RESENHAS E CRÍTICAS BIBLIOGRÁFICAS

 

O Sanitarismo brasileiro dos anos 30: a aventura dos relatos dos seus agentes de campo

 

 

Vanessa Maia Rangel

Doutoranda no Instituto de Medicina Social da UERJ, área de Política, Planejamento e Ações em Saúde; bolsista do CNPq. Endereço eletrônico: tufaha@terra.com.br

 

 

CUNHA, Neiva Vieira.
Viagem, experiência e memória: narrativas de profissionais da Saúde Pública dos anos 30.
Bauru, SP: Edusc, 2005 (Coleção Ciências Sociais). 330p.

O livro de Neiva Vieira da Cunha me veio às mãos a partir de um contato pela internet com a própria autora. Embora não a conheça pessoalmente, o contato foi estabelecido por interesses em comum pertinentes à área da Saúde Pública.

Trabalho premiado no Concurso EDUSC-ANPOCS em 2004, representa, a meu ver, uma poética obra que narra a aventura do Sanitarismo brasileiro nos anos 30, a partir dos relatos de entrevistas com profissionais relativamente anônimos, se comparados a Pasteur ou a Oswaldo Cruz, mas que, da perspectiva da autora, ajudaram a construir o campo da Saúde Pública brasileira na sua dimensão simbólica, através das lembranças dos velhos tempos de campanha, das longas viagens a trabalho e das experiências do campo. Desta maneira, a autora elabora uma etnografia retrospectiva onde as campanhas, as viagens e a experiência do campo são, portanto, as categorias nativas capturadas nos discursos dos seus entrevistados, especialmente nos minuciosos e pictóricos relatos do Dr. Celso Arcoverde, informante privilegiado e para quem vai uma homenagem especial no livro.

A importância dessa obra parece estar tanto no seu aspecto político quanto antropológico. Primeiro, pela possibilidade que tem de mostrar uma preocupação do Estado brasileiro da época, cerca dos anos 20 e 30, com o "Brasil Doente": aspecto que passa a ser denunciado a partir de uma mudança de pensamento na área da saúde, originada na Revolução Pasteuriana. E segundo, pela rica análise da construção das identidades sociais dos agentes sanitários que se revela a partir dos caminhos percorridos por esta escolha profissional.

O capítulo 1, "O Campo da Saúde Pública no Brasil", é um capítulo histórico que descreve alguns aspectos da Reforma Sanitária dos anos 20, o modelo do Sanitarismo brasileiro e a criação dos Ministérios da Educação e Saúde. Destaca a importância da febre amarela, varíola e a peste como representantes das doenças infecciosas que foram combatidas pelos porta-vozes da Revolução Pasteuriana brasileira na época: Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Arthur Neiva e Belisário Pena.

Segue o segundo capítulo, mais metodológico, no qual a autora utiliza a escolha pela Saúde Pública como dispositivo para deflagrar determinadas recordações que fizeram a construção, em conjunto com os agentes do campo da Saúde Pública, de um projeto e missão e que, a partir de um referencial quase ingênuo de curiosidade, renúncia e despojamento, passa a almejar a carreira de um serviço público com prestígio e reconhecimento social.

As viagens de inspeção e investigação são descritas no capítulo três, valorizando a possibilidade de esses profissionais conhecerem, através delas, a realidade de todo o país e aprimorar os conhecimentos em matéria de Saúde Pública. Estas viagens são percebidas pela autora como eventos necessários para a construção das experiências e identidades no campo do Sanitarismo da época, implicando uma disposição franca para a aventura de viver o extraordinário, conotação semelhante à viagem etnográfica.

Ainda dentro de uma perspectiva de desbravamento do interior do Brasil, o capítulo sobre o campo e seus procedimentos discute as viagens de investigação como oportunidades de troca entre os saberes científico e popular, enfatizando, no entanto, o caráter de ordem e de pureza que o saber científico dos sanitaristas proclamava levar para as populações mais distantes dos centros urbanos. A autora enfatiza a vertente simbólica dos procedimentos empregados pelos sanitaristas como pertencentes a um sistema total de apreensão do mundo, uma cosmologia que seria transmitida e disseminada pelos jovens sanitaristas.

Concluindo, o livro de Neiva Vieira da Cunha destaca o Sanitarismo brasileiro dos anos 30 como uma política de instituição de uma nova visão no mundo da saúde, que, a partir da Revolução Pasteuriana, introduz a simbologia da impureza através da categoria da doença/patogenia. Esta visão é transmitida pelas campanhas sanitárias, que representam, num sentido de crise, um risco pelo enfrentamento da contaminação, ao mesmo tempo em que são a oportunidade de cientifização do meio ambiente e dos corpos daqueles que porventura fossem afetados.

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