ARTIGOS ORIGINAIS

 

Confiabilidade (teste-reteste) da escala sueca do Questionário Demanda-Controle entre Trabalhadores de Restaurantes Industriais do Estado do Rio de Janeiro

 

 

Odaleia Barbosa de AguiarI; Maria de Jesus Mendes da FonsecaII; Joaquim Gonçalves ValenteII

IDepartamento de Nutrição Aplicada do Instituto de Nutrição da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ
IIDepartamento de Epidemiologia da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz - FIOCRUZ, Rio de Janeiro, RJ

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Este estudo tem o objetivo de verificar a confiabilidade teste-reteste da versão em Português da escala sueca "Demand-Control-Support Questionnaire (DCSQ)" em uma população de trabalhadores com baixa escolaridade.
MÉTODO:
O questionário foi aplicado em dois momentos para 52 trabalhadores de três restaurantes industriais de uma empresa concessionária do Rio de Janeiro, com intervalos de 7 a 15 dias. Como indicadores de estabilidade foram utilizados o Coeficiente de Correlação Intraclasse (CCIC), a estatística Kappa Ponderado e o gráfico de Bland & Altman. Para avaliação da consistência interna utilizou-se o Coeficiente Alpha de Cronbach.
RESULTADOS: O CCIC para as dimensões: demanda psicológica, controle do trabalho e apoio social no trabalho foi de 0,70, 0,68 e 0,80, respectivamente. O Alpha de Cronbach apresentou, no reteste, os seguintes resultados: 0,75, 0,50 e 0,82, para as dimensões anteriormente citadas, na mesma sequência.
CONCLUSÕES: Ainda que o resultado da escala controle do trabalho tenha sido considerado baixo para o Alpha de Cronbach, os outros indicadores de confiabilidade apontam para uma boa estabilidade do instrumento, possibilitando sua utilização em estudos de associação entre estresse no trabalho e desfechos relacionados à saúde.

Palavras-chave: Reprodutibilidade dos resultados. Saúde ocupacional. Estresse psicológico.


 

 

Introdução

Considerando o contexto de reestruturação da economia mundial atrelada às redefinições dos processos de trabalho, esforços têm sido requeridos para o desenvolvimento de escalas objetivas, que avaliem estresse no trabalho com desfechos no âmbito da saúde1. Na década de 702 começaram a ser realizados estudos sobre estresse que enfatizavam as características individuais dos trabalhadores, enquanto a avaliação dos aspectos psicossociais do trabalho, tais como demanda psicológica, controle do trabalho e apoio social, dominaram largamente as investigações a partir dos anos 803.

Nos últimos anos tem aumentado consideravelmente na literatura o uso de instrumentos que avaliam aspectos psicossociais no trabalho4. O questionário recorrentemente utilizado nos Estados Unidos, Canadá, Europa e Japão tem sido o de Demanda-Controle ("Job Content Questionnaire - JCQ"), que combina dois aspectos psicossociais do trabalho: a demanda psicológica ("psychological demand") e o controle do trabalho ("decision latitude")1,2. A demanda psicológica é definida pela percepção do indivíduo sobre a intensidade com que ele é exigido ou solicitado pelas tarefas que deve realizar, e sobre os conflitos existentes na relação de trabalho. O grau de controle do trabalho seria a capacidade do indivíduo de decidir sobre o seu programa de trabalho ou como realizá-lo, expresso pela autoridade para tomada de decisões e desenvolvimento de habilidades4,5. Posteriormente, Johnson e colaboradores acrescentaram ao modelo a dimensão de apoio social no trabalho, que resulta da interação dos trabalhadores, exercida entre si e com os supervisores no ambiente de trabalho6.

O modelo original de Demanda-Controle (Job Strain Model) prediz que trabalhos altamente estressores são aqueles que combinam alta demanda psicológica advinda do trabalho, e baixo controle sobre o mesmo, classificados como de alta exigência. O modelo prediz também que a combinação de alta demanda psicológica e alto controle do trabalho conduz para trabalhos ativos, e que os desafios auferidos pelo trabalho desenvolvem a habilidade, confiança, competência e bem-estar2. Entretanto, a combinação de baixa demanda psicológica e baixo controle do trabalho aponta para uma redução da capacidade de produzir soluções para as dificuldades relacionadas às atividades de trabalho, definida como trabalho passivo. A combinação de baixa demanda psicológica e alto controle do trabalho indica uma baixa exigência no trabalho e, possivelmente, uma situação "ideal" do processo de trabalho7.

O apoio social no trabalho tem-se mostrado como um "buffer" no efeito de trabalhos com alta exigência, que permite verificar a interação social existente no ambiente de trabalho entre os colegas, e com a chefia. Entender como o ambiente de trabalho afeta o bem-estar do trabalhador tem sido do maior interesse dos pesquisadores da área da saúde e trabalho4,6. A literatura tem apresentado investigações de associação de estresse no trabalho a diferentes desfechos, tais como: distúrbio psiquiátrico3, interrupção das atividades habituais8 e, principalmente, problemas cardiovasculares2,9,10.

O JCQ compreende 49 questões, abordando, as dimensões: demanda psicológica (nove questões), demanda física (cinco questões), controle do trabalho - que compreende dois componentes: uso de habilidades (seis questões) e autoridade para a decisão (onze questões) - e apoio social no trabalho proveniente da chefia (cinco questões) e dos colegas de trabalho (seis questões), e insegurança no trabalho (seis questões). Uma questão versa sobre o nível de qualificação exigido para o trabalho que é executado (correspondência com o nível educacional requerido no posto de trabalho ocupado)2,4.

A versão resumida e modificada do JCQ foi apresentada por Theorell, em 1988, o "Swedish Demand-Control-Support Questionnaire - DCSQ", reunindo três dimensões propostas no JCQ, demanda psicológica, controle do trabalho e apoio social7. Esta versão contém 17 questões: cinco para avaliar demanda psicológica, seis para avaliar controle do trabalho e seis para apoio social no trabalho. Nas questões relacionadas à demanda psicológica, quatro referem-se a aspectos quantitativos do trabalho, como o tempo, a exigência e a velocidade na execução das tarefas, e uma questão relacionada ao conflito entre diferentes demandas. Nos itens relacionados ao controle do trabalho, quatro referem-se ao uso e desenvolvimento de habilidades, e duas à autonomia para tomada de decisões sobre o processo de trabalho. A dimensão apoio social no trabalho contém seis questões sobre as relações com colegas e chefes7.

Ambas as escalas foram adaptadas para o português e utilizadas em estudos epidemiológicos no Brasil. O JCQ foi utilizado com enfermeiras e com trabalhadores de uma refinaria de petróleo3,9, e o DCSQ foi aplicado a uma coorte de funcionários públicos de uma universidade do Rio de Janeiro, no estudo Pró-Saúde10,11.

Nos estudos de confiabilidade das escalas em uso no Brasil, tanto a do JCQ como a do DCSQ, as populações de estudo apresentavam em sua maioria alta escolaridade, e não encontramos resultados com trabalhadores de baixa escolaridade.

Obter medida confiável tornou-se um desafio para os pesquisadores da área de clínica médica e de epidemiologia, devido à dificuldade e à impossibilidade de se controlar todas as possíveis fontes de variabilidade da medida12. Testar a confiabilidade dos estudos tornou-se uma etapa essencial para assegurar a adequação da informação coletada na investigação em curso e a sua reprodutibilidade, que representa a extensão na qual os resultados obtidos por um teste ou instrumento particular podem ser replicáveis em outras populações13,14.

Este estudo teve o objetivo de verificar a confiabilidade teste-resteste (intra-observador) da versão em Português da escala sueca "Demand-Control-Support Questionnaire (DCSQ)" em uma população de trabalhadores com baixa escolaridade.

 

Métodos

Conduziu-se estudo teste-reteste com intervalo de sete a quinze dias entre as duas aplicações, para permitir análise de confiabilidade do questionário "Swedish Demand-Contro-Supportl Questionnaire (DCSQ)".

Dos três restaurantes escolhidos por conveniência de uma empresa de concessão de refeições estabelecida no Rio de Janeiro, todos os trabalhadores foram entrevistados. As entrevistas ocorreram no refeitório da empresa durante o período em que não havia distribuição de refeições.

Os critérios de exclusão do estudo foram: trabalhadores do turno noturno, estar afastado por licença médica ou maternidade, ter tempo de trabalho inferior a 30 dias e não participar diretamente do processo produtivo de refeições.

Dos 56 trabalhadores elegíveis nesses três restaurantes, quatro não participaram: um foi demitido na semana consecutiva após a aplicação do teste, dois encontravam-se de férias no período e um recusou-se a participar. Portanto, a população que realizou o teste-reteste foi de 52 (92,8%) trabalhadores, e nenhum se recusou a repetir a entrevista. Os questionários foram aplicados face a face, por um único entrevistador, durante o horário de trabalho, após a leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Os trabalhadores entrevistados nesse estudo de teste-reteste, apresentavam características - tais como sexo, idade, escolaridade e processo de trabalho - muito similares à população que seria investigada em outra pesquisa intitulada "Pressão no trabalho: impedimento das atividades laborais e ambiente de trabalho entre trabalhadores dos Restaurantes Populares do Rio de Janeiro" nos nove restaurantes populares em funcionamento no ano de 200715.

As variáveis incluídas foram: qualificação profissional, situação ocupacional, características sociodemográficas. A escala DCSQ utilizada foi traduzida e adaptada para o português pelo estudo do Pró-Saúde7.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (CEP-IMS), registro 15/5006, em 22 de novembro de 2006.

Análise dos Dados

Para a análise dos dados foi realizado o cálculo de escores padronizados de cada uma das três dimensões, atribuindo-se pontos a cada opção de resposta. No caso das dimensões demanda psicológica e controle do trabalho foi possível assumir os valores (4) freqüentemente, (3) às vezes, (2) raramente e (1) nunca ou quase nunca para as dimensões. Para a dimensão apoio social no trabalho, as respostas puderam assumir os valores (4) concordo totalmente, (3) concordo mais que discordo, (2) discordo mais que concordo e (1) discordo totalmente.

Para a escala demanda psicológica foi criado um escore a partir do somatório dos valores obtidos para as cinco questões relacionadas à demanda, e a sua variação foi entre 5 e 20. A pergunta "Você tem tempo suficiente para cumprir todas as tarefas de seu trabalho?" possuía direção reversa e, portanto, ao responder "freqüentemente" foi atribuído um escore 1; às vezes, escore 2; raramente, escore 3 e nunca ou quase nunca, escore 4. Isto se deve ao fato de que quanto mais frequentemente se tem tempo suficiente para a realização do trabalho, menor a carga de demanda.

Para a escala controle do trabalho foi criado um escore a partir do somatório dos valores obtidos para as seis questões relacionadas a controle, variando entre 6 e 24. Nessa dimensão, a pergunta "No seu trabalho, você tem de repetir muitas vezes as mesmas tarefas?" também possuía direção reversa, na medida em que quanto menos frequentemente as tarefas eram repetidas, maior controle do trabalho expressava.

A terceira e última dimensão, apoio social no trabalho, também foi criada a partir do somatório dos valores dos escores para as seis perguntas relacionadas ao apoio, sendo a sua variação de 6 a 24 pontos. Nenhuma pergunta desta dimensão tinha pontuação invertida.

Confiabilidade do Escore do Questionário

A confiabilidade das dimensões demanda psicológica, controle do trabalho e apoio social do trabalho a partir do somatório dos escores foi avaliada mediante o coeficiente de correlação intraclasse (CCIC), com Intervalo de Confiança (IC) de 95%, e dos gráficos de Bland & Altman14,16.

O CCIC tem sido considerado apropriado para avaliação da consistência e conformidade dos estudos, por ser capaz de estimar a proporção da variação total devido à variabilidade entre as unidades independentes de análises. O CCIC é equivalente a estatística kappa ponderado quadrático para variáveis contínuas e tem a mesma amplitude de valores possíveis (de zero a +1,0, no caso de perfeita concordância). A limitação deste método está na dependência do grau de variabilidade dentro e entre as observações, afetando o resultado do CCIC2. Para análises destes dados, o cálculo foi realizado utilizando-se análise de variância (ANOVA), modelo "one-way" com efeitos fixos17.

O gráfico de Bland & Altman permite a avaliação do padrão de concordância ou discordância entre medidas repetidas, ou entre uma dada medida e o padrão-ouro, além de incorporar alguns limites de tolerância. Neste gráfico pode-se visualizar a magnitude de discordância (incluindo diferenças sistemáticas), valores estranhos ("outliers"), e também verificar tendências13,14,16.

Confiabilidade das Perguntas do Questionário

A confiabilidade dos itens das três dimensões foi avaliada pelo kappa ponderado, uma vez que estes itens têm o formato de variáveis ordinais. Avaliou-se então a concordância considerando o grau de concordância perfeita (diagonal principal na tabela de contingência), mas também a magnitude da discordância, ao atribuir pesos diferenciados de acordo com a maior ou menor proximidade entre as categorias da variável14. Os critérios propostos por Byrt (1996) foram adotados para interpretação do grau de concordância da estatística kappa: nenhuma concordância, abaixo de zero; pobre, de 0 a 0,20; fraca, 0,21 a 0,40; satisfatória, de 0,41 a 0,60; boa, de 0,61 a 0,80; muito boa, de 0,81 a 0,92, e excelente, de 0,93 a 1,0014.

Confiabilidade da Consistência Interna do Questionário

Na análise de consistência interna dos escores das dimensões do DCSQ foi utilizado o Coeficiente Alpha de Cronbach. Este índice capta a homogeneidade das perguntas (item) que visam medir um mesmo constructo13, considerando a variância atribuível aos sujeitos e a variância atribuível à interação entre sujeitos e itens, sendo esta estimativa afetada pelo número de itens, às intercorrelações entre os itens e às dimensionalidades do instrumento18. Bland & Altman (1997) recomendam, para a comparação de grupos, valores de alfa de 0,7 a 0,8 como sendo satisfatórios. Quando a aplicação do alfa é para um constructo que tem por objetivo a avaliação clínica, o mínimo que poderia ser considerado seria de 0,919.

 

Resultados

Os 52 trabalhadores que participaram do teste e do reteste tinham em média 38,4 anos de idade e desvio padrão (DP) igual a 10,5, correspondendo a quantidade de homens a 75% do total. Dentre os entrevistados, 32,7% não concluíram o ensino fundamental, 15,4% concluíram somente o ensino fundamental; 25,0% tinham o segundo grau incompleto e 19,2% tinham o segundo grau completo. Apenas os nutricionistas apresentavam nível superior de escolaridade (7,7%). A média de tempo de trabalho em cozinhas era de 5,2 anos (DP = 5,6).

Com relação aos resultados obtidos no estudo de confiabilidade, na Tabela 1, o CCIC para demanda psicológica, controle do trabalho e apoio social no trabalho foi 0,70 (IC 95%: 0,56 - 0,83), 0,68 (IC 95%: 0,53 - 0,82) e 0,80 (IC95%:0,71 - 0,90), respectivamente, demonstrando que as concordâncias foram boas nas três dimensões, segundo os pontos de corte atribuídos por Byrt.

O Alpha de Cronbach apresentou os seguintes resultados: no teste, 0,59, 0,33 e 0,66; e, no reteste, 0,75, 0,50 e 0,82 para as dimensões demanda psicológica, controle do trabalho e apoio social no trabalho, respectivamente. Não foram identificadas variações nas estimativas de consistência interna segundo sexo ou faixa etária (dados não apresentados).

Na análise das escalas de demanda psicológica e controle do trabalho pelo método de Bland-Altman, Figura 1 e Figura 2, respectivamente, encontra-se, no eixo das abscissas (x), as médias dos escores entre o teste-reteste. No eixo das ordenadas (y) exibe-se a diferença entre os escores da primeira (teste) e da segunda entrevistas (reteste). Na Figura 1 observa-se a média das diferenças 0,31, e 95% dos valores de demanda psicológica encontram-se entre a média das diferenças mais dois desvios-padrão (5,1 demanda psicológica) e menos dois desvios-padrão (-4,4 demanda psicológica). A informação sobre a demanda psicológica no trabalho apresentou uma diferença positiva entre o teste e o reteste, indicando uma maior concentração no limite superior do gráfico que sugere uma tendência de subestimação no reteste comparado ao teste. Quanto a controle do trabalho, Figura 2, observa-se a média das diferenças 0,36, e 95% dos valores de controle do trabalho encontram-se entre a média das diferenças mais dois desvios-padrão (4,4 controle do trabalho) e menos dois desvios-padrão (-3,7 controle do trabalho), e a disposição dos pontos indica um distanciamento menor entre os pontos e a linha horizontal. A concentração de valores positivos indica uma subestimação da percepção informada sobre o controle do trabalho no reteste. O gráfico de Bland-Altman para apoio social no trabalho (dado não apresentado) apresentou concentração de valores negativos, o que indica uma superestimação dos valores informados no reteste.

 

 

 

 

No cálculo dos valores de kappa ponderado para cada um dos 17 itens do questionário DCSQ (Tabela 2), foram obtidos, para a "demanda psicológica", valores variando de 0,48 (satisfatório) no item 5 a 0,63 (boa), para o item 2.

Na dimensão "controle do trabalho" a variação deu-se entre o valor 0,37 (fraca) do item 2 e o valor relativo ao item 4, que apresentou uma concordância boa (0,70). O item três apresentou concordância satisfatória e os outros itens apresentaram concordâncias boas.

No caso de apoio social no trabalho, a variação foi de 0,28 (fraca) relativa ao item 1, sendo este o que apresentou a menor concordância entre as respostas do teste e reteste, a 0,86 (muito boa), valor relativo ao item 5. Além disso, o item dois apresentou concordância satisfatória, o item três concordância boa, e os itens quatro e seis apresentaram concordância muito boa.

 

Discussão

Os resultados desta investigação indicam que, embora o resultado da consistência interna da escala relativo a controle do trabalho tenha sido considerado baixo, os outros indicadores de confiabilidade apontam para uma boa estabilidade do instrumento.

A concordância entre a informação aferida no teste e aquela do reteste nos trabalhadores de cozinha industrial buscando verificar a consistência e conformidade do estudo foi considerada boa, o que indica uma maior estabilidade nas dimensões demanda psicológica e apoio social no trabalho e um menor nível de estabilidade em controle do trabalho. Estes resultados diferem do estudo do Pró-saúde (Alves, 2004), onde a estabilidade das respostas avaliada pelo Coeficiente de Correlação Intraclasse apresentavam valores superiores, CCIC = 0,88 para demanda psicológica, CCIC = 0,87 para controle do trabalho e CCIC = 0,86 para apoio social. Talvez essas diferenças possam ser atribuídas ao grau de escolaridade, pois a interpretação da escala pressupõe um entendimento das respostas, visto que a mesma não é direta.

O Alpha de Cronbach apresentou diferenças entre o teste e reteste, sendo baixo na primeira entrevista e apresentando-se na segunda aplicação da escala mais próximo da adequação, exceto para o controle do trabalho. Isto pode ser parcialmente explicado pelo fato de no teste a escala DCSQ ter sido aplicada concomitante às outras variáveis que faziam parte do questionário (por exemplo, variáveis sociodemográficas, qualificação profissional), enquanto no reteste somente a escala DCSQ foi aplicada. Os resultados individuais para as perguntas de controle do trabalho foram bem piores do que para a demanda psicológica ou o apoio social no trabalho. Os itens 2 - "Seu trabalho exige muita habilidade ou conhecimentos especializados" - e 4 - "No seu trabalho, você tem que repetir muitas vezes as mesmas tarefas" - foram os que apresentaram as menores correlações. Com poucas exceções, as correlações entre cada pergunta dentro de cada item, e o escore final de cada item, melhoraram do teste para o reteste.

No processo de adaptação da escala para o português, no estudo Pró-Saúde,os seguintes resultados foram encontrados para consistência interna das dimensões demanda psicológica, controle do trabalho e apoio social no trabalho: alpha de 0,72, 0,63 e 0,86, respectivamente7.

Josephson e colaboradores (1997), utilizando a versão resumida de Karasek em uma população de enfermeiras do norte da Suécia, encontraram um alfa de Cronbach de 0,69 para demanda psicológica e de 0,51 para controle do trabalho, verificando-se a baixa consistência interna para controle do trabalho21. Até mesmo em estudos onde o nível educacional era considerado alto, a consistência interna da dimensão controle do trabalho não mostrou resultados adequados. Os resultados encontrados tanto no Brasil como na Suécia foram próximos aos nossos achados no reteste para uma baixa consistência interna do controle do trabalho.

No estudo seccional com o questionário de Demanda Controle completo (JCQ), realizado por Araújo e Karasek (2008), os autores encontraram baixa consistência interna para demanda psicológica (alfa = 0,55) e controle do trabalho (alfa = 0,62) entre os trabalhadores do mercado informal22. Segundo os autores a demanda psicológica pode assumir diferentes significados para grupos diferentes da população trabalhadora em seus contextos cultural, social e ocupacional. No entanto, no estudo de Sanne e colaboradores (2005), foram encontrados alfa de Cronbach adequados para demanda psicológica (0,73), controle do trabalho (0,74) e apoio social (0,83)23. Além disso, na avaliação da dimensão apoio social a consistência interna tem demonstrado ser muito boa nos estudos realizados no Brasil7, 22.

Cortina (1993) adverte que a consistência interna deve ser interpretada com cautela, dado que a mesma refere-se ao grau de inter-relação entre os itens e não à homogeneidade, e que seu uso será mais apropriado em um conjunto de dados de uma distribuição normal. Além disso, o alfa de Cronbach pode modificar o seu resultado em função do número de itens, da intercorrelação entre os itens e da dimensionalidade18.

O gráfico de Bland-Altman também tem sido considerado uma boa medida da magnitude da validade, pois examina o padrão de discordância entre medidas repetidas, ou entre uma dada medida comparada ao padrão ouro14,16. Esta forma gráfica tem sido utilizada em diferentes estudos de confiabilidade, com variáveis contínuas e discretas para verificar a hipótese de normalidade das diferenças pelos limites da concordância24,25. Entretanto, para a avaliação da escala Demanda-Controle, não foi possível comparar os resultados observados, pois na literatura não foi encontrado nenhum artigo que utilizou este método.

Na avaliação do kappa ponderado, para as perguntas da escala DCSQ o menor valor atribuído para o item cinco da demanda psicológica pode se dever à dificuldade de interpretação por parte dos trabalhadores de "exigências contraditórias ou discordantes". Quanto à concordância fraca do kappa ponderado do item dois de controle do trabalho, uma possível explicação seria a dificuldade dos trabalhadores de cozinha de considerarem que suas atividades requerem "habilidade" ou "conhecimento especializado", dado que, na maioria das contratações da mão-de-obra de restaurantes industriais, não se requer experiência profissionais prévia na área. A escala de apoio social apresentou a maior dificuldade de compreensão das opções de respostas por parte dos trabalhadores, devido à estrutura da mesma como "concordo mais do que discordo" ou "discordo mais do que concordo". No item 1, "ambiente calmo e agradável", o kappa ponderado exibiu o menor valor da escala, talvez pela dificuldade de se atribuir ao ambiente de cozinha uma percepção aprazível e de serenidade que a pergunta busca captar ou pela mudança no padrão de resposta da escala.

Outra explicação possível para as discordâncias encontradas pode estar ligada ao intervalo de tempo entre a aplicação dos dois testes. Mesmo considerando o intervalo de 7 a 15 dias entre as duas aferições, os itens que compõem as dimensões podem estar sujeitos à compreensão no primeiro contato com a escala e ao humor do entrevistado. Além disso, o relacionamento entre os trabalhadores e a carga de trabalho pode afetar a percepção dos aspectos psicossociais do ambiente de trabalho.

Dentre as limitações do estudo que poderiam ser apontadas, ressalta-se a impossibilidade de extrapolação dos resultados para a população geral, pois nesta investigação só foram incluídos trabalhadores, na sua maioria, com baixa escolaridade, e que se encontravam empregados no mercado formal. Contudo, os resultados encontrados podem ser generalizados para populações de trabalhadores com perfil semelhante aos de restaurantes industriais, ou com aqueles que possuam baixa escolaridade.

A escala do DCSQ que tem por objetivo avaliar estresse no trabalho é considerada relativamente curta e simples, viabilizando a sua inclusão em questionário multidimensional. Entretanto, na análise dos resultados das pesquisas empíricas tem-se de levar em consideração as questões relativas ao mundo do trabalho dos diferentes países onde estas forem aplicadas. As questões de organização do trabalho, condições ambientais do trabalho, nível de tecnologia, organização dos movimentos trabalhistas, aperfeiçoamento da legislação, bem como as condições socioeconômicas dos trabalhadores deverão ser consideradas nos desfechos de saúde7.

 

Conclusão

Com os resultados obtidos, pode-se concluir ainda que, apesar de o resultado da consistência interna da escala controle do trabalho ter sido considerado baixo, os outros indicadores de confiabilidade apontam para uma boa estabilidade do instrumento, indicando que o uso da escala do DCSQ em população trabalhadora do setor privado, com baixo grau de escolaridade, pode ser reproduzido em outras populações, com características similares e com uma amostra mais ampliada, para que possa ser confirmada a fragilidade de alguns itens, que tem sido apresentada na literatura referente a populações com níveis de escolaridade mais elevados.

 

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Correspondência:
Odaleia Barbosa de Aguiar
Departamento de Nutrição Aplicada
Instituto de Nutrição
Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ
Rua São Francisco Xavier, 524 sala 12026 Bl D, Maracanã
Rio de Janeiro, RJ CEP 20550-013
E-mail: odaleiab@hotmail.com

Recebido em: 19/06/09
Versão final reapresentada em: 15/03/10
Aprovado em: 03/04/10

Associação Brasileira de Pós -Graduação em Saúde Coletiva São Paulo - SP - Brazil
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