Alcoolismo: algumas reflexões acerca do imaginário de uma doença

 

Alcoholism: some thoughts on the social imagery of a disease

 

L'Alcoolisme: quelques réflexions au sujet de l'imaginaire lié à une maladie

 

 

Fernando Sérgio Dumas Dos Santos

Pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz, chefe do Departamento de Arquivo e Documentação/ Casa de Oswaldo Cruz e mestrando em História Social na Unicamp.

 

 


RESUMO

Neste artigo pretendo apresentar, de uma forma panorâmica, as reações apresentadas pela sociedade burguesa capitalista à classificação dada ao uso/abuso das bebidas alcoólicas como doença, ocorrida na metade do século passado. Utilizando principalmente fontes primárias, o artigo visa resgatar a história da "doentificação" de um costume popular, a partir da mudança dos padrões sociais, políticos e econômicos estabelecidos desde o fim do século XVIII. Ao centrar o enfoque no Brasil tenciono analisar, também, a influência que a medicina — e os médicos, em especial — teve na consolidação dessa nova ordem em nosso País. Evidenciando-se como uma incursão general izante ao tema, o artigo busca relacionar atitudes e aspectos relevantes em outras sociedades, com os movimentos estabelecidos no Brasil, no sentido de coibir o consumo de bebidas alcoólicas, com destaque para a aguardente — conhecida popularmente como "parati". Este ensaio está balizado cronologicamente entre a metade do século passado e a segunda década do século atual tendo, todavia, ampliado algumas observações para além desse período.


ABSTRACT

In this article, I present an overview of bourgeois capitalist society's reactions to the classification of the use/abuse of alcoholic beverages as a disease, a change that occurred in the mid-nineteenth century. Relying main-

ly on primary sources, I endeavor to recapture this history of the process by which a popular costume became labeled as a disease, based on changes in the social, political, and economic patterns that had prevailed since the late eighteenth century. In focusing on Brazil, I also intend to analyze how medicine — and doctors in particular — wielded an influence in the conso-lidation of this new attitude here. As a broad exploration of the topic, the article seeks to relate relevant attitudes and aspects from other societies to the movements that gained ground in Brazil and that worked to deter the consumption of alcoholic beverages, especially cheap hard liquor [aguardente] — known popularly as parati. The essay covers the period from the mid-nineteenth century to the second decade of the twentieth, but extends some observations beyond these dates.


RESUME

Cet article a pour but de présenter un panorama des réactions de la société bourgeoise capitaliste lorsque, vers la moitié du siècle dernier, l'u-sage et 1'abus de 1'álcool furent pour la première fois classés comme maladie. Basé essentiellement sur des sources primaires, il a pour but de révéler l'histoire de la pathologisation d'une coutume populaire, pathologisation survenue à partir de changements affectant les modèles sociaux, politiques et économiques établis dès la fin du XVIIIème siècle. En mettant en évidence le cas brésilien, 1'auteur se propose avant tout d'analyser Tinfluence exercée par la médecine —- et les médecins en général — sur la consolidation de ce nouvel ordre dans le pays. L'article constituant une incursion généralisante dans le thème en question, 1'auteur s'efforce d'établir un lien entre les attitudes ou les aspects importants sous lesquels ce même thème se présente dans d'autres sociétés et les actions menées au Brésil dans le but de réprimer la consommation de boissons alcooliques, parmi lesquelles l'eau de vie — plus connue sous le nom de "parati" — occupe une place de choix. Cet essai concerne la période située entre la moitié du siècle dernier et la seconde décennie de notre siècle. II fait toutefois quelques observations au delà de cette période.


 

 

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1 A Noite, 10/8/1931.
2 M. Foucault, Microfisica do Poder" (3a ed.), Rio de Janeiro, Ed. Graal, 1982, p. 80.         
3 M. Foucault, O Nascimento da Clínica (3a ed.), Rio de Janeiro, Forense-Universitária. 1987, p. 30.         
4 Idem, p. 18. Ver, a respeito, o cap. I.
5 A expressão foi utilizada por Belisário Penna, em entrevista ao jornal O Globo, por ocasião do carnaval de 1925. O original datilografado encontra-se no Arquivo Belisário Penna, COC/Fio-cruz.
6 E. de Moraes, "O Alcoolismo", in E. de Moraes. Ensaios de Patologia Social, Rio de Janeiro, Ed. Leite Ribeiro, 1921, p. 90.         
7 Sobre o assunto, ver S. Chalhoub, Trabalho, Lar e Botequim, São Paulo, Ed. Brasiliense, 1986.
8 B. Penna, O Demônio da Humanidade, Rio de Janeiro, Casa Publicadora Batista, 1921, p. 9.         
9 Idem, p. 1.
10 B. Penna, O Saneamento do Brasil, Rio de Janeiro, Typ. Revista dos Tribunais, 1918.         
11 A expressão é muito utilizada por Belisário Penna em O Saneamento do Brasil....
12 B. Penna, O Demônio da Humanidade..., p. 2.
13 Expressão cunhada pelo estudioso francês e citada por Belisário Penna em O Demônio da Humanidade..., p. 8.
14 M. Foucault, Vigiar e Punir, Petrópolis, Ed. Vozes, 1977, p. 163.         
15 B. Penna, O Demônio da Humanidade..., p. 9.
16 Ver J. M. de Carvalho, Os Bestializados. O Rio de Janeiro e a República que Não Foi, São Paulo, Cia. das Letras, 1987.         
17 A. Jacquet apud E. de Moraes, "O Alcoolismo...", pp. 97-8.
18 Idem, p. 103.
19 Ibidem.
20 Idem, p. 108.
21 B. Penna, O-Demônio da Humanidade..., p. 3.
22 Idem, p. 109.
23 A. Gramsci, Maquiavel, a Política e o Estado Moderno, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1984, p. 376.         
24 E. de Moraes, "O Alcoolismo...", p. 93.
25 K. Muricy, A Razão Cética, São Paulo, Cia. das Letras, 1988, p. 36.         
26 Louis Jacquet apud Cunha Cruz, O Problema do Alcoolismo no Brasil, Rio de Janeiro, Typ. do Jornal do Comércio, 1906, p. 7.
27 F. Esposei e E. Lopes, Uma Perícia Médico-Legal, Rio de Janeiro, Hospital Nacional de Alienados, 1914.
28 E. de Moraes, "Feminismo e Anti-Alcoolismo", Jornal do Brasil, 22/3/1923.
29 Cunha Cruz, O Problema do..., p. 14.
30 Ver o instigante artigo de E. J. Hobsbawm, "Homens e Mulheres: Imagens da Esquerda", in E. J. Hobsbawm, Mundos do Trabalho (2a ed.), Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988.
31 K. Muricy, A Razão Cética..., p. 111.
32 E. de Moraes, "O Alcoolismo...", p. 125.
33 E. de Moraes, "O Alcoolismo...", p. 92.
34 B. Penna, O Combate ao Alcoolismo, Arquivo Belisário Penna. COC/Fiocruz, s/d. datilo.
35 B. Penna, O Demônio da Humanidade..., p. 11.
36 Sobre os significados e os significantes. ver C. Castoriadis, A Instituição Imaginária da Sociedade, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982, esp. cap. III, "A Instituição e o Imaginário: Primeira Abordagem", no qual o autor desenvolve esses conceitos.
37 F. Cleto, O Alcoolismo e suas Conseqüências, Tese de Doutorado, Faculdade de Medicina da Bahia, 1907.
38 B. Penna. O Demônio da Humanidade..., p. 4.
39 A. L. de Souza, Causas e Tratamento de Alcoolismo, Tese de Doutorado, Faculdade de Medicina de Porto Alegre, 1904.
40 E. de Moraes, "O Alcoolismo ... ", op. cit., p. 92.
41 B. Penna, "Sífilis e Alcoolismo", A Noite. 10/9/1928.
42 Cunha Cruz, O Problema do..., pp. 15-6.
43 B. Penna, O Demônio da Humanidade..., p. 9.
44 E. de Moraes, "O Alcoolismo...",op. cit., p. 96.

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