ARTIGOS ORIGINAIS

 

Fatores associados ao consumo adequado de frutas, legumes e verduras em adultos de Florianópolis

 

Factors associated to the adequate consumption of fruits and vegetables in adults from Florianópolis, Southern Brazil

 

 

Vanessa Caroline CamposI; João Luiz BastosII; Heide GaucheIII; Antonio Fernando BoingIV; Maria Alice Altenburg de AssisI

IPrograma de Pós-Graduação em Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil
IIPrograma de Pós-Graduação em Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, Brasil
IIILaboratório de Comportamento Alimentar do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil
IVDepartamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: O consumo adequado de frutas, legumes e verduras é considerado um importante fator na redução da incidência de doenças cardiovasculares e determinados tipos de câncer.
OBJETIVO: Estimar a prevalência do consumo adequado de frutas, legumes e verduras e fatores associados.
MÉTODOS: Estudo transversal com amostra probabilística de adultos (N = 1.890), residentes em domicílios com linhas telefônicas fixas em Florianópolis, 2005. O desfecho foi o consumo adequado de frutas, legumes e verduras, definido pela frequência diária de cinco ou mais vezes de consumo destes alimentos. Os resultados das análises multivariáveis para associação entre consumo adequado e variáveis independentes foram expressos como razão de prevalência.
RESULTADOS: A prevalência do consumo adequado de frutas, legumes e verduras foi de 21,9% (25,0% mulheres e 18,7% homens). Entre as mulheres, maiores prevalências de consumo adequado foram associadas ao aumento da faixa etária, ao fato de não trabalhar (RP = 1,5; IC 95%: 1,1; 2,0), ter estado de saúde bom ou excelente (RP = 1,4; IC 95%: 1,0; 1,8) e ao não tabagismo (RP = 1,3; IC 95%: 1,0; 1,9). Entre os homens, maior prevalência de consumo adequado foi observada para os que relataram ser casados (RP = 1,9; IC 95%: 1,2; 3,0) e não ter excesso de peso (RP = 1,9; IC 95%: 1,3; 2,7). Em ambos os sexos o consumo adequado apresentou associação com atividade física no lazer (mulheres RP = 1,5; IC 95%: 1,2; 1,9; homens RP = 1,8; IC 95%: 1,1; 2,8).
CONCLUSÕES: Intervenções visando aumentar este consumo devem levar em consideração as diferenças observadas entre os sexos.

Palavras-chaves: Consumo de alimentos. Frutas. Hortaliças. Entrevistas; Monitoramento de fatores de risco.


ABSTRACT

INTRODUCTION: The adequate consumption of fruits and vegetables is regarded as an important factor for the reduction in the incidence of cardiovascular diseases and specific types of cancer. Objective: To estimate the prevalence of adequate consumption of fruits and vegetables and associated factors.
METHODS: A cross-sectional study with a random sample of adults (N = 1,890) from Florianopolis (Southern Brazil), living in households with a fixed telephone line in 2005. The study outcome was the adequate consumption of fruits and vegetables defined as the frequency of consumption of five or more times/day. Multivariate analysis of the association between adequate consumption and independent variables was expressed as prevalence ratios.
RESULTS: The prevalence of adequate consumption of fruits and vegetables was 21.9% (25.0% among women and 18.7% among men). Among women, higher frequencies of adequate consumption was associated with age, not currently working (PR = 1.5; 95%CI: 1.1, 2.0), health status perceived as good or excellent (PR = 1.4; 95%CI: 1.0, 1.8), and never having smoked (PR = 1.3; IC 95%: 1.0, 1.9). Men who were married (PR = 1.9; 95%CI: 1.2, 3.0) and who showed no overweight (PR = 1.9; 95%CI: 1.3, 2.7) were more likely to report adequate consumption. For both sexes the adequate consumption was associated with leisure time physical activity (women PR = 1.5; 95%CI 1.2, 1.9; men PR = 1.8; 95%CI 1.1; 2.8).
CONCLUSIONS: Health interventions aimed at increasing the consumption of fruits and vegetables should take into account the above mentioned sex differences.

Keywords: Interviews. Food consumption. Fruits. Vegetables. Interviews. Surveillance of risk factors.


 

 

Introdução

A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconheceu evidências convincentes indicando que a ingestão de 400 g/dia de frutas e verduras (equivalente a cinco porções/dia) está associada à reduzida incidência de doença cardiovascular e determinados tipos de câncer1. Esta recomendação baseia-se no aumento do risco de doenças cardiovasculares com ingestão de frutas e verduras inferiores a 200 g/dia, bem como nos benefícios provenientes da ingestão de quantidades superiores a 400 g/dia destes alimentos2. As frutas, legumes e verduras (FLV) também são benéficos na prevenção e no tratamento do excesso de peso e do diabetes3,4.

Promover o aumento do consumo de FLV em nível populacional tornou-se uma prioridade em saúde pública em vários países na última década1. De modo análogo, este padrão de consumo configura-se como uma das metas do Guia Alimentar da População Brasileira5. No entanto, no Brasil e em diversos outros países, evidências sugerem que o consumo de FLV está substancialmente abaixo da recomendação da OMS6-10.

Na Pesquisa Mundial de Saúde, conduzida no Brasil no ano de 2003 com 5.000 adultos de idade igual ou superior a 18 anos, observou-se que somente 13,5% dos indivíduos pesquisados referiram consumir cinco ou mais porções de FLV/dia8. Nesse mesmo sentido, os resultados das Pesquisas de Orçamento Familiar (POF) sobre a disponibilidade de alimentos em domicílios brasileiros, no período compreendido entre 1974 e 2003, apontaram presença insuficiente de FLV na dieta das residências investigadas9.

Os dados do sistema VIGITEL (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) em 2007 indicaram que a frequência de adultos que relataram consumo de FLV pelo menos cinco vezes/dia em cinco ou mais dias da semana (denominado consumo recomendado) foi pequena na maioria das cidades estudadas, variando entre 10% em Porto Velho e 23% em São Paulo10. O VIGITEL foi implantado no Brasil em 2006, pelo Ministério da Saúde, para contribuir no monitoramento da frequência e da distribuição dos principais fatores determinantes das doenças crônicas não-transmissíveis (DCNT)11. Este sistema foi previamente testado sob o nome SIMTEL (Sistema Municipal de Monitoramento de Fatores de Risco para Doenças Crônicas Não-transmissíveis a partir de Entrevistas Telefônicas) na cidade de São Paulo12 e posteriormente em outras quatro capitais brasileiras, incluindo a cidade de Florianópolis. A análise dos resultados obtidos no SIMTEL/São Paulo indicou boa confiabilidade das estimativas obtidas13,14, maior agilidade e menor custo em comparação com levantamentos de base domiciliar11.

O objetivo deste estudo foi estimar a prevalência do consumo adequado de frutas, legumes e verduras (cinco ou mais vezes/dia) e investigar a associação com fatores sociodemográficos e comportamentais em adultos de Florianópolis, participantes do SIMTEL.

 

Métodos

Este é um estudo transversal de base populacional, abrangendo amostra probabilística da população adulta com idade igual ou superior a 18 anos, residente em domicílios do município de Florianópolis servidos por linhas telefônicas fixas. Trata-se dos dados do SIMTEL, baseado em inquérito realizado no ano de 2005. O SIMTEL também foi conduzido em outras quatro capitais brasileiras: Belém, Goiânia, Salvador e São Paulo. Os métodos do SIMTEL adotados no município de São Paulo12 também foram empregados em Florianópolis. O plano amostral, condução do estudo, processamento e controle de dados deste sistema em Florianópolis foram detalhados em outra publicação15. Foi estipulado um número mínimo de duas mil entrevistas, permitindo estimar com nível de confiança de 95% e erro máximo de dois pontos percentuais a frequência de qualquer fator de risco na população estudada12. Em Florianópolis foram realizadas 2.013 entrevistas entre maio e dezembro de 2005. A taxa de resposta do estudo (número de entrevistas/número de linhas elegíveis) foi de 61,4%. As entrevistas tiveram a duração média de 7,5 (desvio-padrão = 3,3) minutos. Para as análises do presente estudo, foram excluídos os dados das gestantes (N = 17) e dos indivíduos que não informaram o peso e/ou a altura (n = 106).

A variável de desfecho foi o consumo de FLV cinco ou mais vezes ao dia, doravante denominado "consumo adequado". A variável "consumo adequado", baseada na frequência, foi definida com o intuito de compará-la com a recomendação da OMS sobre o consumo de 400g/dia de FLV (equivalente a cinco porções/dia)1. Devido à dificuldade inerente à padronização do conceito de "porção" para os diferentes alimentos, as perguntas foram direcionadas no sentido da frequência de consumo e não sobre o número de porções diárias desses alimentos. A frequência diária de consumo foi estimada por meio das respostas às seis perguntas do questionário SIMTEL sobre o consumo de FLV. Primeiramente os indivíduos foram indagados sobre o hábito de comer estes alimentos: "O Sr. (a) costuma comer frutas/ saladas cruas/ verduras e legumes cozidos todos ou quase todos os dias?" (opção de resposta: sim ou não). Para os respondentes que declararam sim, foram dirigidas outras três questões sobre a frequência diária de consumo: "Num dia comum, quantas vezes o (a) Sr. (a) come frutas?" (opções de resposta: uma, duas ou três vezes ou mais)"; "Num dia comum, quantas vezes o (a) Sr. (a) come saladas cruas"? (opções de respostas: no almoço, no jantar ou no almoço e no jantar); "Num dia comum, quantas vezes o (a) Sr. (a) come verduras e legumes cozidos, como couve, cenoura, chuchu, berinjela, abobrinha, sem contar batata ou mandioca (opções de respostas: no almoço, no jantar ou no almoço e no jantar). Após a somatória dos valores de frequência diária de consumo de frutas, legumes (verduras e legumes cozidos) e verduras (saladas cruas), os respondentes foram classificados em consumidores de FLV em cinco ou mais vezes por dia - consumo adequado (sim/não).

As variáveis selecionadas do questionário SIMTEL para estudar a associação com o consumo adequado de FLV foram: a) sociodemográficas (idade, peso e altura autorreferidos, escolaridade, estado civil e inserção no mercado trabalho), b) saúde (autoavaliação do estado de saúde, realização de dieta), c) fatores de risco (tabagismo, consumo de bebida alcoólica) e de proteção (frequência e duração da prática de exercícios físicos no lazer) para a ocorrência de DCNT. O questionário foi submetido a estudos de validação e reprodutibilidade para os indicadores de atividade física e sedentarismo13 e do consumo de alimentos e bebidas alcoólicas14 com os participantes do SIMTEL/São Paulo. A avaliação indicou boa reprodutibilidade e adequada validade para a maioria destes indicadores13,14.

A idade referida em anos completos foi agrupada em faixas etárias (18 a 24; 25 a 34; 35 a 44; 45 a 54 ou > 55 anos), e a escolaridade em anos de estudo (0 a 4; 5 a 8; 9 a 11 ou > 12 anos completos de estudo). O estado civil foi coletado conforme as opções solteiro, casado, viúvo/separado, e dicotomizado em "casado" ou "não casado" (solteiro, viúvo ou separado). A inserção no mercado de trabalho foi indicada por "sim" ou "não". O excesso de peso foi classificado segundo os valores do índice de massa corporal (IMC), calculados a partir do peso (kg), dividido pelo quadrado da altura (m), sendo categorizado em "não" (IMC<25 kg/m2) ou "sim" (IMC>25 kg/m2), de acordo com os pontos de corte da OMS16. Sobre a realização de dieta no momento da entrevista, os respondentes informaram "sim" ou "não". A auto-avaliação da saúde, indicada por meio das opções de resposta: excelente, boa, regular ou ruim, foi classificada em "boa/excelente" ou "regular/ruim". Informação sobre o consumo abusivo de bebida alcoólica foi obtida por respostas "sim" ou "não" à pergunta sobre a ingestão de cinco doses de qualquer bebida alcoólica em pelo menos um dia do último mês, independentemente do sexo. O tabagismo foi categorizado em "fumante", "ex-fumante" ou "nunca fumou". Com relação à atividade física no lazer, os respondentes foram classificados em três níveis: 1) "inativos" (referência a "não" realização de atividade física ou esporte, ou de realização com frequência inferior a uma vez por semana); 2) "insuficientemente ativos" (realização de atividade física ou esporte pelo menos uma vez por semana, mas abaixo do nível 3); 3) "ativos" (referência de realização de exercícios físicos de moderada intensidade, com frequência semanal de cinco ou mais vezes e duração de pelo menos 30 minutos ou de exercícios físicos de vigorosa intensidade, com frequência semanal de três ou mais vezes e duração de pelo menos 20 minutos)17.

A frequência diária do consumo de frutas, legumes e verduras, e do consumo adequado de FLV, foi descrita por meio de distribuição percentual para a população total e segundo o sexo. Diferenças entre os sexos foram avaliadas pelo teste qui-quadrado.

As análises bivariáveis e multivariáveis foram realizadas no programa Stata (Stata Corporation, College Station, Estados Unidos), versão 9. A associação do consumo adequado de FLV com as variáveis independentes foi estimada através da razão de prevalência com intervalos de confiança de 95% (IC95%), calculada por meio da regressão de Poisson com variância robusta18. Todas as variáveis independentes cuja associação bivariável com o consumo adequado de FLV apresentou valor-p < 0,20 foram incluídas no modelo de regressão multivariável, tendo sido removidas do mesmo de acordo com o procedimento de eliminação retrógrada (backward elimination). As variáveis com p < 0,05 foram consideradas como fatores associados ao consumo adequado de FLV.

As análises foram estratificadas por sexo e todas as estimativas de prevalência foram produzidas para a população adulta total do município, conforme procedimento descrito por Monteiro et al.12, utilizando fatores de expansão de acordo com a distribuição sociodemográfica do Censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para o município de Florianópolis.

O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisas com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina e da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi substituído pelo consentimento verbal, devidamente gravado, obtido por ocasião dos contatos telefônicos.

 

Resultados

A amostra deste estudo foi composta por 1.890 indivíduos (58,1% do sexo feminino). A média de idade (± desvio-padrão) foi de 39,6 anos (± 15,4) para as mulheres e de 38,4 anos (± 14,8) para os homens. Em relação à escolaridade, as mulheres referiram, em média, 10 (± 4,5) anos de estudo, e os homens 9,9 (± 4,7).

A Tabela 1 apresenta a distribuição absoluta e relativa da população estudada, estratificada por sexo, segundo a frequência diária de consumo de frutas, legumes e verduras e a frequência de consumo adequado de FLV. A prevalência total de consumo adequado de FLV foi de 21,9%. Uma maior proporção de mulheres do que de homens relatou consumir frutas, legumes e verduras duas vezes ou mais ao dia. A única situação em que os homens apresentaram maior frequência foi para o consumo de verduras duas vezes/dia, mas esta diferença não foi estatisticamente significativa. O consumo adequado de FLV foi também maior entre as mulheres, comparativamente aos homens (25% contra 19%, p = 0,001).

As Tabelas 2 e 3 apresentam a distribuição da amostra segundo a prevalência de consumo adequado de FLV e as razões de prevalências brutas e ajustadas para associação entre consumo adequado de FLV e as variáveis independentes, segundo o sexo. A prevalência do consumo adequado de FLV foi diretamente proporcional ao avanço da idade em ambos os sexos. O consumo adequado de FLV foi inversamente relacionado com a escolaridade entre os homens, mas não houve um padrão claro desta associação para as mulheres. Em ambos os sexos a prevalência do consumo adequado de FLV foi maior entre os indivíduos que declararam ser casados, não terem atividade no mercado de trabalho e classificados como insuficientemente ativos e ativos (em comparação aos inativos no lazer). O consumo abusivo de bebidas alcoólicas e a realização ou não de dieta apresentaram fraca associação com a frequência de consumo adequado de FLV em ambos os sexos. Maior frequência de consumo adequado de FLV foi observada entre as mulheres que relataram o estado de saúde "bom" ou "excelente" e entre as que declararam ser "ex-fumantes" e que "nunca fumaram". Os homens que não apresentavam excesso de peso tiveram uma prevalência de consumo adequado de FLV quase 70% maior do que os com excesso de peso.

As análises bivariáveis para as mulheres mostraram associação entre o consumo adequado de FLV com o aumento da faixa etária, condição de não trabalhar, tabagismo (categoria nunca fumante) e realização de atividade física no lazer (categoria de insuficientemente ativas). O ajuste nas análises multivariáveis mostrou que as mulheres que não trabalhavam e que realizavam atividade física no lazer (categoria de insuficientemente ativas) relataram maior consumo adequado de FLV, quando comparadas às que trabalhavam e às inativas no lazer. Relativamente à faixa etária, estado de saúde e tabagismo, o teste de tendência linear mostrou significância estatística, mas o intervalo de confiança das categorias de comparação incluiu a unidade (Tabela 2).

Para os homens, as análises bivariáveis mostraram associação com ausência de excesso de peso e realização de atividade física no lazer (categoria de ativos). As análises ajustadas confirmaram as associações verificadas nas análises bivariáveis e revelaram associação com o estado civil (casado) (Tabela 3).

 

Discussão

Neste estudo conduzido com os participantes do SIMTEL/Florianópolis, a prevalência total de consumo adequado de FLV (21,9%; IC95% 20,0-23,8) foi consistente com a estimativa do VIGITEL/Florianópolis em 2007 (18,5%, IC95% 16,4-20,6%)10. Entretanto, estes dados não são diretamente comparáveis, pois no questionário VIGITEL 200710 foram incluídas perguntas sobre a frequência semanal de consumo de FLV, possibilitando estimar o consumo adequado em cinco ou mais dias da semana.

Observou-se que a prevalência de consumo adequado de FLV no SIMTEL/Florianópolis foi bem superior à encontrada no SIMTEL/Belém (2,6%)19. Diferenças socioeconômicas entre as populações destas cidades, suas características culturais, clima e condições de produção e comercialização de alimentos, poderiam ser aventadas para explicar tal discrepância.

A tendência de maior consumo de FLV entre as mulheres, observada no presente estudo, foi também encontrada no SIMTEL conduzido nas cidades de São Paulo12,20, Goiânia21 e Belém19 e tem sido consistentemente relatada em estudos epidemiológicos no Brasil e em outros países, seja por meio de entrevistas realizadas por telefone6,10,11, seja por outros tipos de inquéritos7,8. Um maior interesse por questões relacionadas ao conhecimento nutricional, alimentação saudável, realização de dietas e consumo de alimentos de baixo teor calórico pode influenciar as escolhas alimentares das mulheres, explicando, assim, as diferenças de consumo entre os sexos22.

Por outro lado, a ausência de associação entre o consumo adequado de FLV e a escolaridade no SIMTEL/Florianópolis não foi corroborada pela maioria dos estudos disponíveis para comparação. No SIMTEL/Belém a chance de consumo adequado de FLV foi 3,1 vezes maior para os homens que estudaram 12 ou mais anos, comparativamente aos que estudaram menos; para as mulheres, não foi observada diferença com a escolaridade19. No SIMTEL de São Paulo20 e de Goiânia21 o consumo de FLV aumentou de acordo com a idade e a escolaridade, em ambos os sexos20, apesar de a frequência de sujeitos que relatou o consumo adequado não ter sido especificamente avaliada nestes estudos. Os dados do VIGITEL em 2007 para o conjunto da população adulta das capitais brasileiras e do Distrito Federal mostraram que o consumo recomendado de FLV aumentou com a idade e o nível de escolaridade10. Na Pesquisa Mundial de Saúde, o consumo adequado de FLV (> 5 porções/dia) aumentou com a idade e o nível de escolaridade da população adulta brasileira8.

Uma das possíveis explicações da escolaridade não ter se revelado um indicador socioeconômico associado ao consumo adequado de FLV no SIMTEL/Florianópolis, é o fato de a cidade dispor de estabelecimentos (atualmente denominados "Direto do Campo"), que comercializam frutas e hortaliças a baixo preço (R$ 0,85/quilo em média, para o ano de 2005) e que se localizam em diversos pontos, inclusive na maioria dos bairros periféricos e menos privilegiados. É possível que estes estabelecimentos tenham favorecido o acesso das pessoas com menos escolaridade a estes alimentos, possibilitando o consumo. O acesso local ao comércio de alimentos e a disponibilidade de FLV são considerados determinantes ambientais importantes para o consumo destes tipos de alimentos23. Claro et al.24 mostraram que a redução dos preços de FLV pode influenciar positivamente a participação desses alimentos no padrão alimentar da população da cidade de São Paulo.

Outras associações específicas segundo o sexo foram também observadas no presente estudo: maior prevalência de consumo adequado de FLV foi observada entre os homens que relataram ser casados e não ter excesso de peso; entre as mulheres que declararam não estar trabalhando e ter estado de saúde bom ou excelente. Fatores relacionados ao suporte social, tal como a situação conjugal, têm sido mencionados como impactantes no comportamento alimentar. Dietas saudáveis, sobretudo aquelas que incluem o consumo de FLV, são mais comumente observadas entre pessoas que são casadas ou que vivem com outros, especialmente entre os homens25. Por outro lado, a associação do consumo adequado de FLV com a situação de não estar trabalhando entre as mulheres pode ser explicada pela maior disponibilidade de tempo para a compra de produtos frescos, preparo e realização de refeições e lanches com frutas e hortaliças22,23.

Observou-se maior frequência de consumo adequado de FLV entre os participantes de ambos os sexos que relataram a realização de atividade física no lazer e entre as mulheres que declararam não ser fumantes por ocasião da entrevista, sugerindo aglutinação de comportamentos que caracterizam um estilo de vida saudável. Outros estudos relataram associações inversas entre o consumo de FLV e outros comportamentos de estilo de vida não-saudável, incluindo o baixo nível de atividade física26 e tabagismo27.

Entre as limitações do presente estudo destaca-se que a amostra entrevistada pelo SIMTEL só permite inferências populacionais para a população adulta que reside em domicílios cobertos pela rede de telefonia fixa. O acesso aos serviços de telefonia fixa não é universal e, provavelmente, é menor nos estratos de menor nível socioeconômico. Em vista disso, foram aplicados os pesos pós-estratificação, recomendados para corrigir, ao menos parcialmente, vieses determinados pela não-cobertura universal da rede telefônica12.

Além disso, todas as informações obtidas foram auto-relatadas, permitindo vieses por lapsos de memória ou mesmo por depoimentos tendenciosos na direção do desejável. Entretanto, estudos com os participantes do SIMTEL/São Paulo13,14 apresentaram indicadores de atividade física, sedentarismo, consumo de alimentos e bebidas com boa reprodutibilidade e validade adequada, apesar de estes resultados não poderem ser projetados para Florianópolis ou outras cidades, em função de peculiaridades culturais e regionais.

Outra limitação refere-se à consideração do consumo adequado de FLV como sendo de cinco ou mais vezes por dia ao invés do número de porções diárias desses alimentos, devido às dificuldades já mencionadas. Estas limitações representam práticas que são comuns a outros estudos. A maioria das investigações populacionais, especialmente as conduzidas por inquérito telefônico, utiliza medidas de frequências de consumo de FLV, sem considerar o tamanho das porções6,10.

Entre os aspectos positivos do presente estudo, destaca-se a sua contribuição, por meio da análise de dados comparáveis, na descrição da magnitude e distribuição de um comportamento alimentar sabidamente protetor para DCNT em diferentes regiões do Brasil. Essas informações podem fornecer subsídios à tomada de decisões em políticas públicas voltadas à promoção da alimentação saudável.

Concluindo, os resultados deste estudo indicaram que menos de um quarto da população adulta entrevistada por telefone atingiu a recomendação de consumo adequado de FLV. Intervenções visando aumentar este consumo devem levar em consideração as seguintes diferenças observadas, conforme sexo: entre os homens, a frequência de adesão a esta recomendação foi inferior, quando comparada às mulheres, e maior prevalência de consumo adequado foi observada para os que relataram ser casados e não ter excesso de peso. Entre as mulheres, maior prevalência de consumo adequado foi associada ao aumento da faixa etária, ao fato de não trabalhar, ter estado de saúde bom ou excelente e ao não tabagismo. Em ambos os sexos, o consumo adequado foi associado com a atividade física no lazer.

 

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Correspondência:
Maria Alice Altenburg de Assis
Departamento de Nutrição
Universidade Federal de Santa Catarina
Campus Universitário, Trindade
CEP 88040-970, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil
E-mail: massis@ccs.ufsc.br

Recebido em: 30/06/09
Versão final reapresentada em: 17/02/10
Aprovado em: 23/02/10
Financiamento: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq Edital CT - Saúde/MCT/MS/CNPq nº. 30/2004 - Alimentação e Nutrição).

Associação Brasileira de Pós -Graduação em Saúde Coletiva São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revbrepi@usp.br