Fatores associados ao conhecimento sobre a toxoplasmose entre gestantes atendidas na rede pública de saúde do município de Niterói, Rio de Janeiro, 2013-2015**Artigo baseado na tese de Doutorado da autora Fernanda Loureiro de Moura, intitulada 'Ocorrência de toxoplasmose congênita, avaliação do conhecimento sobre toxoplasmose e do acompanhamento sorológico das gestantes e implantação de medidas de prevenção primária nos programas de pré-natal da Rede Pública de Saúde do município de Niterói-RJ', apresentada junto ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Medicina Tropical da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), graças ao convênio entre a Fiocruz e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)/Ministério da Educação (MS): Brasil sem Miséria. A tese, desenvolvida sob orientação da Dra. Maria Regina Reis Amendoeira e co-orientação da Dra. Patrícia Riddell Millar Goulart, foi defendida em 2016. Agência financiadora: Capes/MS. Bolsista do Programa Brasil sem Miséria: Fernanda Loureiro de Moura.

Factores asociados a conocimientos sobre toxoplasmosis entre mujeres embarazadas atendidas en la red pública de salud de la ciudad de Niterói, Rio de Janeiro, 2013-2015

Fernanda Loureiro de Moura Patrícia Riddell Millar Goulart Ana Paula Pereira de Moura Thais Silva de Souza Ana Beatriz Monteiro Fonseca Maria Regina Reis Amendoeira Sobre os autores

Resumo

OBJETIVO:

analisar os fatores associados ao conhecimento sobre a toxoplasmose entre gestantes atendidas na rede pública de saúde do município de Niterói, Rio de Janeiro.

MÉTODOS:

trata-se de um estudo transversal, realizado com gestantes atendidas em oito unidades de saúde; os dados foram coletados por meio de questionário padronizado, no período de abril de 2013 a fevereiro de 2015.

RESULTADOS:

entre as 405 gestantes entrevistadas, 173 (42,7%) conheciam a toxoplasmose e destas, 24,3% receberam informações por amigos; a proporção de gestantes com conhecimento sobre toxoplasmose aumentou com a idade (p<0,001), a escolaridade (p<0,001) e o número de gestações (p=0,031); a história de aborto também esteve associada com o conhecimento sobre toxoplasmose (p=0,019).

CONCLUSÃO:

as variáveis 'faixa etária', 'escolaridade', 'número de gestações' e 'história de aborto' foram importantes para o conhecimento sobre toxoplasmose entre as gestantes da rede pública de Niterói.

Palavras-chave:
Toxoplasmose Congênita; Gestantes; Prevenção Primária; Estudos Transversais

Resumen

OBJETIVO:

analizar los factores asociados con el conocimiento sobre toxoplasmosis en mujeres embarazadas en el sistema de salud pública en la ciudad de Niterói, Rio de Janeiro, Brasil.

MÉTODOS:

estudio transversal con mujeres embarazadas de ocho centros de salud; los datos se recogieron mediante un cuestionario estandarizado, entre abril de 2013 y febrero de 2015.

RESULTADOS:

entre las 405 mujeres entrevistadas, 173 (42,7%) conocían la toxoplasmosis y, de estas, 24,3% recibieron esta información de amigos; la proporción de mujeres embarazadas con conocimientos sobre toxoplasmosis aumentó con la edad (p<0,001), la educación (p<0,001) y el número de embarazos (p=0,031); historia de aborto también se asoció con un mayor conocimiento sobre toxoplasmosis (p=0,019).

CONCLUSIÓN:

las variables 'edad', 'educación', 'número de embarazos' y 'historia de aborto' fueran importantes para el conocimiento sobre toxoplasmosis en mujeres embarazadas en el sector público en Niterói.

Palabras-clave:
Toxoplasmosis Congénita; Mujeres Embarazadas; Prevención Primaria; Estudios Transversales

Introdução

A infecção congênita pelo Toxoplasma gondii é um problema de Saúde Pública e, se as gestantes não forem tratadas, pode acarretar sequelas fetais.11. Jones JL, Lopez A, Wilson M, Schulkin J, Gibbs R. Congenital toxoplasmosis: a review. Obstet Gynecol Surv. 2001 May;56(5):296-305.

2. Spalding SM, Amendoeira MRR, Ribeiro LC, Silveira C, Garcia AP, Camilo-Coura L. Estudo prospectivo de gestantes e seus bebês com risco de transmissão de toxoplasmose congênita em município do Rio Grande do Sul. Rev Soc Bras Med Trop. 2003 jul-ago;36(4):483-91.

3. Remington JS, McLeod R, Wilson CB, Desmonts G. Toxoplasmosis. In: Remington JS, Klein JO, Wilson CB, Baker CJ. Infectious diseases of the fetus and newborn infant. 7th ed. Philadelphia: Elsevier, 2011. p. 918-1041.
-44. Silva MG, Vinaud MC, Castro AM. Prevalence of toxoplasmosis in pregnant women and vertical transmission of Toxoplasma gondii in patients from basic units of health from Gurupi, Tocantins, Brazil, from 2012 to 2014. PLoS One.2015 Nov;10(11):e0141700 A infecção fetal acontece quando a mulher suscetível é infectada durante a gestação,55. Thiebaut R, Leproust S, Chêne G, Glibert R. Effectiveness of prenatal treatment for congenital toxoplamosis: a meta-analysis of individual patients' data. Lancet. 2007 Jan;369(9556):115-22. e ocorrem reagudizações de infecções crônicas33. Remington JS, McLeod R, Wilson CB, Desmonts G. Toxoplasmosis. In: Remington JS, Klein JO, Wilson CB, Baker CJ. Infectious diseases of the fetus and newborn infant. 7th ed. Philadelphia: Elsevier, 2011. p. 918-1041. ou reinfecções pelo protozoário.66. Gavinet MF, Robert F, Firtion G, Delouvrier E, Hennequin C, Mawrin JR, et al. Congenital toxoplasmosis due to maternal reinfection during pregnancy. J Clin Microbiol.1997 May;35(5):1276-7.

Ainda não existe uma vacina comercial contra toxoplasmose para gestantes, de modo que é importante a adoção de medidas preventivas.77. Ambroise-Thomas P. Toxoplasmose congénitale: les différentes stratégies préventives. Arch Pediatr. 2003 Feb;10 Suppl 1:12-4. A prevenção primária caracteriza-se por programas de educação em saúde, principalmente para as soronegativas, no sentido de evitar a soroconversão.88. Foulon W. Congenital toxoplasmosis: is screening desirable? Scand J Infect Dis Suppl.1992;84:11-7.,99. Contiero-Toninato AP, Cavalli HO, Marchioro AA, Ferreira EC, Caniatti MC, Breganó RM, et al. Toxoplasmosis: an examination of knowledge among health professionals and pregnant women in a municipality of the State of Paraná. Rev Soc Bras Med Trop. 2014 Mar-Apr;47(2):198-203. A secundária consiste no rastreamento sorológico para detecção da soroconversão, para que o tratamento seja o mais precoce possível e não haja infecção fetal.88. Foulon W. Congenital toxoplasmosis: is screening desirable? Scand J Infect Dis Suppl.1992;84:11-7. A prevenção terciária atua no recém-nascido já infectado, buscando tratar e prevenir complicações.1010. Paul M, Petersen E, Szczapa J. Prevalence of congenital Toxoplasma gondii infection among newborns from the Poznań region of Poland: validation of a new combined enzyme immunoassay for Toxoplasma gondii-specific immunoglobulin A and immunoglobulin M antibodies. J Clin Microbiol. 2001 May;39(5):1912-6.

No Brasil, não há notificação da toxoplasmose congênita em muitas localidades, dificultando a vigilância do agravo.1111. Vaz RS, Rauli P, Mello RG, Cardoso MA. Toxoplasmose congênita: uma doença negligenciada? atual política de saúde pública brasileira. Facts Reports. 2011 Nov; 3 Spec No,1212. Moura FL, Goulart PRM, Sudre AP, Amendoeira MRR. Programs for controlling congenital toxoplasmosis: study of current status in a brazilian municipality. Rev Patol Trop. 2015 out-dez;44(4):478-82. Muitas mulheres não realizam o pré-natal ou procuram o serviço tardiamente,1313. Rosa CQ, Silveira DS, Costa JSD. Fatores associados à não realização de pré-natal em município de grande porte. Rev Saude Publica. 2014 dez;48(6):977-84. o que também pode dificultar o controle da toxoplasmose.

A ocorrência da infecção pelo T. gondii durante a gestação tem sido relatada em diferentes regiões do país, tendo-se encontrado soroprevalência de 2% para anticorpos IgM anti-T. gondii em gestantes de São José do Rio Preto-SP,1414. Mattos CCB, Spegiorin LCJF, Meira CS, Silva TC, Ferreira AIC, Nakashima F, et al. Anti-Toxoplasma gondii antibodies in pregnant women and their newborn infants in the region of São José do Rio Preto, São Paulo, Brazil. São Paulo Med J. 2011;129(4):261-6. 3,6% na Região do Alto Uruguai-RS,22. Spalding SM, Amendoeira MRR, Ribeiro LC, Silveira C, Garcia AP, Camilo-Coura L. Estudo prospectivo de gestantes e seus bebês com risco de transmissão de toxoplasmose congênita em município do Rio Grande do Sul. Rev Soc Bras Med Trop. 2003 jul-ago;36(4):483-91. 2,4% em Porto Alegre-RS,1515. Varella IS, Wagner MB, Darela AC, Nunes LM, Muller RW. Prevalência de soropositividade para toxoplasmose em gestantes. J Pediatr (Rio J). 2003 jan-fev;79(1):69-74. 0,25% em Niterói-RJ,1616. Moura FL, Amendoeira MR, Bastos OM, Mattos DP, Fonseca AB, Nicolau JL, et al. Prevalence and risk factors for Toxoplasma gondii infection among pregnant and postpartum women attended at public healthcare facilities in the City of Niterói, State of Rio de Janeiro, Brazil. Rev Soc Bras Med Trop. 2013 Mar-Apr;46(2):200-7. 5,33% em Gurupi-TO44. Silva MG, Vinaud MC, Castro AM. Prevalence of toxoplasmosis in pregnant women and vertical transmission of Toxoplasma gondii in patients from basic units of health from Gurupi, Tocantins, Brazil, from 2012 to 2014. PLoS One.2015 Nov;10(11):e0141700 e 0,9% em Caxias-MA.1717. Câmara JT, Silva MG, Castro AM. Prevalência de toxoplasmose em gestantes atendidas em dois centros de referência em uma cidade do Nordeste, Brasil. Rev Bras Ginecol Obstet. 2015 fev;37(2):64-70. Há mais de uma década, estudos mostraram taxas de incidência da toxoplasmose congênita no Brasil de 0,2 a 5,0/1.000 nascimentos.22. Spalding SM, Amendoeira MRR, Ribeiro LC, Silveira C, Garcia AP, Camilo-Coura L. Estudo prospectivo de gestantes e seus bebês com risco de transmissão de toxoplasmose congênita em município do Rio Grande do Sul. Rev Soc Bras Med Trop. 2003 jul-ago;36(4):483-91.,1818. Neto EC, Anele E, Rubim R, Brites A, Schulte J, Becker D, et al. High prevalence of congenital toxoplasmosis in Brazil estimated in a 3-year prospective neonatal screening study. Int J Epidemiol. 2000 Oct;29(5):941-7.,1919. Segundo GR, Silva DA, Mineo JR, Ferreira MS. Congenital toxoplasmosis in Uberlândia, MG, Brazil. J Trop Pediatr. 2004 Feb;50(1):50-3. Entretanto, esses mesmos estudos são difíceis de comparar devido às grandes variações regionais e metodológicas.2020. Mitsuka-Breganó R, Lopes-Mori FMR, Navarro IT. Toxoplasmose adquirida na gestação e congênita: vigilância em saúde, diagnóstico, tratamento e condutas. Londrina: Eduel, 2010.62 p.

Tendo em vista que a prevenção primária é a única forma disponível de se evitar a infecção materna pelo Toxoplasma gondii e que muitas gestantes não têm informação sobre a doença, este estudo teve por objetivo analisar os fatores associados ao conhecimento sobre a toxoplasmose entre gestantes atendidas na rede pública de saúde do município de Niterói, Rio de Janeiro, Brasil.

Métodos

Foi realizado estudo transversal com dados coletados por meio de entrevistas, utilizando-se de questionários padronizados e validados em estudos anteriores.1616. Moura FL, Amendoeira MR, Bastos OM, Mattos DP, Fonseca AB, Nicolau JL, et al. Prevalence and risk factors for Toxoplasma gondii infection among pregnant and postpartum women attended at public healthcare facilities in the City of Niterói, State of Rio de Janeiro, Brazil. Rev Soc Bras Med Trop. 2013 Mar-Apr;46(2):200-7.,2121. Millar PR, Moura FL, Bastos OMP, Mattos DPBG, Fonseca ABM, Sudré AP, et al. Conhecimento sobre toxoplasmose entre gestantes e puérperas atendidas na rede pública de saúde do município de Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. Rev Inst Med Trop Sao Paulo. 2014 set-out;56(5):433-8.

A coleta de dados foi realizada no período de abril de 2013 a fevereiro de 2015, com a participação de gestantes atendidas na Policlínica Regional do Largo da Batalha e em sete módulos do Programa Médico de Família (PMF) da Fundação Municipal de Saúde de Niterói-RJ, localizados nos seguintes bairros: Ititioca, Atalaia, Vila Ipiranga, Lagoinha, Maceió, Grota I e Preventório II.

As participantes foram selecionadas por conveniência. Todas as gestantes presentes nos locais de pesquisa durante o período do estudo foram convidadas a participar respondendo ao questionário; as gestantes que se recusaram, as portadoras de demências e aquelas com déficit auditivo ou de compreensão não foram incluídas na amostra. Após a aplicação do questionário, todas receberam um folheto e informações sobre a toxoplasmose.

Para a análise dos dados, utilizou-se estatística descritiva, expressa por frequências absolutas e relativas. As associações foram analisadas pelo teste do qui-quadrado de Pearson, com nível de significância de 5%. O coeficiente V de Cramér foi usado para quantificar o grau de associação entre as variáveis: 0=V<0,1 para associação fraca ou nenhuma associação; 0,1£V<0,3 para associação baixa; 0,3£V<0,5 para associação moderada; e V≥0,5 para associação forte. Os resultados da regressão logística múltipla foram expressos por odds ratio (OR) e intervalo de confiança de 95% (IC95%).

Os dados foram digitados em planilhas do programa Microsoft Excel 2010 e analisados com auxílio do programa IBM(r) Statistical Package for the Social Sciences (SPSS)(r) versão 17.0.

As entrevistas foram realizadas individualmente, após prestação de esclarecimentos pelos pesquisadores sobre os objetivos da pesquisa, leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pelas gestantes. O projeto do estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Fundação Instituto Oswaldo Cruz - Parecer nº 110.045, em 28 de setembro de 2012 - e realizado em conformidade com as recomendações da Resolução do Conselho Nacional de Saúde (CNS) nº 466, de 12 de dezembro de 2012.

Resultados

Foram entrevistadas 405 gestantes com idade de 13 a 43 anos e nível de escolaridade do analfabetismo ao Ensino Superior - 28,9% tinham Ensino Médio completo -; 25,9% foram entrevistadas no primeiro trimestre da gestação, 45,2% na primeira gestação, 34,3% realizavam a primeira consulta do pré-natal e 19,5% relataram história de aborto (Tabela 1).

Tabela 1
- Distribuição de gestantes atendidas na rede pública de saúde segundo a faixa etária, escolaridade, idade gestacional, número de gestações, número de consultas no pré-natal, história de aborto e conhecimento sobre a toxoplasmose no município de Niterói, Rio de Janeiro, 2013-2015

A maioria das entrevistadas (57,3%) desconhecia a protozoose (Tabela 1). O conhecimento sobre toxoplasmose cresceu com a idade (p<0,001). A chance de conhecer a toxoplasmose aumentou nas faixas etárias elevadas: 4,38 vezes (IC95% 2,39;8,01) entre gestantes de 31 a 43 anos, na comparação com a mesma chance entre as gestantes de 13 a 20 anos (Tabela 1).

Gestantes com maior nível de escolaridade tiveram mais chance de conhecer a toxoplasmose (p<0,001), principalmente as mães com Ensino Médio completo (OR=6,26; IC95% 3,51;11,19), Ensino Superior incompleto (OR=27,3; IC95% 5,85;127,40) e Ensino Superior completo (OR=8,49; IC95% 2,05;35,24), em comparação àquelas com Ensino Fundamental incompleto (Tabela 1).

O número de gestações mostrou-se associado ao conhecimento sobre toxoplasmose. Mães com três gestações ou mais tiveram 1,87 vezes (IC95% 1,16;3,02) a chance de conhecer toxoplasmose de mães primíparas (Tabela 1).

O conhecimento sobre toxoplasmose foi maior entre as gestantes com história de aborto (p=0,019; OR=1,80; IC95% 1,10;2,96).

O grau de associação entre as variáveis analisadas e o conhecimento sobre toxoplasmose variou de baixo a moderado (V de Cramér de 0,1 a 0,5).

A idade gestacional e o número de consultas no pré-natal não estavam associados ao conhecimento sobre toxoplasmose (p>0,05).

Entre as gestantes que conheciam a toxoplasmose, as informações foram recebidas, principalmente, em conversas com amigos(as) (24,3%) e de médicos (19,6%) (Tabela 2).

Tabela 2
- Fontes de informação sobre toxoplasmose relatadas pelas gestantes atendidas na rede pública de saúde do município de Niterói, Rio de Janeiro, 2013-2015

Na Tabela 3, é apresentada a distribuição de gestantes de acordo com o número de consultas no pré-natal por período gestacional. Cabe destacar que entre as gestantes entrevistadas na primeira consulta do pré-natal (n=139), 40,3% (n=56) tinham 13 semanas ou mais de gestação, ou seja, estavam iniciando o pré-natal tardiamente.

Tabela 3
- Distribuição de gestantes de acordo com o número de consultas no pré-natal por período gestacional no município de Niterói, Rio de Janeiro, 2013-2015

Discussão

O estudo revelou que fatores como aumento da idade e escolaridade, maior número de gestações e aborto podem influenciar na aquisição do conhecimento sobre a toxoplasmose, o que, possivelmente, terá um papel importante na adoção da prevenção primária entre a população estudada.

Estudos anteriores com gestantes e puérperas de Niterói-RJ, realizados entre 2010 e 2011,1616. Moura FL, Amendoeira MR, Bastos OM, Mattos DP, Fonseca AB, Nicolau JL, et al. Prevalence and risk factors for Toxoplasma gondii infection among pregnant and postpartum women attended at public healthcare facilities in the City of Niterói, State of Rio de Janeiro, Brazil. Rev Soc Bras Med Trop. 2013 Mar-Apr;46(2):200-7.,2121. Millar PR, Moura FL, Bastos OMP, Mattos DPBG, Fonseca ABM, Sudré AP, et al. Conhecimento sobre toxoplasmose entre gestantes e puérperas atendidas na rede pública de saúde do município de Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. Rev Inst Med Trop Sao Paulo. 2014 set-out;56(5):433-8. demonstraram que o risco da infecção pelo T. gondii aumenta com a idade e que maior nível de escolaridade pode atuar como fator protetor contra a infecção.

Não houve associação entre o conhecimento sobre a toxoplasmose e a idade gestacional das participantes; porém, seria esperado que gestantes com maior idade gestacional tivessem mais conhecimento sobre a doença. Este fato pode ser explicado pelo início tardio do pré-natal e, consequentemente, pelo número reduzido de consultas no pré-natal observado na pesquisa. Estudo realizado nos Estados Unidos da América em 20032222. Jones JL, Ogunmodede F, Scheftel J, Kirkland E, Lopez A, Schulkin J, et al. Toxoplasmosis-related knowledge and practices among pregnant women in the United States. Infect Dis Obstet Gynecol. 2003;11(3):139-45. não encontrou diferenças no nível de conhecimento sobre a toxoplasmose por trimestre gestacional ou número de gestações.

Os resultados mostraram que o número maior de gestações foi associado ao conhecimento sobre a toxoplasmose, assim como a história de aborto. Esses achados já eram esperados. Observou-se, durante as entrevistas, que as gestantes nessas condições procuram mais informações sobre doenças capazes de causar problemas graves no feto. O fato de as gestantes serem sororreagentes também é uma variável associada ao conhecimento sobre a toxoplasmose.2121. Millar PR, Moura FL, Bastos OMP, Mattos DPBG, Fonseca ABM, Sudré AP, et al. Conhecimento sobre toxoplasmose entre gestantes e puérperas atendidas na rede pública de saúde do município de Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. Rev Inst Med Trop Sao Paulo. 2014 set-out;56(5):433-8.

Não foi observada associação entre o número de consultas no pré-natal e o conhecimento sobre toxoplasmose, sugerindo que esse tema não está sendo abordado durante o pré-natal, fato possivelmente relacionado com a demora na entrega dos exames, ou uma grande demanda de pacientes e reduzido número de profissionais.1212. Moura FL, Goulart PRM, Sudre AP, Amendoeira MRR. Programs for controlling congenital toxoplasmosis: study of current status in a brazilian municipality. Rev Patol Trop. 2015 out-dez;44(4):478-82.

Um estudo publicado em 2012,2323. Costa FF, Gondim APS, Lima MB, Braga JU, Vieira LJES, Araújo MAL. Preventive behavior for toxoplasmosis in pregnant adolescentes in the state of Ceara, Brazil. BMC Public Health. 2012 Jan;12:73. com gestantes adolescentes do estado do Ceará, mostrou associação positiva entre adoção de medidas preventivas e duas ou mais consultas no pré-natal. Durante a pesquisa, foram observados diversos fatores capazes de explicar o número reduzido de consultas no pré-natal na população estudada, como o atraso na suspeita e confirmação da gravidez, a demora em agendar a consulta do pré-natal e o fato de muitas gestantes estarem realizando o pré-natal na rede privada mas, sem condições financeiras de arcar com os custos do parto, procurarem o serviço público de saúde quando já no terceiro trimestre de gestação - de acordo com os relatos das gestantes durante as entrevistas. Estudos realizados na Europa, em 20012424. Pawlowski ZS, Gromadecka-Sutkiewicz M, Skommer J, Paul M, Rokossowski H, Suchocka E, et al. Impact of health education on knowledge and prevention behavior for congenital toxoplasmosis: the experience in Pozna, Poland. Health Educ Res. 2001 Aug;16(4):493-502. e 2008,2525. Gollub EL, Leroy V, Gilbert R, Chêne G, Wallon M, European Toxoprevention Study Group (EUROTOXO). Effectiveness of health education on Toxoplasma-related knowledge, behaviour, and risk of seroconversion in pregnancy. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. 2008 Feb;136(2):137-45. comprovaram o efeito positivo da prevenção primária da toxoplasmose sobre o conhecimento e exposição aos fatores de risco para a doença. Porém, em Niterói como em outros municípios brasileiros, essa prática ainda não era valorizada, segundo estudos prévios.99. Contiero-Toninato AP, Cavalli HO, Marchioro AA, Ferreira EC, Caniatti MC, Breganó RM, et al. Toxoplasmosis: an examination of knowledge among health professionals and pregnant women in a municipality of the State of Paraná. Rev Soc Bras Med Trop. 2014 Mar-Apr;47(2):198-203.,1212. Moura FL, Goulart PRM, Sudre AP, Amendoeira MRR. Programs for controlling congenital toxoplasmosis: study of current status in a brazilian municipality. Rev Patol Trop. 2015 out-dez;44(4):478-82.,1717. Câmara JT, Silva MG, Castro AM. Prevalência de toxoplasmose em gestantes atendidas em dois centros de referência em uma cidade do Nordeste, Brasil. Rev Bras Ginecol Obstet. 2015 fev;37(2):64-70.,2121. Millar PR, Moura FL, Bastos OMP, Mattos DPBG, Fonseca ABM, Sudré AP, et al. Conhecimento sobre toxoplasmose entre gestantes e puérperas atendidas na rede pública de saúde do município de Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. Rev Inst Med Trop Sao Paulo. 2014 set-out;56(5):433-8.,2323. Costa FF, Gondim APS, Lima MB, Braga JU, Vieira LJES, Araújo MAL. Preventive behavior for toxoplasmosis in pregnant adolescentes in the state of Ceara, Brazil. BMC Public Health. 2012 Jan;12:73.,2626. Branco BHM, Araújo SM, Falavigna-Guilherme AL. Prevenção primária da toxoplasmose: conhecimento e atitudes de profissionais de saúde e gestantes do serviço público de Maringá, estado do Paraná. Sci Med. 2012 out-dez;22(4):185-90.,2727. Amendoeira MRR, Coura LFC. Uma breve revisão sobre toxoplasmose na gestação. Sci Med. 2010 jan-mar;20(1):113-9.

Evidenciou-se a falta de conhecimento sobre a toxoplasmose, configurando um desafio para os profissionais de saúde realizarem a prevenção primária da toxoplasmose congênita, ação para a qual são requeridas mudanças comportamentais e de hábitos alimentares por parte das gestantes. É muito importante que os profissionais sejam capacitados, e as medidas de educação das gestantes realizadas de forma contínua, para que a prevenção primária da toxoplasmose congênita seja efetiva.

Referências

  • 1
    Jones JL, Lopez A, Wilson M, Schulkin J, Gibbs R. Congenital toxoplasmosis: a review. Obstet Gynecol Surv. 2001 May;56(5):296-305.
  • 2
    Spalding SM, Amendoeira MRR, Ribeiro LC, Silveira C, Garcia AP, Camilo-Coura L. Estudo prospectivo de gestantes e seus bebês com risco de transmissão de toxoplasmose congênita em município do Rio Grande do Sul. Rev Soc Bras Med Trop. 2003 jul-ago;36(4):483-91.
  • 3
    Remington JS, McLeod R, Wilson CB, Desmonts G. Toxoplasmosis. In: Remington JS, Klein JO, Wilson CB, Baker CJ. Infectious diseases of the fetus and newborn infant. 7th ed. Philadelphia: Elsevier, 2011. p. 918-1041.
  • 4
    Silva MG, Vinaud MC, Castro AM. Prevalence of toxoplasmosis in pregnant women and vertical transmission of Toxoplasma gondii in patients from basic units of health from Gurupi, Tocantins, Brazil, from 2012 to 2014. PLoS One.2015 Nov;10(11):e0141700
  • 5
    Thiebaut R, Leproust S, Chêne G, Glibert R. Effectiveness of prenatal treatment for congenital toxoplamosis: a meta-analysis of individual patients' data. Lancet. 2007 Jan;369(9556):115-22.
  • 6
    Gavinet MF, Robert F, Firtion G, Delouvrier E, Hennequin C, Mawrin JR, et al. Congenital toxoplasmosis due to maternal reinfection during pregnancy. J Clin Microbiol.1997 May;35(5):1276-7.
  • 7
    Ambroise-Thomas P. Toxoplasmose congénitale: les différentes stratégies préventives. Arch Pediatr. 2003 Feb;10 Suppl 1:12-4.
  • 8
    Foulon W. Congenital toxoplasmosis: is screening desirable? Scand J Infect Dis Suppl.1992;84:11-7.
  • 9
    Contiero-Toninato AP, Cavalli HO, Marchioro AA, Ferreira EC, Caniatti MC, Breganó RM, et al. Toxoplasmosis: an examination of knowledge among health professionals and pregnant women in a municipality of the State of Paraná. Rev Soc Bras Med Trop. 2014 Mar-Apr;47(2):198-203.
  • 10
    Paul M, Petersen E, Szczapa J. Prevalence of congenital Toxoplasma gondii infection among newborns from the Poznań region of Poland: validation of a new combined enzyme immunoassay for Toxoplasma gondii-specific immunoglobulin A and immunoglobulin M antibodies. J Clin Microbiol. 2001 May;39(5):1912-6.
  • 11
    Vaz RS, Rauli P, Mello RG, Cardoso MA. Toxoplasmose congênita: uma doença negligenciada? atual política de saúde pública brasileira. Facts Reports. 2011 Nov; 3 Spec No
  • 12
    Moura FL, Goulart PRM, Sudre AP, Amendoeira MRR. Programs for controlling congenital toxoplasmosis: study of current status in a brazilian municipality. Rev Patol Trop. 2015 out-dez;44(4):478-82.
  • 13
    Rosa CQ, Silveira DS, Costa JSD. Fatores associados à não realização de pré-natal em município de grande porte. Rev Saude Publica. 2014 dez;48(6):977-84.
  • 14
    Mattos CCB, Spegiorin LCJF, Meira CS, Silva TC, Ferreira AIC, Nakashima F, et al. Anti-Toxoplasma gondii antibodies in pregnant women and their newborn infants in the region of São José do Rio Preto, São Paulo, Brazil. São Paulo Med J. 2011;129(4):261-6.
  • 15
    Varella IS, Wagner MB, Darela AC, Nunes LM, Muller RW. Prevalência de soropositividade para toxoplasmose em gestantes. J Pediatr (Rio J). 2003 jan-fev;79(1):69-74.
  • 16
    Moura FL, Amendoeira MR, Bastos OM, Mattos DP, Fonseca AB, Nicolau JL, et al. Prevalence and risk factors for Toxoplasma gondii infection among pregnant and postpartum women attended at public healthcare facilities in the City of Niterói, State of Rio de Janeiro, Brazil. Rev Soc Bras Med Trop. 2013 Mar-Apr;46(2):200-7.
  • 17
    Câmara JT, Silva MG, Castro AM. Prevalência de toxoplasmose em gestantes atendidas em dois centros de referência em uma cidade do Nordeste, Brasil. Rev Bras Ginecol Obstet. 2015 fev;37(2):64-70.
  • 18
    Neto EC, Anele E, Rubim R, Brites A, Schulte J, Becker D, et al. High prevalence of congenital toxoplasmosis in Brazil estimated in a 3-year prospective neonatal screening study. Int J Epidemiol. 2000 Oct;29(5):941-7.
  • 19
    Segundo GR, Silva DA, Mineo JR, Ferreira MS. Congenital toxoplasmosis in Uberlândia, MG, Brazil. J Trop Pediatr. 2004 Feb;50(1):50-3.
  • 20
    Mitsuka-Breganó R, Lopes-Mori FMR, Navarro IT. Toxoplasmose adquirida na gestação e congênita: vigilância em saúde, diagnóstico, tratamento e condutas. Londrina: Eduel, 2010.62 p.
  • 21
    Millar PR, Moura FL, Bastos OMP, Mattos DPBG, Fonseca ABM, Sudré AP, et al. Conhecimento sobre toxoplasmose entre gestantes e puérperas atendidas na rede pública de saúde do município de Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. Rev Inst Med Trop Sao Paulo. 2014 set-out;56(5):433-8.
  • 22
    Jones JL, Ogunmodede F, Scheftel J, Kirkland E, Lopez A, Schulkin J, et al. Toxoplasmosis-related knowledge and practices among pregnant women in the United States. Infect Dis Obstet Gynecol. 2003;11(3):139-45.
  • 23
    Costa FF, Gondim APS, Lima MB, Braga JU, Vieira LJES, Araújo MAL. Preventive behavior for toxoplasmosis in pregnant adolescentes in the state of Ceara, Brazil. BMC Public Health. 2012 Jan;12:73.
  • 24
    Pawlowski ZS, Gromadecka-Sutkiewicz M, Skommer J, Paul M, Rokossowski H, Suchocka E, et al. Impact of health education on knowledge and prevention behavior for congenital toxoplasmosis: the experience in Pozna, Poland. Health Educ Res. 2001 Aug;16(4):493-502.
  • 25
    Gollub EL, Leroy V, Gilbert R, Chêne G, Wallon M, European Toxoprevention Study Group (EUROTOXO). Effectiveness of health education on Toxoplasma-related knowledge, behaviour, and risk of seroconversion in pregnancy. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. 2008 Feb;136(2):137-45.
  • 26
    Branco BHM, Araújo SM, Falavigna-Guilherme AL. Prevenção primária da toxoplasmose: conhecimento e atitudes de profissionais de saúde e gestantes do serviço público de Maringá, estado do Paraná. Sci Med. 2012 out-dez;22(4):185-90.
  • 27
    Amendoeira MRR, Coura LFC. Uma breve revisão sobre toxoplasmose na gestação. Sci Med. 2010 jan-mar;20(1):113-9.

  • *
    Artigo baseado na tese de Doutorado da autora Fernanda Loureiro de Moura, intitulada 'Ocorrência de toxoplasmose congênita, avaliação do conhecimento sobre toxoplasmose e do acompanhamento sorológico das gestantes e implantação de medidas de prevenção primária nos programas de pré-natal da Rede Pública de Saúde do município de Niterói-RJ', apresentada junto ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Medicina Tropical da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), graças ao convênio entre a Fiocruz e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)/Ministério da Educação (MS): Brasil sem Miséria. A tese, desenvolvida sob orientação da Dra. Maria Regina Reis Amendoeira e co-orientação da Dra. Patrícia Riddell Millar Goulart, foi defendida em 2016. Agência financiadora: Capes/MS. Bolsista do Programa Brasil sem Miséria: Fernanda Loureiro de Moura.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jul-Sep 2016

Histórico

  • Recebido
    29 Jan 2016
  • Aceito
    17 Maio 2016
Secretaria de Vigilância em Saúde - Ministério da Saúde do Brasil Brasília - Distrito Federal - Brazil
E-mail: leilapgarcia@gmail.com