NOTAS E INFORMAÇÕES/NOTES AND INFORMATION

 

Nota sobre novo caso autóctone de tripanossomíase americana no litoral Sul do Estado de São Paulo, Brasil

 

A new case of American trypanosomiasis in the Southern Coastal Region of S. Paulo State, Brazil

 

 

Oswaldo Paulo ForattiniI; Eduardo Olavo da Rocha e SilvaII; José Maria Soares BarataI; Elias BoainainIII

IDo Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP – Av. Dr. Arnaldo, 715 – 01255 – São Paulo, SP – Brasil
IIDa Superintendência de Controle de Endemias do Estado de São Paulo (SUCEN) – Rua Tamandaré, 693 – 01525 – São Paulo, SP – Brasil
IIIDo Instituto "Dante Pazzanese" de Cardiologia, Coordenadoria de Assistência Hospitalar da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo – Av. Dante Pazzanese, 500 – 04012 – São Paulo, SP – Brasil

 

 


RESUMO

Descreve-se novo caso autóctone de tripanossomíase americana no litoral Sul do Estado de São Paulo, Brasil. De maneira semelhante à nota anterior, as evidências sugerem a transmissão por contaminação no manuseio de carcaças de mamíferos silvestres utilizados na alimentação. Este achado confirma a hipótese da existência de nível endêmico regional.

Unitermos: Tripanossomíase americana, transmissão por contaminação. Endemia regional.


ABSTRACT

A new indigenous case of American trypanosomiasis in the Southern Coastal Region of the State of S. Paulo, Brazil is reported. Similary with the first one, reported elsewhere, no triatomianae bugs were be involved and so contamination through handling of wild mammals carcasses seems to be a suitable transmission mechanism. This finding sustain the existence of a regional endemic pattern.

Uniterms: Trypanosomiasis, South American, transmission by contatamination. Endemic regional pattern.


 

 

INTRODUÇÃO

Em publicação anterior noticiou-se o encontro de caso autóctone de tripanossomíase americana no litoral sul do Estado de São Paulo, Brasil (Forattini e col., 1980). Nessa oportunidade foram fornecidas informações sobre as características locais e levantada a hipótese de transmissão do parasita mediante contaminação. Esta ocorreria quando da manipulação de carcaça de mamíferos silvestres utilizados na alimentação dos habitantes, propiciando possível estado de endemicidade regional da parasitose. Relata-se agora o encontro de outro caso autóctone permitindo considerar, com mais reforço, os possíveis aspectos epidemiológicos.

 

DESCRIÇÃO DO CASO

ACC, 8 anos de idade, sexo masculino, natural da localidade Sítio Araçauba – Rio Vermelho, zona rural de Cananéia, Estado de São Paulo, e residindo há três anos na povoação de Ariri (Vila São José), nesse município. Permaneceu no local de nascimento, que dista cerca de doze quilômetros dessa vila, até a idade de três anos. Nessa ocasião acompanhou os pais, ao se mudarem para a localidade da Praia no município de Iguape, ali ficando por tempo inferior a um ano, findo o qual passou a residir no endereço atual. Freqüenta a escola de primeiro grau mostrando comportamento normal para a idade. Mediante informações colhidas de familiares, sua história pregressa assinala apenas quadros possivelmente amastiformes nos primeiros anos de vida, além de anemia e anasarca em determinada oportunidade. Chamou a atenção o relato de que, no ano passado (1980), teria sofrido fenômeno febril revelado por acessos noturnos, sem a presença de outros sintomas, e com remissão durante o dia. O caso foi detectado quando da realização de uma das etapas do inquérito sorológico escolar em municípios do Estado, levado a efeito pela SUCEN, e baseado na coleta de sangue para o exame de imunofluorescência indireta. Assim é que, em agosto de 1980, a amostra dos escolares da região forneceu, para ACC, resultado considerado duvidoso. Em vista disso, procedeu-se à segunda coleta em dezembro do mesmo ano e atingindo também seus familiares. Todos estes forneceram resultados negativos, mas o menor teve reação positiva de título 1/160. Durante a presente investigação, fez-se nova coleta do caso, obtendo-se novo resultado positivo com título de 1/512. O exame físico revelou bom estado geral, sem qualquer alteração digna de nota. Não foi possível evidenciar a porta de entrada da infecção, tendo sido negados antecedentes operatórios ou de transfusão sangüínea. A reação de fixação de complemento foi positiva, bem assim a aglutinação direta ( > 64) e o xenodiagnóstico. Iniciou o tratamento em 7.IV. 81, com benzomidazol na posologia de 8,7mg/Kg/dia.

 

INVESTIGAÇÃO E COMENTÁRIOS

Durante a inquirição dos familiares foi referido que, quando a família residia no Sítio Araçauba, alimentava-se com freqüência de animais silvestres, entre os quais figuravam tatus. Nessas oportunidades, o menor ACC participava do preparo das carnes para as refeições. Por duas vezes, em dezembro de 1980 e março de 1981, foram realizadas buscas de triatomíneos na Vila São José – Ariri, com resultados totalmente negativos. Por sua vez, os moradores negam a existência de focos domiciliados desses insetos. Quatro cães encontrados nas casas locais foram submetidos ao xenodiagnóstico, com resultados negativos.

Diante desses achados é forçoso admitir o caráter autóctone regional do caso bem como de mecanismo de transmissão outro que não a ação triatomínea. As características locais e os hábitos da população, em todo análogas ao do caso anteriormente descrito, levam à supor a contaminação por meio de mamíferos silvestres utilizados na alimentação. De qualquer maneira, este novo achado parece confirmar a hipótese de existência de quadro regional endêmico de tripanossomíase americana.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FORATTINI, O.P. et al. Nota sobre caso autóctone de tripanossomíase americana no litoral sul do Estado de São Paulo, Brasil. Rev. Saúde públ., S. Paulo, 14:143-9, 198.        

 

 

Recebido para publicação em 30/07/1981
Aprovado para publicação em 06/08/1981
Realizado pelo Centro Brasileiro de Estudos Entomológicos em Epidemiologia (CENTEP)

Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo São Paulo - SP - Brazil
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