Evidenciação do antígeno da hepatite B (HBsAg) em Triatominae

 

Hepatitis B antigen (HBsAg) in wild triatominae in Brazil

 

 

Oswaldo Paulo ForattiniI; S. OtattiII; J. A. N. CandeiasIII; J. G. VieiraIV; M. L. RáczIII

IDo Departamento de epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo — Av. Dr. Arnaldo 715 — 01255 — São Paulo, SP, Brasil
IIDo Departamento de Prática de Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo — Av. Dr. Arnaldo 715 — 01255 — São Paulo, SP — Brasil
IIIDo Departamento de Microbiologia e Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, "Setor Saúde Pública" — Av. Dr. Arnaldo 715 — 01255 — São Paulo, SP — Brasil
IVDo Departamento de Endocrinologia da Escola Paulista de Medicina — R, Botucatu, 720 — 04023 — São Paulo, SP — Brasil

 

 


RESUMO

De 3.200 "manchas" provenientes de insetos dos gêneros Triatoma e Panstrogylus, positivas para sangue humano, 12 deram resultados presuntivamente positivos, por imunodifusão, para HBsAg. Deste total, só 7 casos foram confirmados como positivos, por radioimunoensaio, correspondendo todos eles a "manchas" obtidas de ninfas de Triatoma infestans.

Unitermos: Hepatite B (HBsAg). Triatomíneos. Imunodifusão. Radioimunoensaio.


ABSTRACT

A total of 3,200 impressions were fixed on filter paper and were identified as containing human blood obtained from blood-sucking arthropods of the Triatoma and Panstrongylus genre. The impressions were then examined for the presence of the hepatitis B antigen (HBsAg). The immunodifusion technique showed that 12 impressions were presumably HBsAg positive, but the radioimmunoassay technique only confirmed 7 positive results. The positive samples were all obtained from Triatoma infestans nymphae.

Uniterms: Hepatitis B antigens. Triatomidae. Gel diffusion tests. Radioimmunoassay.


 

 

INTRODUÇÃO

Blumberg e col.2 (1970) e Szmuness e col.19 (1973) referem-se à elevada freqüência de portadores de antígeno da hepatite B nas regiões tropicais. Considerando o íntimo contato da população dessas regiões com artrópodes hematófagos é previsível o encontro daquele antígeno no trato digestivo destes insetos. Prince e col.14 (1972), Smith e col.18 (1972), Byrom e col.6 (1973) e Wills e col.20 (1977) confirmaram essa previsão, tanto em trabalhos experimentais, quando em pesquisas de campo.

Assim sendo, a possibilidade de artrópodes hematófagos serem eventuais vetores de vírus da hepatite B, quando considerada em termos das taxas de portadores crônicos desse antígeno, adquire particular importância (Blumberg e col.3, 1966; McCollum10, 1976).

No caso específico de heterópteros hematófagos, seu possível papel nessa transmissão constitui hipótese ainda mais viável do que para os mosquitos culicídeos, dado o íntimo contato que, em alguns casos, se estabelece entre esses insetos e o homem. Nesse sentido, pode-se mencionar os dados conseguidos com Cimex hemipterus na Costa do Marfim e no Senegal, e com Cimex lectularis no Transval (Brotman e col.5, 1973; Wills e col.20, 1977; Jupp e col.9, 1978). Tais observações obtiveram suporte em outras levadas a efeito em condições de laboratório (Newkirk e col.11, 1975). No Continente Americano, os Triatominae têm merecido algumas atenções, limitadas até o momento ao resultado positivo com Triatoma sordida observado em condições naturais por Candeias e col.8 (1976), e os obtidos em laboratório com Triatoma infestans por Rosa e col.16 (1977).

A finalidade do presente estudo foi a de identificar o antígeno da hepatite B (HBsAg) em material obtido de exemplares de Triatominae, coletados em trabalhos de campo.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram examinadas 3.200 "manchas" de sangue humano provenientes de exemplares dos gêneros Triatoma e Panstrongylus. O termo "mancha" é usado como designação do material obtido por expressão do conteúdo da cavidade abdominal de insetos, material este adsorvido a papel de filtro.

A coleta dos insetos foi feita em várias áreas do território do Brasil, classificando-se os ecótopos em três tipos, domiciliar, peridomiciliar e silvestre.

Técnica de imunodifusão (ID)

Foi utilizada a técnica descrita por Schmidt e Lennette 17 com algumas modificações: o gel foi preparado com 0,8% de agarose em tampão de Tris 0,01M, 0,1M de cloreto de sódio, 0,001 M de EDTA e 0,05% de azida sódica, com um pH final de 7,6. Usou-se o volume de 1,5 ml de ágar por lâmina.

Técnica de radioimunoensaio (RIE)

Foram utilizados os conjuntos "Ausria" (Abbot Laboratories), tendo sido executados os exames segundo as instruções do fabricante. As amostras foram consideradas positivas por RIE quando a leitura obtida P, dividida pela média dos controles negativos N (10 amostras de soro humano normal diluído a 1/2 em solução fisiológica) dava valores 7,5.

 

RESULTADOS

Os resultados positivos para HBsAg foram obtidos somente em formas ninfais e são apresentados na Tabela.

 

DISCUSSÃO

De um modo geral, os mecanismos de transmissão humana da hepatite B nas regiões tropicais são semelhantes aos das regiões de clima temperado, havendo, no entanto, que considerar determinadas situações que naquelas parecem adquirir particular importância, dada a diferença existente nas taxas de prevalência de portadores em ambas as regiões. Algumas observações não evidenciam tal diferença mas, de um modo geral, os dados da literatura são concordes em salientar a ocorrência de taxas de portadores de antígeno Austrália mais elevadas nas regiões tropicais do que nas de clima temperado, merecendo referência o íntimo contato que, naquelas, ocorre entre o homem e artrópodes hematófagos (Prince13 1970, Candeias 7 1971, Smith e col.18 1972, Byrom e col.6 1973, Brotman e col.5 1973, Bensabath e Boschell 1 1973, Rosa e col.16 1977). Não existem provas convincentes de que ocorra a multiplicação do virus da hepatite B ou que haja persistência do antígeno de superfície após a digestão de repasto sanguíneo nos artrópodes hematófagos, mas não pode excluir-se a possibilidade de transmissão mecânica como resultado de contatos freqüentes, da elevada estabilidade do vírus da hepatite B e dos hábitos alimentares de certas espécies (Redeker e col.15 1968, Byrom e col.6 1973, Boreham e Garrett-Jones 4 1973).

O antígeno Austrália já foi encontrado em diversas espécies de mosquitos dos gêneros Mansonia, Anopheles, Culex, incluindo Aedes africanus, que raramente picam o homem, além de no dermáptero Hemimerus talpoides cujos hábitos alimentares não incluem o sangue humano uma vez que se trata de ectoparasita de roedores alimentando-se dos produtos da pele desses animais (OMS12, 1972). Os dados apresentados no presente trabalho, bem como nossas observações anteriores (Candeias e col.8 1976), parecem abrir novas perspectivas de discussão do problema da participação dos artrópodes, ou pelo menos, de certas espécies desses animais no grupo de vetores da hepatite B.

No que concerne aos heterópteros hematófagos, como algumas espécies de Cimicidae e de Triatominae, há que se levar em consideração determinados fatores. Em primeiro lugar, a acentuada domiciliação que faz com que esses insetos convivam estreitamente com o homem. Tal é o caso dos percevejos Cimex tectalarius e C. hemipterus entre os primeiros e do barbeiro Triatoma infestans entre os segundos. Tal comportamento, aliado a condições de elevada densidade de infestação, permite supor que a veiculação se torne viável. Outro aspecto a ser levado em conta vem a ser considerável persistência do antígeno no organismo desses insetos. As observações de Newkirk e col.11 (1975) e de Wills e col.20 (1977) têm indicado 30 dias ou mais, contados a partir do repasto infectante, para os Cimex, e as de Rosa e col.16 (1977) de, pelo menos, até 15 dias para aquela espécie de Triatoma.

Quanto aos resultados aqui relatados, a presença do antígeno em T. infestans reveste-se de significado análogo ao das espécies domiciliadas de Cimex. Eis que, sendo de comportamento semelhante, também o são quanto aos elevados valores a que a infestação domiciliar por esse barbeiro pode alcançar. Trata-se de triatomíneo de acentuada domiciliação e, como decorrência desse fato, um dos vetores epidemiologicamente mais poderosos da tripanossomíase americana.

Assim sendo e conquanto não se tenha ainda podido evidenciar o possível papel de vetores biológicos, é de se admitir que alguma via de transmissão poderia existir. Tal seria o caso da possibilidade de contaminação pelas fezes desses insetos. Por outro lado, a supracitada convivência diária com o homem pode constituir-se em fator responsável pela manutenção do antígeno na população domiciliada.

Finalmente, é digno de nota o encontro positivo em ninfa de T. infestans no peridomicílio. Tal fato vem evidenciar a mobilidade dessas formas, deslocando-se a distâncias apreciáveis dos seus locais de colonização.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 30/11/1979
Aprovado para publicação em 21/02/1980

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