ARTIGOS ORIGINAIS

 

Peso ao nascer e obesidade em crianças e adolescentes: uma revisão sistemática

 

 

Camila Elizandra Rossi; Francisco de Assis Guedes de Vasconcelos

Programa de Pós-Graduação em Nutrição do Centro de Ciências da Saúde do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Verificar o nível de evidência científica e epidemiológica da hipótese de associação entre peso ao nascer e sobrepeso/obesidade na infância e na adolescência, a partir de revisão sistemática da literatura.
MÉTODO: Foi realizada revisão sistemática nas bases MedLine/Pubmed, Scielo-Brasil e Lilacs. Adaptou-se a escala de Downs & Black para avaliar a qualidade metodológica dos catorze artigos selecionados. Os artigos foram classificados em duas categorias de análise, de acordo com o índice de desenvolvimento humano do país onde o estudo foi realizado: a) peso ao nascer e sobrepeso/obesidade em países com desenvolvimento humano elevado; e b) peso ao nascer e sobrepeso/obesidade em países com desenvolvimento humano elevado, mas ainda ascendente, e com desenvolvimento humano médio.
RESULTADOS: Em ambas as categorias predominou a associação entre elevado peso ao nascer e sobrepeso/obesidade. Além disso, na primeira categoria, um dos sete artigos mostrou que o baixo peso ao nascer foi preditor de maior percentual de gordura corporal e abdominal. Na segunda categoria, três artigos mostraram associação do catch-up growth com sobrepeso/obesidade, e um mostrou o baixo peso ao nascer como fator protetor do sobrepeso (incluindo obesidade). Foram capturados quatro artigos brasileiros, dentre os quais dois não identificaram associação estatisticamente significativa entre peso ao nascer e sobrepeso/obesidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: O elevado peso ao nascer apareceu associado ao sobrepeso/obesidade na maioria dos artigos. Há necessidade de se continuar investigando sobre a associação entre o baixo peso ao nascer e sobrepeso/obesidade.

Palavras-chave: Sobrepeso. Obesidade. Peso ao Nascer. Revisão de Literatura.


 

 

Introdução

A partir dos anos 1990, observam-se relatos na literatura sobre a associação entre o baixo peso ao nascer (BPN), caracterizado pelo peso de nascimento abaixo de 2.500 g, e a presença de sobrepeso ou obesidade na infância1, na adolescência2 e na vida adulta3,4. Outro estudo sugere que a quantidade de massa magra na adolescência é menor nos nascidos com BPN5.

Por outro lado, também o elevado peso ao nascer (EPN), caracterizado pelo peso de nascimento igual ou superior a 4.000 g, tem sido associado ao desenvolvimento de excesso de peso corporal na infância e adolescência6. Entretanto, resultados que contradizem as evidências da associação significativa com EPN também têm sido relatados, especialmente em estudos realizados em países em ascensão econômica7,8.

Sabendo-se que o BPN é mais prevalente em populações empobrecidas e em desenvolvimento9, enquanto o EPN apresenta prevalência aumentada em alguns países desenvolvidos, como os Estados Unidos da América (EUA) e o Canadá10 e alguns países europeus11, o nível socioeconômico das amostras avaliadas tem sido apontado como uma importante variável de confusão na associação do peso ao nascer (PN) com a obesidade. Por isso, esta associação parece ainda permanecer inconsistente em estudos realizados com crianças de países em desenvolvimento12.

Mediante o exposto, torna-se importante identificar na literatura se o BPN e o EPN têm sido relatados como fatores associados ao sobrepeso e/ou à obesidade, a fim de que medidas preventivas no âmbito da saúde materna e infanto-juvenil possam ser planejadas, focalizando-se as prioridades de cada população assistida. Sendo assim, o objetivo deste estudo foi verificar o nível de evidência científica e epidemiológica da hipótese de associação entre peso ao nascer (PN) e sobrepeso/obesidade na infância e adolescência, a partir de revisão sistemática da literatura. As questões de partida da investigação foram: Existe associação entre PN e sobrepeso/obesidade em crianças e adolescentes? A associação entre PN e sobrepeso/obesidade em crianças e adolescentes difere dependendo do índice de desenvolvimento humano do país onde o estudo foi realizado?

 

Método

Foi realizada revisão sistemática da literatura, procurando-se capturar artigos científicos que descrevessem a associação entre peso ao nascer e sobrepeso e/ou obesidade. Selecionaram-se artigos publicados a partir de 1998. As bases de dados eletrônicas pesquisadas foram: Scielo-Brasil (Scientific Eletronic Library Online), Lilacs (Literatura do Caribe em Ciências da Saúde) e Medline/Pubmed via National Library of Medicin, no mês de julho de 2008. Os unitermos utilizados nas bases Scielo-Brasil e Lilacs estiveram de acordo com sua definição no DecS (Descritores em Saúde) e foram peso ao nascer and obesidade, e baixo peso ao nascer and obesidade. Na base Medline/Pubmed foram utilizados unitermos definidos conforme sua descrição no MeSH (Medical Subject Headings), buscando-se birth weight (or low birth weight) and obesity (or overweight or adiposity), e fetal programming and obesity, tendo sido estabelecidos os seguintes critérios de inclusão: pesquisas realizadas em humanos de ambos os sexos; faixa etária entre 6 e 18 anos de idade; e artigos publicados e incluídos na base nos últimos 10 anos. Nesta última base foram também captados artigos armazenados no link "related articles". Ressalta-se que diferentes unitermos foram utilizados em cada base de dados devido às definições que cada uma das bases propõe para os descritores. Com a adoção desse procedimento, é possível que um maior número de artigos relacionados ao tema de interesse tenha sido capturado em cada base. Outro critério de inclusão adotado foi a condição de a variável peso ao nascer ser a exposição, e sobrepeso e obesidade os desfechos, também tendo sido incluídos estudos que consideraram como desfechos o IMC, medidas de quantificação de massa magra ou magra gorda e índices antropométricos como peso/estatura, peso/idade e afins. Como critérios de exclusão definiu-se não analisar artigos com resultados exclusivos para desfechos nas idades adulta ou pré-escolar, por não serem as faixas etárias de interesse; artigos de revisão, devido à proposta de se analisarem somente artigos originais, ou seja, baseados em dados empíricos; e ensaios clínicos, tendo sido incluídos apenas estudos observacionais.

Na busca realizada na base Medline/Pubmed foi encontrado um total de 33 artigos utilizando-se a primeira combinação de unitermos, sendo 3 de revisão, e 37 artigos utilizando-se a segunda combinação, sendo 8 de revisão. Na base Scielo-Br foram encontrados nove artigos a partir do uso dos termos peso ao nascer and obesidade (1 de revisão) e 1 nos termos baixo peso ao nascer and obesidade. Na base Lilacs foram encontrados 32 trabalhos, somando-se artigos e resumos de trabalhos de pós-graduação (1 artigo de revisão). Após a leitura dos resumos, 14 artigos foram selecionados para análise. Vale ressaltar que as listas de referências bibliográficas de cada artigo selecionado não foram consultadas.

A qualidade metodológica de cada artigo foi avaliada com base nos critérios estabelecidos por Downs & Black13, os quais permitem orientar o leitor/revisor quanto às limitações do artigo avaliado, possibilitando uma leitura crítica dos estudos publicados. O questionário original contém 27 perguntas, divididas em quatro grupos: apresentação (avalia itens como clareza na descrição dos objetivos, variáveis de confusão, valores de probabilidades); validade externa (relacionada à extrapolação dos dados à população donde a amostra foi planejada); validade interna (análise de vieses, confiabilidade das medidas de exposição e desfecho, e uso de variáveis de confusão); e poder do estudo. Para uso no presente estudo, as perguntas 8, 13 a 15, 23, 24 e 27 foram retiradas, porque se referiam a estudos do tipo ensaio clínico. As questões da escala possibilitam, de maneira objetiva, avaliar se o artigo em análise atende ou não ao que se pergunta. Para cada questão, o escore zero é atribuído caso o artigo não atenda ao que se está avaliando, e o escore um (1) caso ele atenda. Somente a questão 5 atribui o escore 2, caso a pergunta em questão seja atendida pelo artigo. Com isso, a pontuação máxima a que poderia chegar cada artigo da presente revisão foi de 21 pontos.

Como estratégia de síntese, um roteiro para a descrição das características de cada artigo foi delineado, destacando-se: autoria, país, ano de publicação e delineamento dos estudos, características e tamanho da amostra, critério diagnóstico e pontos de corte para definição de sobrepeso e/ou obesidade, desfecho e exposição, principais resultados encontrados, principais análises estatísticas e escores da qualidade metodológica dos estudos. Os dados capturados em cada artigo encontram-se nos Quadros 1 e 2.

Como estratégia de análise, considerou-se o fato de que a distribuição do PN diferencia-se de acordo com o nível socioeconômico de cada nação, agrupando-se os 14 estudos em duas categorias, de acordo com a classificação proposta pelo Programa Nacional para o Desenvolvimento das Nações (PNUD), baseada no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)14 apresentado pelo país no qual o estudo foi realizado: PN e sobrepeso/obesidade em países com IDH acima de 0,900 (desenvolvimento humano elevado - 7 artigos)5,6,15-19, incluindo Reino Unido, Austrália, Dinamarca, Finlândia, EUA e Alemanha; e PN e sobrepeso/obesidade em países com IDH entre 0,800 e 0,899 (desenvolvimento humano elevado, mas ainda ascendente - seis artigos)7,8,20-23, incluindo Brasil, México e Ilhas Seychelles, e PN e sobrepeso/obesidade em países com IDH abaixo de 0,800 (desenvolvimento humano médio - um artigo)24, realizado na China. Ressalta-se que o IDH é calculado a partir de dados de esperança de vida ao nascer, escolarização nos níveis de ensino primário, secundário e superior, alfabetização entre os adultos e produto interno bruto per capita em dólares americanos14, justificando o recorte metodológico escolhido, pois se pode considerar o IDH como um elemento proxi ao nível socioeconômico da nação. Além disso, foi também avaliada a utilização de variáveis socioeconômicas nos artigos analisados, por ser importante variável confundidora nas relações com os desfechos sobrepeso e obesidade.

 

Resultados

De acordo com o apresentado nos Quadros 1 e 2, 14 artigos que preencheram os critérios de elegibilidade foram identificados no período de tempo estudado. Destes, 6 foram publicados a partir de 20056,17,20-22,24, demonstrando que o tema ainda é atual.

Dentre os 14 artigos, percebeu-se o uso de diferentes critérios diagnósticos para a avaliação do sobrepeso e obesidade (variável desfecho da presente investigação) e também diferentes categorizações da variável peso ao nascer (variável exposição). O IMC/Idade foi o índice antropométrico mais utilizado (9 artigos) para realizar o diagnóstico de sobrepeso/obesidade, porém diferentes critérios e diferentes pontos de corte para cada critério foram utilizados. Os critérios de Cole et al. (2000), CDC (2000) e Must et al. (1991) foram os mais utilizados. Quanto ao peso ao nascer, prevaleceu a utilização de z-escores ou tercis e quartis, sendo que as categorias preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS)25 (BPN < 2.500 g; Peso Insuficiente ao Nascer (PIN) = 2.500 a 2.999 g; Peso Adequado ao Nascer (PAN) = 3.000 a 3.999 g) aparecem na minoria dos artigos (2 dentre 14).

As idades das amostras foram bastante heterogêneas, sendo que 8 artigos avaliaram crianças e adolescentes, 2 avaliaram somente adolescentes (> 10 anos) e 4 avaliaram somente crianças (< 10 anos).

Quanto à coleta e uso de dados de dobras cutâneas, a OMS26 recomenda desde 2006 que se realizem avaliações do mesmo indivíduo em duplicata e com avaliadores diferentes, a fim de que, através da variação inter e intravaliador, calcule-se o erro técnico de mensuração (ETM), estratégia importante para a validade interna do estudo. Nenhum dos artigos publicados após essa data, porém, cita ou publica o valor do ETM.

Seguem-se, descritos sumariamente, os resultados dos estudos analisados.

Peso ao nascer e sobrepeso/obesidade em países com IDH elevado

Nos EUA, observou-se a influência do EPN, do diabetes mellitus gestacional (DMG) e do IMC materno no sobrepeso de crianças e adolescentes. Gillmann et al.15 observaram que o peso ao nascer foi associado ao sobrepeso de crianças com idade entre 9 e 14 anos, tendo sido também significativa a associação nos nascidos de mães com DMG. Frisancho16 não observou o efeito do peso ao nascer no IMC de crianças e adolescentes, uma vez que os recém-nascidos com peso elevado só se tornaram adolescentes obesos quando um dos pais era obeso. Em Berlim17, também se observou a influência negativa do DMG, pois mães com esse distúrbio tiveram filhos com maior IMC/Idade gestacional ao nascer, o qual, por sua vez, foi preditor de sobrepeso aos 6 a 8 anos de idade.

Nesses estudos é possível verificar que a associação entre PN e IMC de crianças e adolescentes deve ser controlada por características maternas, especialmente aquelas relativas à gestação, para ser evitar possíveis efeitos de confusão.

Dois estudos avaliaram sujeitos do Reino Unido, apresentando resultados divergentes. Reilly et al.6 observaram que a cada aumento de 100 g no peso ao nascer aumentava o risco de obesidade em crianças aos 7 anos de idade. Além do peso ao nascer, o catch-up weight growth (ganho compensatório de peso e acima dos padrões normais para determinada idade) entre o nascimento e os 24 meses, o ganho de peso no primeiro ano de vida (peso ao nascer subtraído do peso aos 12 meses), obesidade de ambos os pais e um aumento precoce (aos 43 meses de idade) no IMC das crianças foram identificados como potenciais fatores de risco à obesidade. No estudo de Singhal et al.5, os resultados foram contrários, sendo que a cada aumento de um desvio-padrão no peso ao nascer aumentava em 3% a quantidade de massa magra dos adolescentes. Para a massa de gordura e para o IMC não foram observadas associações significativas com o peso ao nascer. Os autores ajustaram os modelos de análise para variáveis socioeconômicas, estatura, estágios de maturação sexual e atividade física.

Com crianças australianas18, verificou-se que aquelas nascidas com os mais baixos pesos e que apresentavam pesos mais elevados aos 7 a 8 anos tinham uma quantidade significativamente maior de gordura abdominal e maior percentual de gordura total do que aquelas nascidas com pesos mais elevados. Além disso, observou-se que a cada redução de 1 kg no peso ao nascer, aumentou a quantidade de gordura abdominal aos 7 a 8 anos de idade. Algumas falhas foram identificadas no artigo, tais como: não terem sido apresentadas importantes variáveis de confusão que foram incluídas nos demais estudos, não estar claro se os sujeitos elegíveis para o estudo representam a população de interesse (apenas 24% da população) e se a amostra foi composta por sujeitos não pertencentes à população de interesse (29 se candidataram voluntariamente).

Na capital da Finlândia19 observou-se que a associação entre o peso ao nascer/idade gestacional e o sobrepeso de adolescentes não se manteve após o controle das demais variáveis do estudo. O artigo apresentou falhas nos quesitos de descrição das características dos sujeitos perdidos no seguimento e na validação da amostra estudada frente à fonte populacional (representatividade). Além disso, chama a atenção o fato de os autores terem escolhido o ponto de corte para IMC recomendado para adultos na avaliação dos adolescentes (IMC > 25 kg/m2). Tal procedimento parece equivocado e resulta em prevalências de sobrepeso bem abaixo do esperado (no estudo, em torno de 4%).

Percebe-se que, dentre os 7 artigos avaliados, em 4 (57,2%) houve associação significativa entre PN e sobrepeso ou obesidade, sendo que a pontuação atribuída à maioria esses artigos (3) foi muito próxima ao escore máximo que poderiam obter. Dentre os 4 artigos, 3 apresentaram associação do EPN com os desfechos, e 1 apresentou resultados relativos à associação do BPN com elevado depósito de gordura abdominal e corporal. Um dos artigos também apresentou associação entre o catch-up weight growth e o catch-up height growth e sobrepeso/obesidade. Os demais 3 estudos (42,8%) não identificaram associação significativa do PN com sobrepeso/obesidade, sendo que 1 destes mostrou relação positiva entre maiores pesos ao nascer e massa magra.

Peso ao nascer e sobrepeso/obesidade em países com IDH alto, mas ascendente, e peso ao nascer e sobrepeso/obesidade em países com IDH médio

Foram avaliados 4 estudos brasileiros, e os resultados diferem-se. Goldani et al.20 observaram associação positiva entre PN e obesidade em indivíduos aos 18 anos de idade, mesmo após o ajuste para variáveis socioeconômicas e biológicas. No entanto, o artigo apresentou quatro falhas, sendo que três delas comprometeram a validade externa do estudo. No artigo de Tomé et al.21, o peso ao nascer nas diferentes categorias abaixo de 3.500 g conferiu proteção para ocorrência de sobrepeso (incluindo obesidade) em crianças escolares de Ribeirão Preto (SP) (categoria de referência > 4.000g), mas também ocasionou maior ocorrência de baixo peso (IMC <= percentil 5).

No estudo de Dutra et al.22, a razão de prevalência para sobrepeso foi proporcional ao aumento do PN, porém a associação não foi estatisticamente significativa. No estudo de Monteiro et al.7, identificou-se associação do catch-up weight growth com o sobrepeso e a obesidade e associação do catch-up height growth com sobrepeso na adolescência. Entretanto, o peso ao nascer e o peso ao nascer/idade gestacional não foram associados aos desfechos nas análises multivariadas.

No México23, observou-se que o peso ao nascer acima de 2.890 g foi associado ao sobrepeso de escolares. Na associação com obesidade, somente o PN > 3.110 g apresentou associação significativa.

Nas Ilhas Seychelles8 (Oceano Índico), a associação positiva entre peso ao nascer e sobrepeso e obesidade em crianças não se confirmou na análise multivariada. Neste caso, o ganho acelerado de peso no primeiro ano de vida (cath-up weight growth), independente do peso ao nascer, mostrou-se significativamente associado à variável desfecho.

Na China24, observou-se que o catch-up weight growth foi mais frequente em recém-nascidos BPN e com idade gestacional no mais baixo tercil. Peso ao nascer elevado e catch-up weight growth ocorrido entre zero e 3 meses de idade foram associados ao sobrepeso (incluindo obesidade) de crianças aos sete anos de idade. O ganho acelerado de peso até os 3 meses de idade teve maior efeito no IMC em idade posterior de meninos que nasceram com mais baixos pesos em comparação às meninas na mesma condição.

Dentre os 7 artigos avaliados, em 4 (57,2%) houve associação significativa entre PN e sobrepeso ou obesidade, sendo que a pontuação atribuída a esses artigos foi muito próxima ao escore máximo que poderiam obter. Dentre os 4 artigos, 3 apresentaram associação dos pesos mais elevados com os desfechos, e 1 apresentou resultados relativos à associação do BPN com baixo peso. Além disso, em 3 artigos houve associação do catch-up growth e da elevada taxa de crescimento no primeiro ano de vida e sobrepeso/obesidade. Os demais 3 estudos (42,8%), não identificaram associação significativa do PN com sobrepeso/obesidade.

 

Discussão

Mediante a análise dos estudos dessa revisão, é possível observar que o peso ao nascer tem se tornado um tema importante à Saúde Pública na atualidade, devido às evidências de uma possível associação ao fenômeno da obesidade na infância e na adolescência.

Resumidamente, entre os 14 artigos analisados, em 5 (35,7%) percebem-se resultados apontando que os pesos ao nascer mais elevados estiveram associados a maiores IMC, percentual de gordura ou sobrepeso/obesidade. Desses estudos, 3 foram realizados em países desenvolvidos da América do Norte e da Europa, nos quais se vem observando um aumento nos índices de EPN, ocasionado provavelmente pela ocorrência de obesidade materna e diabetes gestacional, que também foram fatores associados a sobrepeso e obesidade nas crianças e adolescentes. Dentre os 14 estudos, 3 identificaram associação entre peso ao nascer e sobrepeso/obesidade somente nas análises não ajustadas a fatores de confusão, indicando-se as análises multivariadas como essenciais nas associações para os desfechos sobrepeso e obesidade. A associação entre o catch-up growth e sobrepeso/obesidade foi observada em 4 estudos, sendo que 3 foram realizados em países de IDH ascendente e médio. O catch-up growth caracteriza-se como um crescimento rápido em peso e/ou estatura, compensatório e acima dos padrões normais de crescimento para determinada idade, que ocorre durante a reabilitação resultante de doença ou de deficiência nutricional25,27. Como situações de deficiência nutricional são mais comuns em países de menor desenvolvimento humano e econômico, é provável que se encontre a associação entre esse fenômeno e a obesidade na infância nesses países, enquanto nos mais desenvolvidos a associação predominante é aquela entre o elevado peso ao nascer e a obesidade.

Apenas 1 artigo relatou resultados positivos para a associação entre pesos mais baixos ao nascer e o IMC mais elevado na infância. De acordo com estudo de revisão realizado por Barker28, três principais mecanismos fisiológicos são citados na literatura como sendo os mediadores dos efeitos do BPN no desenvolvimento posterior de obesidade e até mesmo de outras enfermidades. O primeiro mecanismo seria a modificação da expressão fenotípica gerada pela insuficiente replicação de células, a qual parece levar a um armazenamento de energia pelo organismo, como uma resposta adaptativa. Um segundo mecanismo seria a modificação gerada no metabolismo por meio da expressão hormonal, evidenciando-se uma associação entre maior resistência à insulina e BPN. Outra hipótese ainda seria a de que o BPN predispõe o indivíduo a ser mais vulnerável às influências ambientais presentes em fases posteriores do ciclo de vida. Saway29 observou algumas evidências de que a recuperação do BPN por meio do catch-up growth resulta em reservas maiores de massa gordurosa e menor estoque protéico na musculatura. Singhal et al.5 também identificaram que crianças nascidas com baixo peso apresentaram menor quantidade de massa magra na infância e adolescência. Power et al.30, por sua vez, observaram, entre crianças de 7 a 11 anos concebidas com peso insuficiente ao nascer, uma tendência à maturação sexual precoce quando comparadas a crianças concebidas com peso adequado ao nascer. Essas evidências parecem indicar que o baixo peso ao nascer não influencia diretamente na ocorrência de sobrepeso/obesidade, mas sim resulta em mecanismos de adaptação do organismo, tais como o catch-up growth e distúrbios hormonais, os quais poderiam predispor os indivíduos ao desenvolvimento de sobrepeso/obesidade. Por isso, a hipótese de associação entre o baixo peso ao nascer e a obesidade precisa ser mais bem explorada, avaliando-se especialmente a composição corporal em massa magra e massa de gordura.

Ainda sobre o baixo peso ao nascer, observou-se que a avaliação do peso ao nascer pela idade gestacional foi identificada como uma importante variável de interesse nos estudos, já que pode determinar se o recém-nascido sofreu restrição do crescimento intra-uterino (RCIU) ou se é um recém-nascido pré-termo com desenvolvimento uterino adequado à idade gestacional.

Em relação à qualidade metodológica dos artigos, percebe-se que os de delineamento transversal obtiveram escores mais elevados em relação à pontuação máxima atribuída a eles. Isso pode ser explicado pela operacionalização mais facilitada desse tipo de estudo e também pela escala utilizada, que foi desenvolvida especificamente para estudos de coorte e intervenção. Como motivo da menor pontuação nos estudos de coorte cita-se a susceptibilidade de perda amostral e, por isso, a necessidade metodológica de comparar as características dos sujeitos não avaliados àqueles que permanecem no estudo, havendo maior rigor no quesito validade externa.

Vale ressaltar que ocorreu uso de diferentes populações-referência para identificar a prevalência de sobrepeso e obesidade entre as crianças e os adolescentes estudados, e houve significante variabilidade na categorização do peso ao nascer. Essa divergência entre os métodos dificultou a comparabilidade entre os estudos, e possivelmente alterou a força de associação entre as variáveis de interesse em cada estudo, pois diferentes categorizações para o IMC interferem na prevalência do desfecho. Até mesmo numa mesma população, caso diferentes critérios para diagnosticar sobrepeso e obesidade forem aplicados, dados distintos podem ser gerados31,32 e, por isso, vale destacar que um estudo de revisão mais vasto, utilizando artigos com o mesmo critério diagnóstico traria resultados mais consistentes sobre a associação de interesse.

 

Considerações Finais

O elevado peso ao nascer apareceu associado ao sobrepeso/obesidade na maioria dos artigos. Ressalta-se a necessidade de serem desenvolvidos mais estudos que avaliem a associação entre baixo peso ao nascer e sobrepeso/obesidade, já que o número de artigos capturados que verificaram associação com diferentes categorias do estado nutricional foi mais escasso. A padronização de critérios para definir sobrepeso/obesidade entre crianças e adolescentes é essencial para facilitar a comparação entre os estudos.

Em relação aos estudos por nível de desenvolvimento dos países, observou-se que naqueles com IDH elevado a relação entre elevado peso ao nascer e sobrepeso/obesidade foi mais evidente que nos demais países, e nos países em desenvolvimento (IDH elevado, mas ainda ascendente e IDH médio) o catch-up growth associou-se ao sobrepeso/obesidade.

 

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Correspondência:
Camila Elizandra Rossi
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E-mail: camilarnutri@yahoo.com.br

Recebido em: 08/05/09
Versão final reapresentada em: 11/03/10
Aprovado em: 19/04/10

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