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Anemia e desnutrição maternas e sua relação com o peso ao nascer

 

Maternal anemia and undernowrishment and their relation to birth - weight

 

 

Odalis T.Sinisterra RodriguezI; Sophia Cornbluth SzarfarcII; Maria Helena d'Aquino BenicioII

IMinistério da Saúde, Panamá
IIDepartamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo - São Paulo, SP - Brasil

 

 


RESUMO

Com o objetivo de avaliar a influência da anemia e desnutrição materna sobre o peso ao nascer, estudou-se uma amostra de 691 gestantes atendidas em maternidade exclusivamente assistencial do Município de São Paulo, SP (Brasil). Encontrou-se, no final da gestação, 29,2% de gestantes anêmicas e 17,2% de desnutridas, não tendo sido verificada associação entre essas duas deficiências nutricionais. O papel favorável do serviço de assistência pré-natal no controle do estado nutricional da mulher não foi verificado, tendo sido observado que a anemia e desnutrição não estão associadas à assistência pré-natal. A incidência de baixo peso ao nascer (BPN) entre filhos de parturientes desnutridas foi 23,6%, valor significativamente diferente (p<0,005) do encontrado entre mulheres não desnutridas no final da gestação - 10,8%. Comparando mulheres que iniciaram o processo gravídico desnutridas e que não se recuperaram com aquelas que se recuperaram, verifica-se risco relativo 2,8 vezes maior de conceptos com BPN entre as primeiras. Os resultados encontrados permitem ressaltar a necessidade de implementação nos programas de atendimento à gestante, de atividades relacionadas ao controle do estado nutricional da mulher.

Descritores: Anemia, epidemiologia. Estado nutricional. Peso ao nascer. Cuidados pré-natal.


ABSTRACT

With a view to evaluating the effect of anemia and maternal undernourishment on birth weight, a sample of 691 pregnant women, from an assistential maternity hospital, in S.Paulo, Brazil, were studied at delivery. Anemia was found in 29.1 % and undernourishment in 17.2% of the women, though no association was detected between these nutritional deficiences. Neither was any association detected between institutional ante-natal care and anemia or undernourishment. Among single newborns the incidence of low birth weight (LBW) was of 12.9%. LBW was observed in 23.6% of children born to women who came to the end of their pregnancy with a low weight for height ratios while among adequate weight for height women the percentage was 10.8. Children of women who remained undernourished throughout their pregnancy had a relative risk of being born with LBW 2.8 times grater than the children of those who recovered normal weight by the end of their pregnancy. Our results emphasize the need for implementation of nutritional status control activities in programs of ante-natal care.

Keywords: Anemia, epidemiology. Nutritional status. Birth weight. Prenatal care


 

 

Introdução

Entre os fatores que interferem na qualidade da gravidez e, conseqüentemente, no peso ao nascer, destacam-se as deficiências nutricionais.

A anemia é uma das deficiências nutricionais de maior importância durante a gestação, quer pela elevada prevalência com que ocorre, quer pelos efeitos adversos a ela associados2,7,11,14,16. Embora não conclusiva, a sua relação com o peso ao nascer tem sido verificada em diversos estudos. Harrison e Ibeziako5, em um estudo prospectivo, excluindo mulheres com complicações maternas e fetais e controlando a idade gestacional, observaram que os recém-nascidos de mães que tiveram anemia no transcurso e no final da gestação apresentaram médias inferiores de peso ao nascer. Mitchell e Lerner9, analisando dados retrospectivos de 1.080 gestantes americanas de classe média, encontraram forte relação entre níveis de hemoglobina materna e peso ao nascer.

A relação entre a desnutrição protéica-energética e o peso ao nascer vêm sendo avaliados desde meados do século1,19. Rosso13, a partir de uma revisão de estudos observacionais, destaca que na espécie humana a linha de abastecimento fetal é infuenciada por diferentes mecanismos que dependem da disponibilidade de nutrientes. Se a ingestão dietética for insuficiente e se os estoques de nutrientes da mãe estiverem baixos, o feto precisará recorrer às reservas pré-concepcionais para se suprir, ocasionando comprometimento do binômio materno-fetal. De forma geral, a diminuição na ingestão de nutrientes pode provocar alterações nos mecanismos maternos de adaptação à gravidez e desacelerar o transporte de nutrientes.

Não obstante a anemia e desnutrição estarem bem caracterizadas como fatores isolados de risco de eventos indesejáveis na gestação e, como tal, estarem inseridas nos programas de atendimento à gestante, pouco se sabe sobre o peso ao nascer e menos ainda sobre a eficácia do pré-natal no controle dessas variáveis. O presente trabalho foi realizado com vistas a estudar essas relações.

 

Metodologia

A população de estudo foi composta por 691 gestantes assistidas na sala de parto do Hospital Maternidade "Leonor Mendes de Barros" (HMLMB), Município de São Paulo, cujo produto de gestação foi nascido vivo. Foram excluídos os partos gemelares.

As variáveis estudadas foram: na gestante - concentração de hemoglobina, peso e altura no final da gestação, peso pré-gestacional, freqüência a serviços de pré-natal; no recém-nascido - peso ao nascer.

O diagnóstico da anemia foi feito pela medida da concentração de hemoglobina (Hb). O sangue venoso utilizado para a dosagem foi o colhido na sala de pré-parto, em tubo contendo o anti-coagulante EDTA. O nível crítico utilizado foi o proposto pela Organização Mundial da Saúde-OMS10, que classifica como anêmicas, gestantes com concentração de hemoglobina inferior a 11,0g/dl. O diagnóstico desnutrição utilizou padrões elaborados por Siqueira e col.17 que considera a relação peso/altura associada à idade gestacional.

Para análise dos dados foram utilizados o teste de associação quiquadrado (x2) e a medida do risco relativo (RR) que expressa a intensidade da associação6. O nível de significância adotado foi alfa = 5% (quiquadrado crítico = 3,84).

 

Resultados e Comentários

As mulheres que utilizavam os serviços obstétricos oferecidos pelo HMLMB, entidade de caráter exclusivamente assistencial, são, na maior proporção, aquelas sobre quem recaem condições ambientais adversas e pequena disponibilidade financeira e de recursos médico-assistenciais. Cerca da metade delas (54%) são solteiras e, dentre o grupo, 81,3% não completou o primeiro grau escolar (antigo primário e ginásio).

A maior parte da população estudada (88%) matriculou-se em serviços de assistência pré-natal (Tabela 1), embora metade delas não o tenha freqüentado com a concentração mínima recomendada de 5 consultas6. Os serviços de pré-natal procurados foram exclusivamente aqueles oferecidos pela Rede de Serviços de Saúde. Vale a pena ressaltar que este percentual de matrículas ao pré-natal é bem mais elevado que os 38% referidos na mesma instituição, em 197220.

 

 

Embora tenha sido implementado o atendimento pré-natal para a população de gestantes que constitui a clientela do HMLMB, a incidência de baixo peso ao nascer (BPN) e de peso inadequado ao nascer (PIN), mantiveram-se semelhantes às observadas em 1972 (Tabela 2).

 

 

Mesmo assim, conforme o esperado, foi verificada associação estatisticamente significante (x2 = 5,29) entre assistência pré-natal e peso ao nascer. A incidência de baixo peso entre filhos de mulheres que não freqüentaram o pré-natal (menos de 5 consultas) foi aproximadamente o dobro da observada entre o grupo com pré-natal (RR = 1,87).

O efeito positivo da assistência pré-natal, no entanto, não foi encontrado em relação à prevalência de anemia e de desnutrição, entre as parturientes (Tabela 3).

 

 

A independência entre as variáveis apresentadas na Tabela 3 destaca a necessidade de incentivar, dentro do Programa de Atendimento à Gestante (PAG)15 atividades referentes ao controle e/ou prevenção de deficiências nutricionais.

A exemplo do referido em outros estudos epidemiológicos2,4,8,12 foi constatada a efetividade da suplementação em ferro no controle da anemia ferropriva (Tabela 4).

 

 

De acordo com o PAG15, as gestantes devem ingerir, diariamente, a partir do 2o trimestre de gravidez, 60mg de ferro. Os serviços de pré-natal deveriam distribuir esse suplemento na forma de comprimidos de sulfato ferroso. Chama a atenção, no entanto, o fato de que 35% das mulheres que freqüentaram adequadamente o pré-natal não receberam o suplemento.

Assim, se por um lado fica patente que a freqüência ao serviço de pré-natal não é garantia do recebimento e ingestão do sal de ferro, por outro lado, fica justificada a não existência de associação entre anemia e freqüência a serviços de pré-natal.

Ressalta-se na Tabela 5 a ausência de associação entre anemia e desnutrição maternas. Este fato sugere que o consumo energético apropriado não assegura a adequação do consumo de nutrientes específicos, com destaque para o ferro. Embora ausente na população estudada, a relação anemia e desnutrição é inerente ao recém-nascido uma vez que a concentração de ferro dessa criança é proporcional ao seu peso (75mgFe/kg de peso)7.

 

 

Estudando o papel das deficiências nutricionais como fatores determinantes do baixo peso em recém-nascidos, verificou-se a não associação entre anemia e peso ao nascer. Essa associação não ocorreu mesmo diferenciando o recém-nascido de baixo peso (prematuro e a termo) e/ou apenas os casos de anemia severa. No entanto, foi observada associação, estatisticamente significante, entre desnutrição no final do período gravídico e baixo peso ao nascer (Tabela 6).

 

 

Diferentemente do que se observou para anemia, a proporção de crianças com peso ao nascer inferior a 2.500g foi cerca de dez vezes superior entre prematuros quando comparados aos recém-nascidos a termo.

O risco de BPN modifica-se em função do tipo de evolução do estado nutricional durante a gestação (Tabela 7).

 

 

 

A importância de atenção pré-natal no controle da desnutrição durante a gestação, fica evidenciada com os dados apresentados na Tabela 7.

Comparando, entre si, diferentes evoluções do estado nutricinal na gestação (Tabela 8), verifica-se que, se a desnutrição estiver corrigida no final do processo, o risco de baixo peso ao nascer diminui, tornando-se semelhante ao das mulheres que mantiveram normalidade de peso durante o decorrer de toda a gestação.

 

 

A influência do peso materno no final da gravidez sobre o peso ao nascer também havia sido observada por Siqueira18 que assinalou ser o peso no final da gravidez um indicador importante do risco de peso inadequado. Também Barros e col.3, verificaram que o peso no final da gravidez é a variável que mais se relaciona com o peso do concepto.

 

Conclusões

O estudo da situação nutricional da gestante no que se refere à anemia e à desnutrição e sua relação com o peso ao nascer, em maternidade exclusivamente assistencial, permitiu as seguintes conclusões:

— A prevalência de anemia no final da gravidez foi de 29,2% e a de desnutrição, 17,2%;

— Não foram observadas associações entre anemia e desnutrição e entre essas deficiências nutricionais e freqüência a serviços de atenção pré-natal. Verificou-se que a freqüência regular ao serviço de assistência pré-natal não é garantia de recebimento de suplemento de ferro. Entre as gestantes beneficiadas com esse suplemento, a prevalência de anemia foi estatisticamente menor do que entre as outras;

— Não foi encontrada associação entre anemia e baixo peso ao nascer;

— Foi observada associação estatisticamente significante entre desnutrição e baixo peso ao nascer, sendo que o risco relativo de baixo peso ao nascer entre filhos de parturientes desnutridas é, praticamente, o dobro do apresentado por filhos de não desnutridas. A recuperação da gestante desnutrida iguala o seu risco de conceptos de baixo peso ao de mulheres normais.

Destaca-se a necessidade de implementar nos serviços de assistência pré-natal atividades relacionadas ao controle da desnutrição e da anemia, com vistas a melhorar a qualidade do processo gravídico e, especialmente, diminuir o risco de baixo peso ao nascer do concepto.

 

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Recebido para publicação em 7/12/1989
Reapresentado em 8/3/1991
Aprovado para publicação em 14/3/1991

 

Separatas/Reprints: S.C. Szarfarc - Av. Dr. Arnaldo, 715 - 01255 - São Paulo, SP - Brasil.

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