NOTAS E INFORMAÇÕES NOTES AND INFORMATIONS

 

Nota sobre um foco de Leishmaniose tegumentar na região Nordeste do Estado de São Paulo, Brasil

 

A focus of cutaneous leishmaniasis at the northeast region of the São Paulo State, Brasil

 

 

Oswaldo Paulo ForattiniI; Ernesto X. RabelloI; Dino B. G. PattoliI; Octávio Alves FerreiraII

IDo Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP – Av. Dr. Arnaldo, 715 – São Paulo, SP., Brasil
IIDa Diretoria de Combate a Vetores da Superintendência do Saneamento Ambiental (SUSAM) do Estado de São Paulo – São Paulo, SP., Brasil

 

 


RESUMO

Relata-se o encontro de um foco de leishmaniose tegumentar no interior do Estado de São Paulo, Brasil O achado foi levado a efeito em área da região do nordeste, onde a doença não mais foi assinalada, desde 1939. A persistência local de gleba com floresta primitiva faz supor a existência de focos enzooticos naturais.

Unitermos: Leishmaniose tegumentar*; Enzootia*; Focos naturais*.


SUMAMRY

A focus of cutaneous leishmaniasis, in the São Paulo State, Brazil is reported. It was found at the northeast region, were the disease have not noticed since 1939. Evidence of natural enzootic foci of the infection is presented by the local persistence of an primitive forest area.

Uniterms: Leishmaniasis, cutaneous*; Natural enzootic foci*.


 

 

É conceito geral que a leishmaniose tegumentar, antigamente com apreciável prevalência no Estado de São Paulo, Brasil, encontra-se, na atualidade, praticamente desaparecida dessa região (PESSÔA 1, 1967). Atribui-se isso às intensas modificações do ambiente motivadas pela ação do homem, em suas atividades agrícola e pastoril. Em vista disso, o encontro de foco ativo dessa moléstia não podia deixar de despertar interesse. É o que se pretende noticiar nesta breve nota.

No decurso de investigações sobre fauna flebotomínica, fomos levados a realizar observações na Fazenda Jataí, onde funciona a Estação Experimental de Luis Antonio, da Secretaria da Agricultura. Essa localidade situa-se no Município do mesmo nome e possui área de floresta primitiva, situada às margens do rio Mogi-Guaçú. Alí deparamos com o primeiro caso humano, na pessoa de um dos guardas residentes. Na outra margem desse curso d'água, já no Município de São Carlos, conseguimos evidenciar mais três doentes, ali residentes e empregados no Pesqueiro Santa Teresinha. A região situa-se na parte nordeste do Estado. Os casos encontrados foram os que seguem, todos do sexo masculino, trabalhadores rurais e surpreendidos no período de agosto a outubro de 1971.

1) OP – 38 anos, residente na localidade há mais de quatro anos, sendo que, há cerca de 30 anos é habitante da região. Ao exame, apresentou uma lesão ulcerosa na face anterior da perna esquerda, com aspecto verrugoso e que, na oportunidade, foi referido ter cerca de seis meses de evolução (Figura 1). Apresentava ainda lesões no palato mole. A 23.VIII. 1971 foi feita a intradermoreação de Montenegro a qual revelou-se fortemente positiva à leitura de 48 horas.

2) HS – 42 anos, residente no local há cerca de um ano e meio. Teve uma lesão na face dorso-lateral do tórax que regrediu expontaneamente, tendo o paciente se limitado à aplicação tópica de mercúrio-cromo (sic). Referiu evolução de cerca de cinco meses. Ao exame, apresentava área fortemente infiltrada, eritematosa(Figura 2). A 8.XI.1971 foi feita reação intradérmica de Montenegro que se revelou fortemente positiva à leitura de 48 horas. A retirada de material local mediante punção, para exame microscópico e cultura, forneceram resultados negativos.

3) JOP – 43 anos, morador local há mais de oito anos. Ao exame, mostrou extensa lesão ulcerosa com aspecto francamente vegetante, que o paciente referiu datar de aproximadamente cinco meses (Figura 3). A intradermoreação de Montenegro levada a efeito a 8.XI.1971, resultou fortemente positiva, 48 horas após. O exame parasitológico do material obtido por punção revelou-se positivo ao exame microscópico e à cultura, com o isolamento da cepa. Esta recebeu a sigla acima.

4) AC – 43 anos, residente local há mais de oito anos. Mostrou lesão ulcerosa, arredondada, na face interna da coxa esquerda com cerca de cinco meses de evolução (Figura 4). A reação intradérmica de Montenegro, realizada a 8.XI. 1971, foi fortemente positiva à leitura de 48 horas. O exame parasitológico do material obtido por punção revelou-se positivo à microscopia.

Verifica-se pois que se trata de quatro doentes que reagiram positivamente à reação intradérmica, dois deles parasitologicamente comprovados. O caso HS é que se mostra um tanto diferente, pois sua evolução não coincide com a dos demais.

A localização da área supracitada encontra-se dentro da zona que PESSÔA & PESTANA 2 (1940), consideraram como de existência de casos esporádicos. Compulsando os dados apresentados por esses autores, verifica-se a ocorrencia de casos no Município de São Carlos, no ano de 1939. A partir de então, não mais foram noticiados em qualquer ponto da região norte-nordeste do Estado de São Paulo.

A persistência de área florestal primitiva na localidade onde os doentes residem faz pensar na existência de enzootia. Esta poderia revelar-se através de casos isolados, traduzindo-se em estado de endemia baixa, ou mesmo mantendo-se silenciosa por tempo prolongado. Trata-se pois, de achado que enseja a realização de investigações mais detalhadas .

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 – PESSÔA, S. B. – Parasitologia Médica. 7.a ed. Rio de Janeiro, Ed. Guanabara, 1967.        

2 – PESSÔA, S. B. & PESTANA, B. R. – Sôbre a disseminação da leishmaniose tegumentar no Estado de São Paulo. Resultado de um inquérito realizado nos "Centros de Saúde" do interior. Folha méd., 21: 20-30, 1940.        

 

 

Recebido para publicação em 25-11-1971
Aprovado para publicação em 7-1-1972
Realizado com o auxílio parcial da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Proc. C. Médicas 70/788)

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