NOTAS E INFORMAÇÕES/NOTES AND INFORMATION

 

Resistência do Plasmodium falciparum ao fansidar, quinina e tetraciclina

 

Resistance of Plasmodium falciparum to fansidar, quinine and tetracycline

 

 

Fernando Hélio Alencar; José João Ferraroni; Roger Shrimpton

Do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA - Caixa Postal 478 - 69000 Manaus, AM - Brasil

 

 


RESUMO

Descreve-se pela primeira vez uma cêpa amazônica de Plasmodium falciparum resistente ao Fansidar (pirimetamina mais sulfadoxina) e quinino mais tetraciclina simultaneamente. O paciente, com 13 anos de idade, residia há cinco anos em Ariquemes, Estado de Rondônia, na Amazônia brasileira. A infecção foi curada com dose elevada de cloroquina administrada em dose única intravenosa (IV). É evidenciado o alto valor da cloroquina na cura da malária falciparum resistente, quando administrada em doses maiores que as usadas nos esquemas convencionais de tratamento.

Unitermos: Plasmodium falciparum. Malaria, tratamento.


ABSTRACT

For the first time an Amazonian strain of Plasmodium falciparum resistant to FansidarR (pyrimethamine + sulfadoxine) and quinine + tetracycline, taken sequentially is described. This case involves a female patient 13 years old, living for five years in Ariquemes County, State of Rondônia, in the Brazilian Amazon. The infection was cured with a single high dose of chloroquine administered intravenously. The authors point out the high valor of chloroquine in treating falciparum-resistant malaria, especially when given in higher doses than the standard one used for malaria therapy.

Uniterms: Plasmodium falciparum. Malaria, treatment.


 

 

INTRODUÇÃO

O desenvolvimento de resistência do Plasmodium falciparum às drogas antimaláricas clássicas é muito bem conhecido na literatura 14,19. Com o aparecimento de cepas de Plasmodium falciparum resistentes à cloroquina em 196011, 12 e a rápida dispersão de cepas resistentes nas áreas malarígenas da Ásia2, 4, Américas 8, 15 e África10, a pesquisa para o encontro de novas drogas antimaláricas foi substancialmente intensificada. Em 1976, a Organização Mundial da Saúde9 recomendou o FansidarR como a droga de eleição para a profilaxia e terapêutica das cepas de Plasmodium falciparum resistentes à cloroquina. Desde então essa combinação de droga foi e está sendo usada em larga escala nas regiões malarígenas, onde alguns casos de resistência já têm sido descritos3,6,18, bem como a resistência à quinina que foi descrita há muito tempo 13. Entretanto, não se encontrou na literatura nenhuma referência à resistência dos parasitas da malária às tetraciclinas.

Neste trabalho é descrito um caso de malária Plasmodium falciparum resistente in vivo ao FansidarR e ao quinino mais tetraciclina onde a infecção foi curada utilizando doses elevadas de cloroquina por via intravenosa (IV) num curto período de tempo.

Descrição do caso

O paciente feminino RSR, originalmente de uma área não malarígena, 13 anos de idade, vivia no município de Ariquemes há cinco anos. Esta foi a décima infecção malárica que o paciente experimentou durante os cinco anos de residência nesse município. A penúltima infecção ocorreu há 87 dias antes desta e foi causada por Plasmodium falciparum. O paciente tem feito uso constante de preventivo usando cloroquina (sic).

No dia 8/fev./1982 o paciente foi diagnosticado como sendo portador de infecção malárica por Plasmodium falciparum apresentando 3.400 parasitas/ml de sangue, sendo tratada a infecção no mesmo dia com 20 mg/kg/peso de sulfadoxina e 1 mg/kg/peso de pirimetamina em associação (FansidarR), via oral, em dose única. No quarto dia de tratamento houve o desaparecimento do parasita no sangue periférico (Tabela). No sexto dia de infecção administrou-se 45 mg de primaquina via oral em dose única. No nono dia do início do tratamento houve reaparecimento da parasitemia periférica (1.400 parasitas/ml de sangue). Nessa ocasião foi administrado quinino 30 mg/kg/dia distribuídos em três doses orais e mantidos por dois dias consecutivos. Ao mesmo tempo iniciou-se a administração de tetraciclina com 30 mg/kg/dia, via oral, em 4 doses diárias, por 7 dias. Três dias após a administração deste esquema terapêutico nenhum parasita assexuado foi observado no sangue periférico (Tabela). No oitavo dia, após administração do quinino e tetraciclina, houve o reaparecimento dos parasitas na circulação periférica (Tabela). O paciente foi hospitalizado e recebeu administração de cloroquina com 15 mg/kg/peso dissolvida em 200 ml de solução fisiológica e administrado IV no período de 60 min. No terceiro dia deste tratamento não se encontrou parasitas assexuados na hemoscopia (Tabela). O sangue periférico deste paciente foi examinado para hematozoários por 30 dias consecutivos a partir do terceiro dia deste tratamento e não se evidenciou formas assexuadas do parasita.

 

DISCUSSÃO

A malária é ainda uma das enfermidades mais prevalentes no mundo atual, afetando aproximadamente 200 milhões de indivíduos localizados nas regiões tropicais e sub-tropicais dos países em desenvolvimento20. Na ausência de uma vacina efetiva contra a malária, a quimioprofilaxia e a quimioterapia são atualmente as únicas armas capazes de controlar e combater os parasitas da malária. Assim sendo, o desenvolvimento de cepas de Plasmodium falciparum resistentes às drogas é um grande obstáculo ao combate e controle desta protozoose.

Desde 1961 tem-se conhecimento da existência de cepas de Plasmodium falciparum resistentes às cloroquinas na Amazônia brasileira 17, o que, posteriormente, tem sido confirmado por outros pesquisadores 5, 7, 8, 15. A existência de cepas de Plasmodium falciparum resistentes à pirimetamina e sulfadoxina também tem sido descritas no Brasil 1, 6. Todavia, não há referências da existência de cepas amazônicas de Plasmodium falciparum resistentes à quinina e tetraciclina.

Torna-se bastante difícil se caracterizar uma cepa de Plasmodium falciparum resistente in vivo a uma droga numa área endêmica de malária com um alto nível de transmissibilidade, como o que ocorre em Ariquemes. Neste caso, as características descritas anteriormente sugerem que a referida cepa seja resistente às drogas mencionadas. Um aspecto importante é o fato de que o paciente recebeu primaquina no sexto dia de infecção (Tabela), o que provavelmente impediu o ciclo hepático de uma nova inoculação de esporozoitos, que por ventura tenha ocorrido nos dias subseqüentes ao primeiro tratamento. Além disso, é descrito na literatura que o ciclo exoeritrocítico dos plasmódios é interrompido pela ação de derivados de tetraciclina16. Como este paciente fez uso de tetraciclina por sete dias consecutivos, durante o segundo esquema terapêutico (Tabela), seria pouco provável um ciclo hepático completo por inoculação de novos esporozoitos. Toda medicação foi administrada sob supervisão médica direta. Assim sendo, estes dados sugerem a possibilidade de que esta cepa seja realmente resistente.

Baseando-se na história clínica pregressa do paciente, não foi feito inicialmente o esquema clássico de cloroquina devido à informação de ter sido feito regularmente, a profilaxia com cloroquina, supondo-se, desta maneira, que a cepa já estava resistente à cloroquina. Não deve ser esquecido, no entanto, que existe a possibilidade, embora remota, de que esta cepa de Plasmodium falciparum fosse suscetível à cloroquina mesmo em doses normais, no caso das informações do paciente e de seus familiares estarem incorretas.

Maior atenção deve ser dada à cloroquina pelo pessoal engajado em saúde pública, assim como pelos médicos envolvidos em tratamento de malária. Apesar de existir cepas de plasmódios resistentes a esta droga, o uso de doses acima das convencionais poderá ser de grande valor nos casos de Plasmodium faciparum resistentes às várias drogas. Além disso, a cloroquina é de baixo custo e uma das menos tóxicas entre as drogas antimaláricas.

 

AGRADECIMENTOS

Ao José Marinho Correa e Elcy Israel dos Santos do INPA e José Romildo Marques da SUCAM, pela assistência técnica.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. ALMEIDA NETTO, J.C. de; OLIVEIRA, G.S.C. de & SAMPAIO, J.A.A. Resistência do Plasmodium falciparum à associação sulfamídicos-antifolínicos na região Centro-Oeste do Brasil; dados referentes ao estudo de 104 casos. Rev. Patol. trop., 1:385-93, 1972.        

2. CLYDE, D.F.; LAING, N. & TIN, F Resistance to chloroquine of Plasmodium falciparum from Burma. Trans. roy. Soc. trop. Med. Hyg., 66:369-70, 1972.        

3. DARLOW, B.; VRBOVA, H.; STAGE, J.; HEYHOOD, P. & AALPERS, M. Fansidar-resistant falciparum malaria in Papua New Guinea. Lancet, 2:1243, 1980.        

4. DEGOWIN, R.L. & POWELL, R.D. Drug-resistant strains of Plasmodium falciparum from Malaya. Amer. J. trop. Med. Hyg., 14:519-28, 1965.        

5. FERRARONI, J.J. & HAYES, J. Drug-resistant falciparum malaria among the Mayongong Indians in the Brazilian Amazon. Amer. J. trop. Med. Hyg., 28:909-11, 1979.        

6. FERRARONI, J. J.; HAYES, J. & SPEER, C.A. Sucessful treatment by minocycline of a chloroquine and fansidar (pyrimethamine + sulfadoxine) - resistant case of falciparum malaria in the Brazilian Amazon. [enviado para publicação J. trop. Med. Hyg.]        

7. FERRARONI, J.J.; WAKI, S. & SUZUKI, M. Resistência do Plasmodium falciparum às cloroquinas no Estado do Amazonas detectada pelo método in vitro. Acta amazon., 7:147-8, 1977.        

8. FERRARONI, J.J.; SPEER, C.A.: HAYES, J. & SUZUKI, M. Prevalence of chloroquine-resistant falciparum malaria in the Brazilian Amazon. Amer. J. trop. Med. Hyg., 30:526-30, 1981.        

9. INFORMATION on malaria risk for international travelers. Wkly epidemiol. Rec., 51:181-200, 1976.        

10. KEAN, B.H. Chloroquine-resistant falciparum malaria from Africa. J. Amer. med. Ass., 241:395-6, 1979.        

11. MABERTI, S. Desarrollo de resistencia a la pyrimetamine, apresentación de 15 casos estudiados en Trujillo, Venezuela. Arch. venez. Med. trop., 3:239-59, 1960.        

12. MOORE, D.V. & LANIER, T.E. Observations on two Plasmodium falciparum infections with an abnormal response to chloroquine. Amer. J. trop. Med. Hyg., 10:5-9, 1961.        

13. NEIVA, A. Formação de raça do hematozoário do impaludismo resistente a quinina. Mem. Inst. Oswaldo Cruz, 2:131-40, 1910.        

14. PETERS, W. Drug resistance in malaria: a perspective. Trans. roy. Soc. trop. Med. Hyg., 63:25-40, 1969.        

15. RIECKMANN, K.H. & LOPEZ-ANTUNANO, F.J. Chloroquine resistance of Plasmodium falciparum in Brazil detected by a simple in vitro method. Bull. Wld Hlth Org., 45:157-67, 1971.        

16. RIECKMANN, K.H.; WILLERSON, W.D.; CARSON, P.E. & FRISCHER, H. Effects of tetracycline against drug-resistant falciparum malaria. Proc. Helminthol. Soc. Washington, 39(sp. issue) :339-47, 1972.        

17. RODRIGUES, D.C. Casos de malária por Plasmodium falciparum resistentes ao tratamento pela cloroquina. Arq. Hig. Saúde públ., 26:231-5, 1961.        

18. RUMANS, L.M.; DENNIS, D.T. & ATMOEDJONOS, S. Fansidar-resistant falciparum malaria in Indonesia. Lancet, 2:580-1, 1979.        

19. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Scientific Group on the Chemotherapy of Malaria and Resistance to Anti-malarials, Geneva, 1972. Report. Geneva, 1973. (Techn. Rep. Ser., 529).        

20. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Special program for research and training in tropical diseases: malaria. Geneva. 1976 (Number 76.6).        

 

 

Recebido para publicação em 19/05/1982
Aprovado para publicação em 28/06/1982
Realizado com auxílio do Projeto Malária no Estado de Rondônia.

 

 

O arquivo disponível sofreu correções conforme ERRATA publicada no Volume 16 Número 5 da revista.

Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revsp@org.usp.br