Olhos e ouvidos públicos para atos (quase) privados: a formação de uma percepção pública da homossexualidade como doença*

 

The making of a public perception about homosexuality as a pathology

 

La construction d'une perception de l'homosexualité en tant que pathologie

 

 

João Bôsco Hora Góis1

 

 


RESUMO

Este artigo objetiva examinar a construção de uma percepção sobre a homossexualidade como entidade patológica e patogênica nos Estados Unidos. Busca, outrossim, identificar como tal percepção influenciou a associação entre AIDS e comunidade gay naquele país. Utilizou-se, para esta análise, um conjunto diferenciado de fontes, em especial aquelas produzidas dentro da própria subcultura gay novelas, cartazes, filmes, romances, peças de teatro as quais, em última análise, forneceram muito da matéria-prima a partir da qual a percepção acima aludida se construiu.

Palavras-chave: AIDS; homossexualidade; representações sociais.


ABSTRACT

This article examines the making of a perception of homosexuality as a pathological and pathogenic entity. Besides, it seeks to identify the way such perception modeled the association between Aids and the gay community in the US. This paper contains data provided by different sources, especially those that belong to the gay community: novels, posters, movies, plays. Such sources provided the material base which built the perception referred above.

Keywords: Aids; homosexuality; social representation.


RÉSUMÉ

Cet article a pour but d'examiner la construction d'une perception de l'homosexualité comme une entité pathologique et pathogénique aux Etats Unis. Il recherche d'autre part à identifier comment une perception de cette nature a influencé l'association entre Sida et la comunauté "gay" de ce pays. Pour cette analyse on a utilisé un ensemble différencié de documents, spécialement ceux produits par la propre sous-culture "gay": feuilletons televisés, affiches, filmes, romans, pièces de théâtre, qui ont fournis, en dernière analyse, la partie principale de la matière à partir de laquelle s'est construite cette perception.

Mots-clé: Sida; homosexualité; répresentation sociale.


 

 

Introdução

Até a metade dos anos 80, vários problemas em relação à AIDS se situaram no campo de sua conceitualização. Grande parte do trabalho intelectual e interventivo inicial em torno daquela epidemia concentrou-se na tentativa de conhecer seus meandros biológicos e suas implicações sociocomportamentais. Após 1985, contudo, em função do isolamento do HIV e da produção posterior de testes capazes de detectá-lo, grande parte desse problema estava resolvido. Sob a luz dessas inovações tecnológicas, foi possível o estabelecimento de um corpo mínimo de conhecimento sobre a doença, no qual novas formulações sobre sua etiologia, desenvolvimento e modos de se lidar com ela foram gestadas.

Sob os novos signos científicos advindos do isolamento do HIV, demarcaram-se formas de contágio, substituiu-se, embora aos poucos, a categoria "grupo de risco" por "comportamento de risco" e clarificaram-se as responsabilidades, públicas e privadas, na contenção da epidemia2. É sob o impacto desse quadro perceptivo que se desenvolvem por todo o mundo diversas organizações da sociedade civil que lidam com a AIDS, as quais terão seus espectros de possibilidades de intervenção por ele moldado. Contudo, a influência daquelas descobertas no ideário dessas organizações foi muito mais profunda do que o fornecimento de informações sobre o vírus e a doença. O que de mais importante tais descobertas produziram foi a ratificação de um modelo de produção de conhecimento e a confirmação de um caminho epistemológico-político a ser seguido, nomeadamente a adoção de um tipo de racionalismo cientificista cuja aplicabilidade no campo sociocomportamental é de menor efetividade do que no campo bioquímico. Sob esse veio racionalista deitou-se muito do trabalho que aquelas organizações reclamaram para a esfera de sua competência: aqui vagamente definido como trabalho educativo ou, em outros termos, como remodelar as percepções sociais sobre a doença a partir do quadro de possibilidades analíticas abertas pela descoberta do HIV e assim fazendo, como re-significar todo um conjunto de percepções sobre a epidemia.

A orientação racionalista permitiu a construção de fórmulas intelectuais sobre a doença enquanto entidade clínico-biológica e social, as quais apresentavam uma estrutura interna simples (ou simplista) e perfeitamente coerente. Simplicidade e coerência que, contudo, eram empobrecidas por não levarem em consideração que na (re)significação da AIDS não estavam em causa apenas aspectos intelectuais e que não foram desenvolvimentos tecnológicos que moldaram, em última análise, a construção e a resposta social a ela. Não se trabalhou o suficiente em torno do simples fato de que a epidemia era também reflexo de percepções humanas historicamente construídas. Neste contexto intelectual e político, um campo preferencial de avaliação na ressignificação da epidemia foi o da sua história. A voz não-governamental, organizacional e individual rapidamente construiu um discurso que se contrapunha aos relatos oficiais, populares e da imprensa sobre a natureza da epidemia notadamente sua origem homossexual3. Aquelas organizações negaram assim, por anos, qualquer validade das associações entre AIDS e grupos sócio-sexuais específicos e as classificaram, inclementemente, de "irracionais"4.

Neste artigo, a partir de algumas indicações históricas, tomando o contexto americano como exemplo, busco indicar como esse exercício inicial de ressignificação da epidemia foi extremamente inglório e porque há pouca razão, dentro do próprio paradigma em que essas instituições se situam, em atribuir qualquer grau de "irracionalidade" às conexões sociais entre AIDS e homossexualidade. Para tanto, busco demonstrar como uma maior publicização das imagens sobre a homossexualidade e o movimento de liberação gay dos anos 60 e 70, com sua ênfase nas liberdades sexuais, contribuíram para uma vinculação racional (ou pelo menos lógica) entre aqueles dois termos.

No encaminhamento dessa discussão, apóio-me na concepção de que a racionalidade humana é sempre uma racionalidade possível, e não uma racionalidade desejável e perfeita. Uma racionalidade possível, ao seu turno, é a expressão histórica e, portanto, não despojada, e menos ainda despojável, de antíteses que jazem em seu interior. Tais antíteses são as nossas crenças e os artefatos culturais da civilização que dão significado, para o bem e para o mal, com erros e acertos, às nossas experimentações e experiências sensoriais, afetivas, estéticas e econômicas. Em suma, a nossa vida.

No caso em estudo, a nossa racionalidade é cercada pelos medos, concepções e mitos sobre sexo e sexualidade, funções e papéis sexuais, postos de cabeça para baixo nos relatos sobre a vida gay dos anos 60, 70 e 80. Não há porque reforçar tais medos. Mas reduzi-los a "irracionalismos" é requerer demais do nosso estágio real de compreensão das coisas e deduzir de menos do papel dos artefatos culturais e do nosso processo civilizador na formatação das nossas percepções e atitudes. Nossa cultura e civilização nos dizem, cotidianamente, que o conteúdo das imagens, descrevendo a subcultura gay das décadas em questão, marcadas que são pelo signo do desvio, ausência de higiene e pecado, são geradoras de doença5.

A exposição de atos quase privados gerados na subcultura gay e as conseqüentes associações deles com a AIDS não foram um processo natural. Ao contrário, sua formatação dependeu da ampla participação de agentes coletivos da polícia, do sistema judiciário, do estabelecimento médico, das igrejas, das campanhas anti-gay das décadas de 1960, 1970 e 1980 etc., da ação da mídia os quais determinaram maior publicização das imagens sobre a homossexualidade nos Estados Unidos. Mas, acima de tudo, contribuiu para maior visibilidade da homossexualidade nos grandes centros urbanos, o crescimento de uma cultura gay que dificilmente poderia, a partir dali, deixar de ser detectada. As implicações em termos de visibilidade desse crescimento serão potencializadas nos anos 70, com a emergência do movimento gay radical e o desenvolvimento da imprensa gay. Dada a expansão do movimento de liberação gay e sua ênfase na liberação sexual, muito dessa difusão, sem vencer os preconceitos das décadas anteriores, terá como tema central as atividades sexuais. É dentro desse contexto que a AIDS enquanto fenômeno natural e social emerge. É nesse contexto que as percepções sociais sobre a epidemia se constróem. É nele também que se dá a persistente vinculação entre doença e aquela subcultura6.

 

O Surgimento da Subcultura Gay e a Divinização do Sexo

Embora o corpo de evidências sobre a existência de núcleos homossexuais nos Estados Unidos desde o século passado seja bastante significativo (Duberman et al., 1989 e Newton, 1993), é inegável que somente após 1969 eles encontram um desenvolvimento mais pleno em termos de expansão, caráter público e diversidade7. Tal fato pode ser visto mais claramente quando se compara a acessibilidade a práticas sociais e sexuais entre os anos pós-69 e as décadas anteriores. No seu estudo sobre o desenvolvimento de uma cultura gay em Nova Iorque, da virada do século XIX aos anos 40 do século XX, George Chauncey (1994) mostra a persistente recriação de táticas e estratégias, por parte de indivíduos homoeróticos, que possibilitassem o contato de uns com os outros. Tais estratégias incluíam desde a construção de signos de comunicação consubstanciados numa maneira específica de vestir, andar ou falar, à delimitação de áreas públicas de sociabilidade e à reapropriação de lugares originalmente concebidos para afastar o "fantasma da homossexualidade" da vida de trabalhadores americanos jovens. Na chegada dos anos 70, contudo, para amplos segmentos de indivíduos homoeróticos vivendo nos grandes centros urbanos, tais estratégias tornaram-se desnecessárias. Naquele momento, surgiram e se expandiram um amplo mercado e um clima de liberdade que mudaram radicalmente o desenho de acessibilidade às organizações da subcultura gay. Essa redefinição determinou o florescimento de um mercado de bens e serviços específicos, cuja expansão, ao seu turno, definiu muito dos contornos que aquela subcultura passaria a ter. Tal expansão, contudo, não foi nada revolucionária e, em certo sentido, traiu profundamente as expectativas de renovação e mudança que permitiram sua expansão. Ela deu seguimento a modelos de comercialização tipicamente capitalistas, senão adicionando a eles novos elementos, ao menos agudizando alguns daqueles já existentes, especialmente no plano da exploração dos valores simbólicos comercializados. A edição de 22 de setembro de 1975 do The Advocate estampou na sua capa a imagem do homem branco, de boa aparência, elegante, masculino a ser considerado "O Modelo dos Anos 70", perguntando diretamente aos seus leitores, "Você tem o material necessário?". Embora emblemático, esse é apenas um dos exemplos de uma série de esforços voltados à definição (e imposição) de um modelo e padrão de vida para homossexuais urbanos. De camadas médias altas, tal modelo e padrão marcavam os tipos de aparência fisica, faixa etária, posse e de consumo material e intelectual que simbolizarão status, bem-estar e pertencimento. É no processo de definição desse campo que residem algumas das particularidades do desenvolvimento desse mercado. Para o que nos interessa, a principal delas reside no grau de apelo explicitamente sexual contido em sua formação.

Uma rápida incursão nos periódicos não-pornográficos gays dos anos 70 fornece uma visão clara da força de tal apelo. Sob o signo, proteção e entusiasmo do sexo vendiam-se de roupas e cosméticos a material de construção e programas de férias. As razões, pelas quais o apelo sexual atingiu um grau de explicitação tão grande na subcultura gay, são múltiplas e complexas. Para nós, a mais importante pode ser a própria forma como a subcultura gay surge enquanto uma coletividade politicamente organizada, notadamente nas demandas e métodos dos anos iniciais do movimento homossexual americano pós-69. Tal movimento desempenhou papel essencial na definição de uma agenda de direitos sociais, civis e políticos para as minorias sexuais, ao mesmo tempo em que, insistentemente, sublinhou a idéia da homossexualidade e de outras práticas sexuais não-heterossexuais como resultantes de uma escolha pessoal. A partir disso, marcou a naturalidade e salutaridade de diversificação e quantidade da atividade sexual, já que era dada como certa a equação entre exercício sexual e desenvolvimento interior. Sexo e sexualidade gay serão definidos, em oposição a noção de patologia, como um "estilo de vida" não por acaso a mesma categoria reapropriada por médicos e cientistas na caracterização inicial da AIDS. Através dela, questionava-se a real necessidade da monogamia para as relações duradouras e para o amor, argüía-se quem eram os interessados sociais na definição pejorativa de promiscuidade, e perguntava-se se a definição de fidelidade não compreenderia mais um compromisso emocional do que físico. Sexo, nessa agenda, assume funções terapêuticas, liberacionistas, engrandecedoras, sociais e espirituais. O movimento gay tenta assim refuncionalizar as noções de liberdade sexual e promiscuidade, limpando-as dos seus conteúdos mais moralistas e agregando-lhes conotações mais positivas. Mas, mais do que isso, sexo também passa a ser visto como um ato político, benéfico a toda coletividade e que deveria, portanto, ser estimulado. Relembrando os impactos dessas idéias sobre os comportamentos individuais, o escritor Jim Kepner dirá:

Sexo era o oxigênio das nossas vidas. Stonewall havia conferido aos homossexuais um sentimento visceral de liberdade e nós definíamos aquilo literalmente, concedendo a nós mesmos o direito à múltipla parceria e à concretização de uma infinidade de fantasias sexuais. Se você não estivesse totalmente preparado para transar a qualquer hora em qualquer lugar, você estaria traindo Stonewall e tudo o que o movimento de liberação gay havia levantado. (apud Streitmatter, 1995, p. 194)8

John Loughery, revisitando esse mesmo fenômeno, lembra:

Ter sexo com alguém que você nunca veria novamente, com um homem cujo nome você não sabia, com a materialização das suas fantasias mais poderosas, com um grupo de estranhos, na privacidade da sua cela ou um quarto de hotel barato ou em frente a espectadores: este era o estilo de vida, amaldiçoado para a maioria da América, que os homossexuais escolheram para explorar, sem muitas reservas, na década depois de Stonewall. (1998, p. 362)9

Nos anos 70, os observadores culturais da comunidade gay não deixaram de notar a importância de um outro fenômeno sociocultural e suas implicações para a formatação da cultura sócio-sexual em questão. "Toda a boa aparência que se precisa pode ser agora comprada na academia ou no traficante [de esteróides]; a forma afeminada e infantil de falar desapareceu", disse com sarcasmo Edmund White, para complementar em seguida, como que querendo encontrar vantagens nas novas tendências:

(...) nós de fato parecemos mais relaxados e, se nós vamos nos vestir todas as noites em roupas de couro e parecer mais durões do que parece ser coerente com as nossas personalidades gentis e nossas vozes suaves, ao menos já não precisamos mais ser incansavelmente elegantes e inteligentes. (1980, p. 268)

O desenvolvimento dessa masculinidade exacerbada, a nova expansão do culto ao corpo e a valorização dos prazeres sexuais que a acompanha terão um papel essencial na concretização de uma ideologia da liberdade sexual e, em última instância, na apologia da promiscuidade. Coincidiu também com a constituição de um mercado de consumo gay, o que levou a proliferação de estruturas de lazer sexual e a conseqüente diversificação das atividades sexuais propriamente ditas. Analisando essa questão, John Loughery diz:

Evidências extraídas de relatos pessoais sugerem que o advento do fist-fucking data de 1969 e 1970. S&M e fetiches associados com couro pareciam encontrar um grupo de seguidores maior e mais interessados nos próximos anos. Os velhos píeres próximos à Westside Highway em Manhattan tornaram-se local favorito de busca de parceiros sexuais. Lojas de pornografia, mesmo em cidades pequenas e áreas distantes dos centros das cidades, abriram quartos escuros para contatos sexuais em espaços kinky. Na metade da década de 1970, esses lugares atraíam centenas de homens urbanos que levavam uma vida padrão classe média de dia, mas que conduziam caçadas sexuais entre meia-noite e o amanhecer em bares nos distritos, onde se localizavam as unidades de distribuição de carne e em galpões, nos quais o tipo de roupa exigida para admissão mantinha os afeminados de fora e onde, em quartos escurecidos atrás dos bares ou no porão, qualquer coisa podia acontecer, fosse nas paredes, no chão de concreto com um forte cheiro de urina ou em uma banheira providenciada pela direção da casa. (1998, p. 364)10

A emergência da explicitação pública dessas atividades sexuais é essencial à nossa discussão. Como advogam ainda hoje alguns cientistas e ativistas gays, a natureza de tais atividades criou uma ambiência ecológica favorável à disseminação do HIV. A repetição de práticas sexuais penetrativas com múltiplos parceiros sem utilização de condoms e as conseqüentes múltiplas infecções por diferentes doenças venéreas teriam produzido um enfraquecimento generalizado do sistema imunológico dos homossexuais masculinos. Em uma população que, além disso, era marcada por altas taxas de consumo de drogas, o HIV teria encontrado um nicho ecológico apropriado de expansão. Hipóteses dessa natureza têm sobrevivido ao longo das quase duas décadas da epidemia de AIDS. Esse debate, aparentemente situado no campo médico, revela alguns elementos de uma tensão sociocultural profundamente enraizada nas nossas sociedades. No coração das chamadas "hipóteses ecológicas", encontra-se a mesma ansiedade em relação aos resíduos corporais uma ansiedade que compõe elementos essenciais das civilizações ocidentais, nomeadamente os sentimentos de nojo e repulsa, como lembrara Freud. São esse sexo e o "estilo de vida gay" que, gradativamente saindo do limbo visual e passando ao conhecimento público, fornecem uma exemplificação modelar da presença da mistura desses fluidos corporais em nosso meio. Múltipla parceria, sexo anal com diferentes parceiros numa mesma noite, ingestão de fluidos seminais correspondem quase simetricamente ao manuseio de três elementos assustadores no nosso estágio atual de civilização: fezes, sangue e sêmen. Para uma sociedade angustiada com seus fantasmas sexuais, foi fácil deitar nessa mistura os seus medos e, a partir dela, construir as primeiras representações sobre a epidemia. Em um processo de equalização de termos, pelas razões expostas, doença e comunidade gay passaram a significar uma coisa só.

Há muito de injusto na forma como a cultura gay foi descrita para o mundo externo. Isso porque ela deu seguimento a experimentos sociais, cuja importância de longe ultrapassa a questão sexual. Mas injustiças são fatos da vida. E, assim, foi mesmo dessas experiências mais urbanas e fortemente carregadas de tons sexuais que tais imagens se constituíram mesmo e mereceram da mídia, da polícia e da comunidade científica maior atenção e conseqüente exposição de suas apreciações ao conjunto da sociedade. Tal exposição foi ainda mais efetiva porque inserida dentro de uma ampla tradição de "(a)normalização" das homossexualidades e de um conjunto de reações negativas aos direitos e a presença gay na vida americana no anos pré-AIDS. Mas, curiosamente, a própria cultura gay contribuiu para uma percepção pública dos seus affairs como uma experiência demoníaca, doentia, exterior ao mundo dos humanos, psicótica e patogênica. Isso se deu nos seus anúncios publicitários, na sua imprensa, literatura, relatos de viagem, filmografia, etc. A discussão que se segue retrata a figura do homossexual, suas práticas sexuais e seus locais de encontro, tais como apresentados nessas fontes.

 

Os Personagens e as Práticas do Sexo Gay

Andrew Holleran, em seu muito autobiográfico livro Dancer from the dance, de 1978, descreve as rotinas e atmosferas típicas do universo urbano gay daquela década. Um mundo de personagens ansiosos que confundem sexo e amor, e cujas carências afetivas e desejo de viver criam dramas humanos que se revelam na constante tensão entre o êxtase da alegria e o cortante desespero. Sobre os seus personagens, Holleran afirma:

Eles nunca parecem felizes. Eles passam uns pelos outros sem trocar uma palavra, como sombras silenciosas em direção ao inferno (…) Alguns deles retiraram tudo de suas próprias faces e reduziram-se a nada. (1983)11

Os personagens de Larry Kramer, na novela Faggots, não são mais felizes. Fred Lemish, um dos protagonistas, chega aos 40 anos numa busca desesperada pelo homem ideal, confundindo sexo e amor, sempre procurados no "lugar errado". Fred é mais um personagem perdido no mercado das altas ofertas eróticas de Nova Iorque, um mercado que confunde pela extensão e variedade, e que o leva a anos e anos em busca do amor ideal. Kramer, satiricamente, sugere que esse é o drama de centenas de típicos gays novaiorquinos. Um drama que se inicia aos 20 anos, para finalmente, como Fred Lemish, chegar aos quarenta, revendo confusas anotações do passado, nas quais constam nomes, apelidos, pequenos sinais de identificação das dezenas, às vezes centenas de parceiros sexuais que se teve. Em Faggots, esses personagens, por responsabilidade própria, não vêem prevalecer seus desejos. Fred termina desgraçadamente. Outros, numa hipótese melhor, retornam para a noite para mais uma rodada de tentativas.

A atmosfera em que esse festival de ambigüidades humanas se dá, do ponto de vista "ecológico", é menos poética. Holleran fala do ar nauseabundo provocado pelo odor de poppers12, o que levava muitos dos freqüentadores de bares e boates a desmaiar; fala também dos bêbados nos diversos sofás que fazem relembrar a degradação de uma era que se mostrava simultaneamente vibrante e decadente. "Eu tentei freqüentar os bares de Nova Iorque muitas vezes e, depois de cada incursão, voltava com a determinação de evitar esses bares no futuro", diz John Murphy nas memórias de sua permanência em Nova Iorque nos anos 60 e 70. "A atmosfera de um mercado de corpos, o desespero e insolência de alguns freqüentadores, a aparência sinistra das pessoas que dirigem esses lugares, a sensação de estar em uma gaiola, em um ambiente controlado". Continua ele, "tudo isso me fez extremamente cauteloso em relação a qualquer coisa que se parecesse com um bar gay" (Murphy, 1971, p. 71). Essa atmosfera é asfixiante, mas ao mesmo tempo arrebatadora e causadora de dependência. Daí porque as muitas figuras de tal cenário agarram-se tão fortemente a ela como tábua de salvação e fonte de preenchimento de seus vazios. Mas também tentam, desesperadamente, dela fugir.

No segundo capítulo de sua novela, Holleran descreve os esforços frustrados de dois "personagens" que tentam deixar aquele ambiente e a vida que circulava em torno deles. Nesses esforços, estava refletida a percepção da subcultura gay como um ambiente de perigos, como uma armadilha da qual era difícil escapar. Daí porque o prazer em habitar tal domínio é, mais cedo ou mais tarde, nessa e em outras descrições, coadjuvado por desilusão e abandono. Seus personagens, viciados, estão irremediavelmente dependentes das ilusões do mundo festivo. Esse estado de adição associa-se a um conjunto de múltiplas atividades e estilos de vida aos quais o indivíduo gay terá que, possa ou não, adaptar-se. Normas culturais e pressão de grupo, pode-se inferir, determinavam não somente a freqüência à vida noturna, mas também o vestir, o estilo de dançar e a quase inevitável atividade sexual práticas essas que no nightworld de uma cidade como Nova Iorque podia começar à meia-noite e acabar às 10 da manhã. Numa maratona cuja dança requer grande esforço físico e cujos horários demandam seguidas noites em estado de alerta, o recurso às drogas de álcool a alucinógenos constituía complemento quase obrigatório. Em meio a tal redemoinho de emoções, pequenas histórias, dramas pessoais de fascinação, ilusão e perda foram descritas na literatura gay. "Um dos meus melhores amigos caiu vítima desse estilo de vida", diz Edmund White. Depois de uma vida de equilíbrio, austeridade e conquistas realizadas até a chegada dos trinta anos, o amigo de White declina da obediência às normas de comedimento e entrega-se à ruína trazida pela vaidade, drogas e sexo, associados a sua participação no mundo gay.

Meu amigo, outrora tão sério e reservado, viciou-se em drogas. Ele nunca lia, ele nunca estava sozinho; a patota podia sempre ser encontrada no seu apartamento. (…) depois era hora de ir para a estação e atravessar silenciosamente o mal-iluminado e vazio distrito de Wall Street, fumando mais maconha e absorvendo os contínuos choques da música disco. O esforço de manter esse padrão de consumo teria derrotado o Barão Hulot. (…) Um amigo, que fumara muito da droga, Angel Dust, pôs fogo na casa do seu namorado. Um outro, preocupado com a sua decadência física e financeira, cometeu suicídio. (…) Finalmente meu amigo entrou em crise. Ele perdeu seu emprego depois de anos de trabalho na empresa. Logo após ele teve um ataque epiléptico resultante da síndrome de abstinência de barbitúricos e anfetaminas, depois de um final de semana cheio de atividade no balneário de Provincetown. Durante o ataque ele quebrou algumas costelas. (White, 1980, p. 274-275)

São desses perigos que os personagens de Holleran e Kramer e os amigos de White tentam escapar. Nas suas fugas fracassadas, vem a lembrança do mundo gay como um emaranhado diabólico que determinava as possibilidades de movimentação daqueles nele envolvidos. Determinava também a transformação da vida numa sanha quase exclusivamente sexual. Daí porque esta leitura da vida gay com freqüência menciona, analisa e discute as fontes conexas de fruição sexual vinculadas à noite, especialmente as saunas. Daí porque, também, aos desesperados personagens de Holleran, Kramer e White sobram poucas alternativas de continuar existindo, a não ser, na chegada da manhã, no fechar dos nightclubs, juntar-se, conforme descrição de um deles, ao "grupo de bichas amaldiçoadas a caminho das saunas Everard porque elas não podiam voltar do imaginário estado de prazer e felicidade" (White, 1980, p. 40). É para lá que esses personagens se dirigem, talvez atraídos por um dos tantos cartazes coloridos que convidam para a inauguração de mais uma bathhouse.

Em um desses cartazes, produzido em São Francisco, em 1972, uma gravura do que seria um dia típico em uma bathhouse não apresenta nenhum traço de tensão, dispensa estratégias de camuflagem e convoca para um clima de ampla liberdade13. O ambiente do cartaz é iluminado, o espaço presume-se amplo e a ocorrência da atividade sexual é claramente evidenciada. Mas esse é apenas um cartaz de propaganda comercial, o qual, portanto, explicita apenas os aspectos mais positivos do empreendimento. Outros relatos trazem imagens mais nebulosas, menos iluminadas. Larry Kramer refere-se ao mau-cheiro e sujeira daqueles estabelecimentos e o seu pertencimento ao circuito de comercialização sexual. Ele descreve os banhos Everard na Rua 19, em Manhattan, da seguinte forma:

O prédio, em nada diferente de quaisquer outros banhos ao redor do mundo, era amplo e feio (…) Ele tinha do que ninguém se gabava a primeira piscina aquecida de Nova Iorque, no momento um pouco fétida demais para uso diário, da mesma forma como era também fétido o resto do lugar. Murray, o gerente da noite, em resposta a vários questionamentos sobre o estado de higiene do local, afirmava, com dados, que a freqüência havia diminuído depois de uma limpeza gera. (Kramer, 1978, p. 19)

Esse mesmo tipo de cenário de práticas sexuais era também apresentado na filmografia pornográfica gay dos anos 70. Ali, a reafirmação de que parques públicos à noite, garagens sujas, cabines de caminhão e banheiros públicos eram espaços tradicionais de atividade sexual confirmavam que o sexo gay era sempre anônimo, impessoal e promíscuo. Na própria sombriedade dos cenários corroborava-se a noção da homossexualidade como modalidade obscura de existência e da sexualidade gay como uma perversão mergulhada em uma esfera infernal e estranha ao conjunto das sexualidades "normais"14. Parte disso devia-se à escassez de recursos, a qual impunha severas restrições tecnológicas à produção das películas. Mas era também resultado de uma estrutura ideológica que buscava confirmar a natureza um tanto quanto extranatural da homossexualidade e suas vinculações com vício, sujeira e pecado. Ao lado disso, os filmes reforçavam um senso de torpeza moral, no qual imagens de decadência e degenerescência seriam elementos complementares.

Quando o sexo ocorre em muitos dos filmes produzidos durante os anos 70, nós entramos no que pode ser chamado um mundo surrealista, hipnótico e, decididamente, mal-iluminado, impregnado de um senso de pecado altamente moralista, no qual os personagens existem em um eterno estado de excitação, boiando, sem corpos, através de paisagens indeterminadas que não possuem materialidade. Em um dos mais escuros da década de 70, Destroying Angel, um padre com dúvidas religiosas é perseguido por toda Manhattan por um seu gêmeo demoníaco, que aparece ao lado da sua cama quando ele está fazendo amor, que salta de dentro de espelhos e interrompe com um sinistro prazer as abominações pecaminosas do seu irmão, ao mesmo tempo em que vários violoncelos e gritantes violinos atingem crescentes ensurdecedores. (Harris, 1997, p. 116)

Além disso, há que se considerar que, nesse caso específico, o cinema imitava a vida real. Relatos etnográficos mostram que de fato o exercício sexual em áreas públicas, ou socialmente inadequadas, constituía na década de 1970 um traço marcante dos centros urbanos com uma comunidade gay relativamente bem-desenvolvida. Em Cherry Grove, balneário na costa de Nova Iorque, por exemplo, os anos 70 foram de muita atividade sexual pública. O relaxamento da violência policial e a mais completa ocupação da área por um núcleo dirigente gay jogaram um papel incentivador de tais práticas. Diz Esther Newton:

Para muitos homens de Cherry Grove, a melhor conseqüência do aumento populacional, do maior número de visitantes diários, do intenso desenvolvimento e do aumento do poder dos proprietários homossexuais foi a expansão das áreas ao ar livre para conquistas sexuais (…) Ao escurecer, as matas no East End, entre Cherry Grove e Pines, ficavam cheias com outros homens no 'night Rack'. No final da década (…) encontros sexuais passaram a ocorrer durante a noite, para o terror de outros freqüentadores do balneário, nas calçadas das casas da comunidade. (Newton, 1993, p. 181)

Assim como na produção cinematográfica, tal prática reforçava uma leitura social sobre a homossexualidade, na qual o componente da diferencialidade, estranheza e, não em menor medida, bizarrice eram centrais. Sumariamente, reforçavam dada a natureza outdoor da atividade sexual a percepção da homossexualidade como experiência exterior ao mundo dos humanos15.

Se a descrição dos locais gays de prática sexual inspirava questões do ponto de vista epidemiológico, a narrativa da atividade sexual que ali se desenvolvia não sugeria menores preocupações. Na novela de Kramer (1978, p. 17) um dos seus personagens conta as surpresas que encontrou em uma das suas visitas a uma bathhouse:

Existe um Deus que possa entender coisas do tipo:
'Bem, eu quero que você mije por todo o meu corpo!'
Fred Lemish nunca havia urinado em nada antes, exceto, talvez, sobre a grama, tarde da noite, quando estava bêbado e ninguém estava olhando.
'Ou deixe que eu mijo em você!'
Isto Fred nunca havia permitido.
Fred ficou em pé sem saber o que fazer. Por que ele estava inerte em um momento que requeria ação? O cara que o convidava era boa pinta. Fred deveria entrar ou seguir adiante?
'Ou coma meu amigo e eu chupo o que sair do cu dele. (…)
'Ou eu poderia te amarrar. Ou você poderia nos amarrar. Ou qualquer um de nós. Ou qualquer outra coisa que o seu pau deseje!'
O homem certamente ofereceu um amplo leque de opções. Deveria Fred? Não deveria Fred?
'Você gosta de transar com merda?'

Outras descrições sugerem a gradativa presença de atividades sexuais pouco convencionais nas bathhouses dos anos 70. A ascensão do sadomasoquismo na St. Mark Baths foi uma delas. Dando seqüência a uma nova onda de masculinização da homossexualidade, o ambiente fora investido de motivos menos glamourosos e de práticas sexuais mais carregadas de violência. Tal violência, posto que predominantemente verbal, dita quase sussurradamente, necessariamente não implicava sofrimento físico. Mas exibia o evidente gozo na associação entre dor e prazer.

Desde que o S&M tornou-se muito popular na St. Marks, seus três andares superiores, com seus quartos e corredores, têm o som de um navio negreiro obscenidades murmuradas, uma palmada, uma pancada com um cinturão, respiração ofegante, um gemido, um grito. Comparada com essa audível (e geralmente simulada) dor, o barulho em todas as outras saunas assemelha-se àquele de um barco de passageiros ao raiar do dia. As sugestões sobre sexo pesado também são visuais. Os cabides, nos quartos, foram colocados de forma a serem visíveis para quem está de fora; aquele que passa pode ver o uniforme do ocupante pendurado couro, cowboy, humanóide e dele extrair as suas fantasias. A iluminação em todos os quartos pode ser controlada; se a lâmpada estiver enrolada na toalha, o torso e as pernas estão perdidos nas sombras e uma outra forma de iluminação é lançada sobre as nádegas viradas para cima ou sobre o pênis meio ereto. Sem roupas o corpo torna-se um fraco sinal, embora outros objetos em torno do pênis, mamilos e tatuagens enviem mensagens. Freqüentadores, contudo, estão cada vez mais retornando a roupas nas suas formas mais simples de serem interpretadas (…). (White, 1980, p. 277-278)

Talvez compatibilizando-se com descrições como essa, outro cartaz de propaganda de uma bathhouse reafirmará o estatuto extra-humano do ambiente e, por extensão, do sexo, sexualidade e individualidade gays. Nesse cartaz, homens seminus, distribuindo comida e bebida, são ornamentados com chifres, num tipo de gravura que tipificava a representação da subcultura gay como um todo16. Infernal e habitada por seres diabólicos uma representação corroborada pela própria temperatura produzida por sauna a vapor e ausência de adequada ventilação as bathhouses eram reafirmadas como locus privilegiado da promiscuidade. Contudo, elas não estavam sozinhas. Ao lado delas, se colocavam os sex clubs, espaços onde a diversidade de parceiros sexuais era tanto celebrada quanto diversificada nas suas expressões.

No que diz respeito à diversificação, lugar de destaque ficava reservado para um conjunto de atividades sexuais denominadas kink (uma expressão que abriga práticas tão diversificadas quanto complementares, como fisting, humilhação, cropofilia, escatologia ou water sports)17, entre os quais o sadomasoquismo era a mais visível.

O S&M correspondia e corporificava no plano sexual as expectativas de mais agressividade, visibilidade e teatralidade que marcam o movimento de liberação gay de então, o qual buscava transformar condições psicossociais fundadas em fragilidade, submissão e passividade em demonstrações explícitas de força, controle e ação. Entretanto, a demanda por mais "masculinidade" e um comportamento mais ativo não pode ser vista como algo que avança de um clima social externo ao qual os indivíduos respondem prontamente. O florescimento da subcultura leather/S&M em grande medida dependeu dos altos níveis de insegurança individual em relação à homossexualidade por parte dos membros da subcultura gay. Daí porque, indo muito além da apropriação de uma forma mais masculina de vestir, tal subcultura investiu também na apropriação de um modelo de comportamento cujo componente central, a agressividade, serviria para fazer frente não só a requerimentos sociais de masculinidade, mas também a demandas intrapsíquicas que dessem suporte à face exterior. É esse elemento essencial, a agressividade, que em tese responderá pela surgimento de uma subcultura S&M gay. É essa subcultura leather/S&M e seus complementos kink que irão apresentar-se para o público interno e externo à comunidade homossexual como o elemento socialmente mais desviante, cujo papel no processo de acusação dos gays pelo surgimento da AIDS for altamente relevante. (Não foi por acaso que mesmo as ONGs/AIDS americanas, fortemente dominadas por homossexuais, tenham sido rápidas, nos primeiros anos da epidemia, em isolar essas frações sociais de seus núcleos diretivos).

O desenvolvimento posterior do kink se deu em meio ao mesmo tipo de rejeição que marca a sua relação com a cultura gay mais ampla hoje e com a sociedade em geral. Mesmo dentro do clima de liberalidade dos anos 70, aquele underground esteve sempre sob severos ataques, à direita e à esquerda, seja de feministas argumentando que o S&M reproduzia processos patriarcalistas de escravização sexual da mulher, seja de grupos pacifistas que se contrapunham ao uso de violência implicada naquelas práticas, seja das tendências mais assimilacionistas do movimento gay18.

Em meio a isso, a comunidade leather/S&M permaneceu em constante rearticulação de discursos de defesa e apologia. O discurso apologético tentou confrontar as acusações psicológicas e morais contra o S&M, buscando apresentá-lo como um paradigma de estabilidade e saúde mental. Nessa (re)definição, S&M é associado com amor, autoconhecimento, controle e equilíbrio entre as partes em ação. Alan Young, por exemplo, em artigo publicado em 1979, enfatiza que no sadomasoquismo há uma pouco usual relação de confiança entre o casal, contestação de poder, espaço de negociação e romantismo. Ao mesmo tempo, dadas essas características, o S&M é visto mais como um estilo de vida do que como um simples ato sexual. Os perigos ali contidos são minimizados na agenda apologista, seja por sua equalização com os riscos inerentes às práticas penetrativas em geral, seja por sua superioridade em relação aos perigos da opressão sexual, em relação à qual o S&M constituiria uma antinomia.

Os limites práticos da apresentação do S&M como elemento salutar situam-se nas contradições entre as alegorias ideológicas contidas no discurso apologista e as práticas reais que o constituem. Se de um lado, seus defensores buscaram realçar a importância de um suposto estado de total liberação ali presente; de outro, a estrutura interna do fetiche dava lugar a uma percepção diferente. Vejamos Pat Califia, uma autodenominada lésbica-libertária, descrevendo suas incursões no mundo S&M de San Francisco, no final da década de 1970:

Um bar voltado às pessoas que gostam de usar roupas de couro oferece um ambiente seguro para o estabelecimento de papéis. A minha parceira não pede um drinque para ela. Quando quer um, ela me pede e eu o derramo em sua boca enquanto ela se ajoelha a meus pés. Começo então a manipulá-la, avaliar sua carne, corrigir a sua postura. Eu a acaricio ou a exponho de modo que ela se sinta embaraçada e venha para mais perto de mim. Gosto de ouvi-la pedir misericórdia ou proteção. Se já não estiver usando uma coleira, coloco uma nela e a trago para junto do espelho atrás do bar, no banheiro, na parede e a faço olhá-lo. Assisto cuidadosamente a sua reação. Não gosto de mulheres que colapsam, tornam-se passivas, e cujos corpos amolecem e ficam sem graça. Eu quero ver a confusão, a raiva, a excitação, o desespero (Califia, 1994, p. 160)

Não há argumentação, por mais sofisticada que seja, capaz de minimizar, nos olhos de uma audiência culturalmente moldada (ou não) para a recriminação das práticas homossexuais, o efeito impactante de um master conduzindo um slave salão afora numa coleira, algemas e cinto de castidade, numa expressão cristalina de uma relação fundada no controle e na submissão19. Em um contexto de discussão sobre liberdade, opção e troca, as descrições dos próprios apologistas falaram contra seus argumentos.

Além das questões acima mencionadas, é importante ressaltar que as práticas S&M sempre estiveram numa relação fronteiriça com atividades sexuais de corte escatológico algo bastante problemático em uma sociedade como a americana, onde a noção de limpeza se firma como modeladora de esferas muito além do campo da higiene e se estabelece como demarcadora de referências mais amplas de pertencimento e atualização com valores sociais vigentes.

O desenvolvimento do S&M não deixou de incorporar amplas facetas escatológicas, as quais, em muitos casos, eram mais do que elementos complementares. Com freqüência, elas se situavam no centro gerador de excitação e prazer da prática mais ampla que a abrigava, como bem denota a existência de um bar S&M, não casualmente denominado The Toilet (cf. Kleinberg, 1979). Essa é outra dimensão que desempenhou papel essencial na constituição de uma crítica externa à homossexualidade e a sua associação com a AIDS, pois enquanto o S&M evocava idéias de desequilíbrio mental, as práticas escatológicas adicionavam àquela percepção noções mais materializadas de ambientes e corpos, cujas características seriam propícias à expansão de doenças físicas. Vistos de uma perspectiva mais ampla, tais práticas, para além das questões sanitárias, remetiam ainda a um mundo onde caoticidade e total ruptura de parâmetros morais constituem a norma. Descrevendo uma "visita" ao Mine Shaft um sex club em Nova Iorque no início dos anos 80 Haden-Guest (1997, p. 311-312) relata:

(...) Vários dos homens que estavam lá e eram apenas homens vestiam fantasias hipermasculinas que no passado distinguiram os membros do Village People, uniformes policiais, chapéus de cowboy; enquanto isso, outros estavam nus, e outros ainda estavam nos vários estágios intermediários (…). Em um dos cantos, nós ouvíamos várias histórias. Nós fomos verificar puro voyeurismo era um comportamento aceito no Mine Shaft e vimos que um homem acorrentado à parede estava sendo chicoteado. De repente, o chicoteador retirou-se, petulantemente, como se tivesse coisas melhores a fazer, deixando o martirizado abandonado. Uma imagem chocante que apareceu logo em seguida era, no chão, a de um amontoado de nádegas, costas e membros chacoalhando (…). Mais além estava um excelente fac-símile de uma grande cela, com barras reais, cheia de 'prisioneiros' nus, em pé e olhando na mesma direção. Nós fomos em frente e encontramos um homem nu acorrentado à parede de uma alcova, braços levemente erguidos, na postura da crucificação ou de um membro de um conjunto heavy metal, exceto pelo fato de que ele estava de costas para nós e estava sendo penetrado analmente por outro homem e uma fila, onde uns doze homens estavam esperando sua vez. Não, eles não estavam praticando safe sex (…). No andar de baixo, três homens com barba estavam deitados em diferentes banheiras. Eles pareciam tão vulneráveis como ratos recém-nascidos e nos dirigiam olhares que imploravam. Eles estavam esperando que alguém urinasse ou defecasse neles.

Outras práticas sexuais não-normativas foram descritas na literatura gay americana. Uma delas o fist-fucking continha em escala acentuada as tensões agressivas do S&M. As imagens dele decorrentes não eram menos assustadoras do que as mais corriqueiras cenas de violência, mesmo para indivíduos cuja vida sexual apresentava-se como liberal20. Seymour Kleinberg, narrando as rotinas de "Pete" e "John", dois entrevistados no seu trabalho, diz:

Quando eles se preparam para uma noitada, para uma orgia (…) eles começam horas antes. Algumas vezes, começa-se na noite anterior com a última refeição sólida. Eles não tomam café da manhã ou jantam no dia da orgia. 'Algumas pessoas não comem por dois dias, o final de semana inteiro'. Drogas suprimem o apetite e a dieta mantém o peso baixo. Pete, que tem úlcera e colite, tem que comer alguma coisa 'leve'. (…) Cada um prefere um tipo específico de coquetel [de drogas]. John gosta de um tablete de mescalina e cinco miligramas de Valium para começar a noite: isto o mantém excitado por horas. Durante a orgia, eles tomam M.D.A., anfetaminas, poppers, maconha e, se ele está particularmente desatento, um pouco de Angel Dust. Ambos tomam Mydol, vendido sem receita nas farmácias, para alívio de dor menstrual, o que, eles dizem, evita problemas intestinais. (Kleinberg, 1979, p. 239-240).

É improvável que as práticas sexuais aqui descritas tenham sido vistas em primeira mão pelo conjunto mais amplo da sociedade americana. Contudo, elas não foram (e não têm sido), como sugere o título deste artigo, performadas secretamente e longe da capacidade de escrutínio público. Como disse anteriormente, a própria expansão da comunidade gay nos grandes centros urbanos ocupou-se em evidenciar sua existência e sua dinâmica sciosexual. Por conta disso, o que teria sido considerado escandaloso nos anos 50 passou a assumir, há duas décadas, tons jocosos, divertidos e mesmo instrutivos21.

A partir dos anos 70, através de inúmeros embates, foram quebradas muitas das resistências à exposição da homossexualidade na mídia, o que fez com que a subcultura gay passasse a ser apresentada ao lado de temas mais respeitáveis em grandes programas de entrevista. Essa maior liberalização, entretanto, não se deu através da ruptura com uma série de tabus sobre sexo e sexualidade prevalecentes na sociedade americana. Ao mesmo tempo, ela também não se despiu do seu caráter seletivo no que toca à exposição das imagens as mais chocantes e socialmente condenáveis. Daí porque, de um lado, a expansão das imagens de fato propiciou um maior debate público sobre a questão; mas ao mesmo tempo fez com que esse mesmo debate fosse organizado dentro de linhas interpretativas que reproduziam a noção de exterioridade e otherness da homossexualidade em relação à sociedade americana média (cf. Alwood, 1996).

A ação da imprensa coadjuvou e foi ao mesmo tempo coadjuvada pelo avanço das campanhas anti-gays que se desenvolveram a partir da segunda metade dos anos 70. Nelas não se tratava mais, como se dera nos anos 20 e 30, da oposição de pequenos grupos de "cidadãos preocupados com a moralidade" em impedir o avanço de cobertura sócio-legal para pervertidos de todos os gêneros. Mas, sim, do trabalho de grupos organizados, de expressão nacional, com substantivo suporte financeiro e grande acesso aos círculos do poder e à mídia. Tais grupos, em grande medida, modelaram a percepção social das homossexualidades nos anos 70 e, na década de 1980 já no início da epidemia da AIDS, reforçando preconceitos históricos, à custa da demonização gay colheram vastos dividendos políticos (e também financeiros) da pregação da década anterior. Mas, de novo, há que se fugir do pressuposto de que esquemas intelectuais bem articulados em cadeias de transmissão nacional tenham sido os únicos responsáveis pelas reações anti-gays em tempos de AIDS. O trabalho daquelas organizações e os resultados obtidos, em vez disso, evidenciam que a onda homofóbica que se expande nos EUA, especialmente no segundo quarto dos anos 80, revela tensões de fundo, ambigüidades e contradições político-ideológicas entre o ideário liberal (notadamente na sua tendência de expansão de direitos civis, políticos e sociais) e a tradição anglo-protestante (de repressão sexual) em relação à homossexualidade.

Neste quadro, a AIDS apenas acentuou a vitória daquele segundo elemento, sem que tenha sido sequer a sua maior expressão. Ao mesmo tempo, se tal tensão explodiu nos anos 80 e coincidiu com o apoio popular na eleição do reaganismo, expressões dela já eram nitidamente claras na década precedente. Como pode ser facilmente visto, na história das lutas legislativas por direitos homossexuais durante a década de 1970, há uma franca oposição popular em relação tanto à elevação desse grupo à condição de minoria (nos moldes dos negros e mulheres) quanto à sua própria afirmação como cidadãos de primeira categoria. Muito desse processo se deu nas câmaras legislativas, pelo voto de representantes, contra ou a favor, de uma ou outra coisa. Mas peculiaridades do processo legislativo americano os referenduns distritais permitem perceber que a negação de direitos aos homossexuais esteve incrustada na grande base eleitoral que, em muitas ocasiões, não somente não acompanhou a decisão legislativa, como também a reverteu22. Mas, mais do que no domínio político, a pouca tolerância com práticas desviantes no corpo da sociedade americana no início dos anos 80 assentava-se, como sugeri antes, no esgotamento de um padrão de consumo e divertimento. A sociedade americana buscou retornar aos seus valores fundantes, dentro dos quais bathhouses, sex clubs e multiplicidade de parceiros sexuais não cabiam23. Vale sempre reafirmar que, do ponto de vista político, estava ali contida uma tendência regressiva e sua incapacidade de lidar com a diferença. Mas era, inovidavelmente, o direito de uma sociedade em estabelecer parâmetros que a regulem. E nisso não há nada irracional.

 

Notas

* Este artigo é versão modificada e reduzida do terceiro capítulo da tese de doutorado defendida pelo autor em 1999 (Góis, 1999).

1 Doutor em Serviço Social. Professor adjunto da Universidade Federal Fluminense.

2 A noção de grupo de risco, extraída da epidemiologia, foi utilizada para designar os grupos que se supunham, no início dos anos 80 ser mais suscetíveis à infecção. Já a noção de "comportamento de risco" referia-se a práticas sociosexuais que, uma vez levadas a cabo por qualquer indivíduo, poderiam levar à infecção pelo HIV.

3 Essa reação era mais ou menos esperada e correspondeu, no plano político, a um dos passos essenciais na defesa dos grupos mais castigados pelo novo mal do século a comunidade gay. Do ponto de vista teórico, contudo, seu brilho foi menos visível e, não fosse por um processo de simbiose entre as ações governamentais e não-governamentais, teria rapidamente cedido a uma crítica mais severa. Não há por que se lamentar a vitória dessa postura na formatação de uma história, hoje, quase oficial da epidemia. No ambiente político-intelectual de meados dos anos 80, onde mecanismos de acusação social desencadeados pela AIDS materializaram-se em macabras ondas de violência e de pânico sexual com poucos precedentes recentes, a marginalização das falas acusatórias foi democraticamente essencial.

4 Foi a partir desse substrato intelectual e político que se partiu para a concepção e o desenvolvimento de atividades educacionais que pudessem reverter o pânico e o preconceito, e que pudessem eliminar ou reduzir as práticas que levassem à contaminação pelo HIV. A discussão sobre as implicações teóricas desse comportamento, assim como sua repercussão nos rumos e história social da epidemia, são por mim discutidas em Góis (1999), especialmente no capítulo IV.

5 O impacto dessa moldura perceptiva afetou também a produção do conhecimento científico, sempre imerso no quadro de valores morais onde se constrói. Daí porque também argumento que a indicação dos homossexuais como núcleo fundante da epidemia nos países ocidentais, como feita pelo estabelecimento médico americano no início dos anos 80, não pode ser simplesmente vista como produto do preconceito irracionalista. Até porque não há razão científica que possa permanecer imune às evidências clínicas extraídas dos núcleos gays urbanos em termos tanto de sua história de saúde coletiva em geral quanto especificamente em relação à incidência de doenças sexualmente transmissíveis dentro deles. Os números iniciais da AIDS nos países ocidentais também não foram mais desencorajadores daquela percepção.

6 O nightworld dos anos 70 é uma referência essencial para a análise da construção do entendimento social da epidemia de AIDS. Esse mundo imediatamente antecedeu à nova doença e, ao menos parcialmente, sucumbiu perante ela. Esse mesmo mundo forneceu matéria-prima essencial às reações mais retrógradas à epidemia. E também foi a cultura que organizava esse mundo que, em meio a uma luta inglória, apresentou-se como objeto a ser conservado ou desprezado. Tal mundo oferecia um enorme volume de prazer consubstanciado no uso de drogas, sexo e bebida em meio a um clima de festa de aparência interminável. Mas acima de tudo, ele possibilitava, ainda que dentro de uma certa estrutura, o consumo de experiências de subversão, desordenamento e desnormatização. Como outros fenômenos culturais, o mundo noturno assistiu ao seu período de apogeu e também de decadência. Hoje, aqueles anos dourados são idos. E a AIDS em alguma medida jogou um papel nesse processo. Não apenas no sentido de que práticas sexuais que ali ocorriam poderiam conduzir à infecção pelo HIV. Mas principalmente porque a AIDS forçou e serviu-se da conformação, senão de uma nova moral, ao menos da negação de um passado próximo, às vezes separados por meses, semanas ou dias, por parte daqueles que navegam nos perigos da noite dos anos 70 e início dos 80. Mudavam, em ampla escala, as atitudes em relação à vida noturna. Ser "da noite" perdeu o seu glamour e assumiu uma conotação negativa. O mundo noturno dava passagem a novos medos urbanos e a uma nova etiqueta comportamental imposta por uma epidemia então pouco conhecida. Eram novos tempos, tempos de AIDS, tempos de Reagan, tempos de uma nova moralidade. Esse mundo de aparente caoticidade foi provedor generoso de material para as primeiras racionalizações coletivas sobre as relações entre AIDS e imoralidade. Foi uma das suas subculturas, entretanto, a subcultura noturna gay, a responsável (e conseqüentemente responsabilizada), pelo que seriam os exemplos mais modelares de tendências comportamentais desse período.

7 1969 é o marco temporal mais aceito como início da cultura e política gay contemporâneas. Foi naquele ano, em 27 de junho, no Greenwich Village, em Nova Iorque, que, reagindo à sistemática violência policial contra os freqüentadores do bar Stonewall, travestis, drag queens, prostitutos, hippies, mendigos e imigrantes porto-riquenhos desencadearam noites de protesto e guerrilha, que depois se espalharam por outras cidades do país. No rastro desses protestos, foram fundadas dezenas de organizações de caráter abertamente radical que marcaram o movimento gay até meados dos anos 70.

8 As traduções de todas as citações são de minha autoria.

9 A história de demonização, violência e segregação, e muito particularmente de desarticulação e desarmamento emocional dos homossexuais, em alguma medida, foi respondida no pós-Stonewall com um tipo de reafirmação, diretamente proporcional em intensidade, à opressão do estatuto de sanidade, beneficialidade e valor de práticas, quaisquer que fossem, precedidas do prefixo "anti". Desta forma, o movimento gay não foi somente um movimento político. Foi também um amplo processo de terapia coletiva que buscava a reconstituição de egos destroçados. Não casualmente muitas das lideranças do movimento foram recrutadas no campo da saúde mental. Também não foi acidental que um amplo campo de psicoterapias de todas as vertentes montaram um vasto mercado de trabalho girando em torno da idéia de um serviço gay friendly. Essa mixagem de política e terapia engendrou um discurso político que combinou uma intensa agressividade em relação ao campo adversário, e uma contínua reafirmação do valor intrínseco e revolucionário da homossexualidade, cuja repetição tão recorrente revela o muito da insegurança no manuseio intelectual e emocional de uma entidade cultural cercada de reprovações sociais por todos os lados.

10 "Fist-fucking" denomina um conjunto de práticas sexuais, cujo ápice consiste na introdução de um ou mais punhos no orifício anal de um dado parceiro sexual. S&M, abreviação de sadomasoquismo, refere-se genericamente a relações nas quais muito do prazer sexual deriva do dominar e/ou ser dominado, com ou sem uso de força física, pelo parceiro. Já o termo "kinky" possui diferentes significados, mesmo em relação ao domínio sexual. No caso específico dessa passagem, ele significa, aproximadamente, "sujo" ou "desprezível".

11 Essas e outras obras romanceadas aqui citadas devem ser lidas menos a partir das suas pretensões acadêmico-literárias e mais como grandes relatos etnográficos da cultura gay dos anos 70 e 80. Dentre outras, trabalhos com essa conotação, não citados ao longo do texto ver Brodsky (1995); Gooch (1996); Kramer (1978 e 1988) e Browning (1994). Para um apanhado de inúmeros depoimentos verbais sobre sexo e sexualidade gays nos anos 70, ver Sadownick (1996). Outra fonte de interesse sobre a subcultura homossexual, de origem heterossexual e anti-gay, mas que apresenta a mesma estrutura narrativa e lógica, é o trabalho de Rueda (1982).

12 Denominação popular de uma substância química muito utilizada na comunidade gay americana para fins de excitação sexual. Os riscos envolvidos na sua utilização ainda não estão totalmente determinados, embora haja fortes indicações de lesão cerebral a ele associada.

13 Cartaz. The Gay Liberation Book (1972).

14 Obviamente, não se pode pensar que filmes homossexuais tenham estado na agenda de lazer dos americanos de modo que tenham tido uma influência decisiva sobre a opinião pública nas leituras iniciais sobre a AIDS. Entretanto, a sua produção, mesmo a mais clandestina, assim como outras faces e atividades da cultura sexual gay, de uma forma ou de outra sempre estiveram ao alcance de agentes oficiais, neste caso censores federais, em alguma medida formadores de opinião pública.

15 Esse aspecto demoníaco foi capturado na peça de Goodman (1966), ambientada no local em questão e na qual um dos personagens, ao caminhar entre as árvores do Rack, defronta-se com um cenário que "sugeria um círculo retirado do Purgatório de Dante, com almas condenadas a girar silenciosa e ritmicamente para sempre".

16 Cartaz. The Gay Liberation Book (1972).

17 A expressão "water sports" significa aqui a utilização de urina como elemento de gratificação sexual.

18 No caso específico do S&M, esse tipo de protesto era quase inevitável, num contexto de expansão do feminismo e do pacifismo, pelo nível de violência contida na sua exposição pública. A revista pornográfica Blueboy, por exemplo, na sua edição de 1º de setembro de 1976, dirigida ao adeptos do S&M, apresentava gravuras de homens mortos e esfaqueados, de crânios humanos cobertos de sangue, de objetos cortantes e pontiagudos em tese associados às práticas S&M.

19 As expressões "master" e "slave" designam aqui os parceiros sexuais que desempenham durante o ato sexual o papel de dominador e o de dominado, respectivamente.

20 Assim como para o S&M, não faltou ao fist-fucking um discurso apologista que buscasse enfatizar suas virtudes. Seymour Kleinberg, por exemplo, parece inclinado a reconhecer ali aspectos positivos. Diz ele que "O cenário elaborado do sadomasoquismo com suas inversões e ansiedades, suas frágeis ironias e negações, a fuga em direção a um psicodrama sobre controle e poder, está ausente entre praticantes do fist-fucking. Nem há necessidade de dor. Em vez disso, há uma atividade incessante em um ambiente livre de algumas das piores experiências que cercam a vida gay: culpa sexual e humilhação erótica, rígida divisão de papéis, a adoração da beleza e juventude, a ansiedade em relação à performance, a frieza, a adoração do pênis. Há também uma profunda adesão à passividade, a qual nunca é claramente presente no S&M, e uma exploração da fisicalidade e do corpo sobre a qual eu nunca havia ouvido qualquer coisa antes (…)" (Kleinberg, 1979, p. 247).

21 Por mais estranho que possa parecer, as grandes bathhouses de Manhattan tornaram-se ponto de atração turística na década de 1970. Nelas, espectadores externos iam, sem disfarces, observar a movimentação de dezenas de homens seminus e as suas buscas por sexo. Ao mesmo tempo, as casas de maior porte tornaram-se palcos de espetáculos de certa grandeza e neles algumas estrelas e astros do show business contemporâneo iniciaram suas carreiras.

22 Um exemplo disso se deu na Flórida, em 1977. Anita Bryant e sua campanha "Save Our Children" reverteram, num episódio de repercussão nacional, as leis no condado de Dade que proibiam discriminação por orientação sexual no campo da habitação e do emprego.

23 Infelizmente, o saldo positivo da década de 1970 levou à crença de que a consolidação de uma pauta de direitos gay era apenas uma questão de tempo; por conseguinte, desconsiderou a fragilidade e equilíbrio precário da incorporação dos estilos de vida "alternativos" em geral e da homossexualidade em particular no American way of life. Uma análise mais crítica teria facilmente revelado que o conjunto da sociedade americana, apesar do crescimento da sua "compreensão", permanecia cativo no dilema entre a valorização da individualidade e individualismo, e o desejo de corresponder às expectativas sociais mais amplas.

 

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Recebido em 18/09/00.
Aprovado em 13/10/00.

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