ARTIGO ORIGINAL

 

Aspectos epidemiológicos e imunitários da poliomielite em crianças menores de um ano em área da região da Grande São Paulo, Brasil

 

Some aspects of epidemiological relevance of the behavior of poliomyelitis in children of less than one year of age in an area of Greater S. Paulo, Brazil

 

 

Eliseu Alves WaldmanI; Victório BarbosaI; Mitiko FujitaII; Chang Chung Sing WaldmanIII; José Paulo Gonzaga de LacerdaII

IDo Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP – Av. Dr. Arnaldo, 715 – 01255 – São Paulo, SP, Brasil
IIDa Divisão de Biologia Médica do Instituto Adolfo Lutz – Av. Dr. Arnaldo, 355 – C1246 – São Paulo, SP, Brasil
IIIDa Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo – Av. Dr. Arnaldo, 351 – 01246 – São Paulo, SP, Brasil

 

 


RESUMO

Foram estudadas algumas características, de interesse epidemiológico, do comportamento da poliomielite na Região da Grande São Paulo, Brasil, salientando a importância da sua ocorrência em menores de um ano. Foram analisados os resultados de um inquérito sorológico, por provas de neutralização, em gestantes atendidas em Centros de Saúde de 16 Distritos Sanitários dessa Região. Com base nessas observações, foi dado destaque para determinadas condições que propiciam a infecção por poliovírus muito precoce, das crianças da área em estudo. Foi proposta a imunização, com a vacina Salk, das gestantes nos 5º e 6º meses de gravidez ou a imunização das crianças, com vacina oral trivalente tipo Sabin, em período anterior aos dois meses de idade, ou seja, em torno do terceiro dia de vida, mas sem prejuízo da aplicação, em seguida, do esquema básico de imunização preconizada pelo Calendário de Vacinação oficial em vigor. Tais medidas visam à eliminação de possível lacuna imunitária na faixa etária de menores de um ano.

Unitermos: Poliomielite. Inquéritos sorológicos. Imunização. Vigilância epidemiológica.


ABSTRACT

Some characteristics of epidemiological relevance of the behavior of poliomyelitis in some Health Districts of Greater S. Paulo were studied, special emphasis being put on its occurrence in children of less than one year of agre. Next, the results of serological investigation, performed by means of neutralization tests, on pregnant women attended by Health Centers in sixteen Health Districts of Greater S. Paulo were analysed. Based on these observations the authors draw attention to certain conditions poliovirus infection in children. The immunization of pregnant women with Salk vaccine, during the fifth and sixth months of pregnancy, or, alternatively, the immunization of children with oral trivalent Sabin-type vaccine in the period before the age of two months, possibly about the third day after birth, is proposed; without, however, any change in the normal later application of the basic immunization project recommended by the official Vaccination Calendar. Such steps would aim at the elimination of conceivable immunity lacunas in children of less than one year of age.

Uniterms: Poliomyelitis. Serologic surveys. Immunization. Epidemiologic surveillance.


 

 

INTRODUÇÃO

O "Programa Nacional de Vacinação Contra a Poliomielite", iniciado em junho de 1980, do qual o Estado de São Paulo participou, alcançou, sem dúvida, alentadores resultados na Região da Grande São Paulo, ao permitir sensível diminuição da incidência de casos dessa virose entre nós, comprovada pela ocorrência de somente 4 casos em 1981, contrastando com a média anual de aproximadamente 122 casos no período de 1975 a 1980 (Tabela 1). Porém, como cautela e também para evitar conclusões precipitadas, a partir de uma análise preliminar da situação, devemos lembrar o ocorrido em outras áreas do Mundo e justificado pelo conceito de Cox9 (1967) – enquanto o poliovírus não for eliminado, nenhuma população não confinada poderá ser considerada como protegida de exposição natural às cepas selvagens – traduzido, em termos práticos, pelo referido por Melnick e col.18 (1969) em relação ao reaparecimento de casos de poliomielite em Houston, em 1968, após cinco anos de ausência.

 

 

Assim sendo, há necessidade de que, a partir de agora, sejam desenvolvidas análises mais elaboradas para o pleno êxito da vigilância epidemiológica da poliomielite que, daqui para frente, deverá preocupar-se em caracterizar resíduos de fontes de infecção e de suscetíveis. Com tal escopo, a análise de dados oficiais e de vários autores que têm estudado o assunto na Região da Grande São Paulo 2,3,20 permite verificar que a poliomielite ainda mantém as suas características de doença da primeira infância, com alta proporção de casos já no primeiro ano de vida, aspecto esse que não se viu alterado pela sensível diminuição de sua incidência, decorrente da implementação, especialmente nos últimos sete anos, do programa de imunização com vacina Tipo Sabin (Tabelas 1 e 2).

A Região da Grande São Paulo, em virtude de sua condição de área metropolitana e importante polo de atração populacional, com alta densidade demográfica, com algumas áreas apresentando maior concentração de habitações precárias – cortiços e favelas principalmente – com uma insuficiente cobertura de saneamento básico e recebendo fluxo grande e regular de migrantes oriundos de outras Regiões do País 4,25 e da zona rural do próprio Estado, torna-se muito vulnerável à entrada constante de suscetíveis e de fontes de infecção, sobretudo de baixa idade. Esses fatores podem explicar o porquê da infecção pelo poliovírus se dar tão precocemente 2,10,20.

Além dessas características, há outras que, se cotejadas com as anteriores, permitirão adequada compreensão do comportamento da poliomielite, na faixa etária de menores de um ano, na Região da Grande São Paulo. São elas: a) Ocorrência de infecção precoce por poliovírus em crianças – desde um até 35 dias de idade – conforme trabalhos de Carvalho6, Lacerda e col.15, Corradini e col.8 e Waldman e col.33. Esse último, realizado mais recentemente, 1980, pesquisando infecção intestinal por enterovírus em 300 recém-nascidos, encontrou 4,3% deles infectado pelo poliovírus com o predomínio do tipo 1 (92,3%), resultado esse que permitiu sugerir a possível ocorrência de formas menos freqüentes de transmissão – transplacentária e infecção no canal de parto – bem como a eventual participação da mãe como fonte de infecção. b) Verificação por Hutzler e col.12 (1980), em um grupo de recém-nascidos, de que 7,4%, 20,3% e 33,2% eram constituídos, respectivamente, por triplo, duplo e monossuscetíveis; e que 49,4%, 52,9% e 63,8% das crianças estudadas apresentavam títulos de anticorpos neutralizantes inferiores a 16, respectivamente para os sorotipos 1,2 e 3 de poliovírus. Além disso, Barbosa e Stewien3 já tinham mostrado, em 1975, a existência de lacuna imunitária nos menores de um ano, especialmente entre os 3o e 9o meses de vida, em análise de inquérito sorológico realizado no município de São Paulo, c) Segundo dados oficiais, durante o período de 1975 a 1981, 1,0% e 11,8% do total de casos de poliomielite corresponderam, respectivamente, aos ocorridos em menores de 3 meses e de 6 meses (Tabela 3), o que salienta a importância que essa doença assume nas faixas etárias que precedem tanto o início (3o mês) como a conclusão (7o mês) do esquema básico do Calendário de Vacinação oficial vigente. Assim é que os coeficientes anuais por 100.000 habitantes para essas faixas etárias, nesse período de tempo, calculados por nós, mostram que, de um lado, os relativos aos menores de 3 meses, nos anos de 1976, 1978, 1979 e 1980, superaram os da população geral e, de outro lado, que esses coeficientes nos menores de 6 meses são inferiores somente aos dos menores de um ano, com exceção dos de 1976, quando suplantou inclusive a taxa apresentada por esta última faixa etária.

Esses fatos, principalmente os relativos à ocorrência de infecção precoce e à existência de uma lacuna imunitária no primeiro ano de vida (itens a e b), revestem-se – a se considerar a atual situação de controle da poliomielite na Região em estudo – de capital importância para as nossas autoridades sanitárias no que diz respeito à vigilância epidemiológica da poliomielite, principalmente no sentido de uma ação, sempre oportuna e precoce, quanto à idade a se proteger pela vacina. Fica aqui consignado este importante e atual aspecto epidemiológico a ser considerado em sua vigilância, entre nós, o qual será, posteriormente, objeto de análise nos itens correspondentes.

A existência dessa lacuna, até agora, nos conhecimentos referentes ao comportamento da poliomielite em menores de um ano, levou à elaboração do presente trabalho que pretende ainda apresentar algumas propostas com vistas ao aperfeiçoamento das medidas, até aqui aplicadas, para manutenção do controle dessa doença, já em fase de vigilância epidemiológica, na Região da Grande São Paulo. Para tanto, foi feito inquérito sorológico visando à determinação em gestantes dos níveis de imunidade para os três tipos de poliovírus.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Essa pesquisa foi levada a efeito em 393 gestantes, com a idade média de 24,5 anos e idades extremas variando de 15 a 46 anos, na Região da Grande São Paulo, durante os meses de outubro a novembro de 1980, período de tempo que se seguiu aos dois primeiros dias do "Programa Nacional de Vacinação contra a Poliomielite". Todas elas foram atendidas pelo Programa de Saúde Materna de 120 Centros de Saúde da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, perfazendo, aproximadamente, 60,0% das unidades sanitárias existentes na época nessa Região.

Tais Centros de Saúde – de três tipos, segundo sua complexidade, programas a executar e atividades desenvolvidas – pertencem a 16 Distritos Sanitários da Grande São Paulo, constituídos cada qual por um determinado número de Centros de Saúde localizados nos Distritos e Subdistritos de Paz que compõem cada um desses Distritos Sanitários: Belenzinho, Butantã, Caieiras, Guarulhos, Itapecerica da Serra, Jabaquara, Mogi das Cruzes, Nossa Senhora do Ó, Osasco, Penha de França, Santa Cecília, Santo Amaro, São Miguel Paulista, Tucuruvi, Vila Maria e Vila Mariana (Figura); foram excluídos os Distritos Sanitários de Vila Prudente, Lapa, Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, em virtude de dificuldades operacionais em se obter e transportar as amostras de sangue de gestantes para os exames específicos.

As amostras de sangue foram colhidas por pessoal treinado e habilitado na coleta de amostras para exames de rotina dos Programas de Saúde da Secretaria; no caso em particular, do de Saúde Materna. Foram efetuadas nas próprias unidades sanitárias em que as gestantes eram atendidas ou, às vezes, em outras de maior complexidade, localizadas na mesma área, em virtude da não existência de colheita de material em todas elas. Essa colheita era realizada pela manhã e, nesse mesmo período, o sangue era remetido a um dos 4 Laboratórios Regionais do Instituto "Adolfo Lutz" (IAL) que participaram dessa pesquisa (Penha, Santa Cecília, Osasco e Santo Amaro). Nesses laboratórios, a amostra era centrifugada à chegada, sendo o soro sobrenadante dividido em duas alíquotas, uma destinada aos exames sorológicos de rotina (previstos pelo Programa de Saúde Materna) e, outra, para os exames sorológicos específicos do presente inquérito. Esta última alíquota era enviada ao Serviço de Virologia do IAL, no qual imediatamente era armazenada em congelador a –20°C até a data da realização das provas de neutralização.

Provas de neutralização

As provas de neutralização foram realizadas segundo a microtécnica descrita por Rosenbaum e col.28. As estirpes de referência dos três tipos sorológicos foram os poliovírus 1 (Brunhilde), os poliovírus 2 (Lansing) e os poliovírus 3 (Leon).

Os soros foram diluídos de 1:8 a 1:512. A dose infectante para cada tipo de poliovírus era de aproximadamente 100TcD50. A mistura soro diluído mais vírus era incubada a 37°C por duas horas em câmara contendo 5% de CO2. A suspensão de células LLC-MK-2 era então adicionada, deixando-se as microplacas em câmara contendo 5% de CO2, durante aproximadamente 72 h, à temperatura de 36°C. Após esse período, efetuava-se a primeira leitura, ao microscópio invertido, sendo a segunda realizada 24 h após. Um efeito inibidor igual ou superior a 75% do efeito citopático foi considerado como protetor, indicando a presença de anticorpos.

Para efeito de análise, consideramos como suscetíveis as gestantes com níveis séricos de anticorpos neutralizantes não detectáveis à diluição 1 :8.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A Tabela 4 permite-nos verificar que 84%, 13,0% e 3,0% das gestantes são, respectivamente, triplo, duplo e mono-imunes, o que comprova a ampla disseminação das infecções causadas pelos três tipos de poliovírus na população estudada, o que era de se supor face ao que foi relatado anteriormente.

A proporção de imunes, segundo o sorotipo de poliovírus considerado, mostrou-se mais alta para o tipo 2, seguida, sucessivamente, pelos tipos 1 e 3. Não foram detectados anticorpos neutralizantes para os sorotipos 1, 2 e 3, respectivamente em 5,6%, 4,8% e 8,9% das mulheres examinadas, sendo esta, portanto, a taxa de suscetíveis encontrada (Tabela 5). Esses resultados são semelhantes aos obtidos em população adulta de outras regiões do País, nas pesquisas realizadas por Niederman e col.22 e por Silva32, em recrutas e gestantes, respectivamente.

Conforme a Tabela 5, podemos notar ainda a alta proporção de níveis médios e baixos de títulos de anticorpos neutralizantes, concordando com referência efetuada por Melnick e col.19, segundo a qual a ampla exposição à infecção aos poliovírus não determina, em população adulta, altos níveis séricos de títulos de anticorpos contra esses agentes.

Consoante os objetivos do presente trabalho, a discussão dos resultados levarão em conta o conhecimento já bem firmado de que os títulos de anticorpos neutralizantes contra os poliovírus das crianças ao nascer são iguais ou ligeiramente inferiores aos das respectivas mães 7,17.

Conforme vimos na introdução, reveste-se de alta importância entre nós, na fase atual de controle e vigilância epidemiológica da poliomielite, o conhecimento e a aplicação de medidas preventivas, o mais precocemente possível, em relação a idade da população em que a mesma ocorre. Para que isso seja possível é preciso entender quais os fatores determinantes da infecção, além dos anteriormente vistos, que a torna de ocorrência mui precoce.

Para atingirmos tal objetivo e alcançarmos melhor compreensão do problema a que nos propusemos estudar, quatro são as questões que se impõem: Quais as repercussões na imunidade das crianças, no primeiro ano de vida, da alta proporção, de níveis médios e baixos de títulos de anticorpos neutralizantes em população de grávidas? Quais os fatores determinantes da infecção por poliovírus, em crianças menores de um ano, que podem ser alterados pelas campanhas de vacinação em massa? Quais as possíveis repercussões, a médio e a longo prazo, nos níveis de imunidade da população para poliomielite, em face das campanhas de vacinação em massa? De que forma manter, por meio da vacinação de rotina, os níveis atuais de incidência da poliomielite na Região da Grande São Paulo, especialmente nas primeiras faixas etárias?

O isolamento de poliovírus entre recém-nascidos da Região da Grande São Paulo 6,8,15,33 decorre da ampla dispersão desse agente, determinada pelas condições do ambiente 3,10,20 e, também, provavelmente, em função dos baixos níveis de títulos de anticorpos maternos apresentados por essas crianças, especialmente quando inferiores a 128, como ocorreu, em nossa amostra, em 79,9%, 68,2% e 89,9% dos casos, respectivamente para os tipos 1, 2 e 3 de poliovírus (Tabela 5). Isto porque, nessas condições, segundo inúmeros autores, existe a possibilidade de multiplicação desses vírus no trato intestinal dos neonatos 5,14,16,23,34. Essas acertivas são corroboradas pela ocorrência de alguns casos de poliomielite, na Região em estudo, nos primeiros dois meses de vida (Tabelas 2 e 3), propiciada, como já salientamos, por fatores ambientais e pela ausência ou esgotamento precoce dos anticorpos maternos, fato esse já referido por Cascio e Purpura 7 e Guaschino 11, na Itália.

A ampliação da cobertura vacinal e especialmente as campanhas de vacinação em massa determinaram, como vimos anteriormente (Tabelas 1, 2 e 3), uma diminuição da incidência da poliomielite em todas as faixas etárias, em virtude do deslocamento do vírus "selvagem" pelo vacinal31 e, provavelmente, pela diminuição ou eliminação da lacuna imunitária nas crianças menores de um ano, verificada por Barbosa e Stewien3 e Hutzler e col.12, sem, contudo, alterar as condições ambientais que propiciam a infecção precoce pelos poliovírus.

Caso ocorra, realmente, uma menor circulação do poliovírus "selvagem", na Região da Grande São Paulo, em conseqüência das campanhas de vacinação em massa, provavelmente verificaremos, a médio e longo prazo, níveis séricos de anticorpos neutralizantes, em adultos, mais baixos do que os observados em gestantes, na presente pesquisa, à semelhança do que ocorre em países que já controlaram a poliomielite 19. Teremos, então, um maior número de crianças que apresentarão esgotados os anticorpos maternos em período anterior à época prevista para o início da imunização (3.o mês), segundo o Calendário de Vacinação oficial, em vigor. Acresça-se, ainda, um possível aumento na freqüência de retardos no início do esquema básico de vacinação, caso venha a confirmar-se o esperado arrefecimento da vacinação de rotina, pela ênfase conferida às campanhas de vacinação em massa. Esses dois fatores favorecerão o provável reaparecimento ou mesmo ampliação da lacuna imunitária no primeiro ano de vida, assinalada por Barbosa e Stewien 3 e por Hutzler e col.12, tornando possível a ocorrência de surtos epidêmicos semelhantes ao descrito por Melnick e col.18, em Houston, em 1968.

Conforme o conceito de Martins da Silva e col.17 – a diminuição de anticorpos maternos é uniforme, não variando com o tipo de poliovírus, e está em função dos níveis apresentados pela criança ao nascer – a citada lacuna imunitária, portanto, poderia ter seus efeitos atenuados, ao menos parcialmente, se os níveis de anticorpos ao nascer fossem significativamente maiores que os encontrados em algumas pesquisas realizadas na Região da Grande São Paulo 12,21. Martins da Silva e col.17 relatam, por exemplo, crianças que apresentavam ao nascer níveis de títulos de 1.024 e permaneciam exibindo esses anticorpos maternos em quantias mensuráveis por 9 a 12 meses.

Portanto, ainda que inegáveis os excelentes resultados alcançados, na Região da Grande São Paulo, pelas campanhas de vacinação cm massa contra a poliomielite, iniciadas em 1980, consideramos oportuna a discussão de esquemas alternativos de vacinação de rotina que possam vir a substituir, a médio prazo, as vacinações em massa, garantindo, contudo, os níveis atuais de incidência dessa doença na região em questão. Com tal objetivo e levando em conta os dados apresentados e discutidos, consideramos conveniente o reestudo das sugestões já apresentadas, por alguns autores 1,11,17,20,21,29 que veremos a seguir, visando ao estabelecimento de imunidade contra a poliomielite, no primeiro semestre de vida.

Existem basicamente duas propostas. A primeira, defendida, entre outros, por Martins da Silva e col.17 e Guaschino11, refere-se à introdução da imunização com vacina tipo Salk em gestantes, como forma de aumentar precoce e significativamente a imunidade dos recém-nascidos e, assim, ampliar o período de proteção conferida. A outra, propugnada por diversos pesquisadores e especialmente voltada para os países "em desenvolvimento", nos quais a infecção pelo poliovírus já ocorre precocemente, consiste na introdução da vacinação com vírus vivo atenuado em recém-nascidos, em torno do terceiro dia de vida, se possível antes da alta do berçário 1,20,21,29.

A primeira dessas proposições implica discussões e avaliações de ordem estritamente administrativas, já que não parece haver óbices de ordem técnica. A segunda, no entanto, é, sem dúvida, polêmica, merecendo considerações mais aprofundadas dos pontos de vista administrativo e técnico. O aspecto administrativo é a nosso ver, o menos problemático, uma vez que existem dados referentes ao final da década de 1960 sugerindo que aproximadamente 85% dos partos efetuados no município de São Paulo se fizeram em unidades hospitalares27, o que, operacionalmente, torna, até certo ponto, viável aquela proposta. No entanto, várias são as facetas, sob o ângulo técnico, que merecem minucioso estudo, antes de uma decisão, salientando-se entre as mais importantes, a interferência dos anticorpos maternos, da ingestão do leite materno e de líquido amniótico, a acentuada acidez gástrica logo após o nascimento e, finalmente, a ocorrência ou não de fenômeno de tolerância imunológica29.

Muitos autores concordam que recém-nascidos com baixos níveis de anticorpos maternos apresentam boa resposta sorológica à vacinação 5,16,23,24. Lepow e col.16 referem conversão sorológica em 83,0% dos recém-nascidos com títulos menores do que 128, Campillo-Sainz e col.5 adotando níveis de títulos, ao nascer, inferiores a 64, apresentam resultados semelhantes em 90% das crianças vacinadas e, finalmente, Pagano e col.23 mostraram que 80,0% dos recém-nascidos, que apresentavam títulos inferiores a 256, responderam adequadamente à vacinação.

A interferência de anticorpos neutralizantes, existentes no leite materno, tem sua intensidade aumentada quando seus títulos séricos são iguais ou superiores a 128; salienta-se, ainda, que Potkin e col.26, em estudo realizado em Uganda, em 68 recém-nascidos, ao dosarem anticorpos neutralizantes no colostro e no sangue das crianças, nas 24 h que se seguiram ao nascimento, verificaram que em 67% dos casos, no colostro, os títulos apresentavam-se sensivelmente superiores aos do sangue, tendendo eles, entretanto, a se equipararem no terceiro dia. É de se ressaltar, por outro lado, que Katz e Plotkin 13, apesar de concordarem com a interferência do leite materno na resposta imunitária do recém-nascido à vacina com vírus atenuado, anuem, entretanto, em deixar de considerar este fato, em determinadas condições, desde que fiquem asseguradas as vacinações subseqüentes.

A interferência da ingestão do líquido amniótico, em relação ao aspecto em questão, somente adquire importância na vigência de altos títulos de anticorpos circulantes na mãe; isto, porque sua concentração, nesse líquido, geralmente é muito inferior a do sangue, deixando, assim, de se constituir em óbice à vacinação de recém-nascidos no terceiro dia de vida 29.

Em relação à acidez gástrica, admite-se que, mesmo alcançando um pH baixo nas primeiras 24 h após o parto, não parece influenciar a multiplicação do poliovírus vacinal no intestino, desde que a vacina seja administrada em altas doses29.

Finalmente, não existem, ao que tudo indica, indícios de ocorrência do fenômeno de tolerância imunológica nas crianças vacinadas nos primeiros dias após o nascimento 30.

Em vista do que foi exposto, parece-nos lícito sugerir como rotina de um Programa de Saúde Materno-Infantil dos Centros de Saúde da Região da Grande São Paulo, a imunização com vacina tipo Salk nos 5o e 6o meses de gestação e com vacina Sabin no 3o dia de vida em recém-nascidos cujas mães não tivessem recebido a Salk, mantendo-se, em seguida, o esquema de imunização básica com a vacina oral Sabin aos 2, 4 e 6 meses de vida. Esta medida poderá, em termos práticos e, sobretudo num programa de vigilância epidemiológica e controle da poliomielite, como é o caso da Região em tela, evitar que crianças no primeiro semestre de vida se constituam em resíduos de fontes de infecção e de suscetíveis e que gestantes, por sua vez, em resíduos de suscetíveis. Esta medida constituirá, a médio prazo, um esquema alternativo de imunização, quando da suspensão, pelas autoridades sanitárias, das campanhas de vacinação em massa contra a poliomielite.

 

CONCLUSÕES

1. Ainda é mui precoce, na Região da Grande São Paulo, a ocorrência dos casos de poliomielite, sendo de grande magnitude no primeiro ano de vida, atingindo em proporção considerável, inclusive, as crianças menores de seis meses.

2. A distribuição etária dos casos de poliomielite, nessa Região, não foi alterada pela implementação da imunização da população infantil com vacina tipo Sabin, ainda que, em decorrência dessa medida, tenhamos observado, nos últimos sete anos, uma significativa diminuição na incidência dessa doença.

3. Há, ao que tudo indica, na Região da Grande São Paulo, ampla proporção de níveis médios e baixos de títulos de anticorpos neutralizantes em gestantes, condicionando a alta vulnerabilidade das crianças à infecção por poliovírus, desde o seu nascimento até os dois meses de idade.

4. Para o adequado, atual e oportuno desenvolvimento da vigilância epidemiológica da poliomielite, na Região da Grande São Paulo, objetivando a manutenção e o aperfeiçoamento do já conseguido controle dessa virose, torna-se necessária a implementação de medidas profiláticas convenientes que considerem, em especial, a existência de condições que propiciam a ocorrência, já nos primeiros meses de vida, de infecções por esses agentes.

5. Há, ao que parece, a necessidade de se indicar a imunização de gestantes, com a finalidade de sua proteção e, principalmente, para determinar a elevação dos anticorpos neutralizantes maternos que serão transmitidos, passiva e naturalmente, para os recém-nascidos, bem como, quando isso não for possível, vacinar as crianças recém-nascidas, antes dos dois meses de idade e o mais precocemente possível.

6. Recomenda-se a aplicação de vacina tipo Salk nos 5.o e 6.o meses de gravidez ou de vacina oral tipo Sabin nos recém-nascidos, em torno do 3.o dia de vida, seguido do esquema básico de vacinação antipoliomielítica aos 2, 4 e 6 meses de vida. Esta medida deverá proporcionar, se aplicada na Região da Grande São Paulo, adequada imunidade às crianças menores de um ano, constituindo à médio prazo, um esquema alternativo de imunização, quando da suspensão, pelas nossas autoridades sanitárias, das campanhas de vacinação em massa contra a poliomielite.

 

AGRADECIMENTOS

Às biólogas Ana Maria Solange do Val Ramos, Ruth Nogueira Cordeiro, Maria Alice Dias Pacheco, Christina Leopoldo e Silva e Maria do Carmo S. Tavares, do Instituto Adolfo Lutz, e à Dra. Maria Inês Baptistela, epidemiologista da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, pela contribuição que prestaram à elaboração deste trabalho.

 

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Recebido para publicação em 30/07/1982
Aprovado para publicação em 20/09/1982

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