EDITORIAL

 

Filosofia e saúde coletiva

 

 

Kenneth Rochel de Camargo Jr

 

 

Em contatos com editores de outros periódicos científicos, do Brasil e do exterior, temos compartilhado de uma preocupação crescente com as dificuldades em conseguir pareceristas para nossas revistas. Isto leva a um aumento do tempo desde a submissão até a decisão editorial, quando esta necessita de avaliação por pareceristas. Já abordamos diversas vezes o caráter absolutamente fundamental dos pareceristas anônimos no modelo vigente de publicação científica; em última análise, são eles os garantidores da qualidade daquilo que é publicado em nossas revistas. Compreendemos o esforço adicional necessário para dar conta, além das múltiplas solicitações da vida acadêmica, de uma demanda sem maiores recompensas que um agradecimento, do trabalho penoso e anônimo e cada vez mais solicitado. Ainda assim, reiteramos nosso apelo aos potenciais revisores: lembremo-nos que cada revisor é também um autor em potencial, e que sem revisores não há publicação...

Além disso, desde nossa inclusão no portal SciELO, a submissão de artigos para publicação na Physis tem aumentando significativamente. Dada a relativa inflexibilidade no número máximo de edições que podemos publicar por ano, isto significa que os autores por vezes têm esperado um tempo maior do que o razoável para ver seu artigo publicado. Em função também destes problemas, optamos por compor o tema desta edição de Physis a partir de artigos de demanda livre, como forma de desafogar a fila de artigos já aprovados aguardando publicação.

As contribuições de várias vertentes filosóficas são constitutivas do próprio campo da saúde Coletiva, e têm sido reiteradamente examinadas por vários autores nas páginas de nossa revista, que torna nesta edição a revisitar tais abordagens. No primeiro artigo do tema, Czeresnia retorna a um dos autores mais fundamentais para nosso campo, Georges Canguilhem, centrando foco no próprio conceito de vida. Segue-se o texto de Backes et al., que apresentam uma genealogia do conceito de Natureza, outra importante chave para a compreensão das démarches teóricas em torno da saúde. Por fim, Puttini, Pereira Jr. e Oliveira abordam a questão dos modelos explicativos do processo saúde-doença, propondo uma perspectiva baseada nas noções de complexidade como estratégia de superação das aparentes divergências dos diversos modelos construídos em sucessivos contextos históricos.

A seção de temas livres inicia-se com um estudo sobre o cotidiano de trabalhadores em saúde no município de Belo Horizonte, Minas Gerais, como estratégia de apreensão de como os princípios do SUS são efetivamente operados na rede assistencial. Mello e Moyses apresentam um processo de aperfeiçoamento da atenção à saúde bucal de idosos com base num estudo de pesquisa e intervenção. Segue-se o texto de Garcia et al., que estudaram as repercussões da Política Nacional de Humanização em dois hospitais públicos de Santa Catarina. O artigo seguinte, de Hennig, Gomes e Morsch, trata de uma intervenção específica, procurando inseri-la tanto no campo das práticas de humanização quanto das novas tecnologias do cuidado.

Ainda nesta seção, Cotta et al. discutem a experiência de um curso de capacitação de conselheiros de saúde realizado no município de Viçosa - MG, como contribuição ao aprimoramento dos processos de controle social do SUS. Gomide e Grossetti utilizam a abordagem das redes sociais para analisar a contribuição das relações interpessoais para os processos de implantação de programas de saúde. Wachs et al. narram a experiência de um processo de desinstitucionalização do cuidado em saúde Mental ocorrida em Porto Alegre - RS. Por sua vez, Kornis, Maia e Fortuna analisam a produção intelectual em saúde Coletiva nos níveis de mestrado e doutorado com temática voltada para o Estado do Rio de Janeiro.

Também nos temas livres, Cunha aborda os significados do tratamento para o HIV/Aids, a partir de entrevistas com um grupo de dez mulheres em terapia antirretroviral acompanhadas em um hospital de referência da Baixada Fluminense. Em seu artigo, Spedo, Pinto e Tanaka avaliam os mecanismos utilizados pela gestão do SUS, no município de São Paulo, para garantir acesso à assistência de média complexidade, no período de 2005 a 2008. Toneli, Muller e Souza investigaram, por meio de grupos focais, os significados sobre saúde/doença e práticas de cuidados com a saúde da população masculina de Florianópolis - SC. Santos, Soares e Campos apresentam revisão bibliográfica sobre as concepções que orientam as práticas de Redução de Danos no Brasil. Finalmente, encerrando a seção e este número, Gontijo et al. analisaram a produção científica publicada em periódicos nacionais da área da saúde sobre o tema violência e saúde nos períodos de 2003 a 2007.

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