e, ainda, o corpo descarnado e digitalizado das novas tecnologias; todas fazendo parte do mesmo sistema de relações responsável pela sua formação - um corpo construído culturalmente no âmbito da tecnobiociência.

Diante do grande número de discursos sobre o corpo na atualidade, em diferentes áreas do conhecimento, poder-se-ia ter a impressão de que tal problemática estaria esgotada, que o corpo teria sido, por fim, banalizado. Pelo contrário, o que se tem observado é uma crescente centralidade do corpo nos dias atuais, o que produz ainda mais questionamentos e incertezas sobre ele (Ortega, 2008a; Sant'Anna, 2000) e, como resultado, a constituição de um campo fértil para a criação artística. A pluralidade e a diversidade de proposições sobre o corpo como objeto de arte, que vão além das relacionadas à performance e às interações digitais (amplamente difundidas atualmente quando se fala em intervenções corporais), podem produzir, ainda, importantes desdobramentos a serem explorados, não só pela arte, mas em todos os campos do saber.

Inserindo-se na voga da arte atual, de tensionar o corpo como metáfora, este trabalho buscou instaurar-se na intersecção entre o campo das tecnobiociências e o das artes, explorando a potencialidade de um projeto artístico como forma de privilegiar o envolvimento do corpo numa ação, envolvendo não apenas o próprio corpo da artista (e principal autora deste texto), mas, também, o corpo do(a) próprio(a) espectador(a). Para tanto, foi desenvolvido um projeto de ação artística, fundamentalmente política (porque articulou, de modo tensionado, a circulação de dois sistemas instituídos e oficializados: o sistema de transplante de órgãos e o sistema de apresentação das obras de arte), que implicou a constituição de uma metáfora do corpo fragmentado, propondo uma reflexão sobre a problemática do corpo na atualidade no que diz respeito à saúde, bioética, transformação e otimização corporal, especialmente no que se refere ao sistema de doação de órgãos e tecidos. Tal proposição se constituiu numa forma de arte que, como aponta Bourriaud (2009), acontece na esfera das relações humanas e de seu contexto social. Pensamos, assim, que articular as questões relativas à problemática da doação de órgãos e tecidos ao circuito das artes permite-nos tensionar a dimensão política relativa a esta temática, considerando o registro biopolítico do imperativo da saúde, da necessidade de cuidar da vida e do corpo e, portanto, de se fazer viver mais (Foucault, 1999).

A trajetória da artista aqui em questão tem sido marcada por diferentes abordagens sobre o corpo. Contudo, neste trabalho, a apresentação dos órgãos (como se fossem os seus próprios órgãos), sob a forma de objeto artístico, para doação, constituiu-se como o elemento central. Cada órgão foi construído por meio dos processos de criação artística (em desenho, pintura e objeto), sendo apresentado ao público por meio da ação intitulada Doações do Corpo e, posteriormente, doado aos participantes selecionados por meio da candidatura proposta em um edital semelhante àqueles em que os artistas concorrem a uma vaga em uma exposição. A ação política manifesta-se aqui na medida em que se buscou posicionar os espectadores no centro da questão sobre transplantes (como receptores) e, ao mesmo tempo, como artistas (através de um edital que mimetizava alguns dos processos seletivos adotados pelo sistema das artes). Tal ação foi realizada num primeiro momento via web2 e, posteriormente, apresentada em um espaço expositivo3. A página da web (blog) contava com: uma postagem explicativa sobre a proposta; o texto do edital com o regulamento; links para a ficha de inscrição on-line, para informações adicionais sobre a artista (currículo e vídeo feito no atelier), para o acesso às imagens dos órgãos/obras disponíveis para a doação, assim como links de páginas de instituições ligadas à saúde e ao sistema de transplantes.

Durante o período de desenvolvimento da ação, pode-se dizer que o público foi convidado à reflexão, ao questionamento e a uma tomada de posição sobre a problemática apresentada. Aqueles que desejaram participar da ação (como receptores) preencheram uma ficha de inscrição, cujo último item solicitado era a produção de um texto justificando o desejo e/ou a necessidade de receber o órgão/obra escolhido - a partir de tal texto se esperava que as compreensões circulantes na cultura acerca dos transplantes de órgãos (sua importância, a dimensão solidária, os conhecimentos apreendidos nas mídias, entre outros) fossem manifestadas. Os textos produzidos pelos participantes constituíram o principal material de análise da pesquisa, que teve como intuito discutir a maneira como os discursos sobre o corpo, que circulam em nossa cultura, especialmente sobre a doação de órgãos e tecidos, produzem formas de pensar e agir sobre corpo e saúde. Além disso, também se buscou compreender de que forma tais discursos se apresentavam sob determinadas representações e como se articulavam nas produções dos participantes. O processo de escrita dessas justificativas envolveu, de certa forma, a 'doação' do candidato a receptor: uma doação de seu tempo, de seu conhecimento sobre o órgão em questão, da busca pela informação necessária e da própria criação.

Os Estudos Culturais, de inspiração pós-estruturalista, especialmente aqueles que se pautam numa abordagem foucaultiana (Costa, 2005), constituíram tanto o corpo teórico, em que a pesquisa foi pensada, quanto o terreno a partir do qual as produções textuais dos participantes da ação artística foram analisadas. Nesta direção, foram considerados os discursos e as representações que se articularam na formulação das justificativas para a recepção do órgão/obra de arte, não como forma de revelar "verdades" ocultas no seu interior, mas com a intenção de abranger as relações que os próprios discursos põem em funcionamento: isto é, "de relações históricas, de práticas muito concretas, que estão 'vivas' dentro dos discursos" (Fischer, 2001, p.199).

Alguns dos textos encaminhados apresentaram justificativas com base na arte, no objeto artístico e no desejo de ter a obra. Outros textos relacionaram o próprio mote do projeto, fazendo referência à potencialidade da arte como provocadora e produtora de sentido e, também, aos critérios de seleção adotados pelos dois sistemas - o das artes e o dos transplantes. Em relação ao ato de doar e receber, alguns textos salientaram a necessidade de cuidado com o órgão e a sua preciosidade (daquilo que é precioso, de grande valor), considerando, ainda, que receber uma doação representaria uma "graça" (algo da ordem do divino), por ter mais uma chance para ser feliz, para repensar a forma como conduzia sua vida, não apenas em relação aos aspectos físicos, mas também no que dizia respeito às relações humanas. Em algumas das justificativas, foram utilizados termos como generosidade, solidariedade e positividade para referir a escolha dessa temática para a pesquisa. Além disso, alguns dos participantes pareciam ter recorrido a uma consulta aos compêndios de biologia e aos livros sobre saúde, pois destacavam as características/propriedades biológicas dos órgãos e reproduziam, assim, alguns dos discursos sobre o corpo na contemporaneidade. Exemplos disso apareceram na referência aos discursos acerca do risco e da responsabilidade para a manutenção de uma vida longa e saudável; da obsolescência do corpo e da necessidade de aperfeiçoamento corporal através da substituição dos órgãos que não funcionam "corretamente"; assim como, também, destacaram o aspecto simbólico dos órgãos.

A partir de um primeiro olhar sobre um total de 42 textos recebidos, considerando o número de inscritos para cada órgão e os órgãos que não obtiveram inscrições (pâncreas, traqueia e vesícula biliar), percebemos um elemento significativo: a preferência dos participantes pelo órgão coração4, representando um total de oito inscrições, das quais sete evidenciaram aquilo que denominamos de aspectos simbólicos a ele relacionados.

Observando a popularidade desse órgão, constatou-se, com surpresa, que isso que podemos chamar de "centralidade do coração" (quando comparado aos demais órgãos) se apresentou não apenas nas escolhas dos participantes, mas, também, no próprio processo criativo da artista (que se iniciou através da sua investigação anatômica e fisiológica). Isso se deu, de modo não intencional, desde a construção dos órgãos/obras, passou pela elaboração do layout da página da web (http://doacoesdocorpo.blogspot.com), bem como por todo o material utilizado na divulgação da pesquisa - convites (virtual e impresso), cartazes, folders - até a montagem da exposição Doações do Corpo (Figuras 1 e 2). Nesta, em particular, o órgão/obra 'coração' foi o elemento central (apresentado 'em suspensão' no interior de um cubo de acrílico) que determinou a disposição das outras obras no espaço expositivo.

 

 

 

 

Coração-sentimento e coração-bomba

Bastaria uma consulta ao dicionário (Ferreira, 2004), sobre o significado da palavra coração, para prevermos qual seria a relação da maioria dos participantes da ação artística com o órgão, pois, além dos significados sobre a anatomia e a fisiologia do coração, são encontradas definições relacionadas a sua simbologia, como, por exemplo, "o coração humano, considerado como a sede dos sentimentos, das emoções, da consciência; a natureza ou a parte emocional do indivíduo; amor, afeto".

O coração foi o órgão mais solicitado pelos participantes, sendo que a maioria das justificativas o referiu como o lugar da emoção, dos desejos, do amor e da amizade - relação que, além das definições encontradas no dicionário, foi amplamente explorada pelos poetas e por outros profissionais das artes ao longo da história da humanidade. A partir disso, poder-se-ia perguntar se tal preferência não evidenciaria a sua maior popularidade quando comparado a outros órgãos, como o pâncreas, por exemplo, que não teve qualquer inscrição, mesmo se tratando também de um órgão vital. Desta forma, poder-se-ia, igualmente, perguntar se existiria uma hierarquia dos órgãos, e como essa maior valorização de uns em relação aos outros teria influenciado a escolha dos participantes da ação artística. Ou, ainda, se isso teria acontecido em razão da maior facilidade de articulação proporcionada pelo que foi instituído através dos tempos.

A participante L. B. (artista pesquisadora, quarenta anos)5 optou, por exemplo, por não escolher um dos órgãos: "qualquer órgão para mim, e com certeza vou cuidá-lo muito bem, porque todos são super importantes". Este trecho chama a atenção para a existência de uma hierarquia entre os órgãos - frequentemente encontrada em diferentes manifestações -, destacando, assim, a relevância dada a determinados órgãos em detrimento de outros. Isso pode ser entendido a partir das colocações de Ortega (2008a), quando ele refere que "a presença corporal possui uma natureza paradoxal, aparecendo ao mesmo tempo como uma presença inescapável e uma ausência fundamental" (p.76). Em outras palavras, para esse autor, o corpo se constitui como um campo organizado, em que certos órgãos e atividades se destacam enquanto outros recuam. Ele refere diferenças de percepção em relação a alguns órgãos, especialmente daqueles ligados aos sentidos que se projetam para o exterior, em contraposição com o interior do corpo, com a visceralidade. Órgãos que são cruciais à manutenção da vida, mas que não podem ser percebidos, a não ser através da dor6, ou 'vistos' através das imagens médicas, necessitando, portanto, da mediação de profissionais especializados (Monteiro, 2008). Segundo Sant'Anna (2005), em nossa época, esses recursos tecnológicos têm possibilitado uma perturbação no "silêncio dos órgãos", devassando toda a intimidade do que, dentro da pele, se mantém na obscuridade. Através da sua popularização (e banalização), tais imagens têm auxiliado na constituição de 'verdades' sobre o corpo, sobre saúde e doença em cada época.

A maioria dos textos solicitando a doação dos órgãos/obras apresentava traços desses elementos, reconhecíveis pelo conhecimento cotidiano (de modo simbólico e fantasmático7), dos quais destacamos alguns excertos sobre coração e estômago.

"Eu preciso deste órgão por que é ele que significa AMOR, para que, diante de um mundo com tanta guerra e fome, eu lembre que ele ainda existe ... o coração que lembra MOTOR para que eu tire dele energia e disposição para lutar pelas coisas certas...". (R. V. S., dentista, 32 anos)

"Preciso de um novo estômago, o meu está saturado de tanto engolir "sapos". De ter de engolir injustiças, de engolir e não conseguir digerir tanta falsidade, tanta corrupção". (T. M., gestora de qualidade, 37 anos)

Em seu artigo, Coração estrangeiro em corpo de acolhimento, Vaysse (2005) aponta para a força das ideias fantasmáticas em torno do coração (e dos demais órgãos transplantados), capazes de colocar em risco uma cirurgia de transplante tecnicamente bem-sucedida, pois o paciente traz consigo uma experiência afetiva em relação ao órgão. Segundo essa autora, o sujeito transplantado passa por uma reelaboração da imagem do corpo:

sofrer o luto de seu próprio coração perdido, para admitir esse outro coração vivido como estrangeiro - e que o é, realmente, apesar da procura de uma compatibilidade máxima -, suscita reajustamentos em que se misturam as esferas psíquicas e somáticas. (Vaysse, 2005, p.41)

Vaysse refere que bom número de pacientes transplantados sente-se "penetrado" pela história do doador, mesmo que desconhecida (já que o seu anonimato é previsto por lei). O escritor Maurice Renard explora tais ideias fantasmáticas sobre os órgãos transplantados no romance Le mains d'Orlac (datado de 1920), em que um pianista (Orlac) tem as mãos substituídas pelas de um assassino condenado à morte. Em decorrência disso, sua personalidade fica transtornada e ele passa a ser o principal suspeito de uma série de assassinatos cometidos após o transplante. Para Le Breton (2005),

o romancista consegue jogar habilmente com o fantasma do destino inerente a certos órgãos simbolicamente significativos (aqui as mãos, ali o coração, o cérebro, etc), e suspeitos de transmitir as virtudes ou os defeitos do homem a quem eles foram arrancados. (Le Breton, 2005, p.55)

Histórias como esta fazem parte da formação dos sujeitos e povoam as metáforas da cultura popular acerca do corpo fragmentado da doação de órgãos, como se esses tivessem uma memória e um poder sobre o corpo do receptor. Isso se torna especialmente relevante para o coração, tomado como o órgão que governa as relações humanas, tal como sugerem os excertos aqui analisados. Segundo Vaysse (2005), certo número de pacientes acredita na "organização hierarquizada do funcionamento corporal orquestrada pelo coração" (p.44).

"Olhar-me no espelho e saber que dentro de mim há "uma outra pessoa", materialmente falando, seria um desafio constante. Pensar em como ela era, quais eram seus desejos e expectativas perante à vida e saber que estaria vivo devido seu desapego ao corpo ou o desapego dos familiares, por si só, me tornaria, eu acho, uma pessoa menos impertinente, menos radical com alguns comportamentos. [...]

Acho que este "renascer" modificaria não somente a mim, mas seria o desencadear de uma série de indagações nas pessoas que convivem comigo". (M. I. M., enfermeiro, 40 anos)

Neste excerto o participante refere um "outro" que habitaria seu corpo através do transplante. Pode-se dizer a partir disso que "os transplantes de órgãos acentuam o contraste entre o discurso do corpo objetivado da biomedicina e a experiência subjetiva e fenomenológica dos pacientes que devem integrar à sua corporeidade partes do corpo estranhas, a alteridade no corpo vivido" (Ortega, 2008a, p.219).

O participante destaca que teria um órgão estranho, "materialmente falando", o que lembra a ideia de coração utilizada e difundida pela área médica, como sendo uma "bomba muscular" - apenas um fragmento do corpo de outra pessoa. O candidato expressa, ainda, que saber disso seria um desafio constante: a curiosidade em saber como era o sujeito doador, quais eram seus desejos e expectativas. Desafio ao qual o paciente transplantado se submete, sendo que, de acordo com Vaysse (2005), para se apropriar psicologicamente do órgão, é necessário "apagar a afetividade fantasmática em torno do sujeito doador" (p.45). Essa autora, referindo-se à existência deste "coração imaginário", destaca a utilização, na contemporaneidade, das representações de "coração-sentimento" e "coração-bomba", este último relacionado ao mecanismo funcional, mais racional, de "uma máquina idealizada que se quer reparável e intercambiável em todas as situações de falha, uma vez que ela não é imortal" (p.43).

O participante aponta, ainda, para como a reflexão (provocada pela ação e) proporcionada pelo fato de estar na fila de espera para receber um órgão (obra), ou de apenas imaginar-se nessa situação, poderia suscitar uma reavaliação no seu próprio modo de vida e, também, no que diz respeito às pessoas com as quais convive. Em resumo, imagina como esse "renascer" poderia contribuir para torná-lo uma pessoa "melhor".

O excerto apresentado a seguir também segue nessa perspectiva de reavaliação das próprias ações, tal como a possibilidade de transformação em seres humanos "melhores", em que o coração parece ser o órgão ligado ao "melhor" direcionamento das ações humanas.

"[Ele] simboliza a emoção e os desejos do ser humano, que considero ser imprescindíveis para um caráter realmente humano. Mas estas características devem se compatibilizar com seu cérebro - órgão que não pode ser transplantado ainda - para regular estas emoções e desejos.

Quando o homem, através de seus sentimentos, e de seus desejos pessoais, entender e dirigir suas ações para o bem de todos, banindo o egoísmo, haverá possibilidade de uma vida digna para toda a humanidade. Sem isto, não é possível a justiça social, e sempre teremos o ódio se sobrepondo ao amor. Devemos agir com coração e examinar as coisas com o cérebro". (L. G. M., aposentado, 67 anos)

Com base nos aspectos simbólicos que compõem essas justificativas, o coração parece ocupar um lugar privilegiado, juntamente com o cérebro, em relação àquilo que nos caracteriza como "humanos". A última frase da justificativa apresentada anteriormente faz uma separação entre as 'coisas do coração' e as 'coisas do cérebro', assim como no fragmento da justificativa a seguir, que sugere a crença em certa hierarquia em relação aos sentimentos. O coração é aqui, novamente, apresentado como o lugar da emoção.

"As ações que podemos sentir não estão na mente, mas no coração". (S. C. S., auxiliar de laboratório, 39 anos)

A ideia de "coração-bomba" aparece nas justificativas a seguir no que concerne ao ritmo e à aceleração imposta pelo mundo contemporâneo, onde a velocidade e simultaneidade dos acontecimentos exigiriam um esforço cada vez maior do corpo. O coração aparece, assim, como uma bomba que determina e governa o ritmo de nossa vida, mesmo num contexto em que o cérebro - como a grande máquina que a tudo conduz e organiza - vem ganhando cada vez maior centralidade (Ehrenberg, 2009; Ortega, Vidal, 2007).

"Daqui observo este mundo de pessoas que devoram uma xícara de café e aceleram a vida como se tudo acontecesse num só dia. Sempre que me vejo ali, no intervalo de cada minuto apressado, perante a imensidão do todo, acabo me questionando: que ritmo é esse que me conduz a essa velocidade imposta? Respiro fundo 3 vezes. A primeira coisa que sinto é meu coração batendo mais calmo... batida após batida, injetando a esperança de que tudo vai ser mais tranquilo daqui pra frente. O coração é o marcador do ritmo do sentimento. É a bomba injetora da máquina da vida... é a metáfora de nós mesmos. Por isso, quero mais um...". (J. L., artista visual, ilustrador e designer gráfico, 32 anos)

"Não é [o] coração que movimenta o pulsar ritmado de nossas aldeias? Seria ele um alvo perfeito que, por vezes, falta-lhe um peito para acomodar?". (M. Z. C. A., cientista social, 36 anos)

 

Coração x cérebro?

Num dos excertos apresentados anteriormente, o participante refere que "devemos agir com coração e examinar as coisas com o cérebro". Tal colocação serve de mote para retomarmos a discussão acerca da suposta existência de uma hierarquia entre os órgãos, com consequente divisão de competências entre eles. A separação (oposição) entre tais competências é tão conhecida no âmbito cotidiano que já aparece, inclusive, dicionarizada numa das acepções para coração: "a parte emocional do indivíduo (por oposição à natureza, ou à parte intelectual, à cabeça)" (Ferreira, 2004). O coração, cujos batimentos podem ser sentidos e, ainda, influenciados pela emoção, é, assim, frequentemente posto em contraposição ao cérebro - órgão que não se vê e não se sente -, relacionado à razão.

O coração assumiu centralidade não apenas nos materiais de divulgação e no próprio centro físico da exposição Doações do Corpo, como já se referiu, mas também no processo criativo da autora/artista, posto que foi um dos primeiros a ser elaborado como órgão/obra. O cérebro, ou mais exatamente a célula da glia, por outro lado, foi uma das últimas a serem produzidas, uma vez que parecia que, devido a sua complexidade, demandaria mais tempo e dedicação em termos de pesquisa. Além disso, havia uma questão de fundo teórico-conceitual: a doação do cérebro estaria envolta em questionamentos sobre a identidade do sujeito estar, ou não, ligada ao órgão. Não se tratava, portanto, de uma questão trivial, uma vez que tal problemática permeia precisamente as discussões sobre a possibilidade de se realizarem transplantes de cérebro. O fato é que, no âmbito da ação Doações do Corpo, mesmo ele não tendo sido apresentado para doação como órgão/obra, alguns participantes da ação (n=2) desconsideraram tal ausência e acabaram, em certa medida por oposição ao coração, solicitando a doação de um cérebro.

Antes dos avanços do neuroimageamento, o cérebro poderia ser considerado o mais silencioso, protegido e misterioso dos órgãos, pois pouco sabíamos sobre ele. O silêncio do órgão, de que fala Sant'Anna (2005), começou a ser quebrado pelas imagens produzidas por PET-scanners e aparelhos de ressonância magnética funcional (fMRI), possibilitando visualizar diferentes regiões do cérebro no exato momento em que ele desempenha suas funções. O uso de tais imagens tem ampliado não apenas o conhecimento científico (no que tange às relações entre cérebro e mente, por exemplo) como também tem produzido um conjunto de informações de diferentes ordens no âmbito dos meios de comunicação de massa e, em decorrência disso, um lugar privilegiado no conhecimento cotidiano (Ehrenberg, 2009). O excerto que se segue apresenta algumas dessas características.

"Adoro meu próprio cérebro, mas com dois cérebros eu poderia pensar mais ainda e chegar ao ponto de ter uma ideia que pudesse melhorar todos os outros órgãos de meu corpo, eliminando rugas naturalmente, tirando toda a fumaça do pulmão e a rinite do nariz, fazendo com que meu coração recuperasse a capacidade de namorar. Com dois cérebros, poderia deixar um se divertindo e o outro trabalhando e usufruir das delícias de ser workaholic sem deixar de viver. Com dois cérebros, um faria análise para o outro e conseguiríamos eliminar as culpas existenciais e os traumas de infância. Com dois cérebros, o sono seria mais profundo e os sonhos mais reais. Eu poderia ser mais tolerante, pensar melhor antes de falar ou agir e ser mais espiritualizada, pois imagine o quão zen eu ficaria duplicando minha capacidade de meditação. Com dois cérebros, minha capacidade de concentração seria duplicada se refletindo nos resultados de qualquer coisa a qual me dedicasse, podendo até ser artista plástica e produtora cultural com igual qualidade e não tendo de estar sempre escolhendo entre investir nesta ou naquela personalidade profissional. Assim, pelo bem da humanidade, peço que me seja concedido mais um cérebro, além do meu, e prometo retribuir com muitos projetos que tragam benefícios à sociedade harmonizados com o desenvolvimento sustentável do circuito das artes". (G. B., produtora cultural, 40 anos)

A participante refere a necessidade de ter mais um cérebro, o que nos remete aos discursos sobre a possibilidade de obsolescência do corpo (e da mente) e à consequente necessidade de seu aprimoramento constante - discursos que povoam os estudos sobre a problemática do corpo na atualidade (Sibilia, 2009). Ela solicita "mais um cérebro" não para substituir o seu próprio, mas para que seja possível "dar conta de todas as tarefas" relacionadas a sua profissão e, ainda, de outras coisas que gostaria de fazer (por prazer) e que lhe são impossíveis em razão do trabalho - um cérebro para trabalhar e outro para se divertir. Para a participante, o melhoramento neurológico proporcionado pelos dois cérebros auxiliaria no desenvolvimento de projetos em diferentes instâncias, atendendo às demandas cada vez mais exigentes, velozes e complexas da contemporaneidade.

Destacamos, igualmente, o trecho da justificativa que refere a possibilidade de melhoramento corporal orquestrada pelo cérebro:

"[...] ter uma ideia que pudesse melhorar todos os outros órgãos de meu corpo, eliminando rugas naturalmente, tirando toda a fumaça do pulmão e a rinite do nariz, fazendo com que meu coração recuperasse a capacidade de namorar [...]". (G. B., produtora cultural)

Esse fragmento evidencia a crença na superioridade do cérebro em relação aos outros órgãos - pois a participante refere que um cérebro a mais poderia representar "melhor performance corporal e maior controle sobre os demais órgãos", inclusive do coração, que aparece, novamente, como o "lugar" onde estão as capacidades emocionais e sentimentais. A participante fala de um coração que teria perdido a capacidade de namorar (quem sabe a figura simbólica de um coração partido), mas que, com a ajuda de mais um cérebro, poderia ser recuperada. Em outras palavras, numa das interpretações possíveis, poder-se-ia dizer que a maior capacidade de racionalização permitiria resolver os problemas ligados ao "coração-sentimento", à emoção, de que fala Vaysse (2005).

Ao ter multiplicada sua capacidade de meditação, a participante refere que poderia ser mais tolerante, mais zen e espiritualizada. Isso nos remete à outra compreensão do cérebro, qual seja, aquela que o refere como órgão ligado à espiritualidade e às diferentes capacidades mentais (o cérebro como o "lugar" da mente), comumente encontrada em diversos contextos culturais e atualmente objeto de intensas investigações científicas (Ehrenberg, 2009; Caponi, 2007; Ortega, Vidal, 2007, entre outros).

O excerto, e todo o texto da justificativa da participante G. B., reproduz algumas crenças em torno do cérebro e da mente, atribuídas, por Ortega (2008a), como resultado da associação mente-cérebro realizada pela divulgação científica nas diferentes mídias (jornal, revista, televisão, cinema, entre outras) e que produz um efeito significativo na cultura popular. Esse mesmo autor destaca que

quando uma cultura como a nossa equaliza o estatuto cerebral com o estatuto mental e com a própria personalidade, então as imagens tornam-se prejudiciais, ao difundir visões reducionistas e objetivadas da mente e do corpo humano, com consequências severas em diversas esferas socioculturais e clínicas. (Ortega, 2008a, p.143)

Ortega refere, sobretudo, o modo como alguns segmentos da mídia divulgam tais avanços tecnológicos, cujas promessas infinitas poderiam mapear até mesmo as emoções, a cognição, o pensamento e o raciocínio: "as neuroimagens funcionais parecem fornecer diagnósticos visuais e nos dizer por que somos como somos" (Ortega, Vidal, 2007, p.258). Ortega (2008a) ainda analisa como o cinema americano tem produzido identificações da mente com o cérebro, se apropriando dos conhecimentos da neurociência e, assim, convertendo-os em lugar-comum, sem qualquer tipo de questionamento. Entre as premissas não explicitadas nessas utilizações dos conhecimentos em neurociência, a que o autor faz referência, estão: a de que poderíamos saber exatamente a localização da memória no cérebro (e apagá-las, arbitrariamente, como ocorre nos filmes), "que a mente é, no fundo, o cérebro; e que o ser humano seria constituído essencialmente pelo cérebro, isto é, uma nova figura antropológica chamada de 'sujeito cerebral'" (p.146).

Segundo Ortega e Vidal (2007) e Ehrenberg (2009), o termo 'sujeito cerebral' resume a redução do ser humano ao cérebro, que seria o único órgão necessário para a formação da identidade pessoal. Desta forma, o órgão responderia a tudo aquilo que outrora fora atribuído à pessoa, ao indivíduo. É nesta direção que o cérebro, como o órgão responsável pelo self, pode ser problematizado a partir da justificativa apresentada a seguir, na qual o participante solicita o órgão/obra célula da glia.

"Qual é o lugar do 'eu'? Se em uma época o fígado era o lugar da verdade dos corpos, e em outra o coração foi o ponto de onde emanava o que de mais essencial poderia haver nas pessoas, vivemos um momento em que o cérebro tornou-se o lugar da consciência. E eu quero a minha consciência - retomá-la, recriá-la, adonar-se dela mais uma vez, hoje e sempre. Quero, por isso, nova(s) célula(s) glia(s), para que nutram meus neurônios, para que deem suporte às suas atividades, para que mantenham cada um em seu devido lugar e para separá-los comedidamente quando brigam. Ser pensante, preciso de mais - e de outras mais - glias para meu 'eu' funcionar da melhor maneira possível: para refletir sobre meus problemas e achar claras maneiras de solucioná-los, para racionalizar minhas dores de amor e finalmente acreditar que ele nunca mereceu alguém tão maravilhoso quanto 'eu', para ver e crer no óbvio. Nova(s) célula(s) glia(s) para um novo 'eu'. Melhor(es) célula(s) glia(s) resulta(m) num melhor 'eu'". (T. H., jornalista, 26 anos)

O participante ressalta que, no mundo contemporâneo, o cérebro passou a ser considerado o lugar da consciência. Na concepção do sujeito cerebral, em que o indivíduo é reduzido ao seu cérebro, Ortega (2008b, p.490) aponta para a existência de uma crença de que esse órgão "é a parte do corpo necessária para sermos nós mesmos, no qual se encontra a essência do ser humano, ou seja, a identidade pessoal entendida como identidade cerebral".

Essa figura antropológica "sujeito cerebral" (eu sou um cérebro que me habita) favorece a aparição daquilo que esse mesmo autor tem chamado de "neuroasceses" - em oposição/suplementação às asceses tradicionais (centradas no corpo apenas como meio para a elevação espiritual). Elas seriam, assim, práticas de si cerebrais que visam ao melhoramento, à optimização do corpo, à maximização de suas capacidades (Ortega, 2008b). A voga da "cerebralidade" é definida por Ortega e Vidal (2007) como "a propriedade ou qualidade de 'ser', ao invés de apenas 'ter', um cérebro" (p.257). Segundo Ortega (2008b), essa voga permite que aquilo que era entendido como patologia passe a ser visto como uma nova identidade ("neuroidentidade"). Neste contexto, o sujeito cerebral "implica formas de subjetivação, isto é, relações consigo mesmo e com os outros enquanto sujeitos cerebrais" (Ortega, 2008b, p.498). Essas diferentes formas de subjetivação incluem: a literatura de autoajuda cerebral, jogos, softwares, vitaminas e suplementos, entre outros produtos para o treinamento e aprimoramento do cérebro - a "neuróbica", como uma espécie de academia para o cérebro, propiciando a formação de um novo mercado a ser explorado. "O sujeito cerebral transpôs o vocabulário do fitness corporal para o cérebro" (Ortega, 2009).

A fala do participante T. H. também denota o discurso sobre aprimoramento cognitivo8, como uma forma de optimização corporal, em voga na contemporaneidade: "Nova(s) célula(s) glia(s) para um novo 'eu'. Melhor(es) célula(s) glia(s) resulta(m) num melhor 'eu'". Mas o que significaria um melhor 'eu'? Um 'eu' que consiga 'racionalizar' - para solucionar problemas ou as dores de amor, como o participante deseja? Isso também está presente na justificativa apresentada a seguir, na qual a participante refere a necessidade de mais células da glia.

"Preciso com urgência de um transplante de células da Glia. Faz algum tempo que imensos pensamentos vêm tomando conta de mim e as células da Glia que tenho em meu corpo já não dão conta de manter as condições adequadas para meus neurônios sobreviverem e também para possibilitar a neuroplasticidade. Sem eles (os neurônios) e elas (células da Glia) como farei novas conexões para alavancar o meu pensar? Se não houver condições para a neuroplasticidade como poderei arriscar novos gestos, ensaiar outros movimentos, produzir novas ideias? [...] Como se pode ver, esse transplante é vital para mim". (M. F., fisioterapeuta, 34 anos)

É nesta direção que Ortega (2009, p.14) ressalta que "as medidas neuroeducativas, aprimoramento cognitivo e outros tipos de práticas neuroascéticas se tornam moeda corrente, atingindo um caráter de quase obrigatoriedade numa sociedade que favorece selves ativos e empreendedores".

 

Articulações finais

Durante o desenvolvimento da ação artística que deu origem a este trabalho, procuramos fazer aproximações entre o campo das ciências, sobretudo no âmbito de uma crescente medicalização do corpo, e o das artes, no que se refere à problemática da doação de órgãos e tecidos e à inserção de uma proposta artística no circuito das artes. Isso envolveu questões relativas ao corpo na contemporaneidade como forma de provocar um tensionamento na política dos dois sistemas. Nesta direção, a ação Doações do Corpo foi constituída como uma forma de arte política, que buscou mobilizar o corpo numa ação, problematizando o sistema dos transplantes de órgãos e tecidos desde a perspectiva do receptor (uma posição vivenciada pelos participantes da ação, na medida em que precisavam se inscrever e passar por um processo de seleção para receber uma obra/órgão), na intersecção entre as ciências e as artes. A proposta incluiu a participação efetiva do público (do espectador), convidando-o a pensar sobre a temática e a se manifestar através da elaboração de uma produção escrita, justificando o desejo e/ou a necessidade de estar na fila de espera por um órgão que foi disponibilizado para doação, sob a forma de objeto artístico.

Um ponto importante encontrado nos textos dos participantes, que determinou o andamento da análise das justificativas que eles construíram para o recebimento dos ógãos/obras, foi a simbologia e a fantasmática envolvidas com a temática dos transplantes e a centralidade dos discursos sobre o coração - como sendo a sede das emoções - em contraposição com o cérebro - que representaria o órgão da racionalidade, do 'governo do eu'. Assim, embora o cérebro venha emergindo e concorrendo nos últimos anos como "o novo" definidor do que vem a ser o sujeito, nos parece que o coração - e suas "manifestações" interpretadas como emoções evidentes: "coração na boca"; "coração acelerado", entre outras - vem mantendo a sua centralidade.

 

Colaboradores

A concepção geral do artigo foi discutida pelos dois autores; Zenilda Cardozo Sartori redigiu o corpo principal do texto e Luís Henrique Sacchi dos Santos fez a sua revisão, apresentando sugestões e incorporando trechos à versão final.

 

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Recebido em 12/08/10.
Aprovado em 11/01/11.

 

 

* Elaborado com base em Sartori (2010), com financiamento Capes.
1 Fazemos uso, aqui, da provocante compreensão de tecnociência por parte de Donna Haraway (1997). Pensamos que é possível inserir a palavra "bio" entre tecnologia e ciência para, junto com Haraway, entendermos as mutações que estão se realizando no modo como a biologia tem narrado nosso presente e nossos futuros com base numa "história de verdades", muitas delas iniciadas no passado com continuidades no presente.
2 Blog <http://doacoesdocorpo.blogspot.com> com inscrições do público interessado durante o período de 27 de agosto até 15 de setembro de 2009.
3 Tal exposição foi realizada na sala Fahrion, da Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com visitação durante o período de 24 de novembro a 18 de dezembro de 2009.
4 Foram recebidas 42 inscrições, sendo que o coração foi o órgão/obra mais solicitado (oito inscrições), seguido do estômago (cinco); célula da glia (quatro); pulmão (quatro); olho (três); fígado (duas); hipófise (duas); rim (duas); útero (duas); osso (uma); pele (uma); ovário (uma); cóclea (uma). Os órgãos/obras traqueia, pâncreas e vesícula biliar não receberam inscrições. Seis participantes se candidataram para órgãos não disponibilizados para doação, entre eles, o cérebro.
5 A partir daqui apresentamos alguns excertos retirados dos textos dos participantes da ação (não apenas daqueles que foram contemplados com a doação das obras/órgãos), usando-os como "texto mesmo", isto é, como manifestações de um discurso que circula na cultura acerca da importância de determinados órgãos em detrimento de outros. Isso significa que não nos detivemos, no âmbito da análise aqui apresentada, em discutir as possíveis inter-relações entre gênero, idade, profissão, geração, entre outras. Apresentamos, contudo, a idade e a profissão dos/as participantes na direção de marcar aos/às leitores/as "os lugares" a partir dos quais os/as participantes falavam, mesmo quando posicionados num dado discurso sobre a doação de órgãos (que assumimos ser aquele da tecnobiociência e seus desdobramentos nos âmbito das diferentes mídias).
6 Neste caso, a percepção, através da dor, se dá na região em que o órgão se encontra, não significando, exatamente, a percepção do órgão.
7 Termo comumente utilizado por artistas ao se referirem aos seus trabalhos. Definição do dicionário Aurélio: fantasmagórico. Relativo a fantasma.
8 Aquilo que Nikolas Rose (2007) refere ser uma forma de optimização e Renato Janine Ribeiro (2003) considera uma forma de ampliar as capacidades humanas (especialmente em relação à saúde) sempre na direção de um "mais".

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