EDITORIAL

 

Dimensões políticas da saúde

 

 

Kenneth R. de Camargo Jr

 

 

O grande desenvolvimento da Saúde Coletiva no Brasil, não só em termos da sua extensão por mais de seis dezenas de cursos de pós-graduação, mas também pela profundidade de suas reflexões teóricas e pesquisas, não se fez sem algumas perdas. A interdisciplinaridade, tomada por muitos de nós como uma das características mais marcantes do campo, vê-se cada vez mais ameaçada pela tendência à fragmentação e especialização, até certo ponto fruto do próprio crescimento.

Deixadas a si mesmas, já dizia o Barão de Itararé, as coisas vão de mal a pior. A reversão dessa tendência, que tem na inércia uma aliada, depende de esforço consciente e sustentado de todos os participantes do campo.

Como exemplo de superação dessa tendência, apresentamos um tema, mais uma vez identificado a partir de nossa demanda espontânea, que lida com uma questão tradicional do campo – as políticas de saúde – a partir de abordagens inovadoras, quer teórica, quer metodologicamente, e em diálogo com o conjunto do campo.

Abrindo o tema, Lobato et al. abordam a dimensão política da formação de profissionais de saúde, com base em estudo empírico realizado no Estado de São Paulo. Segue-se a análise de Ney e Rodrigues sobre os fatores relacionados à fixação de médicos na ESF, como subsídio para a política de recursos humanos do SUS. Bispo Júnior e Martins discutem os Conselhos Locais de Saúde como expressão da participação popular na ESF. E terminando a seção, Azevedo et al. apresentam revisão de políticas públicas com relevância para a promoção da saúde, com ênfase na questão da intersetorialidade.

A seção de temas livres se inicia com o trabalho de Zúquete e Noronha, que analisa o discurso de agressores sexuais, de suas vítimas e testemunhas, numa abordagem original de assunto doloroso e relevante. Segue-se o texto de Mitjavila e Mathes, trazendo uma reflexão sobre o campo semântico da psiquiatria forense e sua relação com a saúde mental. Ainda ligado ao tema da saúde mental, Gama discorre sobre um conjunto de críticas ao modelo brasileiro de assistência nessa área.

Em seguida, Cunha et al. apresentam estudo sobre os sentidos atribuídos à sexualidade masculina e ao cuidar de si de homens de dois intervalos geracionais diferentes. Silva e Reis relatam os resultados de estudo sobre o conhecimento de mulheres sobre HIV/Aids e sua prevenção. Mattos e Luz abordam a questão da fibromialgia sob o prisma das relações de trabalho. Oliveira e Reis fazem reflexão densa e profunda sobre a questão da prevenção quaternária. Sá analisa, com base em desenvolvimentos teóricos de Bruno Latour, a construção da categoria "fito-hormônios" no contexto das propostas de reposição hormonal para mulheres. Cardoso et al. discutem a preparação para o enfrentamento de desastres, apoiados em conceitos de biossegurança. Jorge et al. apresentam reflexão sobre experiência de autogestão de medicação no âmbito da saúde mental. Encerrando a seção, Miranda et al. analisam aspectos do trabalho interdisciplinar em saúde a partir da contribuição de um autor específico, Axel Honeth.

Na seção de resenhas, Ribeiro e Martins apresentam A avaliação do trabalho submetida à prova real, de Dejours; Shikasho discute Reforma Sanitária Brasileira: contribuição para a compreensão e crítica, de Paim; Ferreira Júnior e Barros comentam Humanização do parto: política pública, comportamento organizacional e ethos profissional, de Maia; e, finalmente, Escoda discute a coletânea As causas sociais das iniquidades em saúde no Brasil, organizada por Pellegrini Filho.

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Ao final deste número, fazemos nosso agradecimento nominal aos pareceristas que nos auxiliaram na seleção e aperfeiçoamento dos artigos publicados ao longo deste ano. Por mais que possa soar repetitivo, não temos como expressar nosso agradecimento ao trabalho anônimo, cansativo, pouco valorizado e ainda assim absolutamente essencial do parecerista. Todas as formas de avaliação de qualidade da produção científica repousam, direta ou indiretamente, sobre os ombros desses colegas. A eles, nosso sincero muito obrigado.

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A todos os leitores, autores e pareceristas que colaboram para o contínuo sucesso da Physis, desejamos boas festas e um excelente 2013.

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