NOTAS E INFORMAÇÕES / NOTES AND INFORMATION

 

Infecção natural de flebotomíneos em foco enzoótico de leishmaniose tegumentar no Estado de São Paulo, Brasil

 

Natural infections of Phlebotominae sandflies in a enzootia focus of cutaneous leishmaniasis in S. Paulo State, Brasil

 

 

Oswaldo Paulo ForattiniI; Dino B. G. PattoliI; Ernesto Xavier RabelloI; Octavio Alves FerreiraII

IDo Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP – Av. Dr. Arnaldo, 715 – São Paulo, SP, Brasil
IIDa Diretoria de Combate a Vetores da Superintendência do Saneamento Ambiental (SUSAM) do Estado de São Paulo – Rua Tamandaré, 649 – São Paulo, SP, Brasil

 

 


RESUMO

Relata-se o encontro de infecções naturais de Pintomyia pessoai e Psychodopygus intermedius em foco enzoótico de leishmaniose tegumentar no Estado de São Paulo, Brasil. A natureza leishmaniótica desses encontros obteve confirmação através da inoculação experimental em hamsters.

Unitermos: Leishmaniose tegumentar enzoótica*; Pintomyia pessoai*; Psychodopygus intermedius*; Infecção natural leishmaniótica de flebotomíneos.


SUMMARY

Natural infections of Phlebotominae sandflies Pintomyia pessoai and Psychocopygus intermedius in a sylvatic enzootic focus of cutaneous leishmaniasis in S. Paulo State, Brazil, are reported. For both species confirmation was obtained by experimental inoculation in hamsters.

Uniterms: Enzootic cutaneous leishmaniasis *; Pintomyia pessoai *; Psychodopygus intermedius *; Natural leishmanial infections of Phlebotominae.


 

 

No estado atual dos conhecimentos sobre a epidemiologia das leishmanioses tegumentares americanas, assume grande importância a pesquisa de infecções naturais de flebotomíneos por flagelados em forma de leptomonas (promastigotos). Vários relatos desses encontros limitaram-se à procura dos protozoários no tubo digestivo, associando-a a dados epidemiológicos locais. Todavia, a real natureza leishmaniótica dessas formas só poderá ser determinada através da execução de várias provas, principalmente, as tentativas de isolamento e de inoculações experimentais.

Procuramos detectar a possível presença de infecção leishmaniótica nesses dípteros, procedendo a coletas de flebotomíneos no foco endêmico da Fazenda Jataí, Município de Luis Antonio, Estado de São Paulo (FORATTINI et al.4, 1972). Para tanto, utilizamos dois métodos. O primeiro consistiu na formação de lotes, os quais, após prévia trituração em solução fisiológica, eram inoculados por via intradérmica, na região nasal de hamsters jovens. O segundo baseou-se na dissecção individual dos dípteros, segundo a técnica de JOHNSON et al.5 (1963), seguida, em caso de positividade, de tentativa de isolamento em meio de NNN.

Os resultados obtidos até o momento, foram os seguintes:

Inoculações – De maio de 1971 a fevereiro de 1972, foram coletados e inoculados em hamsters, 1452 flebotomíneos, distribuídos em oito lotes da seguinte maneira:

 

 

O conjunto constituído por espécimens de Pintomyia pessoai foi inoculado em 23/XI/1971. Um mês após, um dos animais apresentava pequeno nódulo local que, no entanto, revelou-se negativo ao exame direto por esfregaço. Essa lesão regrediu e, a 5/V/1972, notou-se a presença de pequena área de pelada com ligeira crosta. Nessa ocasião, o animal foi sacrificado e o exame histológico da região inoculada revelou a presença de formas em leishmania. O outro animal do lote continua em observação.

Em 22/II/1972, de um dos lotes de Psychodopygus intermedius, foram separados e inoculados 279 exemplares. Um dos animais sofreu o desenvolvimento de abscesso local que foi puncionado. Em 24/IV/72, esse hamster foi sacrificado revelando-se negativo ao exame histológico. O outro animal, em 14/VII/72, mostrou o desenvolvimento de lesão no local da inoculação, com o aspecto de pelada e crestas, sobre nódulo palpável (Figura). O processo evoluiu e, a 8/IX/72, foi sacrificado. O exame histológico revelou a presença de leishmanias e do material retirado foi feita nova inoculação direta, em outro lote, que está em observação.

Quanto às demais inoculações, se bem que em vários hamsters tenha sido observada a formação de nódulos, não foi possível, até o momento, detectar a presença da infecção. Os animais inoculados continuam em observação.

Dissecções – De janeiro a março de 1972, foram dissecados 160 exemplares de Psychodopygus intermedius. Observou-se um resultado positivo em 22/II, com formas em leptomonas (promastigotos) no tubo digestivo, e correspondendo a conjunto de exemplares retirados do mesmo lote supracitado e que foi inoculado em hamsters na mesma data. O material foi imediatamente suspenso em solução fisiológica, contendo 500 unidades de penicilina G potássica cristalina e 1 mg de sulfato de estreptomcina por ml. A suspensão foi semeada em meio de NNN, tendo-se obtido o isolamento da amostra.

Em seguida, procedeu-se à inoculação experimental, tendo-se utilizado seis lotes de hamsters, da seguinte maneira:

 

 

Em várias oportunidades, verificou-se o desenovlvimento de nódulos e peladas na região inoculada.

Em 20/X/72, um dos animais inoculado com o 5.° repique apresentou nódulo evidente no ponto de inoculação. Em 17/XI/72, essa formação havia evoluído de maneira evidente, quando foi retirado material por meio de punção. O exame dos esfregaços, corados pelo método de Giemsa, revelou a presença de raras formas em leishmania (amastigotos). Os outros animais desse lote desenvolveram também lesões nodulares. Todavia, até o momento, não foi possível evidenciar a natureza leishmaniótica dessas lesões, continuando em observação.

Em épocas passadas, no Estado de São Paulo, tanto Pintomyia pessoal como Psychodopygus intermedius foram assinalados com infecção natural por leptomonas. Contudo, o seu caráter leishmaniótico foi apenas suspeitado, face aos elementos epidemiológicos locais (ARAGÃO1, 1922; PESSÔA e COUTINHO 6,7, 1940, 1941; COUTINHO 2, 1940 & FORATTINI e SANTOS3, 1952). Com os achados relatados nesta nota, confirma-se o possível papel vetor desses flebotomíneos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. ARAGÃO, H. de B. – Transmissão da leishmaniose no Brasil pelo Phlebotomus intermedius. Bras. med., 36: 129-30, 1922.        

2. COUTINHO, J. O. – Localização de formas em leptomonas, possivelmente de Leishmania brasiliensis, na faringe de Phlebotomus pessoai naturalmente infectado An. Fac. Med. S. Paulo, 16: 163-71, 1940.        

3. FAROTTNI, O. P. & SANTOS, M. R. dos – Nota sobre infecção natural de Phlebotomus intermedius Lutz e Neiva, 1912, por formas em leptomas, em um foco de leishmaniose tegumentar americana. Arq. Hig., S. Paulo, 17: 171-4, 1952.        

4. FORATTINI, O. P. et al. – Nota sobre um foco de leishmaniose tegumentar na região nordeste do Estado de São Paulo, Brasil. Rev. Saúde púb., S. Paulo, 6: 103-5, 1972.        

5. JOHNSON, P. T. et al. – Natural infections of leptomonad flagellates in Panamanian Phlebotomus sandflies. Exper. Parasit., 14: 107-22, 1963.        

6. PESSOA, S. B. & COUTINHO, J. O. – Infecção natural de Phlebotomus pessoai por formas em leptomonas, provavelmente em Leishmania brasiliensis. Rev. Biol. Hig., 10: 139-42, 1940.        

7. PESSOA, S. B. & COUTINHO, J. O. – Infecção natural e experimental dos flebótomos por Leishmania brasiliensis, no Estado de São Paulo. Hospital, Rio de Janeiro, 20: 25-35, 1941.        

 

 

Recebido para publicação em 22-11-1972
Aprovado para publicação em 26-11-1972
Realizado com o auxílio parcial da FAPESP (Proc. C. Médicas 70/788)

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