Variação sazonal na prevalência de leptospirose em cães de rua da cidade de São Paulo, Brasil*

 

Seasonal variation in the prevalence of leptospirosis in stray dogs in the citv of S. Paulo (Brazil)

 

 

P. H. YasudaI; C. A. Santa RosaII; R. M. YanaguitaI

IDo Departamento de Microbiologia e Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP — Setor Medicina — Av. Dr. Arnaldo, 455 — 01246 — São Paulo, SP — Brasil
IIDo Departamento de Medicina Preventiva e Saúde Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootécnica da USP — Cidade Universitária Armando Sales de Oliveira — 05568 — São Paulo, SP — Brasil

 

 


RESUMO

Utilizando a técnica da soroaglutinação microscópica para o diagnóstico de leptospirose, 308 (21,6%) de 1428 soros de cães errantes da cidade de São Paulo (Brasil) mostraram-se reagentes. Na população canina estudada, a infecção leptospirótica sofreu influência sazonal. Verão (24,2%) e outono (24,9%) foram as estações do ano com maior número de soros reatores, em oposição à primavera (18,3%) e inverno (18,3%). Estas diferenças foram significantes, estatisticamente. Ô sorotipo canicola é o principal causador da leptospirose na população estudada (50,7%), seguido do icterohaemorrhagiae (25,5%); grippotyphosa (7,8%); pomona (6,7%) e ballum (4,4%).

Unitermos: Leptospirose, S. Paulo, SP, Brasil. Cães. Soroaglutinação. Estação do ano.


ABSTRACT

One thousand, four hundred and twenty-eight sera from stray dogs from the city of S. Paulo were examined using agglutination microscopic testing. Of the total of 1428 sera, 308 (21.6%) showed positive. Seasonal influence was observed in the leptospiral infection of the canine population studied in that the largest number of the reagent sera was verified in the summer (24.2%) and autumn (24.9%). In contrast, spring (18.3%) and winter (18.3%) prevalence levels were lower. These differences were considered significant from the statistical point of view. The canicola serotype was found to be the main cause of leptospirosis in the population examined (50.7%), followed by icterohaemorrhagiae (25.5%), grippetyphosa (7.8%), pomona (67%), and ballum (4.4%).

Uniterms: Leptospirosis, S. Paulo, SP, Brazil. Dogs. Agglutination tests. Seasons.


 

 

INTRODUÇÃO

O papel do cão na epidemiologia da leptospirose tem sido destacado nos últimos anos6,14. A população canina na cidade de São Paulo está estimada em cerca de 820.000 animais, sendo muitos deles errantes. Os dados existentes em nosso meio, com relação à leptospirose em cães são insuficientes e, além disso, nunca se analisaram aspectos como a variação sazonal na prevalência da infecção por leptospiras5,8,9,12,17.

Devido ao crescimento desordenado da cidade de São Paulo, muitos de seus bairros apresentam problemas de saneamento básico e condições ecológicas favoráveis à proliferação de roedores, que são, em nosso meio, os grandes portadores do microrganismo em questão. O uso comum do meio ambiente com tais roedores tornam o homem, o cão, assim como outros animais domésticos, suscetíveis de se contaminarem e de propagarem entre si a leptospirose.

Com a presente comunicação, espera-se esclarecer alguns aspectos epidemiológicos desta importante zoonose, ressaltando-se as variações ocorridas na prevalência de infecção em cães ao longo de um ano.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Um total de 1428 soros de cães de rua foi colhido no período compreendido entre outubro de 1976 a setembro de 1977.

Os cães procediam de capturas diárias feitas em 15 Regionais Administrativas de que está constituida a cidade de São Paulo (Fig. 1) e que foram reagrupadas da seguinte maneira:

São Miguel-E. Matarazzo e
Itaquera-Guaianazes;
Penha e Santana;
Freguesia do Ó e Pirituba-Perús;
Lapa, Pinheiros e Butantã;
Campo Limpo e Santo Amaro;
Vila Mariana e Ipiranga;
Moóca e Vila Prudente.

A técnica sorológica empregada foi a de aglutinação microscópica15 utilizando-se como antígenos os seguintes sorotipos de leptospiras: icterohaemorrhagiae, canicola, pomona, grippotyphosa, tarassovi, australis, bataviae, ballum, wolffi, panama, pyrogenes, javanica, autumnalis, butembo, andamana, shermani, whitcombi e brasiliensis.

Foram considerados soros positivos aqueles que apresentaram aglutinação na diluição igual ou superior a 1 : 100.

Os dados obtidos foram submetidos a análise estatística, utilizando-se o teste do Qui-quadrado. Em todos os casos adotou-se o nível de significância de 0,05 (5%) para a exclusão da hipótese.

 

RESULTADOS

Dos 1.428 soros de cães submetidos à aglutinação microscópica, 308 (21,6%) foram reagentes a um ou mais sorotipos de leptospiras.

Variação mensal

A variação mensal na prevalência de soros reagentes para leptospirose está apresentada na Tabela 1. Essas variações submetidas à análise estatística, não se mostraram significantes.

 

 

Variação sazonal

As freqüências, por estações do ano, de soros com aglutininas antileptospiras em cães estudados estão apresentadas na Tabela 2. As diferenças na prevalência de leptospirose ocorridas no verão e outono foram estatisticamente significantes das ocorridas na primavera e inverno. O método estatístico empregado neste caso foi o de Grizzle e col.7

 

 

Variação por Regionais

As freqüências de soros com aglutininas antileptospiras nos cães distribuídas por Regionais estão apresentadas na Tabela 3. Em termos estatísticos, as diferenças ocorridas não foram significantes.

 

 

Na Tabela 4 estão apresentadas as freqüências de soros positivos observadas nas Regionais durante o período sazonal estudado.

Caracterização dos soros positivos

Considerou-se, no presente estudo, o soro positivo correspondente ao sorotipo de leptospira com o qual se obteve o maior título, embora este critério não seja o mais adequado3.

De 308 soros reagentes para leptospirose, 38 deles coaglutinaram dois ou mais sorotipos de leptospiras com títulos máximos coincidentes e, portanto, foram eliminados das considerações que serão feitas a seguir.

Assim, em 270 dos 308 soros positivos para leptospirose foi definido o sorotipo responsável pela infecção. Conforme a ilustração da Fig. 2, observa-se que 50,7% (137 soros) foram reagentes para o sorotipo canicola; 25,5% (69 soros) para o sorotipo icterohaemorrhagiae e, seguindo-se em ordem decrescente: grippotyphosa, 7,8% (21 soros); pomona, 6,7% (18 soros); ballum, 4,4% (12 soros); pyrogenes, 1,8% (5 soros); antumnalis, 1,8% (5 soros); andamana, 0,7% (2 soros) e finalmente, butembo, 0,4% (1 soro).

 

 

Freqüência dos sorotipos infectantes segundo as estações do ano.

Pela Tabela 5, observa-se que a maior prevalência de soros reagentes ao sorotipo canicola ocorreu nos meses correspondentes ao verão e outono, 45 e 47 casos, respectivamente. Soros reagentes contra o sorotipo icterohaemorrhagiae foram mais freqüentes nos meses da primavera e do inverno.

 

 

DISCUSSÃO

Uma das características mais interessantes na freqüência da leptospirose é o seu caráter sazonal. No Brasil, país onde predomina o clima tropical e sub-tropical em grande parte do seu território, seria de se esperar que os fatores climáticos também exercessem influência nesta importante zoonose. Embora estes fatos sejam conhecidos para outras regiões, pouco se sabe a respeito em nosso meio 1,2,4,10,11,13.

Levantamentos soroepidemiológicos anteriormente efetuados em cães na cidade de São Paulo não oferecem uma visão muito clara a respeito dos sorotipos mais prevalentes na população canina, assim como as freqüências relatadas pelos diferentes autores variam dentro de uma faixa muito ampla 5,8,9,12,17.

Pelos resultados obtidos na presente investigação, observa-se que a leptospirose canina em São Paulo sofre influência sazonal; verão e outono são períodos onde se encontram maior número de cães com sorologia positiva. Tal fato se deve, provavelmente, à ocorrência de chuvas abundantes nas épocas de verão, facilitando a maior propagação e permanência de leptospiras viáveis fora de um hospedeiro 16. Nos meses de outono, as temperaturas amenas e a elevada umidade do ar, também favoreciam a manutenção de leptospiras no meio ambiente.

Estas observações parecem estar de acordo quando se trata da infecção pelo sorotipo canicola. O mesmo não ocorreu com o icterohaemorrhagiae pois, justamente nos meses correspondentes ao verão observa-se um menor número de soros reatores para este sorotipo (Tabela 5).

Esperava-se encontrar uma distribuição não homogênea da leptospirose em cães por Regionais, visto que as que estão situadas mais na periferia da cidade apresentam problemas graves de saneamento, com deficiências nas redes de esgoto e de água encanada, ruas sem pavimentação, moradias inadequadas e presença de inúmeros terrenos baldios cobertos, geralmente, por vegetação abundante, a qual propicia a multiplicação de ratos, os grandes portadores de leptospiras em nosso meio.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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12. SANTA ROSA, C. A. et al. Nove anos de leptospirose no Instituto Biológico de São Paulo. Rev. Inst. Adolfo Lutz, 29/30:19-27, 1969/70.        

13 SAVING, E. & RENNELLA, E. Estudios sobre leptospiras. III — Presencia de leptospiras en los perros de la ciudad de Buenos Aires. Rev. Inst. Bact. Malbrán, 12:215-26, 1944.        

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17. VERONESI, Q. et al. Leptospiroses em cães da cidade de São Paulo. Inquérito sorológico. Rev. Inst. Adolpho Lutz, 16:78-84, 1956.        

 

 

Recebido para publicação em 08/07/1980
Aprovado para publicação em 12/09/1980

 

 

* Apresentado no X Congresso Brasileiro de Microbiologia, Rio de Janeiro, 1979.

Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo São Paulo - SP - Brazil
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